quarta-feira, 28 de setembro de 2016

OS ÍCONES FRANCISCANOS



A tradição franciscana e clariana tem uma riqueza inesgotável de sinais e símbolos, uma iconografia expressiva que se revela na Porciúncula, sandálias, TAU, cordão, ostensório de Clara, o Espelho,  o hábito, o Crucifixo de São Damião, as mãos cruzadas revelando as Chagas, o rosto sempre sereno de Clara, o lobo de Gúbio, e tantos outros. Os ícones franciscanos revelam uma força espiritual muito grande que marcou tantas vidas, uma energia vital silenciosa e inspiradora a mostrar criatividade.

Os ícones franciscanos são materiais, físicos, espirituais e psíquicos e espelham meditação, presença, harmonia, intuição, fantasia, emoção, caminho trilhado, funções rituais e experiências místicas. Mostram que o uso do símbolo é sempre benéfico; um código de mandato, unção, uma doutrina em forma de sinais. Simplicidade e arte como transformação de uma vida. Um ícone vale mais do que mil palavras!

Gosto de estar nos espaços franciscano e contemplar a beleza de seus ícones. A luminosa presença do Crucifixo de São Damião a mostrar que o Amor é sempre difusivo, e que toda reconstrução começa por aí. O TAU é de uma força protetora incrível. A Porciúncula é simplicidade e imponência. O rosto de Clara a dizer para o espelho: O Amado me quer como eu sou! Da experiência pessoal a uma experiência coletiva de fé. Os ícones estão sempre a evocar este jeito franciscano de se colocar de maneira evangélica, mística e profética. E como precisamos destas marcas e motivações franciscanas! Intuir e sentir profundamente, intuir e dar passos missionários. O fato é que estes ícones atravessam o tempo sempre de forma nova, nos corpos, nas paredes e nos altares, estão abertos para as surpresas do espírito. E não podemos esquecer a bela saudação que por si só  tornou-se um ícone: PAZ E BEM!

Veja também: Símbolos franciscanos

FREI VITÓRIO MAZZUCO

sexta-feira, 16 de setembro de 2016

Francisco de Assis – o amor que deixa marcas 3



Francisco estigmatizado é o corpo traspassado de um desejo profundo. É o corpo que se fez portador da vontade do Senhor assim como Maria: “Faça-se em mim segundo a tua Vontade!” Maria deu-nos o Menino, o Emanuel, o Deus Conosco. Francisco no Deus o Cristo Pobre, Humilde e Crucificado. Greccio e Alverne se encontram na mesma verdade! Este Corpo arde e fala! Este corpo concretizou encontros e rupturas. Deu todos os bens para abraçar a Pobreza. Deu todo o afeto para abraçar o leproso. Deu toda a sua pureza de coração para abraçar a fraternidade. Deu todo os seus ouvidos ao Crucificado de São Damião que pediu a reconstrução da casa. Deu um novo início ao Evangelho transformando- o em Forma de Vida.

No corpo estigmatizado de Francisco a impressão de sua vida inteira, estigmatizada pela Pobreza, Obediência e Pureza de Coração. No corpo de Francisco as marcas de sua marginalidade assumida, pois foi rejeitado por nobres e cidadãos de sua época.  No corpo de Francisco o Amor devorante de Deus e por Deus, um Amor capaz de assumir a fraternidade dos marginalizados da sociedade oficial. Como o Amado ele também abraçou os cegos, os camponeses, os paralíticos, os que não podiam ganhar nada para viver, as mulheres que não podiam nem falar e nem seguir fora da vigilância das autoridades. Ele assumiu em si os estigmas sociais de seu tempo. Não foi um bode expiatório, sim um reformador fraterno de um modo mais leve de viver o Evangelho.

No corpo estigmatizado de Francisco a responsabilidade de conduzir uma Fraternidade que nele acreditou e que não tinha onde reclinar a cabeça. Eram peregrinos e viandantes, vivia com os seus companheiros primitivos   a beleza de estar no mundo como um claustro transitório. Neste mundo encontraram a criação que restituíram ao Criador, pois viram nela a fonte da beleza, do louvor e da graça, podiam falar da Criação como uma consanguinidade familiar, um laço universal que autoriza a falar de todas as criaturas como irmãos e irmãs. Devolveram tudo para não ter posse e inveja de nenhum acúmulo. Viveram uma metamorfose ambulante.

No corpo estigmatizado de Francisco a consolação bela e prudente da serena irmã e companheira, Clara de Assis! Ela entendeu que a Cruz tinha que ser guardada e cuidada para sempre, e que Francisco era seu Espelho. Francisco foi ao mundo levar o Evangelho. Clara ficou no claustro para reviver o ventre de Maria. O Amor tem que ser concebido cada dia. Francisco teve que sofrer pela liberdade de Clara, mas os dois foram muito felizes na liberdade do Amor. A natureza do Amor foi reconstruída como o verdadeiro claustro. Em Clara, a vida do Mosteiro é matriz na qual cada dia a palavra de Deus vem ao mundo. Clara não é apenas uma seguidora de Francisco, ela beija o sangue dos estigmas que ele conquistou e bebe na mesma Fonte.  Diz Angela de Foligno: “Na plenitude de Deus, eu colho o mundo inteiro, além de tudo, dos mares e dos abismos, do oceano de cada coisa. E em tudo, não percebo outra coisa que não seja a potência divina, de modo inenarrável. Então, no ápice da admiração, a minha alma exclama: esta natureza de Amor é grávida de Deus!” (Angela de Foligno, Memoriale, VI, 1285-1298 ).

No corpo externo estigmatizado de Francisco o esponsal com o corpo interno, a sua vida interior, marcada pelo Amor ao Crucificado. É uma prova evidente: ele que tocou com o Amor toda a obra de Deus, foi tocado com muito Amor pelo próprio Deus. Não é dor corporal, mas sentidos da vida que passam pelo crivo da entrega mais radical por Amor. Francisco não somatizou a dor, mas sim deixou que o Amor marcasse seu corpo. Ele e o Amor tornaram-se Um!

FREI VITÓRIO MAZZUCO

quinta-feira, 15 de setembro de 2016

Francisco de Assis – o amor que deixa marcas 2


CONFIRA: Francisco de Assis – o amor que deixa marcas 1

Estigmatização é renovação vinda de um caminho percorrido, não é algo imaginário, mas é real quando se percebe uma extraordinária transformação. Renovar-se é a força do humano que não se sente mais escravo de nada, é livre, diante da natureza e da lei, do selvagem ao civilizado, mas acrescenta algo à identidade humana. Francisco apresentou-se ao mundo com as marcas da fraternidade que vinha de uma vivência cristológica. Ele marcou a vida de um modo original. No Cântico das Criaturas ele integrou a terra e os astros, o masculino e o feminino, o selvagem e o civilizado. O seu corpo é o corpo da existência fraterna, por isso pode integrar o natural e o espiritual, o bárbaro e o comportado, o homem e a mulher. “ Se alguém está em Cristo, é nova criatura. Passaram-se as coisas antigas; eis que se fez uma realidade nova” (2Cor 5,17).

Voltando a Cícero, ele entendia o homem novo como aquele que assumiu um cargo público e deve ser o primeiro a mudar. Voltando a Francisco de Assis, ele é o mercador, filho de mercador, desprezado pela nobreza de então, mas assumiu o código de cavaleiro, não pela função em si, pois jamais fez a iniciação cavaleiresca, mas pelos valores que a sua vida exigia. Assim ele vence o desprezo e a incompreensão, ele vence a estigmatização social, mostrando que ele agora tem uma nova função, mesmo com todo sofrimento que isto implica. Ele não se identifica mais com as funções que o pai e a sociedade queriam para ele, mas sim com a nova função, levar ao mundo o jeito sempre Novo da Boa Nova, nascida no presépio e complementada na Cruz, caminho total de mudança radical. O Evangelho e o Reino anunciado e vivido por Jesus tornam-se a grande novidade: a inesperada Humanidade de um Deus e a inquietude humana em abraçar esta Humanidade Nova, que vai trazer a máxima liberdade, a fecunda liberdade, o espírito de coragem, o acesso definitivo à filiação divina.
No Testamento, Francisco diz: “Foi assim que o Senhor concedeu a mim” (Test 1), ele sabe que ele não foi um profissional da religião, mas um enamorado guardião de uma grande Inspiração. Os estigmas de Francisco são sinais concretos e não imaginação. O Cristo que o inspirou não foi estigmatizado, mas Crucificado! Os texto do Evangelho contam com mais detalhes a Paixão de Jesus do que o seu Nascimento.

A intensidade de uma vida deixa marcas e consequências. Não devemos nos prender à confusão entre narrativa e iconografia. Tem gente que está preocupada em provar se São Paulo caiu ou não do cavalo em Damasco. Toda a questão é ver o que mudou na vida de São Paulo. Nós também não precisamos buscar o corpo de Verônica Giuliani, Catherine Emmerich, e Padre Pio de Pietrelcina, para ver fenômenos excepcionais que aconteceram neles. Mas sim buscar indícios na vida de Francisco de Assis e de outros, quanto a uma grande transformação do humano em divino. Os estigmas de Francisco são descobertos e decifrados depois da sua morte, mas as marcas de Cristo já estavam com ele em vida. Marcas são reconfigurações em vida e que a morte deixa como uma herança.
Francisco de Assis recebeu a marca de um Serafim, é a polivalência de uma teofania. É a chama que se acende quando o Anjo e o Homem se encontram. É a figura divina inacessível ferida de Amor e dor que toca o Humano ferido de Amor e dor. É o encontro heroico com as marcas do Amor que glorificam uma entrega. Vida evangélica, vida mística, vida fraterna deixam marcas do interior para o exterior.

Francisco de Assis tem que ser visto na inteireza de sua vida e não no fato isolado de sua estigmatização. Porque os estigmas são convergência de um caminho de santidade, de fundador de uma Ordem, de um profeta de um novo mundo. Os estigmas recontam a vida de Francisco do início ao fim, mostram a inteireza de sua existência. Ele é o Humano Novo dentro de um mundo envelhecido de ontem e de hoje. Ele libertou o mundo de então da depressão coletiva, de voltar-se para o egoísmo, ambição e avareza, de fixar-se em propriedades, de privilégios de sangue e castas sociais, e fazer com que a fraternidade não fosse apenas um modo de monges viverem juntos, mas o jeito de conviver nas estradas do mundo. Ele fez Cristo voltar a andar nos caminhos mais costumeiros da vida, e este Cristo que um dia andou pelas estradas da Palestina amou tanto que foi crucificado. Sofrimento e perfeita alegria. Transformação e laços consanguíneos com o Amado. O corpo de Francisco foi marcado pela centralidade da sua busca: ser igual a Ele! Ele tatuou em sua carne a Palavra Encarnada e Inovadora.

Quem um dia deixou-se marcar pela Cruz trouxe a salvação para a humanidade. O Amor não tem sofrimento inútil. O Amor é uma fusão de vontades amantes. Diz Tomás de Celano: ”O filho respondeu diligentemente ao pai, sabendo que pelo Senhor lhe era dada a palavra da resposta: “Dize-me, por favor, ó pai, com quanta diligência teu corpo obedeceu às tuas ordens, enquanto pôde?” Ele disse: “Filho, dou meu testemunho de que ele foi obediente em tudo, em nada poupou a si mesmo, mas quase se precipitava a todas as ordens. Não fugiu de trabalho algum, não escapou de incômodo algum, bastava-lhe poder cumprir as ordens” (2Cel 211).

O corpo de Francisco de Assis não é mais dele, mas do Amor! Não é apenas um fragmento de macrocosmo, uma simples modalidade de viver nesta terra, não é um sangue anônimo. Ele é um corpo transfigurado pela vontade do Amor! É um corpo livre do mundo, da eclesiologia, das doenças e dos demônios, e de tudo o que o ameaça.  Agora não é mais corpo em forma de carne humana, mas sim totalidade de uma vida, é Corpo de Cristo! É um Corpo ritual e sagrado. Ele agora pode mostrar a dramatização de uma Encarnação: de Greccio ao Alverne este corpo mostra o que o Amor moldou em si. Em Greccio, Francisco encenou o Presépio, no Alverne Francisco sangrou a identificação com a Palavra Encarnada! É agora, não um Natal para crianças, mas uma Natividade para adultos. Quer Amar? Então toque o Verbo na sua manifestação mais natural e mais amorosa. Não é apenas ouvir a Palavra, mas ter a Palavra no sangue. A Palavra se fez Carne porque a Carne se fez Amor. É a Palavra expressiva num corpo expressivo. Agora o corpo tem uma importância eterna porque tem as marcas do Amor!

FREI VITÓRIO MAZZUCO


Francisco de Assis – o amor que deixa marcas 2


Estigmatização é renovação vinda de um caminho percorrido, não é algo imaginário, mas é real quando se percebe uma extraordinária transformação. Renovar-se é a força do humano que não se sente mais escravo de nada, é livre, diante da natureza e da lei, do selvagem ao civilizado, mas acrescenta algo à identidade humana. Francisco apresentou-se ao mundo com as marcas da fraternidade que vinha de uma vivência cristológica. Ele marcou a vida de um modo original. No Cântico das Criaturas ele integrou a terra e os astros, o masculino e o feminino, o selvagem e o civilizado. O seu corpo é o corpo da existência fraterna, por isso pode integrar o natural e o espiritual, o bárbaro e o comportado, o homem e a mulher. “ Se alguém está em Cristo, é nova criatura. Passaram-se as coisas antigas; eis que se fez uma realidade nova” (2Cor 5,17).

Voltando a Cícero, ele entendia o homem novo como aquele que assumiu um cargo público e deve ser o primeiro a mudar. Voltando a Francisco de Assis, ele é o mercador, filho de mercador, desprezado pela nobreza de então, mas assumiu o código de cavaleiro, não pela função em si, pois jamais fez a iniciação cavaleiresca, mas pelos valores que a sua vida exigia. Assim ele vence o desprezo e a incompreensão, ele vence a estigmatização social, mostrando que ele agora tem uma nova função, mesmo com todo sofrimento que isto implica. Ele não se identifica mais com as funções que o pai e a sociedade queriam para ele, mas sim com a nova função, levar ao mundo o jeito sempre Novo da Boa Nova, nascida no presépio e complementada na Cruz, caminho total de mudança radical. O Evangelho e o Reino anunciado e vivido por Jesus tornam-se a grande novidade: a inesperada Humanidade de um Deus e a inquietude humana em abraçar esta Humanidade Nova, que vai trazer a máxima liberdade, a fecunda liberdade, o espírito de coragem, o acesso definitivo à filiação divina.
No Testamento, Francisco diz: “Foi assim que o Senhor concedeu a mim” (Test 1), ele sabe que ele não foi um profissional da religião, mas um enamorado guardião de uma grande Inspiração. Os estigmas de Francisco são sinais concretos e não imaginação. O Cristo que o inspirou não foi estigmatizado, mas Crucificado! Os texto do Evangelho contam com mais detalhes a Paixão de Jesus do que o seu Nascimento.

A intensidade de uma vida deixa marcas e consequências. Não devemos nos prender à confusão entre narrativa e iconografia. Tem gente que está preocupada em provar se São Paulo caiu ou não do cavalo em Damasco. Toda a questão é ver o que mudou na vida de São Paulo. Nós também não precisamos buscar o corpo de Verônica Giuliani, Catherine Emmerich, e Padre Pio de Pietrelcina, para ver fenômenos excepcionais que aconteceram neles. Mas sim buscar indícios na vida de Francisco de Assis e de outros, quanto a uma grande transformação do humano em divino. Os estigmas de Francisco são descobertos e decifrados depois da sua morte, mas as marcas de Cristo já estavam com ele em vida. Marcas são reconfigurações em vida e que a morte deixa como uma herança.
Francisco de Assis recebeu a marca de um Serafim, é a polivalência de uma teofania. É a chama que se acende quando o Anjo e o Homem se encontram. É a figura divina inacessível ferida de Amor e dor que toca o Humano ferido de Amor e dor. É o encontro heroico com as marcas do Amor que glorificam uma entrega. Vida evangélica, vida mística, vida fraterna deixam marcas do interior para o exterior.

Francisco de Assis tem que ser visto na inteireza de sua vida e não no fato isolado de sua estigmatização. Porque os estigmas são convergência de um caminho de santidade, de fundador de uma Ordem, de um profeta de um novo mundo. Os estigmas recontam a vida de Francisco do início ao fim, mostram a inteireza de sua existência. Ele é o Humano Novo dentro de um mundo envelhecido de ontem e de hoje. Ele libertou o mundo de então da depressão coletiva, de voltar-se para o egoísmo, ambição e avareza, de fixar-se em propriedades, de privilégios de sangue e castas sociais, e fazer com que a fraternidade não fosse apenas um modo de monges viverem juntos, mas o jeito de conviver nas estradas do mundo. Ele fez Cristo voltar a andar nos caminhos mais costumeiros da vida, e este Cristo que um dia andou pelas estradas da Palestina amou tanto que foi crucificado. Sofrimento e perfeita alegria. Transformação e laços consanguíneos com o Amado. O corpo de Francisco foi marcado pela centralidade da sua busca: ser igual a Ele! Ele tatuou em sua carne a Palavra Encarnada e Inovadora.

Quem um dia deixou-se marcar pela Cruz trouxe a salvação para a humanidade. O Amor não tem sofrimento inútil. O Amor é uma fusão de vontades amantes. Diz Tomás de Celano: ”O filho respondeu diligentemente ao pai, sabendo que pelo Senhor lhe era dada a palavra da resposta: “Dize-me, por favor, ó pai, com quanta diligência teu corpo obedeceu às tuas ordens, enquanto pôde?” Ele disse: “Filho, dou meu testemunho de que ele foi obediente em tudo, em nada poupou a si mesmo, mas quase se precipitava a todas as ordens. Não fugiu de trabalho algum, não escapou de incômodo algum, bastava-lhe poder cumprir as ordens” (2Cel 211).

O corpo de Francisco de Assis não é mais dele, mas do Amor! Não é apenas um fragmento de macrocosmo, uma simples modalidade de viver nesta terra, não é um sangue anônimo. Ele é um corpo transfigurado pela vontade do Amor! É um corpo livre do mundo, da eclesiologia, das doenças e dos demônios, e de tudo o que o ameaça.  Agora não é mais corpo em forma de carne humana, mas sim totalidade de uma vida, é Corpo de Cristo! É um Corpo ritual e sagrado. Ele agora pode mostrar a dramatização de uma Encarnação: de Greccio ao Alverne este corpo mostra o que o Amor moldou em si. Em Greccio, Francisco encenou o Presépio, no Alverne Francisco sangrou a identificação com a Palavra Encarnada! É agora, não um Natal para crianças, mas uma Natividade para adultos. Quer Amar? Então toque o Verbo na sua manifestação mais natural e mais amorosa. Não é apenas ouvir a Palavra, mas ter a Palavra no sangue. A Palavra se fez Carne porque a Carne se fez Amor. É a Palavra expressiva num corpo expressivo. Agora o corpo tem uma importância eterna porque tem as marcas do Amor!

FREI VITÓRIO MAZZUCO

quarta-feira, 14 de setembro de 2016

Francisco de Assis – o amor que deixa marcas - 1


“Homem novo, Francisco tornou-se famoso por novo e estupendo milagre: por singular privilégio, jamais concedido nos séculos anteriores, apareceu assinalado, ou ornado, com os sagrados estigmas, configurando o seu corpo mortal ao corpo do Crucificado. Tudo o que a humana língua possa dele falar sempre estará aquém do louvor de que é digno. Inútil procurar a razão, porque é maravilhoso, nem se trata de buscar um exemplo, pois é único. Todo o empenho do homem de Deus, quer em público, quer em particular, dirigia-se para a Cruz do Senhor. Desde o primeiro instante em que começara a servir sob o Crucificado, diversos mistérios da Cruz resplandeceram em torno dele” (3Cel 2,1).

Quem centra sua vida numa determinada busca, numa focada paixão, num visível enamoramento, percebe claramente que o objeto deste Amor vai aparecendo nas nuances da vida. O que amamos nos surpreende em evidentes sinais, como uma reveladora novidade.  Francisco de Assis foi estigmatizado, e os estigmas são como as marcas do Crucificado que São Paulo dizia trazer consigo. Um humano renovado se molda sobre um caminho de grandes desafios e, porque não, de sofrimento. O Amor deixa marcas e amar tem a sua glória e cruz, tem a sua flor e dor. Toda renovação vai à fonte inicial da vida que é parida em dor. E podemos perguntar: o que tem de humanidade nova nisto, o que tem de novidade?

A novidade presente em sofrer por Amor é muito raro na literatura espiritual antiga. Vamos encontrar no antigo Império Romano a presença do termo novus ou novitas, no discurso de Cícero, orador romano, na sua peça de oratória chamada “Pro Murena”, onde ele defende que não devemos ignorar as marcas deixadas pelo sofrimento nos caminhos da consolação. Para Cícero, as marcas da dor são glórias da luta. Cícero escreve isto para Murena, senador romano, dizendo que “as virtudes de um senador são mais importantes que o seu nascimento”. As marcas deixadas pelo Amor não são sofrimento pelo sofrimento, mas reconhecimento.

Novo Homem, ou a novitas, pode ser entendido como o original. A sua Forma de Vida era viver o Evangelho segundo o Crucificado. Imprimiu na alma esta verdade, e da alma ficou impressa no corpo. Mas o que é o Humano Novo? São Paulo diz: “Em Cristo fomos fostes ensinados a remover o vosso modo de vida anterior – o homem velho que se corrompe ao sabor das coisas enganosas – e a renovar-vos pela transformação espiritual de vossa mente, e a revestir-vos do Homem Novo, criado segundo Deus, na justiça e santidade da verdade” (Ef 4,20-24). Ser uma nova criatura não é revestir-se de si mesmo, mas revestir-se de Cristo. Fazer a investidura do que se ama. Isto é um processo para toda vida. A estigmatização de Francisco aconteceu 20 anos após a conversão, mas foram 20 anos de seguimento e imitação apaixonada. Voltemos a São Paulo: “Vós vos desvestistes do homem velho com as suas práticas e vos revestistes do novo, que se renova para o conhecimento segunda a imagem do seu Criador. Aí não há mais grego ou judeu, circunciso ou incircunciso, bárbaro, cita, escravo ou livre, mas sim o Cristo que é tudo em todos” (Col 3,10-11). O Humano Novo não é apenas um indivíduo particular ou uma aventura psicológica de mudança efêmera, mas é um Humano Singular, Único, Original que assume uma nova postura de vida, como que uma nova aliança.

(Continua...)

FREI VITÓRIO MAZZUCO

segunda-feira, 12 de setembro de 2016

Francisco de Assis e este jeito de viver e pregar o Evangelho


São Francisco de Assis andou pelo mundo e enviou seus irmãos para o mundo para que vivessem, levassem e pregassem o Evangelho. A evangelização é simplesmente isto: ser, viver, levar a Boa Nova. Teve o seu modo próprio de evangelizar: a partir da fraternidade e da minoridade. A fraternidade é a família dos que estão na mesma consanguinidade espiritual, na mesma escolha, no mesmo projeto. Que projeto é este? Pegar a Palavra do Evangelho e colocar ali corpo, alma, mente, coração, sentimento, emoção, e mãos calejadas de obras. A minoridade é a renúncia do poder de quem tem saber, de quem tem poder, de quem tem muitas posses que ampliam o ter. É desapropriar-se de amarras para ser livre pelo caminho. Pregar o Evangelho não é para poderosos, mas para irmãos menores. Na fraternidade e na minoridade nada ter para tudo partilhar.

Para pregar o Evangelho é preciso sair pelo mundo, recolher-se em eremitérios, sair de novo, escrever cartas, ultrapassar fronteiras, contar apenas com a força da Palavra, sem precisar nem de bastão, nem  alforge. Levar a paz e comer do que é oferecido pelo caminho. Pregar o Evangelho não é fazer exigência, mas oferecer serviço. Pregar o Evangelho é estar em prece e no modelo vivo de tantos exemplos. É ser a Boa Nova de Jesus Cristo, anunciada com firmeza, segurança, abraçando o momento com seus desafios, sem se desconcertar em situações contrárias.

Para levar o Evangelho é preciso ter a postura de Jesus: anunciar uma mudança, aproximar o Reino das pessoas e as pessoas do Reino. É expulsar o que faz mal, integrar o que está excluído, curar o que está adoecido, preparar bem um pequeno grupo de multiplicadores de um poderoso anúncio com uma capacidade ilimitada de amar e mostrar que a Boa Nova é querer bem a todos sem distinção. Ter esta grande reverência pela pessoa humana, de modo especial os pequeninos, a quem a verdade é revelada de um modo tão evidente. Pregar o Evangelho é fazer a Palavra carne da própria carne, sangue do próprio sangue, pulsar do próprio coração.

Imagem do "Francesco", filme italiano com Mickey Rourke no papel de Francisco.

FREI VITÓRIO MAZZUCO