quarta-feira, 10 de agosto de 2011

Reflexões em torno do Sagrado Feminino - 6

Sou um garimpeiro de palavras e ideias. Procuro gemas preciosas para burilá-las e expô-las ao mundo com beleza irradiante. Há quem admire e contemple, há quem não consiga ver a beleza escondida nas pedras. Escrevo sobre o Feminino como aquele que busca o tesouro escondido no campo. Há quem conteste e diga que o autor tem a sua dose de ingenuidade; há quem rompa comigo crendo que avancei para um pensamento esotérico fora do comum considerado normal; há quem concorde e discorde, há quem diga que a  ideia do Feminino contida nestes textos é romântica, irreal e sem os pés no chão. Gosto destas contestações; sem questionamentos como crescer na busca?

Como não escrever sobre o Feminino se Hesíodo e Homero já o fizeram na antiguidade, e desde então, muitos escritores recriaram suas palavras sobre mulheres e deusas, elaborando um arquétipo sempre presente, do Olimpo ao Parnaso, do Éden ao Panteon! Escritores clássicos, medievais, modernos e pós modernos elaboram ensaios, decifram mitos, percebem modelos vivos para revelar a origem da nossa existência, bem antes do que chamamos de história?
Como não escrever sobre o Feminino se ainda é gritante a mítica  presença de Palas Atenea, Pandora, Eva, Gea, Selene, Gaia, Maria e todas as Mães? Da mitologia grega e romana, da teologia das religiões e da filosofia acadêmica e vivencial dos pensadores, seres, entidades e divindades se misturam para mostrar a identidade do humano na incansável procura da compreensão e perene inquietação: Quem somos nós?
Como não escrever sobre o Feminino se a vida é sempre polaridade, é sempre a ciência da integração e interrelação de opostos: Éden e Hades, sol e lua, frio e calor, noite e dia, úmido e seco, yang e yin, luz e trevas, macro e micro, Adão e Eva, masculino e feminino? Como não escrever sobre o Feminino  partindo do princípio cristão que Deus não quis ser Pai de si mesmo e se fez Mãe em sua Mãe, escolhida  e fecundada pela sombra do Altíssimo? A força divina cria à sua imagem e semelhança e faz-se carne  na obra-prima da criação. O que é gerado no escuro do mistério e no florescer do paraíso, é dado à luz. Tudo feito na paciente espera do amor, um novenário de meses no ventre escondido da mulher, germinando uma semente divina, de onde sairá uma nova luz divina. A criança que nasce desta gestação é Deus mesmo no colo da gente, na alegria dos olhos, na tecitura dos carinhos. Ventre de mulher é como Arca da Aliança: parir e guardar para a humanidade desejos, sonhos, o melhor do Amor, os caminhos da inspiração, a vontade bem trabalhada e forte, os segredos do próprio Deus, a veneração, a adoração e a prece.  O milagre da reprodução vem da força divina com a parceria de pai e mãe.
Como não escrever sobre o Feminino se franciscanamente falando, o Irmão Sol e a Irmã Lua se eternizam num encontro? É o mito de Selene, a Deusa Lua que visita todas as noites acariciando com seus raios de luz que brotam do infinito, que brotam do Ab Solus, isto é, sob o Sol, o Absoluto. Deixa-se penetrar pela Luz Maior e a traz com esplendor nas noites de cada um. Na transparência do Sol, a Lua é sempre luz em todo anoitecer de nossa vida. Se quisermos compreender a psiqué humana temos que perceber a influência desta Irmandade em nossa vida; é o fluxo das marés determinando a correnteza na força do oceano. Os que leram os mitos viajaram para longe, porque sabem que os mitos nos oferecem mais do que um relato, nos dão um método de vida, um caminho, elucidam as origens e afirmam que não existe origem que não seja sagrada. O Sol é de extrema potência, mas perpetua-se na feminina figura da Lua. Gosto demais das palavras de José Ramon Molinero em sua obra “As Deusas Mães de nossa Humanidade”, quando diz que a Lua é a Deusa das águas. Ela rege todos os líquidos e todos os elementos que brotam do líquido: saliva, suor, água, fleuma, urina, sêmen. A Lua permite que sejam férteis tudo o que a água toca. E a partir deste pensamento de Molinero devemos  lembrar que nadamos meses na bolsa de água  do útero materno. Viemos à luz ao romper-se a água. São os mistérios da vida que brotaram do recolhimento do ventre.
Como não escrever sobre o Feminino onipresente em toda Poesia, em toda Arte, em toda Dança? O grande Mestre Leonardo Boff diz que a terra é um organismo vivente, uma dança cósmica, um movimento do Espírito. A poesia é a melodia falada, ritmicamente escrita. A dança é o celebrativo do movimento originário de tudo, a dinâmica de todo ser vivente. A música é a linguagem que  dispensa as palavras; a dança reúne passos, sons e palavras coreografadas. Deus fala, canta e dança em todas as suas obras. Como não dizer que os primeiros versos entraram em nossa vida nas cantigas de ninar sopradas em nossos ouvidos pelo canto de mãe? Como não dizer que a nossa primeira dança foi o embalo para dormir? Como não descrever que o primeiro quadro pintado com a pose de nossa presença não veio do amor materno que sempre foi movimento e energia, vibração incansável da força criadora? Há dança no ar, no vento, nas nuvens , nas névoas, nas folhas, no sopro que cria a música, na vassoura da mãe limpando a casa. É a flauta de Vishnu, o verso de Tagore, a fala do riso de homens e mulheres, a festa das crianças. Há dança na água, na terra, nos ramos e em toda matéria para nos recordar que o corpo de todas as coisas se mexe. Alguém viu mãe parada, estagnada, fonte ressequida? Como não escrever sobre isso que enche de poesia, movimento, fogo e calor, luz e energia as palavras e a vida?
No ventre de nossa mãe entramos no ritmo do mesmo sopro; beijados pelo Amor nascemos; a grandeza de sermos criados  é que fomos paridos. O nosso parto foi uma oferenda à vida, o nosso primeiro choro uma melodia, os nossos primeiros passos engatinhados uma dança. Assim viemos! Não existe realidade mais virginal. O dogma religioso fala da Virgindade da Mãe de Deus, a essência natural do fruto, a reprodução espiritual da vida, a sacramentalidade de ter mãe, ser filho, ser pessoa além do fisiológico. O Mestre hindu  Bhagwan Shree Rajneesh diz que a virgindade é a essência natural do amor e por isto não pode ser destruída. Toda criança nasce de uma virgem.
Uso uma frase da Legenda  dos Três Companheiros, um belo relato franciscano medieval,  diz em sua carta introdutória: “Escrevemos estas coisas como quem num ameno prado colhe flores, a nosso ver as mais belas”.  Escrevo estas coisas como no passo devocional de ir a um templo e colocar flores aos pés da santa. Deposito perfume e beleza aos pés do que acredito. Nem preciso perdoar os que me acham louco ou ingênuo ao escrever sobre o Sagrado Feminino; em nenhum momento eles causaram em mim qualquer  espécie de mágoa ou ofensa, mas propiciaram mais esta página de reflexão que fiz a partir destas grandes perguntas.
Como não escrever sobre o Feminino se tive uma grande mãe, silenciosa, discreta e sábia?  Que pouco escreveu ou falou, mas me ensinou a sentir;  e sentir é uma forma de ver, perceber e saborear a existência. Como não escrever sobre o Feminino se, mesmo na prisão de meus limites, aprendi a liberdade de ser filho?
Sagrado Feminino - arquivo 06

Um comentário:

Anônimo disse...

Prezado Frei Vitório,

muito bonito o artigo. Suponho mesmo que a linguagem utilizada e as referências mitológicas causem alguma "estranheza" em nós cristãos católicos. Basta ler com os olhos voltados para Cristo e sua Virgem mãe, bem como para Santa Clara e veremos o quanto de compreensão o senhor possui. Que Deus o guarde assim.

Sua Bênção.
Denise.