quarta-feira, 21 de janeiro de 2009

Uma pergunta existencial presente no Salmo 8 - IV

4. Análise de alguns elementos do Salmo
a)
Deus:
É o protagonista de todas as ações. Abre e fecha o salmo. O salmo não é um hino ao ser humano, mas um hino a Deus através do ser humano. No salmo aparecem verbos bem fortes que mostram a ação de Deus: fundou, fixou, recorda, cuida, fez, coroou, deu o poder, colocou. Todos os verbos têm o ser humano como objeto e exprimem uma relação muito pessoal de Deus com o ser humano. As coisas Deus fez. O ser humano Deus recorda e cuida.
Aqui vemos mais uma resposta à pergunta: “O que é o ser humano?” O valor da resposta e o valor do ser humano está no fato de ser amado de um modo muito especial por Deus: Quem ama cuida! Deus cuida do ser humano pessoalmente.
O salmo, numa graduação encadeada observa passo a passo os momentos em que se faz a ação de Deus: Deus se recorda do ser humano e o visita, desta visita surge um ser quase divino, com jeito de glória e esplendor de quem o criou, o coloca no domínio de todo o criado, o ser humano pode dispor de tudo, dos seres grandes e pequenos, em todo tempo pode dispor dos seres vivos que estão na terra, no céu e no mar. Deus mesmo dá a resposta ao que é o ser humano: um co-criador, o vice-rei de toda a terra.
b) Ser humano? O que é o ser humano? O salmista se encontra sob o céu estrelado contemplando a imensidão do criado. A grandeza do cosmos faz com que pergunte pelo seu eu. A sós com o céu vê a si mesmo. E como se vê? Se vê como coisa pequena. É um nada. Porém este nada é tudo porque está na intimidade de Deus.
"Se a contemplação do mundo provoca um grito de admiração, a visão do homem provoca uma pergunta desconcertante. Esta pergunta é essencial dentro do salmo, é a chave do salmo, isto é, constitui o específico deste salmo a respeito do Louvor ao Senhor que é dividido com tantos outros”(3).
O que é o ser humano? O ser humano é este grande interrogativo que está presente na terra, esta curva que retorna sempre a si mesma, perguntando-se. É o único animal que sabe e não de si mesmo. É um ser que se interroga sem nunca chegar a uma resposta definitiva (4)
É toda a humanidade e cada ser humano que está representado nesta pergunta. Na contemplação religiosa de todo o ser criado surge o olhar transcendente. Não é um ver o imediato visível que aparece, mas é um ver a profundidade das coisas. É uma pergunta metafísica que não se acontecerá com uma resposta pronta, acabada.
Religião e poesia dão-se as mãos neste salmo. O autor lê a resposta a Deus e a si mesmo no criado. É um poema divino onde o ser humano é uma letra, e, portanto, pequeno, porém é uma letra importante, e por isso mesmo se torna grande. A grandeza do ser humano está no fato que com todo o ser criado ele deve desaparecer para deixar Deus transparecer. É um ato de fé no ser humano. O autor crê no ser humano. O ser humano é para ele a obra mais perfeita e a mais audaz revelação de Deus.
Não é um canto ao ser humano, mas o ser humano é um sinal sensível e testemunhante da glória de Deus: a sua função é ser o sacerdote entre Deus e o mundo.
c) Recordar: Escolhemos este verbo como um elemento importante na análise deste salmo. Em hebraico: “Zakar”. Indica algo mais real do que o nosso simples lembrar. Não é uma mera lembrança. Mas é a ação eficaz de Deus que dá à vida, à existência, que dá ao homem a capacidade de ser a sua imagem, senhor e dono da criação. O homem deve estar constantemente na recordação do Senhor de seu coração.Em português este verbo é muito rico. Ele é formado por três palavras: RE – COR – DAR: prefixo grego que significa trazer de volta, de novo, novamente. DAR: o verbo. Fornecer, entregar gratuitamente. COR: do latim cor, cordis = coração. Temos três línguas representadas no significado forte da palavra: o grego, latim português. Ajuntando os significados teremos uma definição completa da palavra: RECORDAR: trazer novamente de volta ao coração. Dar novamente ao coração.
O ser humano consegue encontrar-se melhor quando não esquece da recor-dação constante de Deus. O ser humano é enquanto é sintonia com o divino.
d) Antropomorfismo: Analisemos alguns antropomorfirmos presentes neste salmo:
- Boca: “Pela boca das criaturas e dos pequeninos”(v.3). O exercício do louvor se faz pela boca, com a boca. É um órgão concreto da linguagem, da fala. A experiência precisa ser dita. A fala é importante na concreção de uma experiência. A fala distingue o homem dos outros seres criados, ele pode manifestar a sua experiência com palavras. A criança descobre o mundo do dia-a-dia pela boca. Põe tudo na boca. Dá nome, experimenta, saboreia, diz. A boca é um modo de ver e sentir. É aceitar com simplicidade a beleza natural e original de tudo. O que é o ser humano? É aquele que pode saborear a experiência. Não é apenas uma sucessão de reflexos, mas é algo vital, que vai às entranhas.
- Crianças: O ser mais harmonioso que existe. Não contaminado ainda pelas experiências negativas. O puro aberto do natural. Uma descoberta serena da alegria de viver. Ser homem é nunca deixar de ser criança. O comportamento infantil ajuda o ser humano a enfrentar o mundo sem agressividade. O que é o ser humano? Aquele que deve viver numa serenidade existencial assim como estão, nesta serenidade, todos os seres.
- Mãos: “Quando contemplo os céus obra de teus dedos (Mãos). V.4. Aqui temos uma imagem belíssima do caráter artesanal da criação. Deus não fez o mundo de qualquer modo, não o fabricou em série, mas teve o cuidado especial com cada coisa. Um cuidado de artesão. Não é simplesmente um ato de inteligência, uma sabedoria levada à técnica, à teoria, nem é uma ação mágica distante... mas é um trabalho artesanal. Um trabalho de artista. O artista é aquele que pega a estrutura e põe nela a sua profundidade. Trabalho de artesão é paciente, detalhado, delicado, terno, é um fazer e re-fazer, um re-passar, um modelar formas perfeitas. O que é o ser humano? Assim como todas as obras da criação é um ser tecido e modelado pelos cuidados de um Deus.Estas visões plásticas e corpóreas são uma constante nos salmos e nos ajudam compreender a ação de Deus e a interpretação do homem.

Continuaremos amanhã com a conclusão

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