segunda-feira, 29 de agosto de 2011

ESPIRITUALIDADE PARA UMA VIDA VIRTUOSA – 4


Não precisamos desesperar se não conseguirmos chegar de imediato à virtuosidade, isto é, a um conjunto ideal de virtudes. Basta viver uma virtude para vivermos todas. É preciso estar numa virtude, e, através dela ouvir e abraçar todas as outras. O dom é natural; a virtude é conquistada. A virtude é sempre o dom de uma conquista, de um lançar-se, de uma disciplina determinada. As virtudes nos fortalecem. Enfraquecemos quando não temos o vigor de buscar o melhor. Não podemos nivelar a nossa vida por baixo. Não podemos viver na mediocridade. Betinho, o grande profeta da cidadania, o nosso eterno Hebert de Souza, dizia pouco antes da sua morte: “Se aprendi algo com os cristãos, é que a vida cristã não é para medíocres”.

O tema de hoje é a Virtuosidade. Mas o que é a Virtuosidade? É aprender a ser; é criar uma personalidade moral; é ter bases sólidas para formular um juízo de valor. A virtuosidade ajuda a construir uma identidade honesta e leal que leva a uma conduta fundamentada em valores. A virtuosidade dá força ao indivíduo e brilho a sua singularidade.

A virtuosidade encarnada nas pessoas transborda e energiza o social. Individualidades fortes criam grupos humanos fortes; indivíduos criam uma moral social. A virtuosidade nos leva a perguntar: Qual o critério fundamental da nossa vida? Qual é o fundamento do nosso existir? Não estamos prontos ainda. Existe ainda uma verdade, uma virtude não conquistada e não realizada. A virtuosidade é a fome e a sede de ser. É a tecitura onde vamos moldando a vida e o vigor de existir que nos leva a ser mais humanos. É dinamismo de uma conquista diária; um impulso de amor que faz viver numa determinada direção.

A legenda medieval franciscana, conhecida como o Anônimo Perusino, no Capítulo 6,27, diz: “E assim se esforçavam por contrapor aos vícios cada uma das virtudes”. Cada virtude combate vigorosamente os vícios. É a força moral diante das forças contrárias. Como diz São Francisco de Assis, nas suas Admoestações 27, cujo título é “A virtude que afugenta o vício”:

“Onde há caridade e sabedoria, aí não há temor nem ignorância. Onde há paciência e humildade, aí não há nem ira nem perturbação. Onde há pobreza com alegria, aí não há ganância nem avareza. Onde há quietude e meditação, aí não há preocupação nem divagação. Onde há o temor do Senhor para guardar seus átrios, aí o inimigo não tem lugar para entrar. Onde há misericórdia e discernimento, aí não há nem superfluidade nem rigidez”.

Voltemos mais uma vez à pergunta: O que é a Virtuosidade? É caminho em busca da identidade humana; ter um ideal humanista na construção da qualidade. É a maneira de dominar a quantidade em favor da qualidade. É criar uma personalidade espiritual e social; é construir uma estética de sensibilidade, leveza, delicadeza, gentileza nas atitudes e relações. O que faz alguém feliz? É o seu modo de proceder em consonância com as virtudes abraçadas. Ser feliz e realizado é uma necessidade moral. É a liberdade de agir a partir do princípio do melhor. Quem age a partir do princípio do melhor é eticamente bom.

É preciso semear virtudes na horta da virtuosidade para colher os melhores frutos do humano bom; e através da detalhada semente, buscar a semente da inteireza. Temos que trabalhar com a semente inteira que somos; assim ela pode crescer frondosa, buscar as alturas, revelar-se na aridez do mundo do antivalor. Uma vez que abraçamos a virtuosidade como caminho para buscar a riqueza interior, não há nada comparável no mundo exterior. “Se você negar a semente, como aplaudir a árvore?” A pessoa humana é uma semente que pode ser uma grande árvore. Ela tem que desabrochar divinamente. Pelos caminhos da virtuosidade, cada ser humano pode ser sagrado. Não podemos sufocar a semente; temos que dar a ela a oportuna chance e cuidado para o crescimento. Ser semente é já ser uma força! Como diz um provérbio árabe: “Ser semente já é o gosto de ser árvore!”

sexta-feira, 26 de agosto de 2011

ESPIRITUALIDADE PARA UMA VIDA VIRTUOSA – 3


A pessoa humana vale não pelo que acumula de material, mas pelos princípios, valores e virtudes que possui, que cultiva e que deixa transparecer em sua vivência e práticas. A finalidade desta nossa reflexão, neste nosso percurso é despertar para a constante motivação em alcançar o desenvolvimento espiritual e humano; elevar a uma reta compreensão, uma reta aspiração, a um reto falar e o reto agir. A retidão é colocar novamente o humano em pé; torná-lo forte, convicto; espécie muito diferenciada; reencantar o “homo erectus”, aquele que não rasteja, não decai, e não perde a sua vitalidade. A pessoa virtuosa vive a reconstrução diária da sua vida e, por isso, a sua alma virtuosa está acima de tudo.


Como dizíamos na introdução desta reflexão, é preciso buscar uma original qualidade pessoal (ética), despertar cada momento a força divina que adormece em nós (espiritualidade) e viver uma transformação (a evolução do humano). Esta é a função da Virtuosidade: acordar, provocar, fazer crescer na busca incansável do bem. É transmitir vida intensamente! Gosto demais da fala do Mestre Hindu, Bhagwan Shree Rajneesh, quando diz: “Se você coloca uma rosa num aposento... aquele aposento nunca mais será o mesmo; porque a rosa tem a sua aura, o perfume, o seu vigor próprio, a forte presença”. Assim também é a permanência da pessoa virtuosa. A pessoa virtuosa é uma presença qualificada e especial; ela é uma resposta de que é possível o humano , ao buscar virtudes que elevam a sua vida, subir para o patamar mais elevado da sua existência, tornando mais potente a sua energia e mais intenso o seu brilho e o ensinamento que pode oferecer. A virtuosidade faz a pessoa florescer por dentro, e a sua beleza interior salta para fora mudando pessoas e o ambiente.

Quando você encontra e vive a virtude, ela aparece em todos os escritos, em todos os exemplos, em todos os ensinamentos e em todas as pessoas que marcam sua história. Quando você se mede com as virtudes, percebe que nem sempre esteve no melhor caminho; porém não existe virtude que não se reerga sem que tivesse havido um extravio, uma perambulação, um perder-se. É no perder-se que se dá uma forte experiência do encontro. O prefácio pascal tem seu brado: “Feliz culpa que mereceu um Salvador!” A busca virtuosa traz a beleza do reencontro com a experiência do melhor. Tudo é belo! As experiências são bem-vindas. Até o pecado tem a sua expressividade porque dá profundeza para voltar às trilhas da santidade. Grandes santos e santas sempre se julgaram grandes pecadores. Nos seus limites, buscaram a sabedoria do caminho virtuoso e tornaram-se mestres da pureza original e da beleza única. Não se detiveram na culpa, mas fizeram dela trampolim para um grande salto, o salto qualitativo, o mergulho no esvaziamento de si, para deixar que o Divino tomasse conta do ser. Não criaram barreiras para a qualidade da vida entrar no mais íntimo e saísse pelos poros onde suaram as boas obras. Para que a luz das virtudes e o conjunto delas, que cria a virtuosidade , se derrame no ser, é preciso exercício, esforço, persistência, busca incansável da constante atenção aos valores maiores. É a ascese de quem quer se superar. É a disciplina focada em moldar o melhor do humano. Este esforço traz um profundo conhecimento, e este modo de conhecer traz um modo de ser. A virtuosidade se encarna em pessoas reais. O humano é um espírito que se fez carne, como a Carne do Verbo que se fez carne na carne do humano. Por isso, só podemos conhecer verdades encarnadas, virtudes encarnadas em alguém. Há no ser humano uma representação concreta do Divino que trouxe para ele uma proposta de boa nova, de mudança das estruturas, da beleza do “Eu sou!”

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quinta-feira, 25 de agosto de 2011

ESPIRITUALIDADE PARA UMA VIDA VIRTUOSA - 2

Espiritualidade é respirar o Evangelho. A Boa Nova é plena de preceitos e conselhos. Os Conselhos Evangélicos. O caminho da perfeição cristã se liga a estes conselhos. A Perfeição é essencialmente observar de um modo ( per-feito) os preceitos (especialmente o Amor, Fé, Esperança, Caridade, Pobreza, Obediência e Pureza de Coração), que são a síntese para todos os outros conselhos que brotam do Evangelho. A perfeição é superar obstáculos que se oponham ao seu exercício. O Anônimo Perusino, uma legenda medieval franciscana, diz em seu capítulo 6, “que é preciso opor aos vícios, virtudes”.


Espiritualidade aqui em nosso encontro é o exercício de aprofundar a Vida Espiritual como uma ciência espiritual. O Espírito tende ao aperfeiçoamento. Deus não se basta, está sempre dando um acabamento íntimo a todo Ser Criado. Quando alguém é verdadeiro, é plasmado de Amor e se torna necessariamente uma central de energia. A Espiritualidade  é esta força que deve brotar e transmitir luz. O mundo inteiro se iluminou da Presença de Deus em Francisco de Assis. Deve se iluminar também a partir da nossa vida. Espiritualidade é caminho de Iluminação!

Como dizíamos, Espiritualidade é Caminho. Cada experiência é um passo. Na vida espiritual tudo começa por um passo. É a mística de Santiago de Compostela. É busca. Cada experiência de buscar Deus é uma peregrinação à Casa do Pai e poder dizer um dia: “Finalmente cheguei!” Esta não é uma viagem feita com as pernas, mas sim com o coração. O que falta na formação espiritual é trabalhar bem o afeto. Cada um se torna aquilo que ama e busca. A escolha fundamental que cada um faz é que o caracteriza. O Amor edifica sempre. Depois que Francisco descobre que o Amor não é amado, começa a reconstruir a casa da civilização do amor. Quanto maior o Amor e a Espiritualidade, maior é a obra completa.

Neste nosso per-Curso vamos trabalhar a Espiritualidade como Palavra que é permanente presença; vamos refletir a Palavra como nítida imagem diante de nós. E que tudo isto tome forma em nosso coração. O que toma conta do nosso coração toma conta do corpo inteiro. Para a Espiritualidade, o órgão do conhecimento não é o intelecto, mas o coração. Nós somos o que colocamos no coração. Cada vez que você ama esta busca e a traz para o coração, você se torna uma Fonte.

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quarta-feira, 24 de agosto de 2011

ESPIRITUALIDADE PARA UMA VIDA VIRTUOSA - 1

O objetivo destas nossas reflexões é recuperar valores para qualificar a vida. Precisamos reencantar em nós o entusiasmo, alegria, verdade, perseverança, paciência, cuidado, minoridade e todo um conjunto de virtudes que iremos propor. Virtudes são as nossas forças interiores. O enfoque sobre as virtudes será sob o filtro da Espiritualidade.

O que é Espiritualidade? O conceito de espiritualidade tem a sua raiz na palavra “spiritus”, que quer dizer: respiração, sopro (ruah), energia vital, hálito, vida, purificação. É o movimento de inspirar, isto é, trazer para dentro (uma grande inspiração) e expirar, soltar para fora, lançar em determinada direção, projetar (uma grande prática). É vida segundo o ritmo do espírito. É viver no espírito e para o espírito. É um modo de ser, viver e fazer sob uma grande inspiração.

Espiritualidade , mística e inspiração são um Caminho e não uma doutrina. O franciscanismo, por exemplo, não é uma religião, é uma espiritualidade. É uma família que há 800 anos respira o mesmo Espírito! São Francisco descobriu que o Espiritual é mais forte que qualquer força material, e por isso se fez desapegado, desapropriado, pobre. Filho de uma época de buscas e ambição, misturou-se ao povo com sua inspiração, e o povo de sua época e em todas as épocas, aprendeu com ele a respirar e reconhecer a presença do espírito em todas as coisas.

Espiritualidade é conhecimento, experiência, vivência e prática, caminho de empenho, de todos os meios que conduzem à Via Perfectionis. Este nosso encontro aqui, chamado Curso, nos recorda exatamente isto: curso, percurso, via, estrada, senda que devemos percorrer no “per+facere”, isto é, no por fazer-se, no trabalhar-se, no moldar-se a si mesmo. A Via da Perfeição não é o pronto, o acabado, o definido, mas é a arte de esculpir um humano pleno a cada instante de nossa vida. O Papa Paulo VI dizia que “a Espiritualidade é a arte das artes”. É viver a vida com cuidados de artista, como aquele que em cada estrutura de sua existência, em cada detalhe da sua jornada, percebe e dá espaço para a profundidade.

Espiritualidade também é matéria de estudo enquanto Teologia Espiritual, ciência da fé que procura compreeender com os olhos do Espírito; que vê e conhece a vida de santos e santas, que bebe nas fontes da Sagrada Liturgia e nas Escrituras, que lê literatura de edificação, que estuda Espiritualidade como estamos fazendo neste momento.

Espiritualidade é empenho ativo, um esforço de traduzir em ato o conhecimento do sagrado. É trabalho de buscar a perfeição cristã, ou a espiritualidade presente em todas as experiências religiosas. Podemos buscar a floração magnífica dos dogmas, das doutrinas, da moral, dos ensinamentos e colher daí o melhor para a vida para traduzir numa prática.

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quinta-feira, 11 de agosto de 2011

Clara de Assis - 5: A contemplação

O jubileu de Clara de Assis, no ano de 2010, trouxe o tema da contemplação. Não é fácil para nós, pessoas de intensa vida de atividades, falarmos da experiência contemplativa. A contemplação passa longe de nosso jeito; e por isso também não é fácil falarmos da contemplação em Clara de Assis. Quando vamos ao conceito de contemplação não é difícil, basta olharmos a experiência monástica. Mas Clara escapa da prisão dos conceitos; em Clara de Assis há algo sutil e especial; ela cria condições internas e externas para a intimidade com o Esposo. Na interioridade está o silêncio e a natureza própria do lugar, o mosteiro e a natureza que a envolve (ser Esposa). Na exterioridade ela cria as melhores condições de vida fraterna ( ser Mãe e Irmã). É algo forte de amor esponsal, fraternal, filial, intensamente espiritual e afetivo. A contemplação em Clara é um estado de vida. Viver com os olhos da alma, viver com os olhos da prece, viver com olhar amoroso. A contemplação de Clara é uma presença agradecida, reconhecida, reverente, eucarística, olhos e ouvidos na Palavra, é uma  pura restituição: dar ao Senhor o que lhe pertence.

Quando lemos a vida de Clara de Assis nos toca a imediatez da sua vocação. Estar no oculto do palácio de sua família nobre, ir para a orante e fraterna comunidade dos frades na Porciúncula, recolher-se, por breve tempo, no mosteiro das Beneditinas e, finalmente, fixar-se para sempre em São Damião. Tudo isto não foi feito sem o estar bem dentro da experiência. Quem sabia viver como uma dama nobre recolhida no palácio da família, aprendia a viver oculta no mosteiro. A vida de Clara foi assim: sair do mundo, sair dos  bens materiais, amar a convivência e ajuda aos pobres e leprosos, ser serva junto com os servos da casa de sua família, descobrir a vida a partir do Evangelho, solidão fraterna como o dom de estar junto, oração contínua, trabalho para auto sustentação, uma  forma de vida religiosa como substituição radical da vida nobre e burguesa do passado, a liberdade de renunciar tudo, ser uma oferenda total cotidiana, um ágape de amor, um amor que não pode ser senão sacrifício feito com serena alegria. Assim como Francisco, Clara faz parte dos loucos de Amor, loucos por Deus. O primeiro passo desta loucura é o seu louco amor pelo Esposo pobre e crucificado. Tudo isto fez da vida de Clara uma contemplação natural. O Amado buscado no silêncio do claustro não é somente uma estrutura de vida de uma jovem e bela monja, mas é fato de Amor, é história de Amor. A contemplação em Clara é puro enamoramento, é o estar intimamente e permanentemente na recordação  de Deus como o sentimento de uma presença. A vida de Clara foi o sair para entrar. Sair não como fuga, mas entrar no coração do Amado. É como diz um verso de Mário Quintana: “ Amar é a alma mudar de casa”.

A contemplação em Clara é o seu diálogo pessoal, íntimo e profundo da jovem bela de Assis  com o Deus glorioso e crucificado; o mistério de comunhão entre a mulher que se consagra e faz desta consagração um encontro pessoal. Contemplar é ver o Amor face a face. O Amado está além de tudo o que existe, mas está em tudo o que existe, é preciso descobri-lo ali. Vê-lo em tudo porque ele está em tudo. É conhecê-lo a partir do filtro do Amor. Quem ama conhece, fala, ora, sente o coração purificado e agraciado. Quem ama é sensível, é profundamente humano. A contemplação em Clara é uma leve prática ascética de cuidar, orar, fazer e conviver. Se tem que fazer, faz por inteira, faz com o coração. Direciona a sua paixão para sublimar a sua capacidade de amar. A contemplação em Clara é ser Pobre, isto é, esvaziar-se de si mesma e oferecer o seu eu. Sair do mundo e entrar na casa do Amado.
A contemplação em Clara faz parte do fenômeno místico que surgiu com força da experiência emergente das mulheres nos séculos XII e XIII. Um modo próprio de viver a fé sem a mediação do clero e de uma teologia rigorosamente intelectual que bebia na fonte da escolástica. Para o tempo experimentar Deus era uma experiência possível através do conhecimento teológico; para as mulheres da época que entraram nos mosteiros, experimentar Deus era abraçá-lo através de uma vida e linguagem de amor. Matilde de Magdeburgo, uma mística medieval, chamava  esta experiência de  “Senhoras do Amor”, a emanação feminina que  enlaça um diálogo de amor com Deus. É a mística nupcial, ou o esponsalício místico.  Deus é encontrado na sua humanidade e na sua divindade: Menino, Esposo, Homem da dor e do sofrimento, misericordioso, bondoso, materno e paterno,  Rei e  Príncipe. É um amor que leva à união mística. Entrar no mosteiro é entrar na casa do Amado, na alma do Amado, como um lugar privilegiado da transcendência.  Assim fizeram Juliana de Norwich, Gertrudes de Helfta, Margarida Porete, Humiliana de Cerchi, Benvenuta  Bojani, Matilde de Magdeburgo, Margarida de Cortona, Hildegarde  de Bingen, assim o fez  Clara de Assis.  Estas mulheres viveram a contemplação como uma nova teologia da ternura e refizeram o Cântico dos Cânticos.

Deus não é  distante e rigorosamente austero como apresentava a cultura monástica de então, mas sim uma Mãe amorosa, um Pai bondoso, um Esposo que faz o coração vibrar de Amor,  refúgio, consolação, benevolência e encantamento. De um modo simples e sensível, Clara faz de São Damião o seu lugar contemplativo: espaço, tempo e eternidade. Um lugar de parar e ao mesmo tempo de fazer um caminho espiritual, esta é a dinâmica da vida contemplativa. São Damião é o templo da intimidade, sacrário do Espírito do Senhor, santuário, lugar para  habitar espiritualmente. Contemplar é ter o domínio das horas na constante recordação de que tudo é sagrado, porque o amor que está n coração diviniza o tempo. É uma privacidade que não é  passividade. É um desejo que não é  reprimido , mas  intensamente acolhido. Uma vida que não é  estagnação, mas processo amoroso que unifica o ser.

Tomás de Celano escreve  em sua Vita I, 20: “ De tal modo as Damas Pobres adquiriram o dom da contemplação que  nela aprendem o que se deve fazer e o que se deve evitar; conseguem, com extrema facilidade, manter-se na presença de Deus e permanecem constantes, dia e noite, no louvor divino e nas orações” Contemplar é aprender o que se deve fazer e evitar sob o filtro da prece. É discernir sempre a partir do melhor.

Clara de Assis escreve à  Inês de Praga: “ Caríssima, alegra-te sempre no Senhor e não permitas que te envolva nenhuma névoa de amargura, ó senhora amadíssima em Cristo, alegria dos anjos e coroa das irmãs. Aplica tua mente ao espelho da eternidade, põe tua alma no esplendor da glória, coloca teu coração na figura  da divina substância e transforma-te, inteiramente, pela contemplação, na imagem da divindade, para  que também tu possas experimentar o que experimentam os amigos quando saboreiam a doçura escondida que o mesmo Deus reservou desde o princípio para aqueles que o amam” ( II Carta a Inês de Praga ).

Contemplação em Clara é alegria, realização, mente focada no Amor, coração tomado pela substância divina, transformação, doçura saboreada, e  tudo isto e muito mais sem deixar, um instante sequer, decair. É enlevo, êxtase, prática e presença. Que Santa Clara de Assis nos ensine a contemplar!

quarta-feira, 10 de agosto de 2011

Reflexões em torno do Sagrado Feminino - 6

Sou um garimpeiro de palavras e ideias. Procuro gemas preciosas para burilá-las e expô-las ao mundo com beleza irradiante. Há quem admire e contemple, há quem não consiga ver a beleza escondida nas pedras. Escrevo sobre o Feminino como aquele que busca o tesouro escondido no campo. Há quem conteste e diga que o autor tem a sua dose de ingenuidade; há quem rompa comigo crendo que avancei para um pensamento esotérico fora do comum considerado normal; há quem concorde e discorde, há quem diga que a  ideia do Feminino contida nestes textos é romântica, irreal e sem os pés no chão. Gosto destas contestações; sem questionamentos como crescer na busca?

Como não escrever sobre o Feminino se Hesíodo e Homero já o fizeram na antiguidade, e desde então, muitos escritores recriaram suas palavras sobre mulheres e deusas, elaborando um arquétipo sempre presente, do Olimpo ao Parnaso, do Éden ao Panteon! Escritores clássicos, medievais, modernos e pós modernos elaboram ensaios, decifram mitos, percebem modelos vivos para revelar a origem da nossa existência, bem antes do que chamamos de história?
Como não escrever sobre o Feminino se ainda é gritante a mítica  presença de Palas Atenea, Pandora, Eva, Gea, Selene, Gaia, Maria e todas as Mães? Da mitologia grega e romana, da teologia das religiões e da filosofia acadêmica e vivencial dos pensadores, seres, entidades e divindades se misturam para mostrar a identidade do humano na incansável procura da compreensão e perene inquietação: Quem somos nós?
Como não escrever sobre o Feminino se a vida é sempre polaridade, é sempre a ciência da integração e interrelação de opostos: Éden e Hades, sol e lua, frio e calor, noite e dia, úmido e seco, yang e yin, luz e trevas, macro e micro, Adão e Eva, masculino e feminino? Como não escrever sobre o Feminino  partindo do princípio cristão que Deus não quis ser Pai de si mesmo e se fez Mãe em sua Mãe, escolhida  e fecundada pela sombra do Altíssimo? A força divina cria à sua imagem e semelhança e faz-se carne  na obra-prima da criação. O que é gerado no escuro do mistério e no florescer do paraíso, é dado à luz. Tudo feito na paciente espera do amor, um novenário de meses no ventre escondido da mulher, germinando uma semente divina, de onde sairá uma nova luz divina. A criança que nasce desta gestação é Deus mesmo no colo da gente, na alegria dos olhos, na tecitura dos carinhos. Ventre de mulher é como Arca da Aliança: parir e guardar para a humanidade desejos, sonhos, o melhor do Amor, os caminhos da inspiração, a vontade bem trabalhada e forte, os segredos do próprio Deus, a veneração, a adoração e a prece.  O milagre da reprodução vem da força divina com a parceria de pai e mãe.
Como não escrever sobre o Feminino se franciscanamente falando, o Irmão Sol e a Irmã Lua se eternizam num encontro? É o mito de Selene, a Deusa Lua que visita todas as noites acariciando com seus raios de luz que brotam do infinito, que brotam do Ab Solus, isto é, sob o Sol, o Absoluto. Deixa-se penetrar pela Luz Maior e a traz com esplendor nas noites de cada um. Na transparência do Sol, a Lua é sempre luz em todo anoitecer de nossa vida. Se quisermos compreender a psiqué humana temos que perceber a influência desta Irmandade em nossa vida; é o fluxo das marés determinando a correnteza na força do oceano. Os que leram os mitos viajaram para longe, porque sabem que os mitos nos oferecem mais do que um relato, nos dão um método de vida, um caminho, elucidam as origens e afirmam que não existe origem que não seja sagrada. O Sol é de extrema potência, mas perpetua-se na feminina figura da Lua. Gosto demais das palavras de José Ramon Molinero em sua obra “As Deusas Mães de nossa Humanidade”, quando diz que a Lua é a Deusa das águas. Ela rege todos os líquidos e todos os elementos que brotam do líquido: saliva, suor, água, fleuma, urina, sêmen. A Lua permite que sejam férteis tudo o que a água toca. E a partir deste pensamento de Molinero devemos  lembrar que nadamos meses na bolsa de água  do útero materno. Viemos à luz ao romper-se a água. São os mistérios da vida que brotaram do recolhimento do ventre.
Como não escrever sobre o Feminino onipresente em toda Poesia, em toda Arte, em toda Dança? O grande Mestre Leonardo Boff diz que a terra é um organismo vivente, uma dança cósmica, um movimento do Espírito. A poesia é a melodia falada, ritmicamente escrita. A dança é o celebrativo do movimento originário de tudo, a dinâmica de todo ser vivente. A música é a linguagem que  dispensa as palavras; a dança reúne passos, sons e palavras coreografadas. Deus fala, canta e dança em todas as suas obras. Como não dizer que os primeiros versos entraram em nossa vida nas cantigas de ninar sopradas em nossos ouvidos pelo canto de mãe? Como não dizer que a nossa primeira dança foi o embalo para dormir? Como não descrever que o primeiro quadro pintado com a pose de nossa presença não veio do amor materno que sempre foi movimento e energia, vibração incansável da força criadora? Há dança no ar, no vento, nas nuvens , nas névoas, nas folhas, no sopro que cria a música, na vassoura da mãe limpando a casa. É a flauta de Vishnu, o verso de Tagore, a fala do riso de homens e mulheres, a festa das crianças. Há dança na água, na terra, nos ramos e em toda matéria para nos recordar que o corpo de todas as coisas se mexe. Alguém viu mãe parada, estagnada, fonte ressequida? Como não escrever sobre isso que enche de poesia, movimento, fogo e calor, luz e energia as palavras e a vida?
No ventre de nossa mãe entramos no ritmo do mesmo sopro; beijados pelo Amor nascemos; a grandeza de sermos criados  é que fomos paridos. O nosso parto foi uma oferenda à vida, o nosso primeiro choro uma melodia, os nossos primeiros passos engatinhados uma dança. Assim viemos! Não existe realidade mais virginal. O dogma religioso fala da Virgindade da Mãe de Deus, a essência natural do fruto, a reprodução espiritual da vida, a sacramentalidade de ter mãe, ser filho, ser pessoa além do fisiológico. O Mestre hindu  Bhagwan Shree Rajneesh diz que a virgindade é a essência natural do amor e por isto não pode ser destruída. Toda criança nasce de uma virgem.
Uso uma frase da Legenda  dos Três Companheiros, um belo relato franciscano medieval,  diz em sua carta introdutória: “Escrevemos estas coisas como quem num ameno prado colhe flores, a nosso ver as mais belas”.  Escrevo estas coisas como no passo devocional de ir a um templo e colocar flores aos pés da santa. Deposito perfume e beleza aos pés do que acredito. Nem preciso perdoar os que me acham louco ou ingênuo ao escrever sobre o Sagrado Feminino; em nenhum momento eles causaram em mim qualquer  espécie de mágoa ou ofensa, mas propiciaram mais esta página de reflexão que fiz a partir destas grandes perguntas.
Como não escrever sobre o Feminino se tive uma grande mãe, silenciosa, discreta e sábia?  Que pouco escreveu ou falou, mas me ensinou a sentir;  e sentir é uma forma de ver, perceber e saborear a existência. Como não escrever sobre o Feminino se, mesmo na prisão de meus limites, aprendi a liberdade de ser filho?
Sagrado Feminino - arquivo 06