quarta-feira, 30 de maio de 2018

REFLEXÕES SOBRE A DIMENSÃO POLÍTICA DO FRANCISCANISMO – 16


A encarnação não é uma simples devoção ao presépio


Viram este Deus no dinamismo da criação, viram este Deus nos que estavam pisoteados e expulsos para fora das muralhas da cidade, viram este Deus chegando naqueles que mostraram que o Reino de Deus era viver em obediência, sem nada de próprio e na pureza de coração. Estes penitentes não tinham nada de acúmulo para si; renunciaram a ordem elitista de seu tempo para viverem a Ordem dos Menores. Por serem itinerantes conseguiram ver Deus fora dos espaços do templo e perceberam os sinais de Deus nas pessoas, na natureza, nas cidades, onde estava a palpável história do dia a dia medieval. O fato é que a experiência de Deus os envolveu não só a partir da dimensão mística, mas também no afeto, no coração, na situação dos pobres, no mundo dos movimentos penitenciais, na eclesiologia de então, com um espírito de comunhão com tudo e com todos. Saíram do poder de reis e rainhas e abraçaram o Reino. O Evangelho os fez éticos e encarnados na vida de modo total. Abraçar Jesus Cristo é historizá-lo. Sem dúvida fizeram muita Adoração ao Santíssimo, mas passearam pelas vilas, praças, campos e cidades mostrando que a natureza divina se uniu a natureza humana para transformar.

A mística primitiva franciscana abraça a encarnação porque a encarnação é a identificação de Deus com a existência humana e isto construiu uma história. A encarnação não é uma simples devoção ao presépio, mas é visualizar e fazer uma imersão na paisagem humana redimida por Deus que enviou o Messias Peregrino a suscitar sonhos e esperanças e foi curando as dores do mundo. Como este Deus entrou na vida das vilas e foi curar o cego, o coxo, o paralítico, o leproso, os endemoniados, pecadores e esteve sempre ao lado dos pobres. Não abraçou títulos e nem aparências. Fez sua prática no serviço, no perdão, no cuidado pela vida, na imensa sensibilidade para com os mais fracos, teve mulheres entre seus discípulos e apóstolos, deu atenção para crianças, pescadores, pastores e agricultores, de cuja vida aprendeu e recontou em parábolas. Foi uma pregação que arrastou multidões mas incomodou os poderes do tempo. A tal ponto que o Senado de então o condenou por isto. Olhem os textos do julgamento de Jesus, são os maiores e mais detalhados textos do Evangelho. Toda condenação de quem faz o bem é muito explorada. Sua morte foi uma morte política. Pois os poderosos da época não suportaram a sua prática de libertação. Os frades primitivos refizeram este caminho, porque o Evangelho ou tem o mesmo efeito da atuação de Jesus ou não vai servir para mudar o mundo.

FREI VITORIO MAZZUCO

CONTINUA...

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