quinta-feira, 31 de outubro de 2013

A MÍSTICA DE SÃO FRANCISCO DE ASSIS - 12

A MÍSTICA DA UNIÃO CÓSMICA – O Cântico das Criaturas


Foi então que aconteceu o evento de doçura. De volta ao Monte Alverne, nos extremos da fraqueza e da perda das forças, Francisco se detém em São Damião, onde vivia Santa Clara e suas Irmãs. Exatamente na igreja, na qual o Senhor lhe falara e lhe pedira para reconstruir a sua casa em ruínas. Os sofrimentos não lhe davam tréguas. ”Durante 50 dias não estava em condições de suportar a luz do dia, nem o clarão do fogo da noite... Os olhos o atormentavam de tal maneira que nem podia repousar nem dormir” (Legenda Antiqua S. Francisci, Archivum Franc. Historicum XV (1922, 289-299).

Uma noite não podendo mais suportar as dores, São Francisco, numa atitude de profunda simpatia não só com as coisas, teve grande piedade e pena de si mesmo e disse ao Senhor: “Senhor, acorde-me em minha enfermidade, para que a possa suportar pacientemente” (Legenda Ant., 299). Segundo Celano travou-se uma luta em São Francisco para vencer as dores e a impaciência... orando entrou em agonia... No decurso desta agonia ouve em espírito uma voz que lhe diz: “Diga-me, irmão: se alguém lhe presenteasse, como dom por teus sofrimentos e pelas tribulações, um imenso tesouro precioso, a terra inteira transformada em ouro fino, as rochas em pedras preciosas, a água dos rios em perfumes, não te alegraria?” O beato Francisco responde: “Senhor, seria um tesouro imenso, preciosíssimo, inestimável e para além de tudo o que se pode desejar e amar!” – “Pois bem, irmão, disse a voz, alegra-te em meio as tribulações e enfermidades: vive agora em paz, como se foras já no meu Reino” (299).

Nesse momento uma alegria incontida invadiu e irrompeu em São Francisco, ao saber que já estava no Reino de Deus, que sua alma entrou numa esplêndida aurora. Levanta-se. Escreve o Hino a todas as Criaturas. Chama os Frades e com eles canta o Hino recém-composto. Esse canto de luz surgiu no meio de uma noite escura da alma. Emergiu das profundezas de uma existência que foi se erguendo, sofrida, acrisolada, como um botão que busca, insaciável, a luz do sol. É o símbolo expressivo de um universo que se configurou dentro do coração. Causa espanto que um homem cego, que em meio às dores horríveis, que não gozava mais as excelências das coisas, cante exatamente a matéria, o sol, a lua, a água e o fogo.

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quinta-feira, 24 de outubro de 2013

A MÍSTICA DE SÃO FRANCISCO DE ASSIS - 11




A MÍSTICA DA UNIÃO CÓSMICA – O Cântico das Criaturas


Vamos procurar compreender o Espírito que está por detrás do Cântico das Criaturas de São Francisco, ou o Cântico do Sol como também é conhecido.

O Cântico das Criaturas é uma experiência de Francisco. Vamos procurar compreendê-la. Compreender é refazer a experiência do outro. É tentar descobrir o sentido, redescobrir a experiência religiosa que está por detrás dos escritos de S. Francisco. Este texto nos irá mostrar a maravilha de como este autor viveu Deus dentro de sua vida.

Este texto nos leva a pensar que o humano deve ter os seus olhos abertos para a profundidade das coisas. Temos que aprender a dar um mergulho religioso na realidade. Para a gente experimentar e exprimir... (Aqui reside uma decisão para toda humana criatura, uma decisão fundamental, pois é isto que nos faz pessoas maduras.)

Temos que perguntar: Poderá o mundo técnico, secular, segmentarizado, pluralista, urbano, opaco, revelar Deus? Essa pergunta é falha. A verdadeira pergunta consiste: Poderemos nós, nesse mundo técnico, secular, segmentarizado, pluralista, urbano e opaco, ver a presença de Deus? Deus esta presente em tudo e em toda parte. Isso não faz o problema. O problema é se nós temos olhos para vê-Lo.


  1.  Na leitura do Cântico das Criaturas parece que estamos vendo uma escada (de Jacó) através da qual o místico Francisco ascende até Deus. Nesse sentido Francisco não é original, mas se alinha entre os místicos e os cantores bíblicos, salmistas e santos que cantaram também a natureza com seus elementos. Mas a originalidade de Francisco consiste no modo singular e simples como as coisas, no Cântico, são concebidas, valorizadas, ornadas. Ele segue a ordem cosmológica da época (os 4 elementos: terra, água, fogo e ar e o geocentrismo da cosmologia antiga), mas segundo uma ordem profunda da psique. Os elementos subjetivos (sol, lua, estrelas, etc.) valem enquanto exprimem uma vibração mística da alma. Eles formam uma língua com a qual o místico quer exprimir aquilo que lhe passa na alma: a união religioso-cósmica de tudo com Deus.

  2. O hino representa o término de um longo itinerário espiritual de S. Francisco. Já se havia passado vinte anos de conversão. Dia após dia se esforçava Francisco em seguir os traços do Senhor, com grande humildade, meditando o “evento da doçura” do Altíssimo Filho de Deus. No Monte Alverne havia recebido as chagas do Senhor crucificado. Perdia sangue, enfraquecido pela doença, e cego, quase agonizante. Sofria mais certamente na alma. Via a cristandade medieval cobiçosa e cheia de poder sagrado e profano. Fazia-se então uma cruzada contra os mulçumanos na Palestina. Os valores evangélicos da pobreza, simplicidade e paz eram violados profundamente na Igreja, em nome do amor de Deus. Na Ordem havia já aparecido os primeiros problemas. Fazia-se tarde na vida de Francisco. Tarde sem doçura das tardes da Úmbria e da Toscana.

Imagem: "Cântico do Irmão Sol", de Piero Casentini 

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segunda-feira, 21 de outubro de 2013

A MÍSTICA DE SÃO FRANCISCO DE ASSIS - 10


Vejamos mais um texto narrado pelo Biógrafo São Boaventura:

“Quem seria capaz de narrar o amor fervoroso no qual ardia Francisco, o amigo do Esposo? Parecia, de fato, todo absorto, como um carvão ardente, na chama do amor divino” (LM IX, 1-2).

Quem somos nós, para falarmos de Deus se Ele não é uma chama que queima em nós? A mística franciscana nos provoca a evoluirmos como filhos e filhas apaixonados pelo Pai das Luzes. Deus não vem dos valores relativos criados pela intelectualidade humana; porém vem do mais profundo de nossos sentimentos. A mística franciscana quer nos ajudar a refazer a experiência do próprio Filho de Deus, o Mestre de Nazaré, que diz: “Deus é Amor!”.

É como se a mística franciscana nos dissesse assim: se você quer falar de Deus, fale sobre o Amor! Não o amor relativo, preso ao turbilhão dos sentimentos e que, às vezes, podem ser mesquinhos, como o suposto amor de certos romances e novelas; ou então das possessivas relações a dizer : “Eu te amo, mas exijo isto, e aquilo e mais aquilo; eu te amo pelo que você tem”. Para a mística franciscana amar é dizer: eu te amo pelo que você é e pelo Amor que está em você! Quanto eu digo “eu te amo”, para a mística franciscana é a mesma coisa que dizer: eu me faço feliz e quero te fazer feliz pelo Amor que nos envolve. É preciso amar o Amor que está em alguém. Eu me faço feliz com Ele e quero que Ele te faça feliz! Ninguém pode fazer feliz alguém, mas você se faz feliz com alguém através do Valor Maior (“a priori”). Francisco de Assis compreendeu isso como ninguém: há valores que só quem ama alguém percebe em alguém que é amado!

Para a mística franciscana, o verdadeiro Amor é o Absoluto que alimenta tudo e todos, é imenso, é a Vida! Para falar de Deus temos que passar por este filtro de compreensão do Amor. A primeira definição de amor que temos em nossa vida é o amor de nossos pais. Um amor que se aproxima da perfeição; mesmo assim este amor é pequeno perto do Amor de Deus Pai. Ao vislumbrar esse sentir, podemos ter uma vaga e nebulosa ideia, pois ainda vemos como que num espelho, não o vemos face a face como diz São Paulo.

Para São Francisco, o Amor de Deus é a mais bela oferenda. Ele consegue ver que Deus colocou nos caminhos de sua vida a dor, o leproso, o mendigo, a incompreensão da cidade. O Pai, que ele tivesse o privilégio de praticar a generosidade do Amor. O amor como oferenda e encontro nos harmoniza. Francisco observava que tudo era a mais completa oferenda: a natureza pratica ajuda. Já pensou se dissesse: “não vou mais chover” ou se um canário piasse dizendo: “hoje não vou mais cantar”. Para a mística franciscana, a vida celebra e pratica a mais bela e constante doação, esse princípio cósmico sem o qual se perde a razão de ser. O sol ajuda as plantas, as plantas ajudam os animais, os animais ajudam o ecossistema. Tudo é ajuda, respiração e movimento. Por isso, para Francisco de Assis, falar de Deus é falar de um movimento de cuidado! Repetir, isto é, refazer o cuidado, é criar um movimento de Amor no Universo, pois cada um de nós é como uma célula neste grande corpo cósmico e parte de um único Corpo: O Corpo Sagrado do Amor de Deus, o Corpo Místico. Para a mística franciscana, falar de Deus é sentir Deus, é Amar com o Deus ama. O verbo amar é que permite a maior e melhor aproximação de Deus. Nós rezamos muito, mas isto ainda é pouco: é preciso em nossas palavras respirar e perceber.

Fim deste primeiro Capítulo. Na próximo post, "A MÍSTICA DA UNIÃO CÓSMICA – O Cântico das Criaturas" 

sexta-feira, 18 de outubro de 2013

A MÍSTICA DE SÃO FRANCISCO DE ASSIS - 9



2. O QUE É A MÍSTICA FRANCISCANA?

É o refazer a experiência vivida de São Francisco de Assis de que Deus é formalmente Amor, não somente nas suas obras, mas no seu Ser: Deus é essencialmente Amor! Este Amor é a virtude por excelência, o cumprimento de todas as virtudes e a raiz, a forma e a finalidade das virtudes. Francisco, segundo os autores das Legendas primitivas, era o Místico do Amor. Ele foi tocado e visitado por tão grande Amor divino.

Diz o seu biógrafo Tomás de Celano: “Pois ainda que este homem fosse devoto em tudo, como quem fruía da unção do Espírito, no entanto, com especial afeto ele se movia com relação a certas realidades especiais. Entre outras expressões, cujo uso estava nas conversas comuns, ele não podia ouvir dizer amor de Deus sem uma certa mudança em si mesmo. Ao ouvir falar do amor do Senhor, subitamente  se excitava, se comovia, se inflamava, como se com a palheta da voz exterior  se tocassem as cordas mais íntimas do coração. Dizia que oferecer tal riqueza, o  amor de Deus, em troca de esmolas era nobre generosidade e que aqueles que o julgavam  menos do que o dinheiro eram os mais loucos. E observou infalivelmente até a morte o propósito que ele, ainda envolvido com as coisas do mundo, fizera de não rejeitar pobre algum que lhe pedisse por amor de Deus. Uma vez, como ele não tivesse nada para dar a um pobre que lhe pedia esmola por amor de Deus, tendo tomado uma tesoura às escondidas, apressa-se em dividir a túnica. Tê-lo-ia feito, se, surpreendido pelos irmãos, não tivesse feito prover um pobre com outra compensação. Disse: “Muito deve ser amado o amor daquele que muito nos amou!”” (2Cel 196, 3-9)

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quarta-feira, 16 de outubro de 2013

A MÍSTICA DE SÃO FRANCISCO DE ASSIS - 8



1.2 – O Amor como unidade de conhecimento e vontade

O ser humano, no seu pensar e agir, quer e deve procurar conhecer as causas últimas e a causa única de cada realidade, e agindo assim faz a metafísica, e vivendo assim descobre a mística: que é perguntar pela verdadeira natureza do Ser.

O princípio do Amor é a autocomunicação de Deus como conhecimento e vontade. A transcendência absoluta do espírito é o espaço que se abre para o “a priori” da revelação do Amor. Quando o conhecimento e a vontade se unem ao Ser, chega-se à experiência do Amor.

O amor é um modo como Deus revela a transparência de sua potência, de Si mesmo e da sua Criação; onde Ele mostra a capacidade de dar incondicionalmente o seu Ser. O ESPÍRITO INFINITO DE DEUS SE REVELA ATRAVÉS DE SEU AMOR CRIATIVO. No coração de tudo o que é, palpita o Amor de Deus.

Amar é afirmar a existência humana através da abertura a este Amor; é encontrar-se com o Amor como condição e princípio para o conhecimento. No coração do conhecimento está o Amor que nutre a vida. A mística significa conhecer, perceber e sentir, através do espírito, a luz que torna todo ser transparente e humano.

O ser humano é o ente que escuta a revelação do Amor Divino na medida que se abre, livremente, para a mensagem de Deus que se revela como Amor. É no Amor que se realiza a revelação divina que transcende o ser humano. O lugar da revelação de Deus é sempre naquele momento da história que em o ser humano ama; o amor é o lugar da transcendência. No Amor, o humano transcende o finito de sua própria matéria. A sensibilidade do ser humano vem de sua capacidade de transcender a matéria.

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segunda-feira, 14 de outubro de 2013

A MÍSTICA DE SÃO FRANCISCO DE ASSIS - 7


Na mística moderna de Rahner temos três aspectos: 

1 - A explicação fenomenológica - O humano, enquanto sujeito espiritual, é um Ser que não pode mais evitar de interrogar-se sobre si mesmo e sobre os seres em geral. É o fenômeno existencial do humano que coloca a pergunta necessária. O ser humano é uma pergunta necessária e ontológica do Ser e examina a sua essência. O ser humano é uma pergunta infinita e absoluta, e tal pergunta ontológica resulta na possibilidade de escutar uma resposta cristã.

2 - A redução transcendental -  O sujeito é uma dimensão “a priori” que coloca numa luz o humano como um ser de transcendência. O humano tem um horizonte “apriorístico” e por isso faz perguntas ontológicas através de uma prévia percepção do conhecimento como experiência transcendental, que é uma possibilidade da verdadeira e própria revelação. O humano, através da experiência mística é elevado ao “a priori” da revelação originária de Deus.

3 - A dedução transcendental - É o ponto que examina a estrutura característica da ação como categoria do sujeito. A essência do sujeito salta para fora na sua ação. O humano é a matéria de Deus, uma revelação histórica. Deus é a transcendência absoluta. O ser humano é transcendência que se orienta para o Absoluto.

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quinta-feira, 10 de outubro de 2013

A MÍSTICA DE SÃO FRANCISCO DE ASSIS - 6

Grande contribuição fontal para a mística é o conhecimento amoroso que parte da Sagrada Escritura, o estudo do pensamento e prática dos Padres Orientais e Ocidentais.

É a força espiritual e transpsicológica do Ser imerso no fazer correr a vida divina contida nos sacramentos, especialmente na Eucaristia. É unir mística cristã com a vida cristã, caminho de santidade da vida e a divinização a que são chamados todos os cristãos. A chamada universal à santidade equivale à chamada universal à mística. Henri de Lubac (1896-1991) afirma que a mística cristã é a mais profunda interiorização do mistério da fé e alicerça suas raízes nas Sagradas Escrituras, na Liturgia e na Vida Sacramental.

Com Karl Rhaner (1904-1984) e Joseph Marechal (1878-1944), o aprofundamento da mística moderna tem como ponto de partida uma nova e mais adequada metafísica, a dinâmica do ato cognitivo, a possibilidade de conhecer Deus.

O sentido humano traz o sujeito do conhecimento em contato com a coisa real. A inteligência, como faculdade superior, deve ser considerada fundamentalmente intuitiva por tendência e por finalidade. A experiência mística é o contato direto, intuitivo e imediato na vida entre a inteligência e o seu fim que é o Absoluto. É o contato místico entre o ser humano e o ser Divino. Converter-se é enamorar-se de Deus. O humano como Ser, tende ao mistério Absoluto.

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quarta-feira, 9 de outubro de 2013

A MÍSTICA DE SÃO FRANCISCO DE ASSIS - 5


1.1 – Características da Mística na fluência do século XX

No século XX cresce o debate sobre a natureza da mística e a universalidade desta experiência. Até o Concílio Vaticano II, os caminhos da mística começavam na hermenêutica baseada sobre as Fontes Bíblicas e da Patrística; porém é exatamente a partir daí que começa a elucidar o significado de natureza do estado místico, da vocação universal à perfeição, do itinerário de virtudes, do vértice da experiência espiritual, dos fenômenos místicos e retoma-se a questão da contemplação adquirida (ativa) e da contemplação infusa (passiva), duas compreensões que têm a ver com o direcionamento da VIA PERFECTIONIS através, da UNIO MÍSTICA, uma espécie de matrimônio espiritual. A mística é essencial para a perfeição e caminho obrigatório para chegar ao ESTADO MÍSTICO, isto é, o próprio Amor recebido diretamente de Deus.

Não se pode deixar de lembrar que nos dois casos existem os fenômenos extraordinários que os acompanham: a prece mística, os efeitos que aparecem além do esforço humano, a pura graça; ou aqueles que tem a cooperação dos exercícios necessários tais como: meditação orientada, silêncio, prece comum. A contemplação adquirida é ativa e ordinária. A contemplação infusa é passiva e extraordinária.

Independente da questão de um Curso Sistemático de Teologia Espiritual, que a partir de 1931, com Pio XI, coloca a ascética como disciplina auxiliar e a mística como disciplina especial. O que nos interessa aqui nesta reflexão? Mostrar que todo este desenvolvimento une num mesmo tronco a mística e a ascética na História da Espiritualidade. Que a perfeição cristã vai crescendo graças à presença de dons do Espírito Santo que operam sobrenaturalmente na vida mística, e a busca incessante da vida da graça, da fé, da caridade e de dons do Espírito Santo, da força extraordinária dos milagres, das visões e da profecia.

Tudo isto faz parte do desenvolvimento da via espiritual e encontra a sua culminância na contemplação e na experiência mística.

Não podemos esquecer de citar o grande pensador cristão Jacques Maritain (1882-1973), que mostra em sua obra o fascínio pela mística; para ele a mística é a culminância de toda forma de conhecimento e consequência da verdadeira metafísica. Para ele, mística é conhecimento das coisas profundas de Deus, experiência esta que vai do contato direto e imediato com Ele, um contato que envolve amor e conhecimento.

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segunda-feira, 7 de outubro de 2013

A MÍSTICA DE SÃO FRANCISCO DE ASSIS - 4


Deus é absolutamente incognoscível e se manifesta na criação, assim toda a realidade das coisas podem aproximar a união com a Origem escondida. Nesta afirmação aparece a dimensão universal da experiência mística, a pedra angular do desenvolvimento da mística nas épocas sucessivas.

A obra do Pseudo-Dionísio não conseguiu emplacar na Igreja Latina a ideia de experiência mística. O Ocidente preferiu a palavra Contemplação. Somente com a Idade Média que a palavra mística torna-se de uso corrente.

Contemplação era uma palavra mais usada para designar um estudo de vida mística dos eremitas e monges.
 
Foi a partir do século XVI que a mística passa a significar uma passagem do sagrado ao segredo, das coisas e sua dimensão essencial, da via ordinária ao extraordinário, o mundo espiritual visto como afeto, visões, êxtase, o puro amor de Deus, a alma que se deixa conduzir pelos espíritos e vive num estado místico.

A alma deve aprofundar-se em Deus e conduzir-se a fonte do amor puro. Quanto mais a alma se eleva, quanto mais a ação de Deus se faz sentir. A mística vai criar os caminhos da oração simplificada, a contemplação ativa e passiva, enfim o Estado Místico.

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quarta-feira, 2 de outubro de 2013

A MÍSTICA DE SÃO FRANCISCO DE ASSIS - 3


Justino (início do I século até 163) é o primeiro escritor cristão a discorrer sobre a relação do mistério cristão com o mistério pagão. Derivados de MÚEIN são também os significados de: realidade secreta, velada, escondida, de não imediato acesso de comunicação, e que pertence a ordem religiosa ou moral.

Não encontraremos jamais o termos MISTIKÓS na Bíblia. O primeiro a introduzir no vocabulário cristão o adjetivo MISTIKÓS foi Clemente de Alexandria (150-215), que usou o termo mais de 50 vezes em sua obra. E aqui o vocabulário era usado como: os segredos e modos da manifestação da realidade divina oculta na Sagrada Escritura, no Rito e na Prece.

Clemente de Alexandria é aquele que introduziu o conceito cristão de mística como CONHECIMENTO DO MISTÉRIO ESCONDIDO EM DEUS. Para Clemente, o cristianismo é uma mística fortemente acentuada, modificando no sentido cristão os mistérios pagãos, e manifestando aos pagãos um novo e verdadeiro mistério: aquele que é capaz de trazer purificação e salvação.

O termo Teologia Mística aparece pela primeira vez na história do cristianismo com o Pseudo-Dionísio, o Areopagita (V e VI séculos) que escreveu um tratado com este nome. A sua obra tem um caráter metafisico e especulativo. Não destaca um tipo particular de experiência, mas sim o CONHECIMENTO DO MISTÉRIO DE DEUS.

Aqui entra pela primeira vez o caráter estético da mística. Ele descreve a natureza divina entre o Belo e o Bom, o Eros e o Ágape, que são os nomes luminosos de Deus.

Eros não é atração física, mas a mais pura imagem do pleno sentido da unidade do Amor divino e uno. O escondimento e a revelação de Deus. Todas as criaturas manifestam o Criador e ao mesmo tempo o escondem. O universo é uma imagem necessária de Deus, mas ao mesmo tempo é incapaz de representar Deus. A partir do momento que o caminho da negação é usado, Deus é conhecido de modo mais profundo mediante a total incapacidade de dizê-Lo. A ignorância é a verdadeira GNÓSIS.

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