quarta-feira, 14 de março de 2012

A Espiritualidade do Oriente e do Ocidente - 1

INTRODUÇÃO
Inicio aqui umas reflexões onde coloco algumas aproximações entre a tradição espiritual oriental e ocidental. Estudar e conhecer  a Espiritualidade nos dá um oxigênio para uma reflexão teológica, para nossas vivências e práticas. O que é a Espiritualidade será sempre a pergunta do humano religioso. É a mesma coisa de perguntar: quem é Deus? Quem sou eu?  

O oriente quando fala de espiritualidade fala no seu aspecto místico, orante, contemplativo e verificativo; a espiritualidade é vista a partir do Espírito, deixar-se transformar num ser sagrado. A experiência espiritual passa pela mediação do conhecimento: experimentar, conhecer e depois falar.
O ocidente se preocupa mais com o “ethos”, isto é, o humano deve dar conta do espiritual a partir de valores e códigos religiosos. Ser espiritual significa ser ético. O humano ocidental é habituado primeiro a fazer o bem para depois dizer que é Deus que age em sua vida.

O oriental primeiro abraça o divino e depois, lado a lado com o mistério, parte para as práticas.
No ocidente a busca espiritual é mais doutrinal, é mais estudo.

No oriente é um conhecer intelectual mais experiencial. É saber o que se conhece. João Evangelista escreve a partir da experiência que teve de Deus. Gregório Nazianzeno diz: “Quem não sente a experiência de Deus é como um cadáver que é vestido, mas não sabe que está vestido”.

O ser espiritual é aquele que fala da experiência que tem de Deus. Quem não faz um caminho espiritual não pode falar de Deus. Tanto para o oriente como para o ocidente, espiritualidade não é qualquer coisa que alimenta a vida, mas é Alguém. É o sentimento de uma presença. Deus não é uma experiência filosófica, mas um fato de Amor.

O ocidente gosta de “fazer espiritualidade”, isto é, evidenciar movimentos, criar eventos espirituais e um mar de literatura edificante.

O oriente diz que não basta apenas fazer, mas pregar a espiritualidade e ensiná-la.
No ocidente Deus é conhecido a partir de nós; não  conhecemos  Deus como Ele é, assim como nós nos conhecemos. Há uma busca da espiritualidade para encontrar-se.

No oriente se conhece a Deus mais que a si mesmo. Mesmo com todo limite humano busca-se a substância de Deus e a energia de Deus. Esta é a alma de todo movimento espiritual do oriente.  O Sagrado sai de si, vem a nós e nos transforma. Fala-se mais do Espírito. É um contato com o Espírito, um contato que acende!  São Basílio Magno diz: “Nós conhecemos Deus em suas energias”. A essência de Deus é o Santo dos Santos que permanece escondido.

No ocidente há também uma mística profunda; a mística é um impulso para determinar projetos pessoais e comuns, para motivar grupos, criar belos textos espirituais.

No oriente, a mística leva a mente a contemplar; quanto mais contempla mais encontra a sua natureza divina.

No ocidente conhecer é amar mais; no oriente conhecer é comunhão com o divino. Tanto no oriente como no ocidente, o humano é imerso no tempo e no espaço, por isso concebe tudo no tempo e no espaço. Mas Deus está além do tempo e do espaço, por isso o humano não consegue enquadrá-lo. Deus é além de tudo o que existe. Quando se olha o sol ele cega. O excesso de conhecimento de Deus pode cegar. Deus é além do ser em si mesmo. A espiritualidade é sempre um estar diante desta verdade: união do humano com o divino e do divino com o humano para uma iluminação da existência. É criar uma disposição de espírito: Deus se revela à vida! É preciso estar nesta disposição constantemente numa aventura que tem início, mas não tem  jamais um fim. Deus não se esgota.

A tradição oriental chama isto de experiência apofática. O que é o apofatismo? É a via teológica que se realiza por negação; que se aproxima de Deus pelo indizível e pelo inacessível, pelo inefável. Este não é Deus... Deus é muito mais! A nossa experiência é muito limitada, Deus a supera. Ele é fora de qualquer conceito, vai além do conceito. Deus é potência, Deus é força! Esta experiência apofática é feita numa atmosfera contemplativa.

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