quinta-feira, 31 de março de 2016

O ANO SANTO DA MISERICÓRDIA - Perspectivas Franciscanas - 9




Francisco, por não ter palavras diante desta Misericórdia Encarnada, busca a inspiração no salmista para compor seu Ofício da Paixão e nele exalta o Deus misericordioso:

“ Naquele dia, o Senhor enviou sua misericórdia e de noite seu cântico “ Sl 41,9 (OP 5,5)
“Os que me afligem exultarão, se eu for derrubado, eu, porém, esperei em vossa misericórdia!” Sl 12,6 ( OP 4,5)
“Atendei-me, Senhor, pois vossa misericórdia é benigna, olhai para mim segundo a grandeza de vossa comiseração” Sl 68,17 (OP 7).
“A vós, salmodiarei, ó meu auxílio, pois sois o Deus que me acolhe, meu Deus, minha misericórdia!” Sl 58,18 ( OP 9)
“ Porque engrandecida foi a vossa misericórdia até aos céus e a vossa verdade até as nuvens!” Sl 56,11 (OP 11)

A exaltação da Misericórdia de nosso Deus em Francisco, em todos os místicos, santos, textos e cultos é exaltação de uma virtude moral; uma postura nobre de quem compreende o sofrimento, a dor, a infidelidade, as fragilidades de outrem e assume como própria. É o “sofrer com” e o “sofrer como” através de um vínculo afetivo e de um comprometimento. A identificação é psicológica, espiritual e social. Os males de outrem são a minha experiência de compaixão. Por isso, Francisco, em seu Testamento, diz: “eu fiz, eu tive misericórdia com eles”. É o ponto de partida para a prática. A misericórdia não é uma bela virtude apenas para ser celebrada, como de praxe se faz; mas é para ser praticada! Benevolência, benignidade, beneficência, solicitude são expressões que povoam as Fontes Franciscanas. A partir do amor que se transforma em caridade e solidariedade procura-se sanar uma miséria real.

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quarta-feira, 30 de março de 2016

21ª Caminhada ao Santuário de Nossa Senhora Aparecida – Pedra Bela (SP)


Fazer uma Romaria é perfazer um caminho diferenciado. Não é qualquer caminhada para testar os limites do corpo, mas perfazer um caminho espiritual. Andar na existência é entrar na graciosidade da vida e na convivência dos passos diferentes de tantas pessoas diferentes: jovens, velhos, adolescentes e crianças com um único objetivo: atravessar a noite vencendo os limites do corpo e chegar lá!

Tudo na vida começa por um passo; é a mística de Santiago de Compostela e de todos os roteiros de peregrinação, inclusive desta tradicional Romaria ao Santuário da Pedra, a Casa da Mãe Divina, Nossa Senhora Aparecida, em Pedra Bela. O essencial do humano é ele pôr-se a caminho a procura de um sentido para a sua vida. Este sentido é o espirito, o fôlego do caminho.


A espiritualidade é o caminho da perfeição, uma dádiva na conquista de um projeto. Elaborar projetos é elaborar caminhos. É preciso enamorar-se do projeto para perceber o dom de caminhar. A Romaria Bragança – Pedra Bela nasceu de apaixonados pioneiros, e lá estavam eles Jayme e Teixeira. Há uma promessa a cumprir, um voto, uma determinação. Há um sonho reunindo mais de 750 pessoas que ali estavam. Nós da Universidade São Francisco nos fizemos presentes com carro de apoio e mais de uma dezena de alunos e professores. Estar ali, participar da força e da energia dos caminhantes, ser apoio no caminho para os que precisavam de cuidado.

Foi maravilhoso sair entre cantos e preces. Rezar o terço, a prece tão simples de todos os caminhos. E depois pegar a estrada, o caminho alternativo pelos campos e montanhas. Sair sábado às 21h30 e chegar na madrugada de domingo às 5h30. A noite do dia 12 e a madrugada do dia 13 de março acolheram os romeiros. Um café da manhã feito com carinho restabeleceu a força. Reflexões e preces. Reencontros e a celebração da Eucaristia! Assim foi nossa chegada a casa da Mãe! É sempre prazeiroso voltar à casa da Mãe Aparecida. Subir degraus para mostrar que a ascensão física corresponde a ascensão espiritual. Chegar lá no alto da pedra e vislumbrar aquela evocativa paisagem onde céu e terra se encontram, lugar transcendente de mística beleza! Um lugar esplendoroso com aquele santuário irradiando simplicidade. Olhar para a Mãe Aparecida e dizer: enfim cheguei! É um Caminho de Realização!

Frei Vitório Mazzuco Filho




segunda-feira, 28 de março de 2016

O ANO SANTO DA MISERICÓRDIA - Perspectivas Franciscanas - 8


O acontecimento do Ano Santo da Misericórdia, que interessa a todas as expressões de vitalidade da Igreja não pode deixar de não tocar de perto a alma franciscana e o seu modo de servir a vida. O Ano Santo nos convida a atuar dentro dos valores nele descobertos. São valores que estão há séculos dentro de nossa herança franciscana. Misericórdia tem muito a ver com a nossa minoridade e pobreza evangélica. A conversão interior comporta mudanças exteriores no espírito da metanoia e de mudança de lugar. A inserção cada vez mais profética na catolicidade, na doutrina, na unidade e na caridade fraterna. O ecumenismo, o diálogo inter-religioso, o testemunho e a evangelização, são temas que estão na dinâmica universal do Ano Santo e nos pilares da nossa permanente formação.

Vejamos também como São Francisco tece louvores ao Deus Misericordioso. Nos Louvores a Deus ele exclama: “Vós sois nossa vida eterna: grande e admirável Senhor, Deus onipotente, misericordioso Salvador” (LD,6). Temos também a invocação: “ Onipotente, eterno, justo e misericordioso Deus, dai-nos a nós míseros(...)” (Carta a toda Ordem,50). E no Comentário ao Pai Nosso: “E perdoai as nossas dívidas: pela vossa inefável misericórdia” (PN7).

Os louvores de Francisco ao modo misericordioso de Deus nos remetem ao jeito bíblico de mostrar a inspiração presente na tradição judaica, o Amor (hesed) e a  fidelidade (emet) que se fundem. O grande amor e fidelidade de Deus para com seu povo instaura uma relação afetiva que explode na prece. Misericórdia tem a ver com a espiritualidade que brota do faminto e do sedento: ter sede de Deus, ter fome de afetos. Isto estabelece uma reação afetiva na hora de extrema necessidade. Sentimentos e desejos que vêm das entranhas do humano gritam a Deus no momento de miséria e carência. A consciência da miséria traz à tona o grito do miserável. O afeto provocado tem que transformar-se em atos em favor do mísero. Há uma criatura que clama por socorro e isto tem que chegar ao coração compassivo de Deus. A misericórdia é a ação do coração de Deus que olha com olhos solidários, com clemência, graça, compaixão, cuidado e ternura. O mísero (miseri, do latim ) evoca o coração (cor, cordis) sem cessar. A misericórdia é um clamor contínuo, todos os dias (“dia”, através de). Linda palavra esta que revela esta experiência. Podemos transcrevê-la de modo silábico: MISERI – COR – DIA! No coração, no corpo, nas entranhas de uma Mulher, Deus assumiu o nosso limite humano (Fl 2,6-11). Assim, o amor e a fidelidade do Pai estabeleceram-se para sempre, através do Filho, sob o filtro do Espírito do Amor. Maria concebe pela força espiritual do Amor. E a Misericórdia está entre nós! Definitivamente! É o Magnificat!

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terça-feira, 22 de março de 2016

O ANO SANTO DA MISERICÓRDIA - Perspectivas Franciscanas - 7


Um aspecto que precisamos dar destaque é a dimensão da Pobreza na caminha penitencial. A vocação de Francisco em assumir e casar com o Projeto de Vida, a Senhora Dama Pobreza, é abraçar a Pobreza e os pobres. Vimos nos relatos citados no início de nossas colocações que ele revestiu das vestes de um mendigo e se pôs a mendigar. É uma investidura, isto é, um sentir-se bem num outro jeito de ser, estar e viver. A vida e as escolhas da vida devem ser o que nos revestem.

Esposar-se com a Pobreza vai transformar-se em Regra de Vida: “Os irmãos não se apropriem de nada, nem de casa, nem de lugar, nem de coisa alguma. E como peregrinos e forasteiros neste mundo, servindo ao Senhor em pobreza e humildade, peçam esmola com confiança, e não devem envergonhar-se, porque o Senhor se fez pobre por nós neste mundo. Esta é aquela sublimidade da altíssima pobreza que vos constituiu, meus irmãos caríssimos, herdeiros e reis do reino dos céus, vos fez pobres de coisas, vos elevou em virtudes. Seja esta a vossa porção que conduz à terra dos vivos. Aderindo totalmente a ela, irmãos diletíssimos, nenhuma outra coisa jamais queirais ter debaixo do céu em nome de Nosso Senhor Jesus Cristo. E onde estão e onde quer que se encontrarem os irmãos, mostrem-se mutuamente familiares entre si. E com confiança um manifeste ao outro a sua necessidade, porque, se a mãe nutre e ama a seu filho carnal, quanto mais diligentemente não deve cada um amar e nutrir a seu irmão espiritual? E se algum deles cair enfermo, os outros irmãos devem servi-lo como gostariam de ser servidos” (Rb VI).

Viver a pobreza é para Francisco identidade e autenticidade de vida. É não ter nada por possuir um único tesouro. Amar a pobreza é amar os pobres e amar o irmão e a irmã, e amar a todos com um amor incondicional. Assim diz a Regra não Bulada: “Todos os irmãos se esforcem para seguir a humildade e a pobreza de Nosso Senhor Jesus Cristo e recordem-se de que nenhuma outra coisa nos convém ter de todo o mundo, a não ser, como diz o Apóstolo, tendo os alimentos e com que nos cobrirmos com estas coisas estejamos contentes. E devem alegrar-se, quando conviverem entre pessoas insignificantes e desprezadas, entre os pobres, fracos, enfermos, leprosos e os que mendigam pela rua. E quando for necessário, vão pedir esmola” (RnB 9, 1-3).

Imagem: Alegoria do casamento de Francisco com a Dama Pobreza, de Giotto

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sexta-feira, 18 de março de 2016

O ANO SANTO DA MISERICÓRDIA - Perspectivas Franciscanas - 6



Não podemos esquecer que Francisco fez sempre um caminho da conversão. Dividir generosamente o tempo, bens, esmolas, moedas, pedaços de roupas, faz parte de gestos penitenciais de eliminação de excessos. Precisa-se descobrir o que se tem demais e ir se desfazendo aos poucos. Conversão não é castigo, mas caminho de transformação através do despojamento. Passar para uma vida que leve às sendas do Evangelho não se dá sem renúncias. Os aspectos pontuais dos valores eclesiais que Paulo VI proclama ao declarar o Ano Santo de 1975 são muito parecidos com os de Francisco de Assis. Há uma correspondência entre a busca da unidade interior e exterior, a compreensão dos valores evangélicos e eclesiais; a fidelidade ao magistério, mesmo que a eclesiologia não corresponda à busca dos leigos pela vivência real da Palavra, e para ter em mãos a Sagrada Escritura. Francisco não contesta, mas se relaciona dentro da catolicidade. Ir em peregrinação traz para Francisco a força missionária e peregrina da Porciúncula (imagem acima), mais tarde abraçada por uma imensa basílica Papal.

Todo peregrino em seu processo de desapropriação e desprendimento faz um mergulho para dentro da Pobreza, que é uma resposta à vocação evangélica e consequentemente uma vocação eclesial. A peregrinação desperta para uma mais profunda comunhão com a Igreja. Isto faz com que seu Carisma vá se delineando como fraternidade, como família espiritual em comunhão com a eclesialidade. Os textos em questão mostram, de um modo muito simples, a prece, o apostolado, a essência, a identificação com uma espiritualidade que encontra inspiração e origem na Igreja Primitiva.

Numa peregrinação uma vocação pode iluminar-se. É uma visita “ad limina”, uma luz maior em meio as sombras e muitas interrogações. Um novo modo de ir e um novo modo de voltar, como vimos no relato acima mencionado da Legenda dos Três Companheiros: “Tomou suas próprias vestes, voltou a Assis pedindo devotamente ao Senhor que guiasse em seu caminho” (LTC 3,10). A peregrinação junto aos Santos Apóstolos exerce em Francisco uma missão de mediação e de purificação da sua escolha por uma vida evangélica, desprezar a glória do mundo e fazer passo a passo o caminho sublime da perfeição evangélica. Este conceito se faz presente numa narração mais tardia, a Liber de laudibus beati Francisci, de Bernardo de Brescia, que através de um conteúdo revelador, passa para a Ordem Franciscana, um amor muito particular ao modo de ser da Igreja dos Atos dos Apóstolos e da itinerância.

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terça-feira, 15 de março de 2016

O ANO SANTO DA MISERICÓRDIA - Perspectivas Franciscanas - 5


De uma primeira leitura destes textos podemos pensar que não haja uma correspondência de fundo com o Ano Santo da Misericórdia. Porém, conseguimos ver neles os valores proclamados no Ano Santo. Vejamos alguns detalhes: Francisco, na sua juventude e mesmo já no maduro caminho de sua vida, ele é um peregrino. A Legenda dos Três Companheiros diz: “Ele andou não muitos dias depois disto a Roma (LTC 3,10) e em 2Cel: "Por isto, uma vez, tendo andado a Roma em peregrinação”; e na LM 1,6: “Tendo pois, naquele tempo, visitado com grande devoção a Igreja de São Pedro, em Roma”. Se olharmos bem os textos maiores que citamos acima, vemos as características bem nítidas da peregrinação: veneração da memória apostólica, estar numa basílica, fazer ofertas, dar esmolas, emoções interiores, impulsos, entusiasmo e testemunho evidente. A ligação com a Cátedra de Pedro está implícita na peregrinação medieval e na veneração dos túmulos dos apóstolos. É um senso de pertença, de unidade, de comunhão com a Igreja de Roma, é a Romaria; mesmo que a eclesiologia da época não empolgasse muito, pois estava mais preocupada com reinos e reis, Cruzadas e poder. Mas se há unidade com a Igreja a eclesiologia tem que mudar.  Esta atitude de Francisco de ir à Roma tem uma relação de contraste com os Movimentos Penitenciais de então. Alguns ao lado da Cúria Romana, outros nem tanto; pois havia uma contestação dos movimentos considerados heréticos, que eram anticlericais e anti-eclesiais na sua rebeldia e na oposição. Francisco vai à Roma e não abre mão da Igreja.

Não podemos esquecer os elementos fortes de uma piedade popular que estava na peregrinação: a grande devoção e religiosidade, a prece constante, o silêncio contemplativo e as vestes despojadas. Em Francisco podemos considerar peregrinação o seu projeto de chegar um dia a Santiago de Compostella, ao Monte Gargano, e à Terra Santa.

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segunda-feira, 7 de março de 2016

O ANO SANTO DA MISERICÓRDIA - Perspectivas Franciscanas - 4


Continuemos lendo os relatos de Tomás de Celano e de São Boaventura: “Ama os pobres de maneira especial, os sagrados inícios já davam indicações daquilo que ele haveria de ser de maneira perfeita. Despindo-se frequentemente a si mesmo, vestia os pobres, aos quais procurava assemelhar-se, conquanto ainda não pela prática, mas já de todo coração”.

Numa ocasião, ao fazer uma peregrinação a Roma, Francisco depôs as vestes delicadas por amor da pobreza e, coberto com as vestes de um pobre, no átrio diante da igreja de São Pedro, que é um lugar cheio de pobres, sentou-se alegremente entre os pobres e, considerando-se como um deles, come avidamente com eles. Muitas vezes, ele teria feito semelhante coisa, se não tivesse sido impedido pela vergonha dos conhecidos. Quando se aproximou do altar do príncipe dos apóstolos, admirando-se de que aí os visitantes faziam tão módicas ofertas, lança dinheiro com a mão cheia no lugar, indicando que deve ser mais especialmente honrado por todos aquele que Deus honrou mais do que os outros” (2Cel 8). “Também a suavidade da compaixão brotara para o servo do Senhor com tanta profusão e plenitude da fonte da misericórdia que ele parecia ter vísceras maternas para aliviar a miséria das pessoas miseráveis, visto que tinha também uma clemência congênita que a compaixão de Cristo, infundida copiosamente sobre ele, duplicava. E assim seu espírito se liquefazia para com os enfermos e pobres, e aos que não podia oferecer a mão, oferecia o afeto; pelo fato de que referia a Cristo, com doçura de piedosa compaixão, tudo o que via de penúria, tudo o que via de necessidade em alguém. E ao ver em todos os pobres a imagem de Cristo, dava generosamente aos que vinham ao seu encontro não só as coisas necessárias à vida, que por acaso também lhe haviam sido dadas, mas também julgava que deviam ser-lhes restituídas, como se fossem próprias deles. Não poupava coisa alguma, nem capas nem túnicas, nem livros nem mesmo paramentos do altar sem dar, enquanto podia, tudo isto aos necessitados, desejando, para cumprir o ofício da perfeita compaixão, desgastar-se até a si próprio” (Lm 7).

Leiamos o belo relato de I Fioretti: “O maravilhoso servo e seguidor de Cristo, isto é, São Francisco, para se conformar perfeitamente com Cristo em todas as coisas, o qual, segundo diz o Evangelho, mandou os discípulos dois a dois a todas aquelas cidades e regiões aonde devia ir; depois que, a exemplo de Cristo, reunira doze companheiros, os enviou pelo mundo a pregar dois a dois. E, para lhes dar o exemplo da verdadeira obediência, começou ele primeiramente a fazer do que a ensinar (...) Tomando Frei Masseu por seu companheiro, seguiu para a província da França. E chegando um dia, com muita fome, a uma cidade, andaram, segundo a Regra, mendigando pão pelo amor de Deus; e São Francisco foi por uma parte, e Frei Masseu por outra. Mas, por ser São Francisco um homem muito desprezível e pequeno de corpo e por isso reputado um vil pobrezinho por quem não o conhecia, só recolheu algumas côdeas e pedacinhos de pão seco. Mas Frei Masseu, pelo fato de ser um homem alto e cheio de corpo, deram muitos e bons pedaços grandes de pães inteiros. Acabada a mendigação, reuniram-se fora da cidade para comer em um lugar onde havia uma bela fonte e junto uma bela pedra larga, sobre a qual cada um colocou as esmolas recebidas. E vendo São Francisco que os pedaços de Frei Masseu eram em maior número e mais belos e maiores que os dele, mostrou grande alegria e disse assim: “Ó Frei Masseu, não somos dignos deste grande tesouro”. E, repetindo estas palavras várias vezes, respondeu-lhe Frei Masseu: “Pai, como se pode chamar de tesouro, onde há tanta pobreza e falta de coisas que necessitamos? Aqui não há toalha, nem faca, nem garfo, nem prato, nem casa, nem mesa, nem criada, nem criado”. Então, disse São Francisco: "Isto é o que considero grande tesouro, porque não há coisa nenhuma feita por indústria humana, mas o que aqui existe é feito pela Providência divina, como se vê manifestadamente pelo pão mendigado, pela mesa de pedra tão bela e pela fonte tão clara: por isso quero que peçamos a Deus que o tesouro da santa pobreza tão nobre, o qual  tem Deus para servir, seja amado de todo coração”. E ditas estas palavras e rezada a oração e tomada a refeição corporal com aqueles pedaços de pão e aquela água, levantaram-se para ir à França (...). E feito isso disse São Francisco: “Companheiro caríssimo, vamos a São Pedro e São Paulo, e roguemos-lhe que nos ensinem e nos ajudem a possuir o desmesurado tesouro da santíssima pobreza” (I Fioretti 13).

"Francisco e Masseu na fonte", ilustração do livro de J.M. Dent & Sons Ltd, publicado em 1919, em Londres.