segunda-feira, 31 de outubro de 2016

Que história é esta de chamar a morte de irmã?


No Cântico das Criaturas existe o famoso verso de Francisco de Assis: ”Louvado sejas, meu Senhor, pela Irmã nossa, a morte corporal, da qual nenhum homem vivente pode escapar”; ou como relata Tomás de Celano: “Convidava também todas as criaturas ao louvor de Deus e, por meio das palavras que outrora compusera, ele próprio exortava ao amor de Deus. Exortava ao louvor até a própria morte, terrível e odiosa para todos, indo alegre ao encontro dela, convidava-a a sua hospitalidade; disse: “Bem-vinda, minha irmã morte!”(2Cel 217,7). Francisco preparou ritualmente sua morte, fez da sua morte uma celebração, um rito de passagem. Por estar plenamente na vida e na totalidade da existência integrou a morte não como  um absurdo, mas como parte natural do ciclo da vida.

Francisco de Assis é uma afirmação da vida por isso pode encarar a morte como um processo da curva biológica que traça a linha do nascer, crescer, envelhecer, morrer no momento oportuno ou prematuramente. Francisco preocupou-se com a vida e não com a doença e morte. Morre cantando a vida e sua essência. Ao celebrar a morte, ele a encarou de frente como  aquela que lhe estendia a mão para concretizar  o grande sonho humano: a imortalidade! Ele sabe que não está perdendo nada da vida porque encontrou e ganhou a vida plena que estava dentro de si mesmo. Fez do Amor seu projeto de vida, amar a Deus, amar a humanidade, a fraternidade, amar todos os seres. Esta confraternização universal do Amor não conhece a morte e o morrer. Tudo fez parte de sua vida, inclusive a finitude. Ele pode dizer como Santa Terezinha: “Eu não morro... entro na vida!”. Ele pode dizer como Gabriel Marcel: “Amar é dizer: tu não morrerás jamais!”.

Francisco de Assis sente, pensa, sente e age com a certeza de que a morte não é um fim, mas a grande oferenda, a entrega, a restituição de si mesmo para Deus. Conquistou a esperança dos justos, que é imortalizar-se e andar para sempre no florido e fecundo caminho do Paraíso. A força vital que emana de Francisco de Assis o fez dar boas vindas a Irmã Morte.

Frei Vitório Mazzuco

terça-feira, 25 de outubro de 2016

Francisco de Assis e a minoridade


Neste mundo tão competitivo, como falar de Minoridade? Anda meio esquecido este tema, podemos até parodiar o samba do Raça Negra: “Que é que eu vou fazer com esta tal Minoridade...” Aliás, Minoridade não é apenas um termo, mas uma herança da forma de vida franciscana. Está nos escritos, na virtuosidade franciscana e na sigla da Ordem. Minoridade não está ligada a minoria, e não tem aqui a conotação de grupo étnico minoritário na sociedade.

Na verdade, Francisco nunca usou a expressão Minoridade, mas sim Menor, não no sentido daquele que ainda não atingiu a maioridade, mas sim como o mais humilde, o mais simples, o mais pequeno. Diz na Regra Não Bulada: “Do mesmo modo, nenhum dos irmãos tenha qualquer poder ou domínio, sobretudo entre si. Porquanto, como diz o Senhor no Evangelho, os príncipes das nações têm domínio sobre elas, e os que são maiores entre as gentes têm poder sobre elas. Entre os irmãos, porém, não há de ser assim; mas aquele que quiser ser o maior entre eles, seja deles o ministro e servo, e aquele que é o maior faça-se entre eles o menor” (RnB 5,9-12). Minoridade é uma conversão de mentalidade: estar em todas as relações como aquele que serve. Não se pode separar Minoridade e Serviço. É princípio da Boa Nova, prática de Jesus.

Tomás de Celano coloca a Minoridade como fundamento de todas as virtudes: “Foi ele, com efeito, quem fundou a Ordem dos Irmãos Menores e lhe conferiu esse nome nas circunstâncias que seguidamente se referem. Estavam para serem escritas na Regra as palavras “e sejam menores”, mas ao proferir estas palavras, naquela mesma hora, disse: “Quero que a nossa fraternidade se chame 'dos irmãos menores'”.

E eram realmente menores, porque se submetiam a todos, buscando sempre o último lugar e os ofícios a que estivesse ligada alguma humilhação, afim de merecerem, fundamentados em verdadeira humildade, erguer sobre ela o edifício espiritual de todas as virtudes” (1Cel 38).

Autoridade não é poder, mas é expressão do serviço fraterno. O modo de servir é na humildade e na simplicidade. O modo de servir é abaixar-se até a pessoa e lavar seus pés, como o Senhor fez: “Eu não vim para ser servido, mas para servir, diz o Senhor. Os que foram incumbidos acima dos outros, no ofício de prelado, tanto se gloriem desse ofício, quanto se gloriariam se fossem encarregados de lavar os pés aos irmãos” (Adm 4).

Minoridade é um modo forte de amar, é ajoelhar-se diante das criaturas como fez um Deus encarnado. É inverter o status, a hierarquia, o poder. A grandiosidade da pessoa não está nos seus títulos, mas na sua capacidade de servir. Minoridade é uma identidade crística. Servir como o Senhor serviu.

FREI VITÓRIO MAZZUCO

segunda-feira, 3 de outubro de 2016

FRANCISCO DE ASSIS E SEU CONTÁGIO DE AMOR


Mais uma vez a Festa de São Francisco de Assis, e cada ano, desde o Transitus no dia 03 até 04 de Outubro, a sua presença é sempre um momento celebrativo, reflexivo e provocativo. Ele é um grande apelo espiritual, uma espiritualidade contagiante que se adapta em vários jeitos do modo de viver de ontem e de hoje. Sua espiritualidade é razão e Forma de Vida, uma estreita ligação entre fé cristã e a vida quotidiana, o Evangelho na vida e a vida burilada pelo Evangelho. Ele vive a Fraternidade de um modo que ela reinvente as relações humanas entre si e com todos os seres.

Francisco de Assis viu na Encarnação um jeito de Deus humanizar-se com extrema humildade e simplicidade. Nós vemos em Francisco um modo de divinizar o humano, para que se encontre uma consistência em meio a tanta fragmentação. Deus desejou estar entre nós, Ele tem prazer de conviver entre nós, o mistério da Encarnação é um mistério gozoso, e Francisco de Assis fez a festa luminosa do Natal ser perene. Viver nos caminhos de Francisco é desejar uma vida fraterna que refaça o jeito de Deus morar na casa do humano.

Francisco de Assis teve bem clara a certeza de que o Senhor mesmo revelou o que ele deveria fazer. Ele é um convertido que deixa-se conduzir pelo Senhor. Fé e conversão não separam. Porque crê, Francisco abandona-se nos desígnios de Deus. Mudou o rumo da sua vida pois teve a certeza onde Deus o levaria pelos caminhos da Boa Nova. Muitos pensam que conversão é isto: eu era um bêbado e parei de beber. Conversão não é somente frear vícios, mas sim aceitar o fato de que sozinho não se pode fazer nada, e fazer com a vontade do Senhor.  Não é focar o eu, mas sim priorizar o modo como Deus ama, ampliando o eu em nós. Francisco de Assis fez o Amor de Deus amar radicalmente através dele e da oferenda da sua vida que se entregou por inteira ao fraternismo universal.

Francisco de Assis sonhou brilhar entre as pessoas de seu tempo, seduzir com a sua liderança a juventude de Assis, partir para as honras da Cavalaria Medieval e chegar à nobreza. Num determinado momento de sua vida fundiu seus sonhos com os sonhos de Deus. É um convertido que renuncia projetos dos costumes nobres de então para sonhar o que Deus sonhou para este mundo: Reino de Deus é casa reconstruída, é humanidade reconstruída é mundo reconstruído. Bens da terra passam e ele desapropriou-se de bens para buscar o tesouro eterno. Como não tinha mais olhar voltado para as atrações do material começou a ver melhor os despossuídos de cuidado. Vai aos pobres como um pobre, vai ao leproso como um abraço, vai a Cúria Romana como um mendigo pedindo para viver pedaços do Evangelho para conquistar a inteireza da Palavra que é Vida.

Francisco de Assis foi de Assis para o Oriente, para o Alverne, para as florestas, para as praças, para onde vivia sua fraternidade primitiva, foi por muitos lugares para mostrar um único lugar: a casa do Amor! Esta casa que deve ser restaurada onde quer que estejamos! Boas festas do Seráfico Irmão e Pai!

FREI VITÓRIO MAZZUCO