sexta-feira, 17 de maio de 2013

Francisco de Assis, modelo referencial do humano - I






















Na efervescência da crise da modernidade ou pós-modernidade em que vivemos, na mudança de época e de paradigmas, estonteados como a pluralidade cultural e religiosa, na dependência das novas mídias, na fragmentação das relações, na aceleração dos processos, nas múltiplas necessidades instauradas pelo mercado, livres no pensamento, mas presos num consumo escravizante, aqui estamos nós no novo patamar civilizatório. Na esperança de que a política volte a ser o arranjo existencial para o bem comum e não tráfico de influências; de que escolas moldem um humano forte e não subjetividades fracas; de que as religiões desçam da sedução hierárquica das fortes estruturas e voltem a revelar a mais pura mística e o inspirador sopro do Espírito, aqui estamos nós gritando que precisamos ser olhados com prioridade em nosso ser pessoa, em nossa mais nítida identidade.

Na diversidade de pensamentos, no conhecimento interdisciplinar, no pensar a existência de um modo holocentrado, de ações articuladas na rapidez da comunicação, da globalização que traz o mundo para os quintais e conviver com os problemas que antes estavam distantes, e que, hoje, acotovelam-se na calçada de nossa casa; deste jeito cansado de dormir anônimo e acordar célebre sonhando o bem-estar que vem  do econômico, do social, do político e cultural, ou talvez da mega-sena que pagará nossas dívidas com os megaprocessos, aqui estamos nós  sobreviventes do novo século.

Não, não somos trágicos e nem cultores do pessimismo, mas amamos os desafios de bons sonhos e excelente realidade. Questionamos para crescer e sabemos que perguntas existenciais esquentam a busca. Temos um cabedal de perguntas técnicas que, cada dia, vivem em nós e mostram como isto funciona; porém, precisamos de perguntas comprometidas com o modo de ser humano para, se não tivermos respostas, que ao menos apontem caminhos de todos os porquês. Sabemos como fazer, nem sempre como Ser. Na busca de sendas precisas, com o mapa orientador na mão e na mente, queremos sair da imensidão da floresta e encontrar clareiras que apontem: é por aqui! Nas luminosas clareiras, onde paramos para tomar fôlego, como réstias indicadoras de luz, aparecem a mística, a alteridade, o feminino, o diálogo Inter-religioso e a questão ambiental, a grande síntese dos paradigmas do século XXI.  Seguir as indicações destes sentidos nos ensinará a ler, analisar, pensar, perceber e se comprometer com o que se passa ao nosso redor e no mundo. É um conjunto de setas que nos apontam a direção neste momento histórico atual. Não podemos caminhar sozinhos, precisamos olhar os modelos vivos, os modelos referenciais de ontem e de hoje; e, por isso, vamos sentar aos pés das testemunhas da humanidade, do século XII ao século XX, e escutá-las. Testemunhas são parâmetros para elevar o nível da nossa existência e convocar ao seguimento e imitação. Quem tem modelos de referência, tem futuro. Nosso tempo tem professores demais e poucos mestres. Professores trazem conhecimento e ensinamento, os mestres trazem a compreensão da vida.

Vamos ouvir, ver e reler as testemunhas de ontem, humanos plenos e, por isso, sempre atuais, para que possamos reencantar a vida, redescobrir valores, acertar o ritmo de nossos passos no caminho seguro, e assim purificar as nossas escolhas. Voltemos aos mestres! Os novos gurus cobram, os mestres estão na gratuidade da partilha. Hoje, nós, que pagamos para ouvir e escutar, vamos ouvir mais a terapêutica transparência das testemunhas. São nossos exemplos os arquétipos, o resgate dos valores neste  nosso atual processo civilizatório. Nós, que gritamos e lutamos pelo que estamos perdendo: espaços e espécies, da falência dos biomas à falência do caráter, que salvamos orquídeas, capivaras e ararinha azul, mico-leão dourado e prédios decadentes, devemos perguntar: e o verdadeiro humano? Será que não é uma espécie em extinção?

Em meio a isso tudo, renasce sempre a figura frágil e forte, santa e simpática, medieval e moderna, despojada e atraente, heroica e holística, poética e mística, aglutinadora e provocadora, a sempre presente e profética vida de São Francisco de Assis. É sobre ele que discorre esta despretensiosa reflexão.

Continua.

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