terça-feira, 16 de julho de 2013

Francisco de Assis, modelo referencial do humano - XIII

Estátua dos pais de Francisco onde residiram em Assis   
FRANCISCO E O FEMININO

Francisco de Assis, há oito séculos, usava a seu modo, uma linguagem de gênero. É o seu jeito de lembrar, como um bom medieval,  que tudo o que acontece é a vida também nos exercitando. Usa palavras para instaurar consciência e prática. Gostava de dizer Irmã Lua, Irmãs Estrelas, Irmã Água, Irmã Clara, Irmã e Mãe Terra. De onde vem esta sua fala  ritual e natural?

 Da presença em sua vida de três grandes mulheres: sua mãe Jehanne de Bourlemont, Dona Picà; a Virgem Maria, a Mãe Divina e Clara de Assis. Estas três mulheres ensinaram para ele que receber amor exige muita humildade, muito acolhimento, muita confiança. É ir do simples para o grande, do pobre ao coletivo.

 A pobreza de Francisco tem muito a ver com a grandeza do amor que recebeu, porque ser pobre é deixar uma obra maior de amor aparecer. Estas três mulheres são a sua fonte de amor, o feminino que o molda e o leva a escolher um Único Amor para ser livre.

Em sua mãe biológica, Jehanne de Bourlemont, a Dona Picà, Francisco é educado na ternura e com muito carinho. Ser amado e educado assim gera pessoas normais. Quem é Dona Picà? Como já citamos, o nome original da mãe de Francisco, no francês provençal é Jehanne, Giovanna em italiano e Joana em português. Ela nasceu na região da Picardie, norte da França. Os Bourlemont trazem o sobrenome forte das famílias típicas deste lugar, com seu passado nobre e vigoroso.

A grande heroína e santa francesa, Jeanne d’Arc, tem raízes na Picardie e, provavelmente, é descendente dos Bourlemont. Ainda criança, Jehanne muda-se com a família para a região da Provence e vai se estabelecer em Tarascon. Numa típica capela medieval de Tarascon, do século IX, dedicada a São Vitor, que a mãe de Francisco foi batizada. Ali viveu, casou-se, ficou viúva e conheceu Pedro Bernardone, o pai de Francisco, que a leva para Assis.  Em Assis, esta nobre e fina mulher não passa despercebida. É querida pelos assisienses, que na dificuldade de pronunciar o seu nome francês, carinhosamente o abreviam chamando-a como Dona Picà. Ela ensinou a Francisco o francês com dialeto provençal, cantou com ele as Cantiga de Amor, as Cantigas de Amigo e Canções de Gesta da nobre Cavalaria Medieval. Percebeu os dons naturais e as virtudes conquistadas de Francisco. Deu a ele a fé e trabalhou suas qualidades.

Toda virtude natural bem trabalhada leva à perfeição. Como o pai, devido ao seu ofício de mercador, vivia muito ausente de casa, Dona Picà está sempre mais próxima ao filho e passa para ele o “esprit de finesse”, a alegria, a positividade do querer. A maturidade afetiva dada pela mãe influenciou a sua liberdade interior. Diz Tomás de Celano: “E aconteceu que, como seu pai por causa familiar urgente se tivesse ausentado por algum tempo de casa e como o homem de Deus permanecesse algemado na prisão da casa, sua mãe, que ficara sozinha com ele em casa, não aprovando o ato de seu marido, consola o filho com palavras ternas. E ao ver que não podia chamá-lo de volta de seu propósito, suas entranhas maternas se comoveram para com ele e, tendo quebrado as cadeias, permitiu que ele partisse livre”.

Continua

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