terça-feira, 27 de agosto de 2013

EVOCAÇÕES EM TORNO DO FILME SOBRE HANNAH ARENDT


Um filme maravilhoso como este ajuda a pensar, resgata a filosofia como força de reencantamento do humano, no caso especifico aqui, Hannah Arendt, uma grande mulher. Um filme que nasce do pensamento e leva, cada vez mais, a paixão por um modo de ser. Ele fala de um julgamento de um nazista ( Adolf Eichmann) e este julgamento se estende a quem procurou entender o processo na medida exata da justiça. A vida nos conduz ao atropelo da interpretação ideológica que se dá. Hannah Arendt nos ensina a ser livres do atropelo ideológico; a nunca aprisionar-se na publicidade do  julgamento como verdade.

São as diversas modalidades de interpretação que me enviam à compreensão da vida. A filosofia existe para compreender todas as modalidades da vida; esse é o modo de viver que brinda a riqueza universal da existência. Facilmente nós passamos por cima das diferenças e vamos para o idêntico, que é sempre algo mais cômodo. A beleza da vida é o nosso não saber da vida; assim, cada dia, ela é uma descoberta e não uma cópia. Hannah Arendt nos ensina que o discurso que se faz tem que ser a interpretação correta da vida. Unir pensamento, emoções, interpretações, discussões nas diferenças, para uma leitura da vida de um modo lógico. A interpretação que você faz da vida é a sua filosofia de vida. O “sófon” é o retraído que se esquiva do sistema e traça questionamentos que mexam com as estruturas da existência.

Pensar é ser como uma criança... isto é, não ouvir o sistema. Temos que ficar na estranheza da existência. Todo gesto, todo olhar, todo toque, é estar na afeição de todas as perguntas que estão em nós. Todo gesto, todo olhar, todo toque são uma resposta. Afeiçoar-se a pergunta é deixar-se sofrer pela pergunta (em geral confundimos isto com medo, mas não é medo, é o balançar do ser sofrido do questionamento). Estamos na vida e ela nos conduz a isto; o questionamento é a segurança da vida. A resposta é o perfume da pergunta. O espetáculo da vida está na estranheza da vida (até no surpreendente de um Amor assim...). O pensamento é a resposta que nos leva a estranhar as perguntas da vida.

Bom é ver um filme cuidando do coração que palpita dentro e ao lado. Nós podemos ver um filme e ver apenas a exposição e captamos apenas a representação e não o coração do filme. Ao ver um filme cuidando do coração percebemos melhor a interioridade da vida. Vemos o essencial em cada cena, em cada gesto, em cada palavra. O essencial é aquilo que experimenta e aceita o limite do possível.

Cada momento do pensamento é a minha possibilidade, isto é, a possibilidade de descobrir quem eu sou. Para descobrir quem eu sou preciso de modelos como Hannah Arendt. Ela é uma heroína do pensar correto e coerente. O herói não é herói por causa da representação que faz da vida, mas porque na representação evocou a pátria e a identidade da pátria judaica. Para herói não há indecisão. Há firmeza e certezas. A indecisão é o espírito ainda não suficientemente amadurecido para dialogar com a vida.

Vi no filme uma heroína decidida e simples. O pensamento nos conduz a nossa identidade que é a nossa maior humildade.  A consciência tranquila de Hannah fez dela uma mulher despojada, apenas voltada para o essencial. A essência do humano se dá na sua consciência...

O filme me ensinou também que é preciso estar nos acontecimentos humanos com mais profundidade e não apenas como um mero espectador. Mesmo que isto leve a um mundo de incompreensões. A consciência da verdade é o nosso tormento. O lobo (o nazismo e seu fruto chamado Adolf Eichmann) devorou as ovelhas (os judeus massacrados no campo de concentração). Todos julgaram a partir da fragilidade da ovelha. Hannah Arendt, sem estar do lado do lobo, procurou entender a bravura irracional do lobo, que apenas para cumprir ordens criou a banalidade do mal.

O ser de Hannah Arendt reacendeu em mim o ser cativante que ama e pensa.  O amor de Hannah e Heidegger revela que pensar com maior radicalidade as experiências é apaixonar-se. Mediante o pensamento é possível colocar-se também na correspondência perfeita do amor e do mútuo encantamento. O pensamento é a grandeza do humano; deixar de pensar é colocar a humanidade em risco.  Somos inumanos quando não deixamos ser a verdade das coisas e dos seres.

O caminho de Hannah e Heidegger, o caminho do campo, é a paisagem do ser. O caminho faz surgir, a cada instante, um acontecer inusitado... e isto é alcançado pelo pensamento e pelo Amor. Hannah não copiou o mestre. Copiar o mestre não é unidade; mas empenhar-se totalmente em refazer o caminho do mestre é unidade. O que levou Hannah a romper o estar-junto ao mestre? Ela esteve sempre presente de um modo fisicamente ausente. Isto só é possível na máxima fidelidade. Neste momento, a discípula tornou-se tão boa ou melhor que o mestre. É nesta hora que a discípula faz a sua Obra-Prima.

Hannah revela um certo sofrimento que vai se diluindo como a frequente fumaça de seu cigarro. É melhor sofrer muito estando apaixonada do que sofrer sem causa.  Viver é sempre diligência sofrida de busca e procura daquilo que não se tem para melhor ser o que se tem: a Vida! A experiência bem saboreada da situação é a reflexão. A experiência bem pensada e vivida no coração é o Amor. Este é o nosso grande encontro com a vida: a acolhida da doação de fazer todas as nossas experiência no bem pensar e no Bem Amar!

(Vitório Mazzuco, provocado e encantado com o filme )

Um comentário:

Rosana Padial disse...

Frei Vitório que belo texto!
De fato este filme nos provoca em nossa essência humana, que segundo Hannah Arendt é nossa capacidade de pensarmos. Mas houve outro aspecto no filme que a mim trouxe bastante incomodo. Ela se apresenta muito humana nas relações de amizade, e depois do seu artigo, seus amigos foram duros com ela. Trago comigo este lado do filme e me pergunto, quem foi mal, Adolf Eichmam (que se negou a pensar e agiu), ou os amigos de Hannah que "pensando", recusaram-se ao diálogo com ela? O mal nunca é absoluto!
Este é um filme que precisamos ter em nosso acervo.
Um abraço!