quarta-feira, 29 de junho de 2016

Francisco e a revolução do Evangelho



Em 1209, Francisco de Assis, vai a Roma, pedir junto ao Papa Inocêncio III a aprovação para a sua forma de vida. Leva como Regra trechos vividos e escolhidos do Evangelho: “(....) escreveu para si e para os seus irmãos presentes e futuros, de maneira simples e com poucas palavras, uma forma e regra de vida, utilizando principalmente palavras do Santo Evangelho, a cuja perfeição unicamente aspirava” (1Cel 32,1). O Papa intui que ali está um sinal para a eclesiologia de então, bastante afastada da Palavra Sagrada, pois pensa e age como os impérios. O Papa escuta aquele mendigo penitente que vem trazer fragmentos do Evangelho com chama nos olhos e pede que ele volte no dia seguinte. Durante a noite o Papa sonha que a Igreja do Latrão, a Cúria de então, está para ruir. E no sonho vê o mendigo que a sustenta nos ombros para que ela não caia. (cf. 1Cel 32,1-9 e 33,1-13).

O Papa não pode aprovar a regra, pois falta ao texto o jeito canônico de organizar uma regra de vida; porém não pode reprovar o Evangelho. Então, encontra uma saída: dá a bênção ao modo de vida, e pede que Francisco vá pelo mundo e mais tarde volte com uma proposta bem regrada. Um sonho e uma bênção abrem caminhos e Francisco vai!

A partir daí faz uma estrada que revoluciona o modo de viver na Igreja e com a Igreja, o modo de estar no mundo, um jeito de viver em fraternidade: assumir como corpo, mente, alma e coração o modo de Nosso Senhor Jesus Cristo e fazer novamente a Palavra do Evangelho ser a Palavra feito Carne! Viver o Evangelho tal e qual muda uma vida. Há relato que diz que Lenin teria afirmado que a Rússia não precisava de um revolucionário como ele, mas precisava sim de um Francisco de Assis.

Qualquer reforma precisa de valor maior para basear-se. Na revolução fraterna que Francisco criou na convivência de irmãos e irmãs foi possível encarnar a igualdade, liberdade e fraternidade. A revolução de Francisco não precisou de sangue como aquela que promoveu a queda da Bastilha tendo ideais parecidos, mas soltando ódio pelas ventas. A revolução de Francisco precisou apenas do Evangelho para reconstruir ruínas. Fazer todos juntos calejarem as mãos para colocarem pessoas, Igreja e sociedade novamente em pé. A revolução do Evangelho é refazer a prática de Jesus, que muitas vezes disse: “Levanta e anda!” (Mc 2,9) .

FREI VITÓRIO MAZZUCO

sexta-feira, 24 de junho de 2016

Francisco de Assis e a vida como louvação


Leio Tomás de Celano e deparo com esta frase: “Abraçava todos os seres criados com um amor e uma devoção da qual exortava a louvar!” (2Cel 165). “Exulta em todas as obras das mãos do Senhor e intui, através dos espetáculos do encantamento, a razão e causa que tudo vivifica. Reconhece nas coisas belas Aquele que é o mais Belo; todas as coisas boas lhe clamam: "Quem nos fez é o Melhor! Por meio dos vestígios impressos nas coisas ele segue o Amado” (2Cel 165,4). A conversão de Francisco não é romper com nada; mas uma mudança visual, uma mudança de lugar. Isto dá um diferencial qualitativo em sua vida. Ver a vida de um modo diferente traz uma nova vida. Hoje vejo neo-convertidos rompendo com a vida não sabemos se o que está aí é santidade ou patologia. Francisco nos ensina que viver a vida de um modo santo é ter um referencial de Amor, Bondade e Convivência, mas dentro da realidade. Sem estar dentro da realidade somos completamente cegos.

Francisco nos ensina a exprimir e traduzir a vida com aspirações profundas, com uma presença e linguagem humana que comove e nos mostra o divino em cada detalhe da existência. Ele nos ensina a olhar a vida com olhar divino, com um ponto de vista simbólico, com um engajamento que celebra e reparte. Para ele, olhar o mundo de um modo mais espiritual é tornar-se mais humano. Ver bem a obra de Deus nos humaniza. A beleza da santidade é uma humanidade com os pés no chão e o olhar no céu. Ele não é uma baixa auto-estima, mas uma elevada auto-aceitação. Ele não é um pessimista que se esconde, mas um otimista que vê e celebra a vida. Viu tudo na união das singularidades. Amou não só as florestas, mas cada árvore. Amou as pessoas do jeito delas, de Antônio a Junípero, de Inocêncio III ao mendigo da esquina, do Sultão ao ladrão. Ele viu bem, conviveu e cuidou do que amou. Na sua humildade abraçou a verdade de tudo e de todos. Flexível, sensível, vivaz e atento, partilhou com imenso louvor a emoção, sentimentos, seus trapos, sua  fé!

FREI VITÓRIO MAZZUCO

quarta-feira, 22 de junho de 2016

Trovador, poeta, seresteiro e cantor



Francisco de Assis exerce há oito séculos um fascínio estranho e incrível ao mesmo tempo. Ele e sua espiritualidade são um caso de amor. Ele trouxe para a humanidade uma inspiração, um frescor espiritual, originalidade e energia criativa. Ele nasceu no século XIII, século do Amor Cortês, dos trovadores, dos bardos e menestréis, das Canções de Gesta, das Cantigas de Amigo. Nasceu num tempo onde valores eram cantados: alegria, cortesia, gentileza, o amor da Dama escondida num castelo. Para o medieval cantar era uma filosofia de vida. O trovador era aquele que inventava, criava, compunha, improvisava. Fazia da canção a sua profissão. O menestrel ou o giulare era um artista intérprete, um performático.

Dedicava-se aos temas de Amor e das estações do ano que influenciam o estado de alma. Cantavam a politica e a ética, louvavam vencedores ou choravam a morte em plangentes canções.

Francisco de Assis, como um seresteiro de seu tempo, nos ensinou a usar todos os elementos da vida para um novo respiro. E como um trovador glorificou detalhes da existência com o jeito dos jograis que não deixavam de ir para a Corte do Rei e ao palco das ruas para cantar a honra e a glória, a fidelidade incondicional, o respeito, a audácia heroica, a defesa dos fracos, o louvor a Dama feudal com sua beleza, fascínio, bondade e o encantamento da sua perfeição física e espiritual. Render homenagens e fazer soar louvores. Comunicar-se para dar qualidade a Amor. Diz a Legenda dos Três Companheiros: “Caminhando para a Marca, exultavam profundamente no Senhor, mas o santo homem, cantando em francês em voz alta e sonora os louvores do Senhor, bendizia e glorificava a bondade do Altíssimo” (LTC 33).

 Para os trovadores do tempo de Francisco, o Amor é uma força nobre que transforma o bom, o mau, o melhor, é uma fonte de virtudes. As canções de Amor colocam o humano no caminho de amar o bem. Difícil cantar hoje em terra verde e amarela, mas como Thiago de Mello, posso dizer: “Faz escuro, mas eu canto!”

FREI VITÓRIO MAZZUCO

sexta-feira, 17 de junho de 2016

Sobre a pobreza franciscana



Ao falar sobre a Pobreza Franciscana estamos falando da Pobreza de São Francisco de Assis, pois somente ele viveu radicalmente a Pobreza. Os seus seguidores em todas as Ordens a seguem como Conselho Evangélico e como provocação espiritual, mas não conseguem ser pobres como ele foi pobre. Sempre haverá um confronto entre a pobreza em espírito e a pobreza material. Francisco de Assis viveu as duas dimensões.

Há muitas cobranças sobre ser pobre em termos materiais, e se pensarmos conjunturalmente em termos de hoje seria: classe média falida, viver de salário mínimo, viver de subemprego, mendigar, cuidar das doenças no SUS por não ter Plano de Saúde, ter muitas dívidas, não poder acompanhar as necessidades impostas pela sociedade de consumo, andar de ônibus, jamais poder ir à Disney, viver sem casa, sem teto, sem nada... Francisco de Assis quis ser pobre para ser livre. Não ter nada para ter o Tudo. Há algo maior que preenche o coração. Amar e desejar o Espírito do Senhor. Ter na própria carne as Palavras do Evangelho. Aprender que ser pobre não é ter, mas ter repartindo.

Francisco de Assis não tornou-se pobre para fragilizar-se, mas para encontrar um vigor do espírito que está acima de qualquer medida sociológica ou mercadológica. Ser pobre é buscar a riqueza essencial. Isto não é moderno, é medieval. A questão toda é que este medieval era um pobre feliz que encontrou a medida de seu coração e não a medida da roupa pret-a-porter. A questão não é ter ou não ter riqueza, ser ou não ser pobre, a questão maior é ser livre diante de tudo isto. Francisco não era frustrado por sofrer privação, mas tornou-se um homem sereno e santo porque tinha um tesouro guardado em seu coração e não riqueza penhorada na Caixa Econômica. Pura loucura do contagiante Evangelho!

FREI VITÓRIO MAZZUCO

terça-feira, 14 de junho de 2016

Francisco de Assis, harmonia e singularidade


Tenho uma vela artesanal muito linda que ganhei de meu amigo Fábio Paes e sua esposa Deisiana. Ela tem o rosto de Francisco num mosaico de cores e expressiva mensagem a ser lida e interpretada na arte que esculpe múltiplas hermenêuticas. Guardo com carinho a dedicatória que veio com o presente, nela a reflexão escrita com a mesma força poética e reveladora: “Francisco de Assis, homem medieval, porém, mais contemporâneo que se possa imaginar. Ele representa a harmonia, porque de modo singular vivenciou a integralidade da existência, em que tudo e todos fazem parte de uma mesma vida. A harmonia é um conceito clássico que se relaciona às ideias de beleza, proposição e ordem. O que vale é a intenção!” 

Olho para esta vela todos os dias, pois ela está ali na estante do meu quarto como farol em meio ao oceano de possibilidades. Leio de vez em quando a dedicatória e lembro o tempo medieval, sua mística e seu fascínio. Lembro os degraus do escalonado caminho da Via Perfectionis: unir harmoniosamente o Humano Natural e a Vida Orgânica; a Razão e a Vida Espiritual na incessante busca de Deus. A perfeição consiste em integrar as três. Francisco de Assis, de um modo singular, viveu naturalmente estas três dimensões. Trabalhou bem o carnal, a alma e o espírito. Fascinado pela vida, não esqueceu Deus em cada nuance da vida. Quis que o Espiritual controlasse seu corpo, paixões e seus sonhos de encarnar o Evangelho. Com isto encontrou as trilhas da felicidade. Amou sem complicação, pois mostrou que o Amor é a vontade da Natureza numa fusão com a Sabedoria de Deus.

A arte é tão reveladora! Lembro de quando fui à histórica e fascinante Pirenópolis, GO. Lá encontrei um atelier de um artista que produziu obras com motivos franciscanos: quadros, esculturas, bolsas, ímãs, enfim, tanta coisa linda. O atelier tinha o sugestivo nome: Todos São Francisco! A genialidade do artista sugere duas coisas, tudo o que se criava ali era inspirado no Santo ou todos temos que ser a força do humano que habita Francisco, que como um santo, italiano, cristão e medieval...é uma identidade dentro de nós!

FREI VITÓRIO MAZZUCO

sexta-feira, 10 de junho de 2016

Clara e Francisco, namorados?


Esta pergunta me fazem milhares de vezes. Perguntas são melhores que respostas. Não tenho respostas, tenho modelos: Francisco de Assis e Clara de Assis evidenciam que o fundamental da vida humana é relacionar-se. Amaram a Deus como Alguém real e não como abstração; deixaram suas casas para conquistar a liberdade de amar e repartir. São enamorados do Amor que os fez livres para fazer suas escolhas. Viveram em meio a todos porque souberam sair de si e deixar transparecer amor, ternura, pureza, vigor, prece e ardor. Namoraram as palavras do Evangelho e fizeram parte do sonho de Deus: o amor tem que transformar tudo em homens novos, mulheres novas, mundo novo, Boa Nova proclamada de cima dos tetos. Namoraram, olhos nos olhos, um Crucifixo Glorioso. Francisco reconstruiu um lugar para Ele. Clara embalou em extasiado silêncio o mistério que Dele emanava: ser Amor em pé entre escombros. Iluminaram-se de preces, a linguagem mais expressiva de quem ama; incendiaram um bosque num banquete santo, éros sublimado em ágape, porque amar é alimentar-se.

Namoraram as chagas dos leprosos e mendigos descobrindo sentidos em meio ao podre. Francisco foi pelas estradas do mundo, Clara permaneceu no mundo fontal de todos os passos: a contemplação. Os dois abraçaram a Pobreza na Riqueza de Amar. Abriram seus corações e braços para abraçar o cosmo inteiro. Gosto demais de uma canção de Frei Acílio Mendes, OFMCap, que diz: “Na paz fecundante de São Damião. Os sonhos floriram e amadureceram! As rosas da Páscoa, os lírios da Paixão. A vida de Clara com amor teceram. Francisco é do bosque, Clara é do jardim. Francisco é do rio, Clara é da fonte. Clara e Francisco são do mar sem fim. Ela desce a gruta, ele sobe ao monte. Francisco é do Alverne, fascinante de luz. Clara é da planície, serena e interior”.

Clara e Francisco nos ensinam a reconstruir o Amor e feliz com Ele! Não se faz feliz alguém, mas se faz feliz com Alguém! É preciso colocar o Espírito no interior dos relacionamentos. Foram Clara e Francisco namorados? As Fontes Franciscanas e Clarianas silenciam. Os historiadores dizem que é impossível. A nossa imaginação ferve. As estradas do mundo falam. O mosteiro reza e canta o Amado. Não interessa o que eles foram entre os dois, mas sim o que foram a partir dos dois: aceitaram ser instrumentos de Amor nas mãos do Altíssimo, Esposo e Espelho. Fizeram do Amor um estado de ser, o fazer foi consequência disto. Desprendidos e naturais, tornaram o feminino místico e o masculino sensível.

Santos e fraternos, paternos e maternos, serenos e cordiais, Irmã e Irmão, profundamente humanos e divinos. Na verdade queria escrever algo para o Dia dos Namorados, e resolvi tirar do meu coração o modelo vivo e referencial do casal de Assis, que nunca viveu junto, nem morou junto, mas que reúne há oito séculos tanta gente apaixonada, desde os umbrais da Úmbria até os universais caminhos do Amor! Que Clara e Francisco iluminem e protejam todos os Namorados!

FREI VITÓRIO MAZZUCO



quarta-feira, 8 de junho de 2016

Fraternidade cuidadora



Saúde é estar na família que se escolheu


Moro em Bragança Paulista, SP, numa Fraternidade com vinte confrades. Frades que trabalham na Universidade São Francisco, frades que formam a Fraternidade Cuidadora e treze frades idosos e em tratamento. Ali convivo com o que diz a Regra Não Bulada: "Se algum dos irmãos cair enfermo, onde quer que estiver, os outros irmãos não o abandonem, a não ser que se constitua um dos irmãos ou mais, se necessário for, que o sirvam como gostariam de ser servidos” (Rnb 10,1).  Viver assim é confirmar a identidade fraterna da Ordem. Se um Irmão não tiver lugar para ficar na hora que mais necessita, é sinal que a identidade da instituição enfraqueceu. A doença física não dói tanto, nem faz sofrer, como estar longe do ideal que se abraçou. Sadio é não afastar do relacionamento humano. Temos enfermeiros e enfermeiras exemplarmente dedicados, visita médica constante, mas é a Comunidade que assumiu estar com todos ali, formando com todos os atendentes uma única célula fraterna.

Saúde é estar na família que se escolheu. Saúde é organizar todos os gestos de amor e cuidado. Saúde é ter os irmãos e irmãs enfermeiros, médica e fisioterapeuta fazendo o que não sabemos fazer clinicamente. No campo do amor que é cuidado, temos que ser especialistas. Bonito ver ali gestos de caridade como especialização de cada um. O irmão enfermo recebe remédios, fisioterapia, alimentação adequada e terapias diversas, porém todos não vivem somente de cuidados técnicos, mas recebem a dose certa de carinho, aconchego e presença.

Nossa Fraternidade Cuidadora não se caracteriza como lugar de doença e velhice, mas como lugar de convergência de sentidos: todos entregaram sua vida até o limite possível. Também não é uma casa em que vem para esperar a morte chegar. Não podemos aceitar a doença e os limites da idade como um confronto com a morte. Saúde é estar sempre do lado da vida, reconciliando-se com ela e abraçando o que vier. O hoje do cuidado, para agradecer o ontem da entrega, é o futuro garantido na certeza da eternidade.

Foto: Fraternidade de Bragança Paulista durante a visita do Ministro Geral Frei Michael Perry em 2014

FREI VITÓRIO MAZZUCO

segunda-feira, 6 de junho de 2016

O poder da bênção de Santo Antônio



Todas as terças-feiras, e especialmente agora em junho na Trezena, aparece de um modo forte e devocional a maravilhosa bênção de Santo Antônio: “Eis a Cruz do Senhor, afastem-se para longe de vós todos os inimigos da salvação. Venceu o Leão da Tribo de Judá, Jesus Cristo, Nosso Senhor! Em nome do Pai, do Filho e do Espirito Santo!”. Não é uma fórmula apenas pronunciada entre os murmúrios das preces, olhos fechados e braços abertos do povo devoto. Não é uma prática repetitiva e vazia, mas sim um gesto visível da maravilha que é a generosidade divina, e a qualidade religiosa da admiração que essa bondade do Senhor causa nas pessoas, através da bondosa presença de Santo Antônio. A bênção é um dom que atinge a vida e seu mistério. É a bendição! É preciso dizer o que vem das fontes do bem; algo que não depende apenas da ação humana, mas precisa do poder de Deus.

A bênção é dom criador e vivificante, reproduz em forma de preces e ação de graças, a graça de Deus manifestada. É doação! É a beraká, um verdadeiro presente, uma troca de bens e de dons; um desejo de vida e felicidade. A bênção é a saudação do caminho, cortesia, exclamação de alegria diante da força de sentir-se escolhido. Santo Antônio é o santo da mediação, esta ponte de ligação para tocar e ver a terna, paterna, materna e afetiva presença de Deus. Santo Antônio é lírio e pão, este modo bem caseiro de Deus nos dizer: “Eu te dou a minha bênção"! Na tradição franciscana e antoniana de todas as terças-feiras, e agora neste tempo das Trezenas de Santo Antônio, é muito bom unir-se ao povo, que de um modo muito simples busca pelo poder da bênção, reconstruir a sua vida às vezes tão despedaçada, olhando ternamente o seu Santo amado, escrevendo bilhetes e cartinhas para ele, acreditando firmemente que ele lê e responde! É um tempo de ladainha, procissão, cantos, festa e certezas. Tempo em que multidões acorrem às igrejas dedicadas a Santo Antônio. Recebem uma chuva de água benta, contam seus milagres, fazem pedidos, entregam seu coração para que o Santo dê um jeito neste modo tão humano, simples e divino que é o Amor. Santo Antônio, rogai por nós! Intercedei a Deus por nós!

FREI VITÓRIO MAZZUCO

quinta-feira, 2 de junho de 2016

Francisco e o beijo no leproso


O biógrafo Tomás de Celano em 2Cel 9, 11 relata: “Quando o leproso lhe estendeu a mão como que para receber alguma coisa, ele colocou dinheiro com um beijo (...). Repleto, a partir daí, de admiração e de alegria, depois de poucos dias, trata de fazer obra semelhante. Dirige-se às habitações dos leprosos e, depois de ter dado o dinheiro a cada leproso, beija a mão e o rosto deles. Assim toma as coisas amargas como doces”.

Esta é uma passagem impactante da vida de Francisco de Assis. Mexe com o nosso imaginário ou nosso asco. Mas afinal que beijo é este? Quem beijou quem? Deixar-se beijar é mais do que beijar. Em meio a banalização atual do beijo, como compreender que alguém possa dar um beijo na beleza do horrível? Com unir doçura em meio ao amargo da vida?

Beijo é passar a intimidade através do sopro sagrado do espírito que respira em nós. Beijo é hálito vital, é insuflar vida. Não existe beijo verdadeiro que não seja um caminho progressivo de aproximação. É um lento, longo e necessário processo de conquista do outro diferente de mim. Francisco foi beijado por uma inspiração. Sentia-se beijado pelas obras do Senhor: vento, água, ar, nuvens e pássaros. Sentia-se beijado pela Encarnação: o Amor  divino vem morar no aconchego da carne do humano. Sentia-se beijado pelo sopro do Espírito. Beijo é comunhão de alma e não apenas comunhão física. Beijo é passar para o diferente de mim quem eu sou. É passar aquilo que está no centro de nosso ser. O beijo é como moldar novamente, do barro, a obra perfeita soprando nela a força da vida. É respirar do mesmo jeito. É o momento onde o corpo obedece o espírito.

Beijar o leproso foi um ponto de virada em Francisco. Mudou o seu destino espiritual. Aprendeu que não basta encher as mãos de alguém de bens materiais sem um gesto de afeto. É o beijo do lava-pés, é o beijo de Madalena nos pés de Jesus; puro encontro de divindades! A partir do beijo no leproso Francisco estava preparado para reconstruir o despedaçado mundo do humano em ruínas por falta de gestos de amor e cuidado. No beijo nos reconstruímos passando sopro, saliva, silêncios e reverência.

FREI VITÓRIO MAZZUCO, OFM

quarta-feira, 1 de junho de 2016

Não existiu amor cortês no estupro do Barão




Era tempo da Cavalaria Medieval no século XIII e nas vivências do jovem Francisco de Assis; e com isto era tempo de ter um Código de Comportamento que louvava e protegia a Dama, sua dignidade, seu fascínio, sua beleza, seu encantamento e sua presença física e espiritual. A Senhora, Mulher e Rainha era o fin’amours, a pedagogia necessária para controlar a brutalidade e a natural superioridade do homem. A função da mulher era ajudar a evoluir para melhor a personalidade do homem. Era uma fusão de virtudes.

Era tempo atual na Favela do Barão, no Rio de Janeiro. Uma jovem de 16 anos sofre o estupro ao ser violentada por 33 homens. A notícia impactou e estremeceu consciências e opiniões. Movimenta-se a luta pela dignidade da Mulher. Volta-se para o conceito, que vem desde a Idade Média, o urgente modelo de beleza e o modelo de virtudes. Todos se posicionam, mas quem quer dar qualidade ao Amor? Se o Amor decai como existir homens e mulheres no exercício da virtuosidade?

Leio a notícia e os comentários. Se a notícia relata uma barbárie, os comentários estupram todas as mulheres. A maioria das palavras quer responsabilizar a menina de 16 anos pela violência masculina, e quer dar razão a horda sem código de honra ou sem alma da Favela do Barão. Todos dizem que ela estava onde não devia estar, que vestia-se como não devia vestir-se, que fumava, que namorava o perigo e que escolheu ser a atriz principal do violento e real filme, com o conhecido enredo que revela a trágica estatística de 11 mil mulheres estupradas no Brasil a cada minuto. Mas pergunto: com armas na mão e nas palavras, é fácil impor conceitos e pré-juízos. Porém, quem gostaria de realizar um confronto entre Beleza física e Virtudes? Quem gostaria de ir lá na Favela do Barão e dar qualidade ao Amor? Quem gostaria de virar o jogo e mostrar que a Mulher não é um objeto de uso, ou objeto de Amor, mas o próprio Amor? Que volte a Cavalaria Medieval com seu Código Cortês-Cavaleiresco para derrotar estas facções de violência contra a humanidade que não precisa ser tão decadente assim! Honra e Amor ainda valem nesta vida de drogas e podem tirar muita gente desta droga de vida!

FREI VITÓRIO MAZZUCO, OFM