quinta-feira, 28 de novembro de 2013

A MÍSTICA DE SÃO FRANCISCO DE ASSIS - 20

A MÍSTICA DA UNIÃO CÓSMICA – O Cântico das Criaturas

Para São Francisco, todas as criaturas, como diz o hino, são o lugar da revelação do Altíssimo. O mundo material tem valor. Não perde sua dignidade, embora o Altíssimo exceda infinitamente. Ele não quer cantar sozinho. Canta com as criaturas. Aqui se vê o espírito não possessivo de São Francisco. Não é ele que canta pelas e através das criaturas. Elas já cantam por si só. Ele se une a elas no cantar e louvar. Irmana-se e confraterniza-se. Como diz Celano, “nunca se viu tanto afeto para com todas as criaturas” (88). E continua: “Todas as criaturas eram chamadas de irmãos e irmãs. De maneira extraordinária e inusitada sabia, com intuição penetrante de seu coração, compreender os segredos das criaturas, porque ele havia reconquistado a gloriosa liberdade dos filhos de Deus”(90).

Na literatura provençal, a qual Francisco admirava, descobria a canção do encantamento pela dama e a efusão emotiva do amor. Francisco soube depurar essa corrente que o influenciou tanto, de todo o peso, de toda a ligação nervosa com a terra e com a Dama, para conservar-lhe o ritmo essencial que incluía a canção até a morte e o sofrimento. Sua relação profundamente humana com Clara, mostra a maravilha como ele integrou o feminino e o encantamento do amor. O eros foi libertado de todo o peso e transformado em ágape, sem perder toda sua profundidade psicológica. Isso nos ajuda a compreender a expressão cantar com todas as criaturas. O cantar “com grande humildade” mostra a superação de todo o ressentimento contra nossa arqueologia. Une-se com o cosmos, com o mais baixo até o mais alto, para juntos cantarem o Inefável.

Imagem: Francisco e Clara, de Giotto

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quinta-feira, 21 de novembro de 2013

A MÍSTICA DE SÃO FRANCISCO DE ASSIS - 19

A MÍSTICA DA UNIÃO CÓSMICA – O Cântico das Criaturas

Sabemos da psicologia de São Francisco, ardente e fogosa, que ele queria o que queria, com grande paixão e profundidade. Como jovem nutria uma paixão imensa; queria ser grande e ser conhecido no mundo. Sonhava tornar-se um grande cavaleiro, um príncipe. Depois sua ambição se espiritualizou, mas não permaneceu menos ambiciosa. Na Vita Secunda, narra Celano que um dia Francisco, já convertido, pergunta aos irmãos: “De que coisa pensais vós que eu mais me alegro?”- Ele mesmo responde: “Serei venerado como santo por todo o mundo”. Ao longo da vida, contudo, foi redescobrindo cada vez mais o mistério de Deus. A palavra Altíssimo e ninguém é digno de mencionar Teu nome, revela sua alma não mais possessiva e ambiciosa. Não renuncia ao Altíssimo. Renuncia à posse do Altíssimo.

Na primeira estrofe revela duas coisas: A paixão de Francisco para o alto, para o mistério. Mas essa paixão é livre de toda ambiguidade, purificada de todo o desejo de poder e vontade possessiva. Está nu e pobre diante de Deus. Só Deus é Deus. Só Deus pode falar a linguagem do divino. E Francisco deixa Deus ser Deus. Não quer enquadrá-lo dentro de categorias humanas. Abre então outro caminho, o caminho da humildade, da encarnação nas criaturas.

10. Diante do inefável deve imperar o silêncio. Mas como o humano não é pedra, ele fala. Seu falar, contudo, a partir do Inefável e Altíssimo, deverá desembocar de onde veio: do Altíssimo. Mas deve-se falar assim, que ao falar, deixa o mistério falar através de sua fala.

São Francisco fala das criaturas. Canta, contudo, de uma forma que elas falem sempre do Inefável, do Altíssimo do qual são sinais. O verso “Louvado sejas, meu Senhor, com todas as tuas criaturas” mostra a transição do silêncio para a fala que deve articular o silêncio.

Imagem: "São Francisco de Assis", do pintor espanhol Murillo

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segunda-feira, 18 de novembro de 2013

A MÍSTICA DE SÃO FRANCISCO DE ASSIS - 18

A MÍSTICA DA UNIÃO CÓSMICA – O Cântico das Criaturas

E porque Francisco conseguiu essa profunda reconciliação, é que ele comove e seduz toda a humanidade. O esplendor do humano e sua tragédia, sua ânsia de ascensão e seu enraizamento na terra, sua dimensão urânica (céu) e a sua dimensão telúrica (terra) encontram nele um intérprete privilegiado.

9. Altíssimo, onipotente, bom Senhor
Teus são o louvor, a glória, a honra
E toda a bênção.
Só a Ti, Altíssimo, são devidos;
E homem algum é digno
De Te mencionar.

Esta primeira estrofe é o hino do silêncio diante do mistério inefável. O Altíssimo atrai todas as energias do louvor e da adoração. Só Ele é digno de todos os títulos. Por isso é o Bem Total, o Sumo Bem, Todo Bem.

Francisco despojou-se não só de seus bens, mas da vaidade pessoal, dessa terrível vaidade farisaica que torna as pessoas virtuosas (não confundir com santas), pequenos tiranos, senhores e deuses para si próprios e para os outros. Por isso, ele diz aqui que de Deus são os louvores, a glória, a honra e todo o bendizer. Estaríamos pensados a dizer que é o humano que louva e dá glória e honra a Deus. Então, não sou eu que louvo e honro. É Deus que louva e honra em mim e através de mim.

Por aí se entende por que São Francisco prescreve aos Irmãos na primeira Regra: “Peço na caridade, que é Deus, que todos os meus irmãos pregadores, oradores e trabalhadores, tanto clérigos como leigos de procurar humilhar-se em todas as coisas, de não gloriar-se e não alegrar-se no íntimo da alma e não exaltar-se exteriormente por causa das boas obras e palavras e também por nenhum bem que se faz, diz e opera neles o Senhor”.

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quinta-feira, 14 de novembro de 2013

A MÍSTICA DE SÃO FRANCISCO DE ASSIS - 17


A MÍSTICA DA UNIÃO CÓSMICA – O Cântico das Criaturas

8. Quanto à estrutura do Cântico convém ainda notar: nele se cruzam as duas linhas, a horizontal e a vertical. Começa com a vertical: “Altíssimo e bom Senhor!” Altíssimo é a expressão do Voo do Espírito para o Alto. Aqui se resume a grande experiência de Francisco. “E ninguém é digno de mencionar teu nome”. Esta expressão exprime a pobreza total de nossas palavras frente ao Altíssimo. Nenhum louvor, nada pode exprimir o mistério de Deus. São Francisco o sabe, não por um saber teológico, mas por uma experiência total, vital, afetiva.

Não podendo cantar o Altíssimo, volta-se às criaturas: “Louvado sejas, meu Senhor, por todas as tuas criaturas!” Renuncia à Transcendência, mas canta o mundo a partir da Transcendência. O universo visível será o caminho para o Sacro, para  o Totalmente Outro porque “de ti, Altíssimo, porta o Teu sinal”. Portanto, o movimento inicial era totalmente vertical: cantar Deus. Agora, ele se reduplica e se volta às criaturas, abre-se para a fraternidade universal conquistada pela experiência do Verticalismo, da mesma filiação divina. Indigno de sequer nomear o nome de Deus,  se sente na mesma filiação, na mesma  pobreza criacional de todas as coisas.

Ele começa do Alto, Deus, desce para os elementos mais preciosos, o sol, depois desce aos mais humildes, como o vento, a água, e acaba na mãe terra. E termina com a frase expressiva, no coração do mundo: “Louvai e bendizei ao meu Senhor e rendei-lhe graças e servi-o com grande humildade!” Ele canta as criaturas porque elas são para Francisco carregadas de valor simbólico do Altíssimo. O Cântico é primeiro uma vivência interior de Deus que se extravasa no exterior, sobre o cosmos. Estando largamente disponível aos apelos do Altíssimo, ao mais Alto dos céus, aceita a comunhão fraterna com a nossa terra, que nos sustenta e governa. Este caminho de grande humildade e de comunhão fraterna se transforma num caminho de profunda reconciliação com tudo, até com a morte. Com isto alcança a máxima libertação, integrando tudo dentro da vida, inclusive a morte.

Imagem de Frei Geraldo Roderfeld no Seminário Frei Galvão de Guaratinguetá (SP)

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quarta-feira, 13 de novembro de 2013

A MÍSTICA DE SÃO FRANCISCO DE ASSIS - 16


A MÍSTICA DA UNIÃO CÓSMICA – O Cântico das Criaturas

7. O Hino contém ainda duas outras estrofes. Foram acrescentadas posteriormente. O Cântico foi composto no outono de 1225. A última estrofe celebra o perdão e a paz alcançada pelo santo que mediou uma rixa entre o prefeito e o bispo de Assis, e foi composta em julho de 1226. A última estrofe celebra nossa irmã a morte corporal e foi inspirada pouco antes do trânsito de São Francisco, nos primeiros dias de outubro de 1226.

Elas se destacam do hino. Não mais o cosmos que é cantado, mas o cosmos humano, inserido dentro da fraternidade cósmica. É uma fraternidade conquistada entre tensões e sofrimentos, graças a um amor que supera o ódio e a angústia da morte. São Francisco quis acrescentá-las ao canto. Elas, na verdade, fazem-lhe parte e se originam da mesma inspiração fundamental.

O hino quer cantar e comemorar a união mística de tudo com Deus. Não podia deixar o humano fora, na sua tribulação. O hino se abre ao mundo humano, estigmatizado por conflitos e pela angústia da morte. O mundo cósmico não seria totalmente reconciliado no matrimônio universal se não inserisse o mundo humano. O humano se concilia com o outro humano. O humano se reconcilia com a morte, aceitando a sua existência mortal. Integra a morte a vida. Aceita-a não como uma bruxa má, mas como a irmã que nos introduz na casa da Vida e do Amor.

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segunda-feira, 11 de novembro de 2013

A MÍSTICA DE SÃO FRANCISCO DE ASSIS - 15


A MÍSTICA DA UNIÃO CÓSMICA – O Cântico das Criaturas

A realidade profunda das coisas reside no poder estarem todas na casa comum do Pai. Deus é essencialmente Pai. Dizer que Deus é Pai, não era para Francisco uma doutrina, um dogma teológico. Para ele era uma experiência afetiva e estética profunda. Ser irmão e irmã não significa apenas uma verdade intelectual, mas uma verdade psicológica. Traduz uma verdadeira emoção amorosa, uma fusão afetiva cósmica. Essa declaração de irmão e irmã é uma confissão de intimidade e de consanguinidade com as coisas todas, todos estão na casa paterna de Deus. Por isso podemos nos irmanar. Não somos inimigos. Nada nos ameaça. Estamos na atmosfera do aconchego e do carinho dos irmãos e das irmãs. Isso é o ser profundo em tudo.

5. Os elementos: “levam de ti, Altíssimo, o sinal”, diz o Poverello. Francisco é muito sensível aos símbolos. Celano conta como Francisco tinha respeito para com a luz e o fogo, símbolos da Luz Eterna. Por isso deixa arder as lanternas, as lâmpadas e as velas. Caminha com veneração sobre as pedras, com respeito Àquele que foi chamado de Pedra. Os elementos do Cântico ao Senhor Irmão Sol são a expressão desta vivência interior e sacra.

6. Uma das coisas mais características no Cântico é o feminino e o masculino. Surgem como símbolos da unidade e da totalidade psíquica do humano. Basta observarmos o binômio masculino e feminino:

irmão sol
irmã lua e estrelas
irmão vento
irmã água
irmão fogo
irmã terra.
Esse casal cósmico não é constituído arbitrariamente. São combinações do inconsciente em busca de uma unidade radical religioso-cósmica. É uma linguagem que exprime esse afã humano. Um outro elemento ressalta claramente isto: O irmão e senhor Sol e a irmã mãe Terra. O Sol é símbolo da virilidade e paternidade, do elemento germinador e fecundante. A Terra, nossa Mãe, é por excelência o símbolo da vida, da fecundação que sustenta e nutre todos os viventes. Todos os demais elementos são encerrados dentro destes dois, da paternidade e da maternidade.

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sexta-feira, 8 de novembro de 2013

A MÍSTICA DE SÃO FRANCISCO DE ASSIS - 14


A MÍSTICA DA UNIÃO CÓSMICA – O Cântico das Criaturas

Para Francisco, os elementos falam através destes adjetivos. “Toda paisagem é um estado de alma” (G. Bachlard). A alma tem uma experiência. Assim, Francisco sentiria dentro de si a grandiosidade da união com Deus. Limpara depois de anos de penitência os olhos para Deus e para as profundezas das coisas. Agora podia ver Deus em todas as coisas. Isso foi uma conquista longa e dificultosa. Daí o mundo se transfigurar e se tornar, para ele, um grande sacramento. Tudo falava de Deus: desde o vermezinho da estrada até o sol. Quando  Francisco chama as coisas de preciosas, para ele essa palavra preciosa não constitui uma grandeza mensurável, um valor como um tesouro. Mas exprime a riqueza misteriosa, que não mais pertence ao domínio do ter, mas da realidade do Ser. É a expressão de sua experiência religiosa e sacra que lhe permite ver a sacralidade e a transparência divina do cosmos.

O canto de São Francisco não é um canto romântico. Não canta numinosidade das coisas enquanto coisas. A numinosidade lhe vem da alma ligada a Deus e a Cristo. Por isso, o canto significa o termo de um longo itinerário espiritual. Quando lhe caíram as escamas dos olhos, então podia ver Cristo e Deus e entoar o hino da casa paterna, onde todos são irmãos e irmãs, a terra e o sol, o fogo e a morte. As coisas ficam coisas. Mas isso não esgota a sua realidade. Elas são símbolos que também expressam a alma. O Universo interior se exprime no universo exterior. Então tudo começa a falar, a fala do mistério e de Deus.

4. O surpreendente do cântico é o modo familiar com que Francisco fala das diferentes realidades cósmicas. Ele as chama de irmãos e irmãs. Esse fato de poder chamar a realidade sub-humana de irmão e irmã nos coloca diante de uma maneira diferente de ver o mundo do que aquela, por exemplo, científica. Para a ciência as coisas são coisas, destituídas de qualquer grandeza humana e numinosidade. São objetos de nossa conquista e de exercício de nossa vontade de poder. Falta o respeito e a grandiosidade do sentir-se junto, dentro de uma mesma casa paterna. Em Francisco, elas se revestem de grande simpatia. Como as biografias nos contam, ele chamava tudo de irmão e irmã. Não havia poesia nisso. Mas queria dizer a verdadeira realidade das coisas. Que realidade?

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segunda-feira, 4 de novembro de 2013

A MÍSTICA DE SÃO FRANCISCO DE ASSIS - 13


A MÍSTICA DA UNIÃO CÓSMICA – O Cântico das Criaturas

A alma canta com uma espontaneidade, com o candor e o calor da língua materna. Esse canto parece quase um hino pagão. Não se fala de Cristo, nem do mistério Trinitário, nem do mundo sobrenatural, nem do Reino. As realidades materiais são evocadas e cantadas. Contudo, se olharmos bem, se olharmos mais profundamente as coisas materiais, além de serem coisas são a língua e o instrumento expressivos de uma experiência religiosa profunda acontecida no coração de São Francisco. Os elementos cósmicos são celebrados como símbolos do mundo interior. Não se trata  de um discurso poético-religioso sobre as coisas. As coisas aparecem como um invólucro de um discurso mais profundo. Essa leitura simbólica do hino nos faz penetrar na experiência religiosa de São Francisco. Não se trata de alegorizarmos os elementos. O sol fica sol, a lua fica lua, a água, água. Mas além de um valor objetivo possuem um valor simbólico. O Santo exprime através destes elementos o seu mundo interior.

É uma afirmação serena da fraternidade universal. Tudo é claro, luminoso e imediato.

3. Os elementos referidos por Francisco e pelos quais canta o Criador não são simplesmente elementos. Ele os qualifica, dá-lhes adjetivos que expressam a vivência interior que possuía. O sol é radiante e com grande esplendor. O fogo é radiante e robusto, forte e jucundo; água é humilde, preciosa e casta e assim por diante. Esses adjetivos qualificam os elementos. Mais que os elementos qualificam a alma. Nem sempre é verdade que o sol é radiante e de grande esplendor. Ele pode queimar e matar as plantações. Nem sempre a água é humilde, preciosa e casta. A água convulsa do oceano pode matar. A água poluída pode  contaminar. O fogo pode queimar e seus danos são irreparáveis.
Imagem: Cena do filme "Irmão Sol Irmã Lua" 
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