segunda-feira, 2 de novembro de 2009

Irmã Morte



Francisco de Assis preparou o momento da sua morte como uma grande celebração. Não quis o véu da tristeza mas sim o sereno júbilo dos realizados. Convocou os frades para entoarem o Cântico das Criaturas onde um verso assim dizia:


"Louvado sejas, meu Senhor, por nossa Irmã, a morte corporal, da qual homem algum pode escapar!" E assim aconteceu o seu "transitus", isto é, sua passagem para a vida eterna, no entardecer do dia 03 de outubro de 1226. .

Assim, a palavra "trânsito" passa a ser uma tradição franciscana para lembrar a última e definitiva passagem do humano. É a viagem dos justos para a eternidade, a passagem desta vida para a vida eterna. A este trânsito alude o prefácio da Missa de Exéquias: "aos vossos fiéis, Senhor, a vida não lhes é arrancada, mas apenas transformada".

Que transformação é esta? A alma entra glorificada no Paraíso que construiu já aqui nesta vida. Constrói na força do instante bem-vivido, cada dia, para habitar na eternidade. O jeito franciscano de viver é abraçar a pureza evangélica; ser um amante da fraternidade; um apóstolo construtor da paz; cultor da pobreza, alegre e pequeno servidor; denunciar com o testemunho de vida a vaidade e o poder; ser uma criatura livre nas asas do espaço e do tempo; cantar sem cessar a alegria de viver! Quem vive assim, permanece!

A morte não marca o fim da existência do humano que crê, mas abre as portas para a verdadeira imortalidade. Quem vive imerso na Grandeza do Amor celebra, com os irmãos e irmãs, a vida de tudo e de todos, imprimindo certeza e alegria de quem sabe que, vivendo uma vida fiel aos valores do Evangelho, vai participar da Ressurreição. .

A morte dá um acabamento final a uma vida de empenho, ascese, entrega e penitência. É um happy end. Uma apoteose final. Ser penitente é limpar dentro de si e na vida aquilo que não é bom para se chegar a uma retidão de vida. Não adianta lutar por uma ordem externa, se o interior não tiver conquistado a própria harmonia. Superar dificuldades, doenças, sofrimentos, limitações pertence também ao caminho da perfeição.

A boa tradição franciscana acolhe serenamente a morte, cantando, porque a vê como o momento culminante da vida. É a porta para a Vida Eterna! "É morrendo que se vive para a Vida Eterna!" Hóspede bem-recebida é abraçada por um divino nobre e não por um humano amargo. A morte é consumação da existência e a entrega de uma vida vivida em plenitude. A consciência da morte é que dá sentido à vida, pois esta é compreendida como mera transitoriedade. Através da morte podemos contemplar a presença do Grande Pai acolhendo, recebendo o filho ou a filha amada. A entrega final e reconciliadora com quem nos deu a origem. Louvado sejas, meu Senhor, pela Irmã Morte! Morte que abre as portas para ti! Morte que chegou na hora devida, preparada, amada, intensa. Morte na Paz, morte no Bem, morte para a Vida, morte sem morte, morte Irmã!

2 comentários:

Ir.ines disse...

Hoje, estive no cemitério São Luis fiquei um bom tempo pensando sobre morte e vida não do "Severino", mas estes dois aspectos que tanto lutamos. enquanto estava sentada embaixo de uma linda árvore ouvi uma mãe dizer: "ainda bem que prenderam meu filho, pois se não tivessem prendido hoje eu estaria visitando o túmulo dele." Ao ler este texto lembrei daquela mulher, que não importa a condição do filho, o que importa é que ele está vivo. Ela espera a vida.
Que possamos esperar a vida quando muitas vezes não a vemos, para podermos celebrar a morte assim como Francisco e Clara.
Paz e bem! Ir. Ines

Rivaldo R.Ribeiro disse...

Que coincidência ler esse texto, hoje eu conversava com um senhor de 82 anos e falamos sobre isso: morte sem medo.

Quando conheci São Francisco, comecei a ver a morte de forma diferente, a relaciona-la com a fé. Pois se temos fé não há motivo de termos medo da morte, pois iremos encontrar com o Pai, Jesus, enfim com o Reino de Deus.

E esse senhor no alto da sabedoria do seus 82 anos, me falou exatamente assim: Se vivemos uma vida de fé, honestidade, bondade, sem medo da morte.Ele apenas ressaltou o medo da forma, o sofrimento, mas para isso deveremos orar a Deus que quando chegar o momento que seja uma boa morte.