segunda-feira, 2 de abril de 2018

REFLEXÕES SOBRE A DIMENSÃO POLÍTICA DO FRANCISCANISMO - 5


São Francisco de Assis e a Teologia da Libertação


Gostaria também de responder a uma colocação feita para mim numa assessoria que estava prestando, uma abordagem feita na pausa, com pergunta pertinente e capiciosa ao mesmo tempo: “Vocês, frades são todos TL, mas não percebem que o fundador de vocês era menos radical, ele era romântico, vivia entre pássaros e flores, banhava-se nas cachoeiras, amansava lobo, poupava lesmas pelos caminhos”.  Sim, meu fundador, Francisco de Assis, o santo do Irmão Sol e Irmã Lua, tem uma dimensão celebrativa da existência. E não há apenas romantismo nisto. Ele pode estar na beleza do natural porque afinou seu sensível olhar através do real.

Para Francisco de Assis existe vida celebrada, fé celebrada, realidade celebrada. Existe um texto que preciso retomar aqui: “Se é verdade, como disse um romancista em tempos sombrios de repressão nazista, de que pode haver situações em que falar de rosas parece constituir um crime, porque implica silenciar sobre tantos erros, é também verdade que para os cristãos, junto com o esforço de transformar a vida, há também um lugar para a celebração”. Realidades da fome, do empobrecimento, da exploração, dos atentados, das intervenções, da morte precoce de tanta gente, de tudo o que o mundo e o nosso país hoje enfrentam, não pode deixar ninguém indiferente. O jeito franciscano não é indiferente e se faz um grito profético. Viver, celebrar e falar é instaurar uma reflexão que impacta, que suscita debates, rejeições e críticas e também entusiasmos. No meio de tudo isto importa não perder a questão fundamental e manter a suficiente serenidade para ver as coisas se um modo bem claro, e não no embotamento das mídias.

Francisco de Assis não ficou apenas à mercê de análises sócio-teológicas, um ponto de vista vindo de fora. Ele se envolve lá onde está o povo com jeito penitente e pedindo mudanças. Ele não é apenas um homem que fez um caminho de santidade e ficou na lembrança das ladainhas. Ele torna-se um fato, um acontecimento. Foi para dentro da eclesiologia de então e saiu dos limites da Igreja para se tornar um fenômeno público da cristandade medieval e moderna.

CONTINUA

FREI VITORIO MAZZUCO

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