segunda-feira, 28 de março de 2016

O ANO SANTO DA MISERICÓRDIA - Perspectivas Franciscanas - 8


O acontecimento do Ano Santo da Misericórdia, que interessa a todas as expressões de vitalidade da Igreja não pode deixar de não tocar de perto a alma franciscana e o seu modo de servir a vida. O Ano Santo nos convida a atuar dentro dos valores nele descobertos. São valores que estão há séculos dentro de nossa herança franciscana. Misericórdia tem muito a ver com a nossa minoridade e pobreza evangélica. A conversão interior comporta mudanças exteriores no espírito da metanoia e de mudança de lugar. A inserção cada vez mais profética na catolicidade, na doutrina, na unidade e na caridade fraterna. O ecumenismo, o diálogo inter-religioso, o testemunho e a evangelização, são temas que estão na dinâmica universal do Ano Santo e nos pilares da nossa permanente formação.

Vejamos também como São Francisco tece louvores ao Deus Misericordioso. Nos Louvores a Deus ele exclama: “Vós sois nossa vida eterna: grande e admirável Senhor, Deus onipotente, misericordioso Salvador” (LD,6). Temos também a invocação: “ Onipotente, eterno, justo e misericordioso Deus, dai-nos a nós míseros(...)” (Carta a toda Ordem,50). E no Comentário ao Pai Nosso: “E perdoai as nossas dívidas: pela vossa inefável misericórdia” (PN7).

Os louvores de Francisco ao modo misericordioso de Deus nos remetem ao jeito bíblico de mostrar a inspiração presente na tradição judaica, o Amor (hesed) e a  fidelidade (emet) que se fundem. O grande amor e fidelidade de Deus para com seu povo instaura uma relação afetiva que explode na prece. Misericórdia tem a ver com a espiritualidade que brota do faminto e do sedento: ter sede de Deus, ter fome de afetos. Isto estabelece uma reação afetiva na hora de extrema necessidade. Sentimentos e desejos que vêm das entranhas do humano gritam a Deus no momento de miséria e carência. A consciência da miséria traz à tona o grito do miserável. O afeto provocado tem que transformar-se em atos em favor do mísero. Há uma criatura que clama por socorro e isto tem que chegar ao coração compassivo de Deus. A misericórdia é a ação do coração de Deus que olha com olhos solidários, com clemência, graça, compaixão, cuidado e ternura. O mísero (miseri, do latim ) evoca o coração (cor, cordis) sem cessar. A misericórdia é um clamor contínuo, todos os dias (“dia”, através de). Linda palavra esta que revela esta experiência. Podemos transcrevê-la de modo silábico: MISERI – COR – DIA! No coração, no corpo, nas entranhas de uma Mulher, Deus assumiu o nosso limite humano (Fl 2,6-11). Assim, o amor e a fidelidade do Pai estabeleceram-se para sempre, através do Filho, sob o filtro do Espírito do Amor. Maria concebe pela força espiritual do Amor. E a Misericórdia está entre nós! Definitivamente! É o Magnificat!

Continua

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