segunda-feira, 30 de maio de 2016

Obedecer não é fraqueza subserviente



O último Capítulo Provincial pediu que eu saísse de Petrópolis e viesse a Bragança Paulista. No fundo do meu eu doeu dizer sim; mas na cruz da entrega disse que faria a vontade do que era melhor para a Província. Recebi muitas críticas por aceitar; li algumas reações e chorei escutando meu eu que tinha forte motivo para não ir. Ajuntei minhas coisas e fiz a estrada da mudança. A vida não é uma continuidade, mas uma explosão de possibilidades. Mudar é aceitar rupturas não como derrotas, mas como crescimento.

Abri meus ouvidos para uma convocação e fiquei medindo qual o Valor Maior. Meu coração dizia que era para ficar; a Obediência dizia que era para levar o coração e refazer uma grande virtude franciscana chamada Minoridade. A renúncia do “eu quero” para o desafio do “eu posso”. Por que não posso recomeçar em outro lugar sem perder nada do que conquistei até aqui? Fui levando todas as riquezas que conquistei, exercitando a Pobreza no dizer um sim. Se queremos saber o que é desapego é preciso dizer um sim!

Abri meus ouvidos para escutar um lugar que talvez precisasse mais de mim, ou eu precisasse mais do lugar para ser melhor para o eu mesmo e para os outros. Francisco de Assis obedeceu para ser livre e entrou em todas as estruturas sangrando suas escolhas. Hoje posso voltar tão forte quanto saí. Renunciar a projetos pessoais para mergulhar nas coisas de Deus dói, mas amadurece. No Evangelho, Francisco escutava a Vontade Maior. Na transferência fui desafiado a escutar a Palavra e meu Pai Fundador, que me chamou à Ordem, em meio a desordens pessoais e comuns.

Obedecer é acolher o diferente e o desafiador. É aprender a servir do modo como Deus serve através de seu Filho Jesus Cristo. É misturar a nossa pequena vontade a Vontade de Deus. Obedecer à convocação do Amor é ir e regressar dizendo que Deus é gratuidade, entrega e cordialidade. Quem obedece põe o coração no coração de Deus e não deixa nunca de ser fonte de Amor onde estiver e com quem estiver.

Frei Vitório Mazzuco, OFM

quarta-feira, 25 de maio de 2016

A contínua restauração da casa



O Papa Inocêncio III (1198-1216) faleceu dez anos antes de São Francisco e é muito importante na história do Franciscanismo. Foi ele quem acolheu Francisco e seus primeiros companheiros quando, em 1209, foram a Roma pedir a aprovação para o seu Projeto de Vida: viver o Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo. Francisco levou uma coletânea de textos do Evangelho que já estavam encarnados na vida, prática e pregação dele e de seus primeiros companheiros. O Papa não deu uma aprovação oficial, mas abençoou a iniciativa. Francisco entendeu a bênção como uma Bula de aprovação e levou adiante a Forma de Vida. Aliás, em nossa vida, quanta coisa não começou após uma forte bênção!

Antes de dar a bênção, o Papa Inocêncio III, sonhou que via a igreja desmoronando e um mendigo a escorando. Quando viu Francisco na sua frente o identificou como o maltrapilho do seu sonho (Cf. Legenda Maior 3,10). A bênção do Papa teve a força da revelação que trouxe o sonho. Podemos dizer que o Franciscanismo   nasce  de sonhos que se transformam em realidade. Seguir Francisco é restaurar a partir de sonhos. Ouvir a voz real da inspiração: “Francisco, vai! Restaura a minha casa!” ( Três Companheiros 5,13). Reconstrução é fazer surgir algo novo sobre antigos alicerces. Começar pelas ruínas de São Damião. É melhor recomeçar pelo lugar certo: reconstruir o lugar do espírito; depois reconstruir-se. Olhar para a Cruz de São Damião e deixar que um olhar sagrado penetre a alma. Ninguém muda sem a força do espírito.

Reconstruir as relações. Dar espaço as que vem, aos leprosos, aos amigos, aos que querem ajudar. Se existe uma prática concreta as pessoas vão chegando. Reconstruir a Fraternidade. O jeito fraterno é mais do que ajuntar gente, mas é colocar junto pessoas que sonham a mesma busca sem perder a própria singularidade. Reconstruir o mundo fazendo caminho. Francisco era um itinerante. Se não andamos pelas estradas da vida como conhecer o real. Ainda bem que no século XIII não havia esta opressão chamada televisão e seus manipuladores noticiários, pois Francisco seria forjado a não ter opinião própria. Hoje temos que reconstruir as palavras arruinadas por uma mídia decadente. Ter opinião própria e pública, não opinião publicada. Não deixem que tirem nossos sonhos! Reconstruam a convicção, a moral, a personalidade, própria, pessoal e insubornável!

Imagem: Francisco no sonho do Papa Inocêncio, by Giotto

Frei Vitório Mazzuco, OFM

segunda-feira, 23 de maio de 2016

Fraternidade não é apenas convívio de grupo religioso



São Francisco é o santo da Fraternidade. Deu um jeito de dizer que todos os seres estão interligados numa irmandade: frades, irmãos, irmãs, pedras e bichos, seres estelares e matérias orgânicas. Mostrou que Fraternidade é um jeito de estar no mundo e fazer do lugar onde se está um mundo melhor. Fraternidade não é morar em algum lugar, mas saber por que se está ali, naquele lugar. É viver apaixonadamente o conviver. O estar junto determina muito quem eu sou sob o filtro do diferente de mim. O melhor de mim passa pelo outro e se dilui no gostoso da convivência.

A minha identidade é feita de muitos seres que moldam a beleza do meu ser. Mas todos os seres me convocam a sair de mim e acrescentar algo de mim à verdade de todos os seres. Fraternidade tem este jeito de eu mesmo ser um ingrediente a mais na receita. Francisco era um pouco de Clara, um tanto de Leão, mais uma pitadinha de Junípero, um copo de água, uma medida de lua, um recheio de sol, um fermento do Amor de Deus e a Forma de Vida e a forma do saboroso pudim do Evangelho. Fraternidade é uma multiplicidade de, sabores, gostos e sentidos.

Fraternidade não é onde encosto ou penduro minhas coisas e minhas manias, mas é onde eu dou o melhor de mim mesmo. Se apenas me escoro ali, não vejo a beleza de ser um ser original e singular entre muitos.

Hoje temos muitos problemas de vida fraterna, porque em vez de levar a gente mesmo e a beleza dos outros para a sala do convívio, fazemos do lugar fraterno um depósito de coisas inúteis e em desuso, sucateando nossas casas. Fraternidade é varrer a casa, tirar o lixo, colocar uma flor no vazio, repartir o que tenho, sou, penso e faço. Não é ter muitas regras, mas grafitar o Primeiro e Maior Mandamento na parede do quarto. Sentar na hora da boa conversa e fazer valer o espirito franciscano dialogando com os detalhes de tudo e de todos. Por ser fraterno, Francisco amansou um lobo em Gubio, escutando simplesmente qual era a sua fome. Viver em fraternidade é adivinhar qual a sede e a fome de alguém sem querer afastar da mesa. Francisco, faz uma visitinha lá em casa para restaurar o recreio!

Frei Vitório Mazzuco, OFM

quinta-feira, 19 de maio de 2016

Francisco fez de galhos violinos para tocar e dançar



É da tradição legendária franciscana que Francisco ajuntou dois pedaços de pau e tocou violino na estrada (cf.1Cel 127). O Jogral de Deus tocou, cantou e dançou muitas vezes, nas florestas, montanhas, praças e becos de Assis, e onde possa chegar nosso imaginário. Compôs o Cântico das Criaturas e pediu que cantassem na hora derradeira de sua existência, um bailarino dançando e cantando sobre a morte. Se hoje, nós sedentários, decidimos a vida sentados sobre executivas cadeiras, o jeito franciscano nos convoca e provoca: Curta a música! Dance! Dance com mais frequência! Será que dá para confiar em coisas que só decidimos estagnados em nossos burocráticos ofícios? É preciso dançar os pensamentos e as práticas. Dar passos ritmados revitaliza, impulsiona, mexe, sacode, leva a entrar numa ação real.

Sair, caminhar, viajar, desinstalar-se ajuda a por em prática movimentos que fazemos e que conquistamos. A vida é muito dinâmica e não está engessada entre tantos compromissos que nos enlouquecem. Dançar ao som da música é para ser feito com ritmo, lentamente, sem pressa, mas como um exercício constante. Vamos aprender a dançar grandes mudanças. Megaprojetos podem começar ao ritmo sereno de uma Dança Circular. A vida é pesada demais por causa do peso do dever. Vamos dançar na ciranda das responsabilidades com mais leveza. Podemos encontrar a vida numa apresentação com modo celebrativo do Zé Vicente!

Muita gente tem gestos tímidos para dançar! Solte-se! Os passos são seus e podem achar o ritmo do diferente. Mudanças acontecem meio desajeitadas, incomodando e errando até acertar. O bonito da dança é perseverar até esquecer o que prende ao chão e ouvir apenas a melodia. Dançar e cantar transforma a vida. É exercício de imaginação, de criatividade. E escolha com quem você quer dançar. Tem gente esperando o convite. Quando Francisco não encontrou ninguém, não teve dúvida, tocou e dançou com dois galhos feitos violino! (CA 38,3; 2EP 93,3)

Frei Vitório Mazzuco, OFM

terça-feira, 17 de maio de 2016

A Espiritualidade Franciscana é sempre um assunto


Muitas pessoas perguntam sobre a Espiritualidade Franciscana. A Espiritualidade, em geral, está em alta, e a Espiritualidade Franciscana sempre foi uma referência assim como são as grandes escolas espirituais: beneditina, carmelitana, agostiniana, dominicana, só para citar algumas. Francisco viveu Deus e uma forte experiência de encarnar o Evangelho, fez do seguimento de Jesus Cristo um apaixonado projeto de vida. Daí surgiu esta forte espiritualidade.

Espiritualidade não se prende a definições, mas sim a vivências. É uma escolha persistente de formar o espírito. É cuidar do lado transcendente do humano. Não é apenas fazer orações, devoções, leituras, meditações e frequentar templos. Tudo isto é consequência de um caminho espiritual. Porém, espiritualidade é estar em tudo isto sob o filtro de uma forte experiência do encontro com o divino. Por abraçar o divino, Francisco descobriu uma riqueza plena e se fez pobre. Ter o Tudo sem precisar apegar-se a nada. Do comércio do pai ao Sacrum Commercium com a Senhora Dama Pobreza.

Líder de uma juventude da sua graciosa Assis, ganhou todas as pessoas em todas as idades saindo dos limites da Úmbria. Coerência de vida e escolha, sempre deram  segurança para seus seguidores. Foi cavaleiro pleno de sonhos e fidelidade ao seu Senhor. Não fez da doença uma derrota, mas um caminho de retomar sentidos. Fez da oração um jeito do caminho, pois aprendeu a orar mudando o modo de ver a sociedade e suas ruínas. Vai ser mendigo, pedreiro, penitente, jogral e santo. Percebeu que encontros não são apenas casuais, mas tem que mudar tudo na vida.

Muda diante do Crucifixo de São Damião que jogou um olhar de luz sobre suas sombras; revê sua vida a partir da proximidade com o leproso; faz uma imersão na vida percebendo com muita sensibilidade cada ser criado. Fez da Palavra, alguém. Fez do Presépio, a paisagem da sua alma. Fez da Eucaristia, uma sublimidade humilde e uma humilde sublimidade. Espiritualidade para Francisco  de Assis é ter as marcas do Amado no corpo.

Frei Vitório Mazzuco, ofm


segunda-feira, 16 de maio de 2016


Foi publicado mais um livro de Frei Dorvalino Fassini para os que amam o Franciscanismo, o título é: São Francisco de Assis, Chamado e Resposta. É uma edição do autor, e as encomendas podem ser feitas no seguinte endereço: Paróquia São Francisco de Assis, Rua São Luis, 607, Porto Alegre, RS, CEP: 90620-170, ou pelo e-mail: dorvalinofassini@gmail.com ou pelo telefone (51) 3219-5769.

Frei Dorvalino amplia o interesse pelo modo de ser franciscano que reacendeu após a eleição do Papa Francisco. Há muita coisa a ser reconstruída na vida, na humanidade, no mundo e na Igreja.

Os temas apresentados com profundidade mostram um Santo convocado à vida e a ser um modelo referencial para a humanidade. A busca de sua identidade humana, a doçura do encontro, o vencer-se a si mesmo, o diálogo com o Cristo de São Damião, a convocação do Evangelho. Mas gostaria de chamar atenção a um anexo que Frei Dorvalino faz a partir da página 177 do livro. Ele propõe a criação de GRUPOS DE SÃO FRANCISCO. Não é uma Ordem Franciscana Secular, nem um novo movimento de grupos religiosos, porém é retomar o jeito da Igreja de nascer nas casas, nos grupos apaixonados do cristianismo primitivo.

 Francisco de Assis sempre atraiu pessoas independente das Três Ordens que criou.  Tive a graça de ser convidado para escrever uma introdução a este anexo. Ali reafirmei a importância de criarmos Grupos de São Francisco para a formação do espírito, para uma escola de evangelização, uma forte vivência fraterna, encontro  criativo, multidisciplinar, interativo, com as Fontes Franciscanas e Clarianas nas mãos, mente e coração,  e assim  iluminar as práticas a partir de uma forte espiritualidade.

Acompanho há 26 anos um Grupo como este que se reúne duas vezes por ano em Agudos, e agrega mais de 80 pessoas. Ali se encontram com generosidade e alegria, se deslocam de toda parte do Brasil, para beber na mesma Fonte.  Há oito séculos este modo encarnado de assumir o seguimento de Jesus Cristo não apenas deu certo, como também gerou uma fé pura e fraterna, uma força que conduz e gera energia para ir mais longe ainda. Pertencer a um Grupo movido pela dinâmica desse espírito é como pertencer a uma grande família: a família de São Francisco de Assis, à família cristã e à família humana com mais decisão e inspiração.

Frei Vitório Mazzuco, OFM

sexta-feira, 13 de maio de 2016

Maio, um mês dedicado à mãe divina



Estava relendo a Saudação à Bem-Aventurada Virgem Maria, de São Francisco de Assis, a sua meditação sobre a Ave Maria, e a sua ampliação desta prece. “Ave, palácio do Senhor! Ave, tabernáculo do Senhor! Ave, casa do Senhor! Ave, vestimenta do Senhor! Ave, serva do Senhor! Ave, mãe do Senhor!”. Este mês remete a dimensão maternal na comemoração de todas as mães. É o mês de Maria! Mães para celebrar a origem da nossa existência como filhos da terra, filhos da luz. É sempre bom fazer a Antífona do Ofício da Paixão, de São Francisco de Assis: “Santa Virgem Maria, entre as mulheres do mundo não nasceu nenhuma semelhante a ti, ó filha e serva do altíssimo e sumo Rei e Pai celeste, mãe de nosso santíssimo Senhor Jesus Cristo, esposa do Espírito Santo”.

Deus, que tudo pode e tudo podia fazer nascer de sua vontade, uma coisa Ele não quis: não quis ser Pai de si mesmo e se fez Mãe na Mãe Divina, a Mãe Maria, mulher escolhida pela sombra do Altíssimo para ser a Mãe de seu Filho e Mãe de todos nós. A força divina cria à sua imagem e semelhança uma obra-prima de seu afeto. O que é gerado no escuro do mistério é dado à luz. No ventre escondido da mulher, durante um novenário de meses, é germinada uma semente divina de onde sairá uma nova luz para o mundo. Neste mês celebramos a Mãe Maria e todas as mães. Ventre de mulher é como a Arca da Aliança, guarda com cuidado os sonhos de Deus para parir para a humanidade a vontade, os segredos, os caminhos do Senhor. A força divina realiza na mulher o milagre da reprodução. Vale citar aqui as belas palavras de Michel Quoist: “Sentia falta dela e então a fiz. Fiz a minha Mãe antes que ela me fizesse. Era mais garantido. Agora sou um Homem de verdade, como todos os homens. Nada mais preciso invejar-lhes, pois já tenho Mãe. Mãe de verdade. Estava sentindo falta dela”. Dá para entender Francisco quando ele diz que Ela é casa, palácio, tabernáculo, veste, serva, virtude, rainha, plenitude da graça, virgem feita igreja. Ave Maria, que coisa linda!

Imagem: "Francisco e Maria", de  Francisco de Zurbarán

Frei Vitório Mazzuco OFM

quinta-feira, 12 de maio de 2016

As Caminhadas Franciscanas da Juventude


Tenho acompanhado com encantamento e orgulho a iniciativa de meu jovem confrade Frei Diego Atalino, OFM, com o suporte de confrades e da própria Província Franciscana da Imaculada Conceição do Brasil, em organizar as Caminhadas da Juventude. É como olhar pelos caminhos de Assis, e ver aquele jovem Francisco, munido apenas das Palavras do Evangelho, que convoca a ir pelas estradas do mundo sem alforje, sem bordão, apenas com a provisoriedade da hora, tempo, lugar, poeira e acolhida de muitas portas para muitos passos (Mt 10,9). De 1205 até 2016, Francisco inspira um jeito de ir sem armas, de não correr, mas entrar no ritmo do circundante.

Caminhar é desacelerar a pressa que invadiu o jeito de ir pelo mundo, na loucura de todos os meios que temos hoje para chegar, na neurótica rapidez que impede ver as beiras.

Tenho visto a juventude envolvida neste projeto tendo um novo modo de olhar a vida; percebendo que tem alguém ao lado, uma velha paisagem nova, uma convivência que inspira, ajuda, partilha, realiza pequenos e grandes gestos que revelam o encanto de ir junto. Esta juventude que caminha aprende também a parar, escutar, receber, motivar-se para tocar em frente. O mais bonito é a meta, o chegar lá. Não importam as bolhas nos pés e o cansaço se o coração está focado no mesmo espírito. Estes jovens estão caminhando na gratuidade e não competindo.

Eles não passam este ódio ideológico que impregna as caminhadas supostamente reacionárias. Mas andam com o direito de ser o que querem ser: jovens purificados pelo que a vida oferece quando se faz peregrino e forasteiro. Hoje tem tanta gente estagnada em fóruns políticos querendo decidir para onde devemos ir, sem levar-nos para lugar nenhum. Prefiro os jovens da Caminhada Franciscana da Juventude porque eles querem ir pela Casa Comum, em comunhão com todas as criaturas. Com suas canções, camisetas coloridas, danças e preces, fala, silêncio, celebração e profecia instauram um mundo melhor.

A Caminhada da Juventude é um grito na história, o anúncio de uma mudança, de uma transformação. Quem foi sabe o que estou dizendo aqui; quem não foi um dia vai ter na mochila um mundo de experiências para contar para quem vem vindo atrás! Vamos ‘diegando atalinamente’, com alegria e simpatia pelos Caminhos de Francisco!

Frei Vitório Mazzuco OFM

segunda-feira, 9 de maio de 2016

O ANO SANTO DA MISERICÓRDIA - Perspectivas Franciscanas - Final


É vital encontrar alguém em quem a misericórdia encarnou-se. Pessoas passam pela nossa vida e nos completam com gestos de carinho e atenção. Na prática de gestos de amor e cuidado aí está Deus, com seu infinito olhar de misericórdia.

É urgente que a cada momento as pessoas se comuniquem e se ajudem. Não dá para viver melhor sem a força de alguém.

É natural amar do jeito que Deus ama: de modo incondicional. Na Regra não Bulada 7,13, diz Francisco: “E todo aquele que deles se acercar – seja amigo ou adversário, ladrão ou bandido – recebam-no com bondade”.

É necessário aprender que misericórdia e compaixão é também condescendência, isto é, conviver como os limites, ter uma enorme paciência com o diferente do outro, sobretudo com as sua falhas. Diz Francisco em suas Admoestações 18: “Bem-aventurado o homem que suporta o seu próximo com suas fraquezas tanto quanto quisera ser suportado por ele se estivesse na mesma situação”.

Misericórdia é um modo leve de tratamento cordial e atrela muitas virtudes. No Sacrum Commercium temos a Senhora Dama Pobreza exaltando a simplicidade dos frades porque “eram homens de virtude, homens pacíficos, mansos e humildes de coração “(SCom 37). Esta postura virtuosa transformou-se em Forma de Vida, por isto temos na Regra Bulada 3,11: “Sejam mansos, pacíficos, modestos e afáveis e humildes, tratando a todos com honestidade como convém”.

Misericórdia é amar do jeito como Deus ama. É responder à convocação do Amor de Deus. Diz a Legenda Maior 9, 1: “Segundo Francisco era uma prodigalidade digna de um príncipe essa compensação pelas esmolas recebidas e prova de loucura total preferir o dinheiro ao amor de Deus, pois a inestimável moeda do amor divino é a única que nos permite resgatar o reino dos céus. Eis pois que é necessário amar muito o amor daquele que muito nos amou”.

Este é o jeito franciscano de sentir, pensar e agir misericordiosamente!

Frei Vitório

quinta-feira, 5 de maio de 2016

Mães no dia a dia e na memória de seu dia


Mães envelhecem nos limites do corpo e da idade, porém rejuvenescem cada momento nas fibras do sentimento, são lindas naturalmente. Mães sonham sonhos domésticos, não oníricos e indecifráveis sonhos, mas encarnados sonhos de ver filhos no melhor que a vida pode oferecer.

Mães amam com amor fontal, um manancial profundo de amor que não se esgota. Mães riem no riso de todos os filhos; desmancham-se em lágrimas nas dores de todos os conflitos que maculam os espaços delimitados das paredes do lar.

Mães são nossa dependência necessária. Visionárias e intuitivas. Cheias de manias e profecias. Limpam a casa ajeitando o mundo. Mães são ausência sentida e não preenchida. Embalam a vida ao ritmo compassado do toque do nosso coração. Mães são o lugar da alma. São as esperanças ainda não perdidas. A bronca acolhida. As gavetas arrumadas das nossas desordens.

Mães são e dão remédios na hora certa. Vão onde os filhos vão e os acompanham como radares quando não sabem onde estão. Mães falam na calma do carinho e gritam na hora da incompreensão. Escondem mal-estar, mas gemem cansaços de quem, muitas vezes, lutam sozinhas. Mães arrumam cozinha que deixamos acumular na descuidada falta de atenção.

Mães lavam roupas e sujeiras ocultas, acham segredos em nossos bolsos. Mães sempre têm um dinheirinho para colocar em nossas carteiras sem que se perceba. Mães rezam nos genuflexórios da Virgem Mãe Divina, brigam nas secretarias das escolas deseducadoras, fazem vigílias na espera do filho que adentra madrugada afora. Mães fazem dever de casa e vão arrastar peso de compras na barulhenta solidão dos supermercados.

Mães escolhem nossas roupas e advinham nossos gostos. Acordam esperando nossos maus humorados bom dia, mas abençoam nosso silêncio. Arrumam a mesa para o café numa mesa sem muita conversa. Mães ligam máquinas e desligam as luzes que deixamos acesas. Não param nunca de trabalhar e nem recebem uma horinha extra de nossa ajuda. Mães são heroínas da resistência. Se acabam por nós e ainda têm tempo de fazer a sobrancelha, unhas, pé e mão, para não deixar nunca de ser Mulher, sagração eterna do Feminino! Parabéns pelo seu dia!

Frei Vitório Mazzuco

terça-feira, 3 de maio de 2016

O ANO SANTO DA MISERICÓRDIA - Perspectivas Franciscanas - 14


Fundamental na espiritualidade franciscana é o tema da reconstrução da casa, reconstrução da vida, reconstrução da pessoa, reconstrução dos valores, reconstrução de qualquer tipo de ruína ou decadência. A misericórdia coloca novamente em pé tudo o que experimenta o descuido.

Francisco sente-se olhado pelos olhos penetrantes do Crucificado de São Damião. Pede que Ele ilumine as trevas de seu coração. O que nasce daí o leva para abraçar o que a humanidade tem em suas necessidades: ser amada. Não é qualquer amor, mas ser amado do jeito que Deus ama. Misericórdia é olhar para onde falta luz e acender aí uma chama. O que precisamos acender e iluminar  no   mundo?

Precisamos iluminar o nosso modo de ver, com mais percepção, com mais sensibilidade. É preciso pedir e estar aberto para receber a misericórdia. Na Legenda dos Três Companheiros, Capítulo 5, vemos que: “Certo dia, quando implorava mais fervorosamente a misericórdia do Senhor, este lhe mostrou que muito em breve lhe seria dito o que deveria fazer”.

A consciência dos limites (miseri) pode colocar em situações de crise, de dúvidas, questionamentos e a não nitidez do que se quer realizar. Há certos momentos que nos encontramos numa encruzilhada sem saber para onde ir. É preciso então abandonar-se no Coração de Deus na certeza de que Ele vai mostrar uma saída. A revelação não vem a partir do nosso tempo, mas no tempo de Deus. Mas é preciso pedir, implorar com mais fervor, recolher-se, orar e ocupar-se. Há momentos em que a prece é um grito de misericórdia. Apelos fazem parte da crise. Buscar sempre, pedir sempre, agradecer sempre, confiar sempre, abre um caminho de luz. Buscar a realização, cultivar a realização é contar com a misericordia do Senhor.

A misericórdia garante a verdade de que não estou só. Existe um Deus, que existe pessoas, que existem todos os seres no solidário caminho do acolhimento e cuidado. A misericórdia nos traz irmãos e irmãs para a convivência. A proximidade de todos oportuniza um encontro com Deus nos múltiplos gestos de amor. É com os outros que aprendemos a dimensão samaritana do Evangelho. Temos que aprender a cuidar das pessoas que se apresentam no caminho, umas podem estar caídas e feridas, outras vão abrir a hospedaria, outras vão passar adiante, mas alguém vai parar e realizar atos de amor (cf Lucas, 10, 25-37).

Continua