segunda-feira, 30 de dezembro de 2013

A MÍSTICA DE SÃO FRANCISCO DE ASSIS - 30

A MÍSTICA DA ENCARNAÇÃO

Sem encarnação não há comunicação


   Cada pessoa humana concretiza facetas próprias do Filho Eterno. Verdadeiramente a Pessoa Humana é uma realidade Sagrada. Quem viola, viola o Filho de Deus. Quem acolhe, acolhe Deus mesmo. O Natal tem um alcance Total, um alcance profundamente humano e cósmico.

A festa do Natal não é unicamente a festa da nossa História, mas de toda a História, não só dos cristãos, mas de toda a Humanidade. A História está grávida de Cristo! Há a cristificação da matéria: as pedras, os ciscos do caminho, as plantas, os animais, tudo o que existe, se move, sente, vive e pensa tem a ver com o Menino que nasce.

Por isso fazemos presépios. Por isso, nesta visão cósmica da Encarnação, a Liturgia Antiga cantava: "Alegres pelo Nascimento, as montanhas e as colinas se inclinam e os elementos do mundo, num inefável gozo, executam neste dia uma Melodia Sublime!"

Celebra-se uma Liturgia Cósmica que escapa aos olhos e ouvidos sensíveis, que é vista e ouvida, porém, pelos olhos da Fé. Sabemos que o mundo foi definitivamente visitado por Deus. A criação se alegra, canta e se extasia com o Hóspede Divino!

   São Francisco queria que no Natal, neste Dia Santo, todos dessem água às flores. Queria que tratassem bem os animais de estimação. Saudemos a natureza de nossas janelas! Pisemos com cuidado o chão de nossos caminhos para não atropelarmos a vida!

Todos somos cristificados, somos irmãos e irmãs, e os irmãos se tratam bem e com carinho! São Francisco entendeu bem: queria que, neste dia em que o Verbo se fez Carne, que todos  comessem carne fartamente. Que se jogassem sementes pelas estradas para que as aves tivessem o que comer. Que aqueles que tivessem um asno ou um boi dessem muita forragem porque na noite de Natal a Virgem colocou seu gracioso Menino entre eles. Que todos se lembrassem da nossa consanguinidade e se presenteassem mutuamente.

DEMO-NOS PRESENTES PORQUE DEUS NOS DEU UM PRESENTE SEM PREÇO: DEU-SE A SI MESMO NUM MENINO!

CELEBRAR O NATAL É:

   Proclamar o maior Evento da História: O Verbo se fez Carne! (Jo, 14)
   
   Deus nutre simpatia para com a nossa espécie. Quem é o Humano para que Deus se tornasse um deles?
   
   Que Grandeza possui o Humano para fascinar o Supremo?  Em cada existência deve palpitar esta pergunta.

    A resposta não está em nenhum livro; cada pessoa tem que respondê-la para si mesma. Nisso se decide tudo, o sentido absoluto ou eterno fracasso.
   Hoje temos tanto conhecimento, mas não sabemos quem somos nós.
Os últimos séculos nos judiaram com humilhações cosmológicas, biológicas, psicológicas e religiosas. O Humano quis ser o centro do Universo físico, querendo que tudo girasse em tomo dele.

     A terra é um grãozinho de areia perdido no espaço cósmico. Se Deus dissesse a um Anjo: “Vai me procurar na terra!” O Anjo não acharia de tão minúscula... Mas Deus sim! Somente ele sente pulsar onde bate o coração humano!

Continua

sexta-feira, 27 de dezembro de 2013

A MÍSTICA DE SÃO FRANCISCO DE ASSIS - 29



A MÍSTICA DA ENCARNAÇÃO

Sem encarnação não há comunicação

  Cada qual sabe por experiência própria: é difícil suportar-se e mais difícil ainda é abrir-se aos demais, escutá-los, amá-Los em suas estreitezas e limitações. E, contudo e apesar de tudo: Deus quis ser como nós!

Deus não assumiu uma humanidade abstrata. Ele assumiu desde o primeiro momento um ser histórico: judeu de raça e de fé, teve pai e mãe, cresceu na estreiteza de uma pequena pátria, viveu no interior, trabalhou; não sabia grego nem latim; falava em dialeto aramaico com sotaque da Galileia; sentiu as forças de ocupação em seu país, teve que fugir do rei, conheceu a fome, a sede, a saudade, as lágrimas pela morte do amigo, a alegria da amizade, a tristeza, as tentações. De nada foi poupado. Até do abandono e da morte. O Natal nos mostra o que Deus é capaz. Se fez um de nós sem deixar de ser Deus.
 
“E o Verbo (a Palavra, a Comunicação) se fez Carne!...” Pode Deus fazer-se? A fé não nos ensinou que Ele é imutável? Mas apesar disso, Deus tomou a nossa forma, se fez Humano!

   Isso nos ensina a sermos mais cristãos e não meros monoteístas. Isto nos permite celebrar o Natal: a Festa de um Deus feito carne quente, presente, palpável. A mudança não está só no humano assumido por Deus, mas está em Deus mesmo! Ele toma a iniciativa, faz a aproximação. Não se pode eliminar a Encarnação. Ela é um fato, um acontecimento de Deus.

   Ele é um Amor tão Grande e Absoluto que pode realizar em si todas as possibilidades... e também esta: de tornar-se Humano finito e infinito. Se não pudesse Encarnar-se não seria Humano, nem Absoluto. Se não pudesse fazer-se outro, sem perder o que sempre É, “não seria o Amor pleno e total. Um Amor que se comunica, sai de si e entrega-se sem reservas!”

   O Mistério do Amor se chama Pai e sua expressão Absoluta se chama Filho. Deus tem algo muito grande a dar: entrega-se Ele mesmo! Quando Deus se dá é Pai. O que surge desta doação é o Menino, o Filho! No Filho, a Bondade, a Beleza e toda a Riqueza Infinita de ser Pai se expressa e se concretiza.
Este Menino expressa toda a riqueza, a beleza, a bondade, as verdades finitas e temporais que podem ser criadas.

   Ele é o espelho de toda Criação! Tudo é criado a partir deste Filho, tudo começa a espelhar o Filho. Assim todas as coisas da criação, o mínimo átomo que começou a vibrar, a pequenina célula que começou a pulsar, os macrocosmos, os microcosmos.

Todas as coisas possuem uma característica paternal, maternal e filial. Todos são filhos e filhas, irmãos e irmãs, junto com o Irmão Maior... O Filho Eterno, na Casa do Pai. Dentre os seres filiais, há uma espécie que é, por excelência, a imagem do Pai e do Filho: a Espécie Humana com seus inumeráveis indivíduos... cada um desde o início do mundo até o último nascido, cada um espelha a seu modo esta verdade.

Mas entre todos há um que Deus predestinou para ser a sua Imagem Total: Jesus de Nazaré! Ele mostrou o Amor de Deus para fora de Deus, mostrou como Deus ama, para que pudesse ser Infinito permanecendo finito, para que pudesse ser Deus no Mundo sem deixar de ser Criatura. Esta vontade de Encarnação e de Comunicação para fora e para dentro do tempo constitui eternamente o Humano!

A Humanidade é a expressão temporal do Menino Eterno. A Humanidade expressa algo de Deus para nós! Quem falava com Jesus encontrava-se com Deus. Quem compreendia Jesus entendia Deus mesmo.

   GRANDE COISA DEVE SER O HUMANO PARA QUE DEUS QUISESSE SER UM DELES!

      Se o Humano é a Comunicação de Deus na História, o Deus Menino é a máxima comunicação de Deus na História. É o Projeto Divino totalmente realizado. O Filho, ao Encarnar-se, não atingiu somente a santa humanidade de Jesus de Nazaré.

Ele tocou a todos nós! Cada um, no desígnio eterno, foi feito por, para e com o Filho!

  TODOS SOMOS FILHOS NO FILHO!

Continua

quarta-feira, 25 de dezembro de 2013

A MÍSTICA DE SÃO FRANCISCO DE ASSIS - 28



A MÍSTICA DA ENCARNAÇÃO

Sem encarnação não há comunicação

Cada qual sabe por experiência própria: é difícil suportar-se e mais difícil ainda é abrir-se aos demais, escutá-los, amá-Ios em suas estreitezas e limitações. E, contudo e apesar de tudo: Deus quis ser como nós!

Deus não assumiu uma humanidade abstrata. Ele assumiu desde o primeiro momento um ser histórico: judeu de raça e de fé, teve pai e mãe, cresceu na estreiteza de uma pequena pátria, viveu no interior, trabalhou; não sabia grego nem latim; falava em dialeto aramaico com sotaque da Galileia; sentiu as forças de ocupação em seu país, teve que fugir do rei, conheceu a fome, a sede, a saudade, as lágrimas pela morte do amigo, a alegria da amizade, a tristeza, as tentações. De nada foi poupado. Até do abandono e da morte. O Natal nos mostra o que Deus é capaz. Se fez um de nós sem deixar de ser Deus.

“E o Verbo (a Palavra, a Comunicação) se fez Carne!...” Pode Deus fazer-se? A fé não nos ensinou que Ele é imutável? Mas apesar disso, Deus tomou a nossa forma, se fez Humano!

Isso nos ensina a sermos mais cristãos e não meros monoteístas. Isto nos permite celebrar o Natal: a Festa de um Deus feito carne quente, presente, palpável. A mudança não está só no humano assumido por Deus, mas está em Deus mesmo! Ele toma a iniciativa, faz a aproximação. Não se pode eliminar a Encarnação. Ela é um fato, um acontecimento de Deus.

Ele é um Amor tão Grande e Absoluto que pode realizar em si todas as possibilidades... e também esta: de tornar-se Humano finito e infinito. Se não pudesse Encarnar-se não seria Humano, nem Absoluto. Se não pudesse fazer-se outro, sem perder o que sempre É, “não seria o Amor pleno e total. Um Amor que se comunica, sai de si e entrega-se sem reservas!”

O Mistério do Amor se chama Pai e sua expressão Absoluta se chama Filho. Deus tem algo muito grande a dar: entrega-se Ele mesmo! Quando Deus se dá é Pai. O que surge desta doação é o Menino, o Filho! No Filho, a Bondade, a Beleza e toda a Riqueza Infinita de ser Pai, extrojeta-se, expressa e concretiza.
Este Menino expressa toda a riqueza, a beleza, a bondade, as verdades finitas e temporais que podem ser criadas.

Ele é o espelho de toda Criação! Tudo é criado a partir deste Filho, tudo começa a espelhar o Filho. Assim todas as coisas da criação, o mínimo átomo que começou a vibrar, a pequenina célula que começou a pulsar, os macrocosmos, os microcosmos.

Todas as coisas possuem uma característica paternal, maternal e filial. Todos são filhos e filhas, irmãos e irmãs, junto com o Irmão Maior... O Filho Eterno, na Casa do Pai. Dentre os seres filiais, há uma espécie que é, por excelência, a imagem do Pai e do Filho: a Espécie Humana com seus inumeráveis indivíduos... cada um desde o início do mundo até o último nascido, cada um espelha a seu modo esta verdade.

Mas entre todos há um que Deus predestinou para ser a sua Imagem Total: Jesus de Nazaré! Ele mostrou o Amor de Deus para fora de Deus, mostrou como Deus ama, para que pudesse ser Infinito permanecendo finito, para que pudesse ser Deus no Mundo sem deixar de ser Criatura. Esta vontade de Encarnação e de Comunicação para fora e para dentro do tempo constitui eternamente o Humano!

A Humanidade é a expressão temporal do Menino Eterno. A Humanidade expressa algo de Deus para nós! Quem falava com Jesus encontrava-se com Deus. Quem compreendia Jesus entendia Deus mesmo.

GRANDE COISA DEVE SER O HUMANO PARA QUE DEUS QUISESSE SER UM DELES!

Se o Humano é a Comunicação de Deus na História, o Deus Menino é a máxima comunicação de Deus na História. É o Projeto Divino totalmente realizado. O Filho, ao Encarnar-se, não atingiu somente a santa humanidade de Jesus de Nazaré.

Ele tocou a todos nós! Cada um, no desígnio eterno, foi feito por, para e com o Filho!

TODOS SOMOS FILHOS NO FILHO! 
 
Continua

segunda-feira, 23 de dezembro de 2013

A MÍSTICA DE SÃO FRANCISCO DE ASSIS - 27


A MÍSTICA DA ENCARNAÇÃO

Sem encarnação não há comunicação

Para celebrar o Natal é preciso recriar uma atmosfera Sagrada. Celebrar o Natal implica mais do que orar e refletir. Importa abrir o coração e se alegrar. Podemos pensar diante de uma Criança? Podemos fazer doutrinas diante de uma vida que se abre como uma flor? Não pode haver indiferença, quando, de repente, a vida se ilumina! Para celebrar é preciso exorcizar o medo que inibe. Deus não vem para julgar ou condenar. Ele nasce criancinha, seu choro é de criança e não afugenta ninguém.

Ele não veio armado para punir. Ele está aí, na fragilidade de um Menino, para ficar bem junto à nós e nos libertar. Celebrar a chegada de um amigo! Cabe a cada um e a cada uma criar a festividade da Festa, fazer silêncio no coração, preparar a alma, reconciliar todas as coisas. Só assim a festa se deixa saborear. Deus se fez Humano e veio morar na nossa Casa! Este é o motivo que temos para celebrar!

O Natal revela o projeto que Deus se propusera a si mesmo: Deus quis se comunicar de forma completa a um outro ser diferente d’Ele!

Dignou-se a dar-se de presente a alguém! Deus não quis ficar unicamente Deus. O Criador fez-se também criatura. Não quis só comunicar somente seu Bem, sua Verdade, sua Beleza... Ele nos presenteou também com isso. Por isso, sempre quando amamos o Bem, pensamos a Verdade e apreciamos a Beleza... estamos apreciando, pensando e amando Deus.

Deus quis dar-se! Para isso é preciso existir alguém diferente que o possa receber. Esse alguém somos nós... e entre nós o olhar divino repousou sobre Jesus de Nazaré. Nele Deus será absoluta Comunicação, Encarnação e Presença! Ser humano só tem sentido se for para ser receptáculo do Divino. É como um copo, só tem sentido se receber um líquido precioso, pois foi feito para isso. Em Jesus de Nazaré, o humano encontra sentido e realização plena da sua existência, pensada, querida e criada para hospedar Deus. Quando nos doamos a alguém estamos comunicando a Encarnação Divina.

Deus comunicou-se a uma Mulher. Bateu mansamente em sua porta. Pediu morada. A Mulher disse que Sim. Porque havia lugar para ele em sua hospedagem. O Amor se fez Carne e veio morar aqui. E assim a vida divina começou a crescer no mundo. Deus nasceu! "Senhor, mostra-nos teu rosto!" E ele mostrou-se assim como é: permaneceu o Deus que sempre era, assumindo o Humano que nem sempre era. Deus não ficou indecifrável. Não ficou na sua onipotência eterna, ele veio morar na fragilidade da criatura.

Não atraiu para dentro de si a humanidade, mas ele se deixou atrair para dentro da humanidade. "Passei por Belém de Judá e ouvi um sussurro terno. Era a voz de Maria embalando o filhinho: Sol, meu filho, como vou cobrir-te de panos? Como vou ver-te nas minhas mãos, tu que conténs todas as coisas?"
E José, perplexo, exclamava: “Como pode? Como pode ter forma de criança Aquele que deu forma a todos os seres? Como pode fazer-se pequeno na terra, Aquele que é grande no céu? Como pode este estábulo conter Aquele que contém todo o universo? Como pode seus bracinhos estarem envoltos em panos, se seu braço governa a terra e o céu? Como pode?”

Deus se abaixa, se faz mundo, se torna humano. Pequeno é o nosso Deus. Infinito é seu Amor! Aproximou-se de nós, não temeu a matéria, não receou acolher a condição humana, por vezes trágica e absurda. Quem poderia imaginar que um Deus se fizesse assim?

   A ninguém é desconhecida a condição humana. Apesar de sua bondade fundamental, o humano não deixa de ter seus fracassos. Ele pode ser um lobo para o outro, uma máquina autodestruidora para consigo mesmo.

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quinta-feira, 19 de dezembro de 2013

A MÍSTICA DE SÃO FRANCISCO DE ASSIS - 26


A MÍSTICA DA ENCARNAÇÃO

Sem encarnação não há comunicação

                    "Uma noite tão deliciosa para os homens como para os animais", conta Tomás de Celano (1 Cel 85). Francisco passa a vigília de pé diante do presépio, comovido e alegre. Experimenta naquela noite, um momento de êxtase.

    Mas o que via? Não era apenas uma cena maravilhosa. Contemplava o mistério do Natal em sua profundidade. Via toda criação unida com Deus num mistério profundo. Queria tudo o que existia, tudo o que vivia para este instante único, para esta comunhão com a vida divina no Deus Menino. O divino não devia ser buscado fora da fragilidade humana e de suas raízes, fora da criação material. NO DEUS MENINO TUDO SE ENCONTRAVA! E o que estava oculto se tornava visível. O sentido do mundo se tornava bem claro. A unidade da criação se revelava. Era uma Epifania de Luz. Não se podia acolher o divino sem respeitar toda a vida: a vida humana, é claro, mas também as mais humildes formas de vida. Não se podia comungar com a vida divina sem confraternizar com toda a vida, com toda criatura, com toda criação!

O caminho desta comunhão e desta fraternidade era o presépio, a humildade original que nos aproxima das mais humildes criaturas, aquela proximidade e doçura que nos fazem reintegrar o vasto círculo da criação. As criaturas todas se tornaram o berço divino. Só podia aproximar-se do Menino quem entrasse no presépio, e se fizesse bem próximo das criaturas mais humildes. É o respeito por toda a vida, por mais humilde que seja, Francisco quando se aproxima, faz acordar um bebê que representava ao vivo o Menino. Isto simboliza o nascimento oculto de Deus nas profundezas da alma.

Eis o Natal e seu Universo de Símbolos! A vela, as estrelas, as bolas coloridas, o pinheirinho, o presépio, os animais, os pastores, José, Maria, o Menino repousando sobre palhas.

   O presépio é a expressão sensível de uma aproximação interna de Deus por caminhos de humildade e de reconciliação: por Caminhos da Encarnação! É a inserção natural. A matriz cósmica de Deus para nascer no humano e ter necessidade do humano. O Menino Deus nasce em toda parte onde há seres humanos bastante humildes para se reconhecerem irmãos e irmãs uns dos outros e de toda criatura.

É assim que visualizamos o evento maior da nossa história: a Encarnação de Deus! Estes símbolos nascem do real, da fé e falam ao coração de um modo muito direto. Hoje, estes símbolos foram capturados pelo comércio e apelam para o nosso bolso. Mas apesar de toda profanização, o Natal ainda guarda algo inviolável, guarda aquela sacralidade que é própria da vida. Toda vida é sagrada e remete para um mistério sacrossanto. Todo atentado contra a vida é um atentado contra Deus.

Na vida do Menino a fé celebra a manifestação da própria vida e a comunicação do próprio mistério. Isso não se perdeu na nossa sociedade secularizada. O Natal é mais rico do que todos os mecanismos de consumo.

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terça-feira, 17 de dezembro de 2013

A MÍSTICA DE SÃO FRANCISCO DE ASSIS - 25


A MÍSTICA DA ENCARNAÇÃO

Sem encarnação não há comunicação

"Vede a humildade de Deus!", gostava Francisco de dizer.

E foi ali, em Greccio, que ele teve esta idéia, e tomado por um grande desejo disse aos seus irmãos: "Quero lembrar o Menino que nasceu em Belém, os apertos que passou, como foi posto num presépio, e ver com os próprios olhos como ficou em cima da palha, entre o boi e o burro." (1Cel, 84).

   Naquele tempo, ainda não existiam os presépios de Natal, principalmente os presépios vivos. A ideia era nova, simples, e até ingênua.

Tinha surgido no coração de Francisco como uma chama de Amor. Uma idéia extraordinária como só os poetas podem ter, pois são eles que nos fazem voltar aos olhos da infância. E, logo, reencontramos os segredos perdidos. Um boi e um burro, um estábulo; e o Natal é restituído com o realismo de sua ternura.

Ver e fazer ver o Filho de Deus, nascendo ao mundo na humildade e na pobreza de um presépio entre animais; nada era mais importante para o futuro do mundo. Numa sociedade mercantil, onde o soberano era o dinheiro, o que podia ser mais útil do que fazer brilhar a gratuidade de um Deus? Num mundo de clérigos ávidos de poder e honra, o que podia ser mais salutar do que lembrar a humildade de um Deus? E num tempo de guerras, violências, Cruzadas... o que podia ser mais urgente, mais necessário do que fazer ver a doçura e a mansidão de um Deus?

Não era só uma simples ideia. Era toda a vida de Francisco. Reinventar o Natal, Reencontrar a Humanidade, a Ternura de Deus era o que Francisco queria para si mesmo, para os irmãos e para o mundo inteiro. Era o seu presépio vivo. Era preciso ver longe, muito longe. E assim, a partir da coisa mais simples do mundo, fora dos caminhos comuns, dos caminhos batidos, ele reencontrava a Fonte Oculta da Ternura e da Fraternidade.

Na foto acima, tirada durante a "Experiência de Assis", em 2012, a Gruta de Greccio.

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sexta-feira, 13 de dezembro de 2013

A MÍSTICA DE SÃO FRANCISCO DE ASSIS - 24


A MÍSTICA DA ENCARNAÇÃO

Sem encarnação não há comunicação

Francisco nos ensinou a nascer para Deus, para o mundo, para as pessoas e para si mesmo. Tudo isto ele celebrou no Natal, que quis transformar numa experiência mística, num novo nascimento. Ele se fez menino com o Menino. O Espírito do Senhor faz acontecer nele seu "advento de doçura", no auge do rude inverno da natureza e da humanidade.

Estamos no fim do ano de 1223, numa pequena aldeia da montanha do Vale de Rieti, no centro da Itália. Esta aldeia chama-se Greccio. Ali o ano deve terminar como todos os outros: no frio, na distância isolada, na pobreza. A neve vai caindo e as atividades externas vão tomando-se raras. As mulheres fiam a lã, e os homens cortam e racham a lenha.

Diante da lareira, dentro de casa, contemplam o fogo que crepita. Eles, silenciosos, esperam. Esperam o quê? O retorno de dias melhores? A primavera? O sol? Tudo isto e mais ainda: um pouco de calor humano, amizade, alegria. Sonham com um sopro de inocência e de ternura. Mas o que pode trazer-lhes, naquele momento a felicidade?

Na Liturgia, a cristandade escuta: "Oxalá rasgasses os céus e descesses! (Is 63,19) "Céus, destilai orvalho lá do alto; nuvens, fazei chover o Justo..." (Is 45,8). Parece que em Greccio não há ninguém para falar aos corações. É a imensa solidão do inverno. E como são longas as noites de inverno na montanha! Há o uivar dos lobos. Terra gelada, terra ansiosa, a expectativa de um pouco de Amor, "quando enfim verás nascer a aurora divina?"

Ali todos ouvem falar de Francisco de Assis, que lhes ensinou a viver segundo o Evangelho e em grande fraternidade com todas as pessoas. Revela-lhes o verdadeiro rosto de Deus. Não do Deus dos domínios da eclesialidade, nem das Cruzadas, nem do dinheiro. Mas um Deus dos pequenos que vem a nós com doçura.

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quarta-feira, 11 de dezembro de 2013

A MÍSTICA DE SÃO FRANCISCO DE ASSIS - 23


A MÍSTICA DA UNIÃO CÓSMICA – O Cântico das Criaturas

12. O Cântico das Criaturas é o hino que celebra a reconciliação paradisíaca do humano com a totalidade de suas relações, com Deus, o Inefável, com o cosmos, com seu irmão e irmã, com os outros na paz fraterna e com a morte aceita como irmã. Há no hino um apelo total à confraternização.

O que aparece no Hino é o problema humano, sempre antigo e sempre atual do humano buscando a unidade de todas as coisas, mesmo com as realidades mais dramáticas como a morte. E se entoa então o hino de louvor. O humano de hoje dificilmente canta as coisas. Ele canta a si mesmo a propósito das coisas. Não deixa as coisas serem coisas. Faz delas um prolongamento do humano e de sua subjetividade que procura conquistar e poder.

O Cântico das Criaturas mostra que a unidade não pode ser constituída sem uma comunhão cósmica, sem uma comunhão com as raízes cósmicas de nossa vida interior e exterior. Tudo deve ser um crescimento total, porque tudo deve desabrochar no louvor de Deus.

O humano moderno está condenado – e isso funda sua fatalidade – a dominar a natureza. Deve combater as doenças e organizar a satisfação de suas necessidades fundamentais. Mas deve ter o cuidado, porque, uma coisa é cultivar a terra e experimentar como ela é mãe generosa e outra é a destruição do solo sem respeito e veneração.

A visão franciscana procura respeitar as coisas sem deixar que elas fiquem outra coisa que coisas. Mas procura ouvir a canção essencial que cada coisa entoa para Deus. E tenta, bem ou mal, unir-se nessa Canção perene ao Criador!

Imagem acima: Segrelles

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Na próxima série, dentro da Mística de São Francisco, o tema SEM ENCARNAÇÃO NÃO HÁ COMUNICAÇÃO.

quinta-feira, 5 de dezembro de 2013

A MÍSTICA DE SÃO FRANCISCO DE ASSIS - 22


A MÍSTICA DA UNIÃO CÓSMICA – O Cântico das Criaturas

b) A nossa irmã terra... a nossa irmã e mãe terra: “Louvado sejas, meu Senhor, por nossa irmã e mãe terra, que nos alimenta e governa e produz variados frutos e coloridas flores e ervas”.

O humano tem a experiência da terra como mãe, com capacidade maternal inexaurível de todos os frutos. Ela nos “sustenta e governa” como a mãe sustenta e governa a criança: produz variados frutos, diz o verso. Francisco nomeia ervas e flores. Ela não se contenta em nutrir os filhos, mas como mãe bondosa ela nos enche de beleza: os verdes e as flores são a festa da terra mãe; são a alegria dos olhos e da alma, formam o reino da beleza e da graça; constituem o sorriso da terra na extensão do cosmos. São Francisco dava tanta importância ao verde e às flores (cf. 2 Celano,346). Isso é um símbolo de sua fineza de alma e sensibilidade poética e estética.

Ele chama a terra de mãe e de irmã. Com isso confere à terra uma nova dimensão. Ela é mãe, sim, porque nos sustenta. Mas não é fonte absoluta da vida. Por si só é uma criatura e por isso é como as demais realidades cósmicas. E por isso irmã. Depende, como cada um de nós, do mesmo Altíssimo Pai. A terra em Francisco ocupou o lugar privilegiado como expressão simbólica. Basta ver os lugares onde se situam os conventos no vale de Rieti, do La Verna, em Assis: sempre os mais soberbos, onde as paisagens eram mais luxuriantes e evocadoras. Sua experiência mística foi desenvolvida em contato com a terra. Primeiro nas cavernas. Depois de sua conversão em Assis, se retirava com frequência para uma caverna próxima, onde, dizia, respondendo aos amigos, encontrou um rico tesouro. Depois em Poggio Bustone, no vale de Rieti (como na foto acima), e no La Verna. O mundo e o universo da caverna são o universo interior, profundo, cheio de sombras e ressonâncias. A caverna é símbolo materno. Entrar na caverna para se encontrar é entrar no ventre materno. Habitar na caverna é participar na vida da terra, no seio da mesma mãe terra. Na caverna o humano está na sua profundidade e na sua unidade radical.

Sua relação profunda com a terra se exprimiu de forma exemplar quando Francisco estava moribundo. Queria morrer nu sobre a terra. Celano conta que quando Francisco estava para morrer “Chamava todas as criaturas para o louvor de Deus, exortando-as ao divino amor com os versos que havia composto. E aos Irmãos dizia: quando virem que começo a expirar, coloquem-me nu sobre a terra e depois da morte, deixem-me aí, sobre a terra por espaço de tempo que se emprega para percorrer uma milha” (403-404). Que sentido possui este ato de deitar-se nu sobre a terra? Isso pode exprimir o seu grau de pobreza, de nudez diante de Deus, como Cristo na Cruz, nu distendido no madeiro. O gesto possui, certamente, um significado mais profundo: significa a união e a adesão à nossa mãe e irmã terra.

Continua

terça-feira, 3 de dezembro de 2013

A MÍSTICA DE SÃO FRANCISCO DE ASSIS - 21


                     A MÍSTICA DA UNIÃO CÓSMICA – O Cântico das Criaturas

                                   11. SOL      VENTO      Fogo
                                            luz        Água           Terra

a) A celebração do Sol: “Louvado sejas, meu Senhor, com todas as tuas criaturas, especialmente o senhor irmão sol, pois ele é dia e nos ilumina por si. E traz de ti, Altíssimo, o sinal”.
Cantar o sol é um topos comum da poesia e de todo hinário religioso cristão e pagão. Nesse sentido, Francisco se insere numa experiência comum que o transcende. O Speculum Perfectionis nos diz: “Francisco considerava o sol o mais belo de todas as criaturas e de forma melhor recordava Nosso Senhor Jesus Cristo e Deus, chamado pela Escritura de Sol da Justiça”. No Sol, Francisco vê o sinal de Deus. Para Francisco, o Sol é um convite permanente para a memória do divino. “De manhã, ao nascer o sol, cada homem deve louvar a Deus que criou o sol para nossa utilidade, pois é por ele que nossos olhos possuem a luz” (Sp.167). Ele mesmo cego, de uma cegueira de que foi tomado depois de uma viagem pelo oriente, não deixa de cantar ao irmão sol. Guardou, mesmo cego, sua luz interior e sua força evocadora.

O senhor irmão sol não é uma imagem material, guardada no interior, mas ela emerge das profundezas da alma, e aponta para algo mais sublime. Para descobrir algo de mais sublime precisamos penetrar um pouco mais na intimidade do elemento. Primeiramente, o sol é saudado como fonte de luz: dele vem o dia, é belo, radiante, cheio de esplendor. Ele é chamado de senhor. Participa da nobreza do mundo. Ele é senhor. Senhor era uma expressão que Francisco reservava para Deus e Jesus Cristo. Começa com o elemento masculino e encerra com o elemento feminino. Esse casal é uma imagem mística antiquíssima. Nos cultos solares das religiões arcaicas, o sol é considerado como elemento masculino, como o grande Senhor, esposo da terra. Da união de ambos é que nasce a vida, e todas as coisas.

São Francisco chama o sol não apenas de Senhor, mas também de irmão. Aqui há um elemento novo. O Sol é criatura também, embora o seu conteúdo simbólico seja profundo. Por isso, além de Senhor e irmão e com isso estabelece uma consanguinidade e fraternidade com ele. Assim como o sol é divino e sinal do divino, o é também o humano, seu irmão. O sol é, pois, o arquétipo da profundidade da alma. As grandes experiências do inconsciente, a irrupção do divino se faz sempre entre luz e fogo. Por isso, São Francisco, na noite em que soube entre dores quase mortais que seria participante do Reino dos Céus, entoou um hino ao irmão sol.

O sol é símbolo do Altíssimo e ao mesmo tempo fraterno. Um sol ao mesmo tempo sacro e íntimo. O sol é a expressão de uma plenitude interior. O sol irmana todas as coisas, penetra tudo, ilumina tudo, desde as montanhas até o último cisco da estrada, desde o homem até o verme, é por excelência o símbolo da grandeza de Deus. Sem se macular ele reluz no esterco, sem se orgulhar se espelha nas águas. Conserva sua identidade suprema.

Continua