sexta-feira, 18 de março de 2016

O ANO SANTO DA MISERICÓRDIA - Perspectivas Franciscanas - 6



Não podemos esquecer que Francisco fez sempre um caminho da conversão. Dividir generosamente o tempo, bens, esmolas, moedas, pedaços de roupas, faz parte de gestos penitenciais de eliminação de excessos. Precisa-se descobrir o que se tem demais e ir se desfazendo aos poucos. Conversão não é castigo, mas caminho de transformação através do despojamento. Passar para uma vida que leve às sendas do Evangelho não se dá sem renúncias. Os aspectos pontuais dos valores eclesiais que Paulo VI proclama ao declarar o Ano Santo de 1975 são muito parecidos com os de Francisco de Assis. Há uma correspondência entre a busca da unidade interior e exterior, a compreensão dos valores evangélicos e eclesiais; a fidelidade ao magistério, mesmo que a eclesiologia não corresponda à busca dos leigos pela vivência real da Palavra, e para ter em mãos a Sagrada Escritura. Francisco não contesta, mas se relaciona dentro da catolicidade. Ir em peregrinação traz para Francisco a força missionária e peregrina da Porciúncula (imagem acima), mais tarde abraçada por uma imensa basílica Papal.

Todo peregrino em seu processo de desapropriação e desprendimento faz um mergulho para dentro da Pobreza, que é uma resposta à vocação evangélica e consequentemente uma vocação eclesial. A peregrinação desperta para uma mais profunda comunhão com a Igreja. Isto faz com que seu Carisma vá se delineando como fraternidade, como família espiritual em comunhão com a eclesialidade. Os textos em questão mostram, de um modo muito simples, a prece, o apostolado, a essência, a identificação com uma espiritualidade que encontra inspiração e origem na Igreja Primitiva.

Numa peregrinação uma vocação pode iluminar-se. É uma visita “ad limina”, uma luz maior em meio as sombras e muitas interrogações. Um novo modo de ir e um novo modo de voltar, como vimos no relato acima mencionado da Legenda dos Três Companheiros: “Tomou suas próprias vestes, voltou a Assis pedindo devotamente ao Senhor que guiasse em seu caminho” (LTC 3,10). A peregrinação junto aos Santos Apóstolos exerce em Francisco uma missão de mediação e de purificação da sua escolha por uma vida evangélica, desprezar a glória do mundo e fazer passo a passo o caminho sublime da perfeição evangélica. Este conceito se faz presente numa narração mais tardia, a Liber de laudibus beati Francisci, de Bernardo de Brescia, que através de um conteúdo revelador, passa para a Ordem Franciscana, um amor muito particular ao modo de ser da Igreja dos Atos dos Apóstolos e da itinerância.

Continua

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