sexta-feira, 6 de maio de 2011

Algumas reflexões sobre o Sagrado Feminino - 4

“Provei da água e do fogo do amor,
na chama onde se abrasa o coração,
e fui me dissolvendo como a água;
harpa que afina o amor ao coração.”
(Rumi)

Temos que afinar o nosso espírito, a nossa mente e coração lendo quem nos revela “o corpo transparente da palavra”. Queria hoje indicar uma leitura e uma audição. Leiam o fabuloso livro “Canto da Unidade: em torno da poética de Rumi”, de Marco Luccchesi e Faustino Teixeira, Fissus Editora, 2007; e ouçam repetidas vezes o belo CD: “Poemas Místicos do Oriente”, produzido e musicado por Marcus Viana, e na voz e incrível interpretação de Letícia Sabatella, da gravadora Sonhos & Sons. Nestas duas referências vamos encontrar textos da ensolarada figura do poeta persa Jalal-al-Din Rumi (1207-1273). Como diz a obra citada: “Um dos maiores expoentes da literatura mística de todos os tempos. Abriu portas e janelas do conhecimento humano para a compreensão do mistério maior do Amor e das verdades que conduzem ao incêndio divino”.

O que tem a ver estas obras com o Sagrado Feminino? Já dizia acima que precisamos afinar o espírito; temos que exercitar a sensibilidade, fazer valer um outro olhar do humano, aquele olhar que atravessa o tema do Amor como “chave essencial para a compreensão da espiritualidade”.

O Feminino filtra muita coisa pelo coração e tece o fio da trama capaz de “devastar os atalhos que velam o mistério que habita o coração de sua linguagem”. Como diz a obra: “O fio condutor é o tema do Amor, que inspira os buscadores na sua inflamada busca do Mistério maior. O coração aparece como o órgão sutil da percepção mística, capaz de refletir a riqueza multiforme das manifestações de Deus. Mas só aquele que vive a dinâmica de despojamento e abertura torna-se capaz de perceber sua presença sutil, terna e acolhedora”.

“Habita com teu canto os corações,
e segue alegremente noite e dia;
se cessas um instante, morreremos.
Teu canto é uma
flauta embevecida”
(Rumi)


Que a capacidade do feminino de irradiar naturalmente o Amor nos dê “a ousadia de ampliar o olhar e buscar captar dimensões escondidas de uma Realidade que traduz a razão mais profunda do nosso ser”. Os grandes místicos, os poetas, as almas femininas são “guias essenciais nesta travessia de olhar. Na sua experiência de intimidade com o Mistério maior, abrem caminhos inusitados de percepção do Real, firmando a cidadania de um outro mundo que habita o mundo, e que é impermeável às palavras. O Místico é aquele que consegue enxergar para além da rota conhecida, traçada no mapa do conhecimento usual, e captar a dimensão da experiência interna, servindo-se da lógica do coração e dos atalhos da inspiração”.

O Amor e a Mística andam juntos, aproximam o humano do divino numa natural fusão. “O místico é alguém que passa por um aprendizado que se dá por via direta do dom divino (...) conhecimento intuitivo de Deus, os místicos dão um passo além do conhecimento discursivo e apontam caminhos que indicam uma divina inspiração”. O Amor permite e favorece a percepção do brilho do Sol de Deus. “O Amor é, antes de tudo, ‘luz sobre luz’, um ‘oceano cuja profundidade é invisível’.” Ao falar sobre o seu mistério e charme “o céu canta”. Os seres humanos são como que gotas no oceano do Amor. “Deus é, sobretudo amoroso, e sua graça toca o coração de cada ser humano em momentos inesperados e faz ali sua morada”

“Teu amor chegou a meu coração e partiu feliz.
Depois retornou e se envolveu com o hábito
do amor, mas retirou-se novamente.
Timidamente, eu lhe disse: “Permanece dois
ou três dias!” Então veio, assentou-se junto
a mim e esqueceu-se de partir”

Segundo Rumi, o dom desta presença amorosa deve ser acolhido pelo ser humano com reconhecimento, com agradecimento permanente e, em particular, com muita gratuidade. “O Amor deve ser inteiramente gratuito, assim como é gratuito o envolvimento de seu abraço”. Voltemos ao tema do coração, “órgão sutil da percepção mística”, órgão que possibilita o conhecimento, a intuição compreensiva, a gnose, os mistérios divinos. “É no coração que se vê refletido, como num espelho, as diversificadas formas de manifestação de Deus”. “Aqueles que poliram o coração transcendem o mundo das formas e das cores e podem contemplar sem cessar a Beleza de cada instante”.

Que o nosso coração abrace estas palavras, que elas nos leiam; que nosso ouvidos façam uma profunda escuta da Voz do Amor.
Sagrado Feminino - arquivo 04

Um comentário:

Anônimo disse...

Ótimo blog, Frei Vitório! Deus o abençoe!

Abraço de um irmão muçulmano!