segunda-feira, 28 de dezembro de 2015

PROFECIA DA FAMÍLIA FRANCISCANA DO BRASIL - X


Depois da pausa para o tempo de Natal, retomamos a reflexão sobre o tema "Profecia da Família Franciscana" - item 3.


Na experiência religiosa do mundo e das pessoas, onde está Deus? Deus está muito nas religiões das pessoas e menos na espiritualidade. Não aceite o poder da religião que para mostrar a glória de Deus diz que você não vale nada. Não acredite numa religião que joga Deus contra o humano. Isto pode ser uma espécie de pedagogia religiosa, mas não é espiritualidade franciscana e clariana. Tem muita gente se arvorando em santidade, mas não quer nada com a humanidade. Não adianta ser santo enquanto o mundo vai à breca. Indivíduo é um burguês espiritual. Sujeito é o Evangelho feito profecia!

Produza uma cultura de originalidade e não de clones. Seja político de um modo verdadeiro, no verdadeiro sentido da política: arranjo existencial para o bem comum; capaz de sacrifícios em vista do bem comum. A política não é tudo, mas tudo tem uma dimensão política. A classe política nos representa sim: nós a colocamos lá a través da nossa covardia e alienação. O sujeito ama e pensa o social na medida do amor; não herda uma política, mas sim a conquista. Seja uma presença de ação forte e simbólica: cultivo de identidade que se apresenta e fala. A ação simbólica tem consequências políticas.  Apresente-se! O que não tem visibilidade não existe! Indivíduo se esconde em cópias, sujeito é presença e diferença muito original. A humanidade precisa de nossa sadia originalidade.

Seja uma identidade plena e não vazia. Hoje há uma extrojeção compulsória de uma identidade vazia. É o big brother brasil e sua gritante audiência. É a morte da naturalidade, da sensualidade, da banalização das convivências. Não somos androides feitos para copular sob edredons! Isto embrutece os espíritos que sonham ser mais sadios.

Seja um serviço voltado para as minorias ameaçadas. Ir onde ninguém quer ir, fazer o que ninguém quer fazer. Isto a FFB tem que ter coragem de pegar!

continua

segunda-feira, 21 de dezembro de 2015

Mensagem de Natal

Alguém pendurou esperança em nossa miséria



Dezembro tem um ‘climão’. Aguça a sensibilidade a tal ponto que algumas coisas doem, outras impactam, algumas gritam. Podem pedir nos semáforos uma ajuda que desconfiados negamos em outros dias e meses do ano, mas os olhares suplicantes desta época evocam uma solidariedade que precisa ser despertada. Há presépios em todos os cantos dizendo que se do Oriente magos trouxeram presentes à um Menino que tinha o aplicativo da Estrela indicando rota, quem sabe não possamos chegar ao coração de alguém que pede no sinal, porque está no vermelho.

Vejo corpos tatuados como hierógrifos rupestres das cavernas primitivas. Se a alma e o coração não são vistos, é melhor marcar a pele; porém dezembro revela um Deus encontrado na Carne. Não seria melhor tatuar no ar das intuições e inspirações e depois deixar o corpo mostrar o que vem de dentro dos poros? Tem gente sem casa, sem lugar, sem crédito, sem noção e sem nada. É no meio disto tudo que Ele vem habitar entre nós para dar um jeitinho em tamanha falta de jeito. Amamos o tempo de Natal e enfeitamos os dias de cores e as trevas de luzes porque, afinal, Alguém pendurou esperança em nossa miséria. Uma árvore de plástico chinês substitui o pinheiro morto pela moto serra, mas vá lá, que uma bola colorida não substitua sementes nem os biomas! Se as interrogações dos corações valem apenas um e noventa e nove, ainda tem enfeite simbolizando a glória humana de parecer-se com um Deus, e isto não tem preço! Enquanto um jornal nacionalmente semeia a neura da realidade catastrófica, e revistas dizem que há época de crise, isto é, veja as publicidades de nossas páginas e editoriais manipulados; um Deus aparece, uma Mulher diz o mais importante Sim, um Espírito fecunda!  Apesar das estatísticas, Natal dá ibope sim, proclama quem é quem no divinizar a humanidade. O Menino Deus é a gramática que todo mundo entende sem precisar de analistas de plantão nos intervalos das notícias.

Escuto, leio, acesso e curto no facebook, até algumas amigas e amigos meus fazendo discursos políticos, ou melhor, ódios ideológicos vociferados com palavrões, xingando a mãe do juiz diretamente da arquibancada, já que todo mundo perdeu a cadeira cativa. Porém, prefiro o silêncio trêmulo de emoção sagrada que mostra que o Verbo se fez Carne no maior projeto de crédito total no humano. Mesmo assim não tinha lugar para nascer, foi conviver com boi e burro, fez a cama na varanda de um estábulo, chorou na manjedoura a dor de ter que aguentar um Herodes assassino capaz de matar crianças; um César Augusto fazendo recenseamento; portas se fechando e uma fuga para o Egito, um Deus migrou, mudou de lugar, e tanta gente aqui, apenas mudando de canal com o controle remoto do cérebro estatelado comodamente no sofá. Deus foi lá e brilhou, e mudou a conjuntura, sem grito, sem carro de som, sem boneco inflável e sem camisa verde amarela na rua. Resolveu onde tinha que resolver: a partir da sagrada família! O projeto de recuperar a convivência e não a conveniência de mercado. Deus foi lá concretizar um sonho de  pai que acredita em sonho e cuida do filho mais do que do carro, ouve a voz do anjo e não das postagens da mídia repetitiva, acredita na mulher parindo Vida Eterna, e vê que por detrás de todo desejo utópico há o tópico da realidade: a história é para quem sabe se encarnar, pra quem representa a memória da ânsia essencial e suprema da natureza humana: não sou cópia de produto, sou um Deus chegando para ensinar que identidade é espiritualidade e não partido político ou time de futebol.

Fim de ano tudo está cheio, ruas estão cheias, feiras, as lojas, o trânsito, filas, lotéricas, o saco do Papai Noel, as câmeras digitais, os selfies no colo do velhinho e todo mundo querendo chegar primeiro para ganhar alguma coisa.  Mas foi Deus quem chegou primeiro onde nós queríamos chegar: no coração das pessoas e das coisas. Aproveitou uma abertura infinita na plenitude dos tempos e veio. Mostrou que mesmo no vazio há espaço para o melhor de Deus e o melhor do humano. Não quis ser o esperado presente de amigo oculto, mas segredo revelado, desejado, prazer de eternidade, uma beleza e uma bondade profunda dada gratuitamente sem estipular quantia. Não precisou de prefeitura para iluminar a praça, mas mandou anjos cantarem na noite aos corações pastores com réstias de boa vontade, a seguinte verdade: o que ilumina a vida é chegar primeiro ao Mistério. Que ser homem e mulher é ser igual o Verbo que se fez Palavra, e mostrou o que é ser gente e Deus ao mesmo tempo, e que isto é Vocação para a Santidade e não programa vazio de pregadores gritando pecado, culpa e demônios para todo lado. Natal é graça! Chega de desgraça no horário nobre!  Horário nobre é dizer: é chegada a hora e é agora, o Reino do Céu está entre nós!  Não precisamos nos calçar de nenhuma cunha, Ele é o puro, o transparente, a Criança Eterna, o Emanuel, o Deus conosco!

No meio de tanta sombra obscura é preciso dizer: Feliz Natal! Feliz Renascer! Feliz Refundar!  Feliz começar de novo! Feliz Natal mundo! O Amor já estava presente no mundo em forma de obras do Criador e gestos de cuidado, todavia soltaram lama nos leitos dos que dormiam sossegados no povoado perto da barragem. Não se chorou muito os desaparecidos, mas o doce do rio que ficou turvo e as praias comprometidas em pleno verão. Feliz Natal para os que salvam as espécies! Principalmente os que se preocupam com a espécie humana. Feliz Natal para os que fazem novenas cantando e orando para a Luz verdadeira, a que ilumina toda a vida em todos os tempos. Feliz Natal para os que estão presentes lá onde está a verdade, porque de fofoca o wattsapp já está congestionado! O Menino Deus ajuntou num presépio a paisagem mais completa e a Boa Nova mais lúcida. Compartilhou a comunicação fraterna e não o controle da vida dos outros. Preferiu ser modelo e salvação para a alteridade, assumir o mundo e não o abandonar jamais.  Feliz Natal para os que amam o Filho de Deus como irmão maior, Deus imenso, eterno companheiro que veio morar junto.  Feliz Natal para os que sabem que ele é sacramental, que é Palavra Sagrada, tudo repartido como precioso presente.

Feliz Natal para os que levantam de madrugada e vão lá conferir na minha linha do tempo onde estou e com quem estou! Obrigado por se preocuparem comigo! Mas saibam que é muito bom estar onde o Verbo se fez Carne; que é muito bom estar no Bosque de Greccio onde não tem sinal de internet, mas sinal do céu! É muito bom estar totalmente aqui onde Ele veio, com endereço de Belém, em Nazaré, no sentido que explode para dentro e implode sentidos para fora. É bom saber que é bom estar onde Deus diz: eu te amo! É bom estar onde Francisco de Assis andou graciosamente tocando violino em galhos secos para acalmar o lobo de Gubio. Feliz Natal! Feliz Ano Novo! Desculpem as muitas palavras, mas agora preciso ir contemplar a cidade, doar um livro, fazer prece, pensar nos que pensam a Paz e o Bem, enfim, fazer um atentado poético!

Fr. Vitório




quinta-feira, 10 de dezembro de 2015

PROFECIA DA FAMÍLIA FRANCISCANA DO BRASIL - IX



3. A FAMÍLIA FRANCISCANA E SEU MODO PROFÉTICO DE SER RESPONSÁVEL

O que é ser responsável? Na raiz da palavra responsabilidade está o latim medieval: “spons”, que significa: assumir em vista de uma profunda união. É um esponsal místico com a vida. É profético casar com os projetos, casar com as verdadeiras escolhas. Casar com aquilo que está em minha alma. Amar a fonte e a raiz e encontrar-se com elas. Sem a fonte e a raiz não somos nada. Isto está na base de todos os pactos, de todos os comprometimentos, de todas as alianças. De “spons” vem resposta e responsabilidade. Na Idade Média havia uma mística que movia as ações: “Tuum semper videns principium!” = ver sempre o teu princípio!  Em Clara de Assis isto é dizer: “Não perca de vista seu ponto de partida!”

Ser responsável é dar-se por inteiro. Quando você se entrega por inteiro não sobra nada. Dá tudo como princípio da Pobreza. Você não é uma migalha. Quando se dá tudo torna-se totalmente livre, por isto responsabilidade e liberdade não se separam. “Spons” é  união profunda e duradoura; é corresponder continuamente a um compromisso assumido e não perder de vista que o laço que se quer assumir é a transformação da vida e da história por Amor. “Spons” é encantamento! Sem enamoramento não conseguimos viver!

Esta é a profética responsabilidade de criar uma nova identidade: ser sempre protagonista do Reino, tempo de transformação, é chegada a hora e é agora! Ser sujeito livre e responsável. O que isto significa?  Ser fiel ao que se acredita sem a mediação do mercado que não tem pátria e nem fidelidade. O mercado roubou até a alma da religião e fez dela a sua alma, por isso a nossa sociedade está encharcada de religião sem alma. Ser responsável é ser agente de mudanças e isto significa entrar numa forte espiritualidade. Não posso perder o sagrado que existe em mim! Empresas e instituições não podem sufocar a minha liberdade e responsabilidade, nem minha libido. Eu amo e isto é tudo! Faço por amor e não quero que nenhum sistema me adoeça. Vou usar bem o meu tempo e não deixar que ele faça um embotamento de experiências. Não se pode viver a descartabilidade de relações. Nem um envelhecimento precoce. Não somos mercadoria que vem com prazo de validade.

Continua

terça-feira, 1 de dezembro de 2015

PROFECIA DA FAMÍLIA FRANCISCANA DO BRASIL - VIII



Ser livre é abraçar as causas propostas por esta Assembleia Geral Ordinária. A Família Franciscana do Brasil ajuda a pensar uma existência franciscana e clariana no mundo; a trabalhar em comum. Nós precisamos da força de muitos e muitas para nos achar em meio a tudo isto. Precisamos da força de todos para reconstruir a transformação da intimidade e da subjetividade. Em que consiste ser humano? É a decisão de ser melhor entre os melhores, de ser mais em meio à mediocridade. É uma decisão de moldar uma nova identidade como vimos acima. Toda decisão tem uma cisão, comporta uma ruptura. Francisco disse que isso é conversão, Clara também: para eles conversão é mudar de mentalidade e mudar de lugar!

Neste sentido vamos aprender com os nossos pais fundadores. Nós fazemos cálculos, eles faziam sonhos. Nós fazemos terapias, elas faziam estrada e abriam caminhos de ver mais profundamente. Nós não abraçamos muito o passado, mas eles são medievais que permanecem como uma eterna provocação para ser;  para serem confrontados como modelos necessários, e não apenas serem usados pelo estereótipo. O moderno recicla o medieval e vende segundo o seu interesse. Não dá para vender Clara e Francisco, pois eles romperam com isto. Por isto vão estar sempre cutucando nossas estruturas.

Ser livre é ser simples. É guardar a força e a visão da decisão, da compaixão, pelo caminho da cordialidade e da simplicidade. O coração é o ser humano inteiro. O simples é inteiro. O complicado aumenta suportes. Francisco saiu da tutela da casa de Pedro Bernardone e Clara saiu da tutela da  casa de Offreducci Favaroni porque não queriam produzir riquezas, queriam produzir sonhos de uma vida mais simples e livre.

Continua