terça-feira, 11 de junho de 2013

Francisco de Assis, modelo referencial do humano - VI

Francisco não criou uma escola teológica, mas sua teologia é uma descoberta feita na prática dos divinos mistérios que acompanham o seu itinerário. A sua mística é mergulhar no Deus Altíssimo. Do Beato Egídio, companheiro de São Francisco e grande contemplativo, temos a afirmação de uma profundidade e atualidade extraordinária: “O homem faz de Deus uma imagem segundo a sua compreensão, mas Deus é sempre tal e qual”.  A partir deste Dito de Frei Egídio, podemos dizer da singularidade de São Fran cisco e sua experiência de Deus: ele deixa Deus ser Deus. O Santo de Assis é, sobretudo, conhecido como o amante da Senhora Dama Pobreza, como o cantor das belezas criadas, como o homem evangélico por excelência, como o verdadeiro frade menor, mas nos seus Escritos e nas Fontes Franciscanas ele é apresentado como o “Servo de Deus”;  e entre os seus primeiros biógrafos encontram-se numerosas afirmações que centralizam a experiência primária de Francisco como experiência de Deus.

Francisco transferiu a sua relação com Deus a um plano de concretude  transparente e intensamente vivida. Hoje, ele ainda é qualificado como o “Peregrino do Absoluto”. Vejamos as evidências da mística de Francisco nestes relatos de seu biógrafo Tomás de Celano: “Francisco, o homem de Deus, corporalmente distante do Senhor, lutava para manter o espírito presente no céu; e, já feito concidadão  dos anjos, somente a parede  da carne o separava. Toda a sua alma tinha sede de seu Cristo, ele lhe dedicava não só todo o coração, mas também todo o corpo. Relatamos umas poucas maravilhas das suas orações a serem imitadas pelos pósteros, o quanto vimos com nossos olhos, conforme é possível transmitir a ouvidos humanos.

Fazia de todo o tempo um ócio santo para gravar a sabedoria no coração, para parecer que não fracassava, caso não progredisse. Se por acaso as visitas dos seculares ou quaisquer negócios o surpreendiam, interrompendo-o antes de terminar, ele voltava novamente às realidades interiores. Na verdade, o mundo era insípido para quem se alimentava da doçura celeste, e as delícias divinas o fizeram delicado para as grosserias dos homens. Para não estar sem cela, fazia do manto uma pequena cela. Muitas vezes, faltando-lhe o manto, para não revelar o maná escondido, cobria o rosto com a manga. Sempre interpunha algo aos presentes, para que não conhecessem o toque do esposo, de modo que inserido entre muitos no estreito espaço de um navio, rezava sem ser visto. Finalmente, não podendo nada destas coisas, fazia do peito um templo. O esquecimento de si e a absorção em Deus fizeram desaparecer tosses e gemidos, respirações duras e gestos externos”.

Continua  

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