sexta-feira, 14 de junho de 2013

Francisco de Assis, modelo referencial do humano - VII

“Estas coisas em casa. Mas, rezando nas florestas e nos lugares solitários, enchia os bosques de gemidos, banhava os lugares de lágrimas, batia com a mão no peito e aí, encontrando como que um esconderijo mais oculto, conversava com palavras com seu Senhor. Aí respondia ao Juiz, suplicava ao Pai, conversava com o Amigo, divertia-se com o Esposo. Na verdade, para tornar todas as medulas do coração um holocausto múltiplo, propunha de maneira múltipla diante dos olhos Aquele que é Sumamente Simples. Muitas vezes, com os lábios imóveis, ruminava interiormente e, arrastando para o interior as realidades exteriores, elevava o espírito às superiores. Assim, totalmente transformado não só em orante, mas em oração, dirigia toda a atenção e todo afeto a uma única coisa que pedia ao Senhor. De quanta suavidade crês que ele estava repleto nestas coisas? Ele o soube, eu, pelo contrário, apenas admiro. Ao que faz a experiência é dado conhecer, aos que não experimentam não se concede. Deste modo, fervendo intensamente  no fervor do espírito, e todo o aspecto exterior e toda a alma completamente derretida, já morava na suprema pátria do Reino Celeste”.

Francisco sabia perfeitamente que “O Pai habita em luz inacessível, e é Espírito, e ninguém jamais o viu”.  Deus é um ser misterioso e transcendente e assim se apresenta na experiência de Francisco. Como homem místico ele é assinalado com a experiência fortíssima do Deus Mistério, e a utiliza, assim chamada mística da teologia negativa, para dar uma primeira categorização da transcendência divina: Deus é inenarrável, inefável, incompreensível, ininvestigável, imitável, invisível. É um Deus fora de qualquer conceito, incompreensível no plano da introspecção intelectual.

O que o encanta em Deus é o modo como Ele se dá em sua infinita generosidade. Em Deus, Francisco vê o Pobre de todos os pobres porque faz esparramar a sua bondade sobre todas as coisas. Em Deus ele encontra o primeiro fundamento de sua vida de pobreza e serviço. Francisco nos ensina que servir é algo divino porque o próprio Deus é o grande Servo do universo. Na bondade de Deus, Francisco aprende a ser um servo bom, um obediente servo que admira a grandeza de seu Senhor. A bondade vem da obediência e da fidelidade. Servo que não é bom não dá conta. Ser servo não é só ter a intensão de servir, tem que servir bem e na inspiração da bondade do Senhor. O jeito da vassalagem medieval não se justifica pela intenção, mas pelo trabalho de ser bom e leal. Francisco nos evoca que, um raio apenas do Irmão Sol, mostra a bondade de Deus em nos servir.

Em suas preces a relação com o Senhor é intensa, a sua oração se alimenta da real presença de Deus e não de sentimentalismo. A real presença de Deus traz-lhe vestígios que devem ser imitados. Para Francisco, Deus, ao se manifestar, não se revela como majestade, força, doador supremo, enfim como ser supremo; mas sim como Servo cheio de benignidade, bondade, gratuidade, graça, serviço. Deus é o Servo de toda humana criatura e de todos os seres. “Meu Deus e meu Tudo!”, assim exclama, admira, contempla, repete noite adentro, horas inteiras, invoca... adensa a sua experiência em saborear a presença palpável do Sagrado.

Continua

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