terça-feira, 28 de março de 2017

Francisco de Assis e a alegria espiritual


Na segunda vida de Tomás de Celano temos o relato: “Este santo afirmava que o remédio mais seguro contra as mil insídias e astúcias do inimigo é a alegria espiritual (...) O demônio exulta, acima de tudo, quando pode surrupiar ao servo de Deus a alegria do espírito. Ele leva um pó que possa jogar, o mais possível, nas pequenas frestas da consciência e sujar a candura da mente e a pureza da vida. Mas, quando a alegria espiritual enche os corações, em vão a serpente derrama o veneno letal (...) Quando, porém, o espírito está choroso, desolado e tristonho, é facilmente absorvido pela tristeza ou levado a alegrias vãs. Por conseguinte, o santo esforçava-se por manter-se sempre na alegria do coração, por conservar a unção do espírito e o óleo da alegria. Com o máximo cuidado evitava a péssima doença da tristeza, de modo que, quando a sentia a penetrar na mente, ainda que um pouquinho, corria o mais depressa possível à oração” (2Cel 125).

Numa marchinha de carnaval antiga, pedia-se que o guarda colocasse para fora do salão quem jogasse pós de mico na alegria dos outros. O demônio, isto é, a contrariedade da vida, a encarnação do espírito do mal em alguns detalhes da vida, gosta de sujar a serenidade. Nós gostamos de jogar o pó da negatividade na fluência natural da vida. Levantamos com notícias tristes e trágicas e deixamos que elas sejam a opaca lente de nosso olhar. No café da manhã trocamos receitas de psicotrópicos; almoçamos fazendo uma atualização das mortes acontecidas; jantamos notícias de uma cidade alerta contra um onipresente perigo. Vemos o mal no porteiro, na cuidadora, no rapaz que veio instalar a Net, no cachorro da vizinha e em todas as comidas que saboreamos porque acreditamos que tudo faz mal! Se damos espaço a isso sufocamos a alegria espiritual.

Francisco nos ensina que diante da doença, da tristeza, possamos correr o mais depressa possível à oração. Dividir preocupações de um modo orante é o salmo da cura em meio a tormentos. Almas que rezam têm a serena alegria dos que confiam. Na oração do salmista tem sempre uma saída para as tristezas do mundo. Alegria vã é alegria vazia. Os vãos são espaços vazios que precisam ser preenchidos. Que tal encher o vazio com preces?

FREI VITÓRIO MAZZUCO

Imagem do artista plástico carioca Vagner Aniceto/http://www.vagneraniceto.com.br

sexta-feira, 17 de março de 2017

FRANCISCO DE ASSIS E DE JESUS

Francisco é o cristão canonizado com o maior acervo bibliográfico. Este livro propõe mostrar Francisco de Assis como uma testemunha qualificada de conformidade a Jesus Cristo. Para Francisco, o Evangelho não é um livro de leitura e consulta, mas uma aventura na qual entramos. É “Vem, e segue-me!” e não "Toma e lê!”. Francisco está inteirinho nesta diferença.

O livro quer mostrar como Francisco revela a humanidade de Jesus Cristo. O autor é um frade capuchinho, ex-provincial de sua Ordem. Mostra com clareza o espírito franciscano e convida-nos a compreender o que deve ser a preocupação com a exclusão, qualquer que seja a forma. O autor nos mostra que o Evangelho de Jesus Cristo é um apelo, em nome de Deus que é o “Pai de toda humanidade”, a instaurar um novo tipo de relações humanas, mais do que viver a pobreza.

Um livro necessário para a Espiritualidade! Leia: Francisco de Assis e de Jesus, de Marie-Abdon Santaner, Edições Loyola, São Paulo, 1984

FREI VITÓRIO MAZZUCO 

terça-feira, 7 de março de 2017

São Francisco e as mulheres que marcaram sua vida



Para o Dia da Mulher, umas palavras a partir da experiência de São Francisco. Ele tem uma aguçada sensibilidade muito própria da sua personalidade e espiritualidade. Colocou em sua vida, numa medida exata, o equilíbrio necessário da incessante busca de ser um humano forte. Nele, o masculino e o feminino fraternizam-se. Há a presença histórica de mulheres em sua vida.

Falemos de sua mãe, Jeanne de Boulermont, a mulher que veio da região francesa da Picardia, por isso mesmo conhecida em Assis como Dona Picà, a mulher que veio da distante região dos nobres e cavaleiros. Nela Francisco viveu a intensidade do Amor de Mãe. O amor do cuidado, da compreensão, da prece, da preocupação, das canções ensinadas, da língua francesa, da cortesia, da fineza, da ternura e das múltiplas virtudes. O seu pai era homem de negócios e saiu para trazer para a família a sobrevivência. Sua mãe, mulher da educação e da casa, moldou nele a convivência. Deixou no filho as marcas da nobreza, da fé em Deus, do amor ao próximo, da generosidade, da pureza e mansidão, uma qualificada consanguinidade biológica.


Falemos de Clara de Assis, sua seguidora a partir do Esposo Amado, sua companheira e fundadora do jeito terno e claustral, contemplativo e  acolhedor mosteiro clariano franciscano, raiz de uma exuberante floração. Com ela, Francisco aprendeu a forte presença da busca da perfeição. Entre os dois há troca de projetos comuns, encontros para falar do coração em chama, santa intenção e o cuidado eterno para com a Cruz de São Damião, o lugar da inspiração. Entre os dois um sagrado Amor de contemplação, esponsalício místico, expressão feminina e masculina do Evangelho, oração contínua, comunhão perene, uma transformadora consanguinidade espiritual.

Falemos de sua amiga, Jacoba de Settesoli, com quem viveu a relação da profunda amizade. Jacoba era nobre, rica e caridosa. Dividia virtudes e bens. A grande amizade nas horas da vida esteve presente na hora do Trânsito de Francisco para a eternidade. Na celebração deste maravilhoso rito de passagem não podia faltar a figura desta mulher que trouxe seu doce preferido, o “mostaciolli”, que providenciou também a túnica e os panos que prepararam o sepultamento do amigo. Viu suas chagas e o aconchegou em seus braços na agonia. Uma leiga que viu de perto o mistério e maravilhas realizados pelo Senhor naquele Poverello e depois em sua Ordem. Entre eles, uma fecunda consanguinidade afetiva.

A mãe, Clara e Jacoba deram a sua sonhada Fraternidade o jeito materno de ser, a irmandade e a amizade. São virtudes encarnadas, nascidas de personagens reais. No Dia da Mulher, aprendamos com Francisco que o ser humano masculino e feminino vive na mãe, na esposa, na irmã, e no sonho de colocar sob as asas da proteção e do amoroso cuidado todos os que formavam e formam a sua bela família, a consanguinidade fraterna. Que São Francisco e Santa Clara abençoem todas as Mulheres em seu merecido e celebrativo dia!

FREI VITORIO MAZZUCO FILHO