quinta-feira, 21 de julho de 2016

Francisco de Assis e o estudo



Diz a Legenda Maior: "De vez em quando, lia os livros sagrados e imprimia tenazmente na memória o que uma vez por todas havia colocado na mente, porque ruminava com o afeto de contínua devoção o que havia captado, não em vão, pela audição atenta da mente. Aos irmãos que uma vez perguntaram se lhe agradava que os irmãos letrados recebidos à Ordem se dedicassem ao estudo da Sagrada Escritura respondeu: “Claro que me agrada, contanto que a exemplo de Cristo, sobre quem se lê que mais rezou do que leu, não omitam o empenho da oração e não estudem somente para saber como devam falar, mas para que pratiquem as coisas ouvidas e, quando as tiverem praticado, as proponham aos outros para serem praticadas por eles” (LM XI,1).

Muitos afirmam que Francisco de Assis era contra o estudo; é um erro fazer esta afirmação, pois muito incentivou os estudos na Ordem. Ele mesmo tinha estudos, embora não fosse um acadêmico. Frequentou a escola episcopal junto à Igreja de São Jorge em Assis, onde aprendeu rudimentos de latim, com sua mãe aprendeu um pouco de francês, decorava antífonas e hinos litúrgicos, sabia muitos versículos de salmos que trazia na memória, cantava canções de gesta cavaleiresca, escrevia cartas, preces, fez um belíssimo comentário ao Pai Nosso, e ditou Regras.

Motivou os frades aos estudos e recebeu intelectuais na Ordem, entre eles Santo Antônio e Tomás de Celano, e mais tarde São Boaventura entre tantos. Pede numa Carta a Santo Antônio: “Apraz-me que ensines a Sagrada Teologia aos irmãos, contanto que, nesse estudo não extingas o espírito de oração e devoção”. O que ele quer é que a ostentação e a vaidade da ciência não tomem conta de seus irmãos. O saber não tem força em si se não vier da Sabedoria que vem do Alto.

Ensinar é puro serviço. O conhecimento tem evidências necessárias para a vida, mas não pode ser usado para explorar, acumular bens, ou diminuir os que sabem menos. Porém, todo estudo deve levar a uma grande prática feita por Amor. Todos devem ensinar como quem reza. Francisco de Assis não quis ser um doutor em teologia ou espiritualidade; renunciou qualquer título por viver a minoridade, contudo sobre ele escrevem muitas teses, ensaios, artigos, pesquisas, livros, bibliotecas inteiras! É o Santo mais estudado do mundo, como evocação, memória, e profunda compreensão da existência.

FREI VITÓRIO MAZZUCO

Espiritualidade a partir da experiência pessoal


terça-feira, 19 de julho de 2016

Diversos modos de viver a espiritualidade


Francisco de Assis, o amigo


DIA 20 DE JULHO, DIA INTERNACIONAL DA AMIZADE

Francisco de Assis, amigo de Clara, amigo de Leão, de Rufino, de Ângelo, de Jacoba de Settesoli, dos animais, do sol, da lua, da água e do vento. Francisco amigo de tudo o que podia dividir com ele uma nova vida. Sua amizade é vitalidade de fraternidade, sair e chegar para perto de tudo que se constitui um novo modo de relacionar-se. Seu jeito peregrino encontra no caminho valores que aproximam pessoas e todo ser criado. Amizade como comunhão de mesma busca, reúne amigos que dividem sonhos.

Amigo tem essa energia que vem da liberdade da escolha feita pelo coração e não pela ancestralidade, embora certos amigos já estão destinados à nossa vida desde os inícios dos tempos. Clara de Assis, por exemplo, parecia uma conhecida desde as origens das intuições. Amigos fazem parte dos sonhos que Deus sonhou para nós. Aproximam confidências de fé e amor, trazem a benéfica energia de coragem, de potência das coisas que brotam do coração, capaz de criar e transformar. Quem cantou serenatas nas tabernas e praças de Assis é capaz de cantar abraçando a natureza e os animais, e poder ser amigo de pássaros e de lobos, de camponeses, de mendigos, do sultão, do bispo de Assis e do Papa.

Os amigos de Francisco entenderam que nele a Palavra era uma convocação que acendia no coração uma vontade de deixar tudo, porque aquela amizade era discipulado bebendo nas fontes do Evangelho, lugar dos amigos do Esposo. Conviviam com naturalidade nas frestas rudes das pedras e com a pura e indizível beleza de Clara, pois todos tinham a vontade de estar onde o Espírito do Senhor habitava. Dividiam um afeto tão rico, capaz de viver a pobreza mais perfeita. Amigo não precisa de coisas, mas de corações. Permeavam os encontros de humanidade e santidade. Amigo não tem referência de sangue biológico ou parental, mas recebe nas veias uma transfusão de ideais parecidos, de laços, direitos conquistados na partilha, distância vivida na intensa proximidade. Fizeram obras de imenso cuidado!

Francisco amigo nos ensinou a levar a individualidade e a totalidade para fazer a festa de estar juntos. Com seus amigos fez encontros decisivos e eles escreveram uma Legenda toda de sua vida. Amizade é olhar no espelho e ver tantas faces sorrindo na mesma transparência e dizendo que a cruz e mais leve quando não é carregada sozinha. Por isso, é testamentário dizer que o Senhor nos deu amigos-irmãos, construtores da Paz e facilitadores do Bem!

Francisco de Assis, modelo de amizade, manda um salve aí para a moçada toda que andou com a gente tocando nas praças, remedando jeans, sonhando liberdade, levando chá e cobertor para os que dormiam nos vãos da cidade, nunca esquecendo aniversário, dividindo humor e lágrimas, e tendo uma saudade enorme que atravessa séculos! Feliz dia para quem todo dia se faz Amigo!

FREI VITÓRIO MAZZUCO

sexta-feira, 15 de julho de 2016

Não sufocar o espírito


Foi Francisco de Assis político?


Se olharmos o que vemos e sofremos como consequência política hoje podemos dizer: não! Se olharmos a corrupção, o tráfico de influência, essa imoralidade toda, este circo político do nosso país, com certeza: não! Se buscarmos o verdadeiro conceito grego de politikein, politikós, que significa: arranjo existencial para o bem comum, podemos dizer: sim! Ele não dançou em frente do palco político deste mundo que encena falas vazias, mentirosas, intrigantes, cheias de declarações abaixo de qualquer crítica. Ele não abraçou a força dos poderosos, nem se corrompeu pela ambição, nem se vendeu por questões econômicas que são muito mais importantes que a grande questão humana: saúde, habitação, educação e emprego. Francisco de Assis andou pelas terras sem ser dono delas. Sem conhecer a posse.

Mostrou que a Pobreza é acima de tudo a partilha, que as coisas têm valor em si, que a política do Reino é dar a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus. Ele não tinha discurso de ódio, mas deu à humanidade um princípio de paz: o humano na sua inteireza! Ele tinha um código de ética perfeito: o Santo Evangelho. Quis ser verdadeiro e se espelhou na verdade de Jesus Cristo. Pediu tijolos e bênçãos não para construir para si, mas para reconstruir a casa do coração, a casa dos valores e a casa do mundo. Seu único lobby foi a Fraternidade.

Não quis que sua Fraternidade ajuntasse dinheiro nos distantes limites de ilhas e países, mas ensinou a comunhão de bens. Não se armou com a valentia dos prepotentes, mas quis que seus seguidores não portassem armas. Se não possuem armas, não se instaura a conflitividade ou qualquer tipo de guerra. Quis apenas que jurassem sobre a transparência da própria vida e dos Conselhos Evangélicos. Propõe obediência, fidelidade e lealdade. Faz uma opção clara pelo bem comum. Domestica a violência do lobo como um significado real para a não-violência. Tinha no Bolso Nada, apenas uma linguagem segura e leve do Amor!

Concilia a briga do prefeito com bispo de Assis. Dialoga com o sultão sem precisar de espada, lança, escudo ou palavras rancorosas de acusação. Ah! Meu Francisco de Assis! Ajuda nesta hora em que, politicamente, perdido estou! Moro num país que tem 516 anos de processo colonizatório, mas que politicamente ainda não foi descoberto. Manda umas caravelas para cá, de outro jeito, para redescobrir este lugar! Envia uns confrades seus guiando-se por estrelas, vento e lua, dançando com os nativos, sonhando mundo novo, benzendo o perigo, e recomeçando tudo outra vez!

FREI VITÓRIO MAZZUCO

terça-feira, 12 de julho de 2016

Buscando uma vida espiritual


Uma oração de muita força


Considero a Oração de São Francisco diante do Crucifixo de São Damião, feita em 1205, a prece do discernimento, a oração mais importante do franciscanismo: “Altíssimo e glorioso Deus, ilumina as trevas do meu coração. Dai-me uma fé reta, esperança certa e caridade perfeita. Sensibilidade e conhecimento, Senhor. A fim de que eu cumpra o vosso santo e veraz mandamento. Amém!”.

Esta é uma prece feita entre ruínas diante de um Cristo vivo e em pé. Há sempre um olhar de luz, uma presença de luz, uma fala de luz em todo desmoronamento. A oração é uma prova de que algo ainda não foi por terra. Pensamos que oração é falar com Deus ou ouvir o que Ele tem para dizer; ou estar num profundo silêncio; tudo isto é correto; mas oração é, sobretudo, momento de iluminação. Francisco pede luz para as trevas do coração, o lugar onde se filtram todas as experiências. Se o coração está iluminado tudo se ilumina. Francisco pede a fé que deve reerguê-lo. A fé sustenta a identidade do homo erectus, aquele que não nasceu para rastejar, mas para jamais ser um ser decadente. Crer é erguer-se. É esperança certa, precisa, princípio de todos os sonhos que remetem para o saber para onde se vai.

A prece pede a concretude do Amor, para que seja perfeita. Não basta amar, é preciso amar na medida da perfeição, isto é, dia a dia, ir perfazendo-se na caridade, este jeito do Amor tornar-se uma obra que leve a amar mais. Francisco quer a sensibilidade, esta fineza de espírito, a percepção de tudo, que não deixa de sentir o grito de abandono e descuidado de todas as coisas, de todos os seres que estão ali aos pés do familiar. Francisco quer o conhecimento como nascer junto a todas as experiências. Conhecer melhor para amar mais intensamente.

Não basta pedir ou agradecer, é preciso abraçar uma grande convocação: o mandato do Senhor, o envio do Senhor, a vontade do Senhor. A melhor oração é aquela que faz um mergulho no querer de Deus e o transforma em promessa e cumprimento.

FREI VITÓRIO MAZZUCO

sexta-feira, 8 de julho de 2016

Nós que vivemos e estivemos com ele


Nas Fontes Franciscanas temos uma coletânea de textos chamada Compilação de Assis. Ela é de 1310. Atribuída a Frei Leão, que foi amigo muito especial, secretário, confidente, confessor e companheiro de Francisco de Assis em cada momento de sua vida. Mas nesta compilação aparece uma expressão que soa como um refrão: “Nós que com ele vivemos” ou “Nós que estivemos com ele”. Viver junto, estar junto, caminhar junto, morar junto, são expressões fortes dos que habitaram a casa da mesma vivência. Faz parte da mística da Encarnação, tão própria da franciscanidade. Encarnar-se é viver, estar, morar junto, sangrar junto.

Vejamos alguns textos: “E, muitas vezes, nós vimos isto com os nossos olhos, nós que estivemos com ele” (CA 11,13). “E nós que estivemos com o bem-aventurado Francisco, que escrevemos estas coisas sobre ele, damos testemunho” (CA 14,2). “E nós que estivemos com ele o ouvimos muitas vezes dizer aquela palavra do santo Evangelho” (CA 57,13). “Por isso, nós que estivemos com ele damos testemunho a respeito disto, de que, sempre quando dizia: "Assim é ou será”, assim acontecia; e nós vimos muitas coisas que se cumpriram enquanto ele vivia, e igualmente depois de sua morte” (CA 67,14).  “E nós que estivemos com ele fugimos todos por piedade e compaixão dele, e só o médico ficou com ele. E feita a cauterização, voltamos para perto dele” (CA 86,17). “Por isso, nós que estivemos com ele o víamos alegrar-se sempre, interior e exteriormente” (CA 88,8). “Nós que estivemos com ele respondemos a isto, como ouvimos de sua boca” (CA 101, 25).

São mais de 28 citações com esta expressão. Mas por que estou colocando esta nuance das Fontes aqui? Porque hoje ouvimos muita gente dizer eu conheço, fiz junto, estive lá, trabalhei com esta pessoa. Mas foi apenas uma vez, ou numa palestra ou num seminário, numa visita a uma obra social, num curso que fez, um tempinho que trabalhou. Mas não foi uma caminhada comprometida de uma vida toda. É preciso dizer: eu vivi uma vida, estive uma vida, dei a minha vida para esta experiência e depois relatar. Estar uma vez ou apenas conhecer é curriculum lates. Viver e estar fortemente na experiência é Encarnação. A Palavra tem que ser Carne para ser expressa.

FREI VITÓRIO MAZZUCO

quarta-feira, 6 de julho de 2016

Francisco, um caminho de sentidos



Tempo de Francisco de Assis, século XIII, tempo medieval. Nosso tempo, século XXI, pós-moderno. Duas épocas e suas aproximações. O diferente, o igual, as repetições, as rupturas. No tempo, a busca de caminhos e sentidos. Cada tempo com suas conquistas, mas cada momento na ânsia de buscar uma vivência mais autêntica. Francisco enfrentou a crise de sua vida e de seu tempo descobrindo que o Evangelho tinha respostas para suas indagações. Hoje, onde estariam as respostas? Muitos acham que ciência e técnica evidenciam um futuro de segurança, de funcionalidade vivencial, de bem-estar material e mais longevidade. Outros acham que a humanidade está estagnada, assim como todas as instituições portadoras de sentidos: família, Igreja, escola e governo. Francisco não esperou a fala de instituições.

Ele mesmo desabafa em seu Testamento: “(...) Ninguém me mostrou o que deveria fazer, mas o Altíssimo mesmo me revelou que eu deveria viver segundo a forma do Santo Evangelho” ( Test 14 ). No Evangelho, ele encontrou respostas para a sua crise pessoal, a crise de seu tempo e suas instituições. Teve a intuição de pegar a vida de então com seus conflitos, guerra santa, impérios, reinos e reis, ambição, avareza, poder e fastígio da glória que contaminavam tudo, inclusive a Igreja; e mostrar uma vida nova que vem da simplicidade. Isso não aconteceu no romper de facilidades, mas no abraçar uma tomada de posição, saída, coragem, aventura, contestação silenciosa, novo jeito de ser profundamente humano e respeito por todo ser criado.

Francisco de Assis torna-se um profeta de ontem e de hoje porque impulsiona mudanças radicais. Abala as estruturas do mundo propondo a paz, o bem e a fraternidade. Não quer privilégios, quer desapegos. Não quer status, quer sentidos para a vida sem precisar oprimir ninguém. Não quis mudar o mundo a partir do poder eclesiástico ou político, e sim a partir da fidelidade e da fé que abraça o que estava carente de cuidado.

 Muitos quiseram mudar o mundo e desapareceram na história, ele permanece até os dias de hoje como um Poverello amado, seguido e imitado. Viveu pobre para romper com ricas e pesadas estruturas. Não tem teorias, mas vive convicções. É um reformador de ruínas; é alguém que pergunta não aos conceitos e terapias, mas diretamente a Deus: “Senhor, que queres que eu faça?”. Foi lá e fez!

FREI VITÓRIO MAZZUCO

Um panorama histórico da espiritualidade