terça-feira, 27 de outubro de 2015

PROFECIA DA FAMÍLIA FRANCISCANA DO BRASIL - II



Continuação da Introdução

Nos primórdios das primeiras comunidades, Francisco querendo animar os Irmãos a refazerem a experiência dos Apóstolos no mundo, fala de uma visão profética, conforme relata Tomás de Celano: “O bem-aventurado Francisco enchia-se a cada dia da consolação e da graça do Espírito Santo e com toda vigilância e preocupação formava os novos filhos com novas instituições, ensinando-os a andar com passo indeclinável no caminho da santa pobreza e da bem-aventurada simplicidade. E, num certo dia, ao admirar-se da misericórdia do Senhor com relação aos benefícios a ele concedidos e ao desejar que lhe fosse indicado pelo Senhor o processo de sua conversão e dos seus, dirigiu-se a um lugar de oração, como ele fazia tantas vezes. (...) Em seguida, foi arrebatado em êxtase e totalmente absorvido por uma luz e, tendo-se-lhe dilatado as fronteiras do coração, viu claramente as coisas que haveriam de acontecer. Retirando-se finalmente aquela suavidade e luz, renovado no espírito, ele parecia transformado em um outro homem.

E assim, voltando-se alegremente, disse aos irmãos: “Confortai-vos, caríssimos e alegrai-vos e não fiqueis tristes por parecerdes poucos, nem vos amedronte a minha ou a vossa simplicidade, porque como me foi mostrado pelo Senhor na verdade, Deus nos fará crescer transformando-nos na maior multidão e nos dilatará de maneira múltipla até os confins da terra. Também para vosso proveito, sou obrigado a dizer o que vi, o que eu certamente preferiria calar, se a caridade não me obrigasse a relatar-vos: “Vi  grande multidão de homens que vinham até nós e queriam conviver conosco no hábito, no santo modo de vida e na regra da bem-aventurada Religião. E eis que ainda está nos meus ouvidos o ruído daqueles que vão e voltam segundo o mandato da santa obediência. Vi os caminhos como que cheios da multidão deles a se reunirem de quase todas as nações nestas regiões. Vem franceses, apressam-se espanhóis, correm alemães e ingleses, e avança a maior multidão de outras línguas diversas. Quando os irmãos ouviram isto, encheram-se de salutar alegria tanto por causa da graça que o Senhor Deus conferia a seu santo quanto porque tinham sede ardente da conquista de outros que eles desejavam fossem acrescentados a cada dia ao seu número.

E disse-lhes o santo: "Irmãos, para rendermos graças fiel e devotamente ao Senhor nosso Deus por todos os seus dons e para que saibais de que maneira se deve conviver com os irmãos presentes e futuros, compreendei a verdade dos processos que hão acontecer. Agora, no início de nosso modo de vida, encontraremos frutos muito doces e suaves para comer, mas, pouco depois, ser-nos-ão oferecidos alguns de menor suavidade e doçura; e no fim, ser-nos-ão dados alguns cheios de amargor, os quais não podemos comer, porque devido a sua acidez, serão incomestíveis a todos, embora apresentem algum perfume e beleza exterior. E, como eu vos disse, o Senhor verdadeiramente nos aumentará em povo numeroso. Mas por último acontecerá como quando um homem lança suas redes ao mar ou em algum lago e apanha copioso cardume de peixes e, depois de ter jogado todos em seu barco, não querendo por causa da grande quantidade levar todos, escolhe os maiores e os que lhe agradam em seus vasos e atira fora os demais. Aos que consideram com espírito de verdade ficaram bastante manifestas a verdade com que refulgem e a clareza com que se manifestam todas estas coisas que o santo de Deus predisse. Eis como o espírito de profecia repousou sobre São Francisco” (1Cel 26-28).

Continua. No próximo post, o capítulo: A FAMÍLIA FRANCISCANA DO BRASIL E A IDENTIDADE COMO PROFECIA.
 

quinta-feira, 22 de outubro de 2015

PROFECIA DA FAMÍLIA FRANCISCANA DO BRASIL



INTRODUÇÃO

Quando o mundo entra em transformações profundas que atingem as conjunturas, as  pessoas, as  estruturas, as  religiões e a diversidade de grupos humanos, é aí que a profecia tem muito que fazer. Quando em meio à crise e problemas, é aí que o jeito profético, franciscano e clariano de ser, afirma, confirma, provoca e desafia a partir dos valores do Evangelho, este modo de ser presença, grito, convivência e respostas para infindáveis perguntas.

Profeta não fala a partir de si, mas da inspiração, da força divina que o habita. Fala em nome de uma verdade maior que é inspiração, de um valor maior que torna-se seguimento apaixonado. Acredita que há um chamado, uma escolha sagrada que atravessa a sua pessoa. É obediente, fiel e leal. Obediente na escuta do valor maior, fiel ao projeto de vida pessoal e comum, leal a Alguém. Profeta ama a Deus incondicionalmente e assume um compromisso de com Ele mudar os rumos da história. Ele não tem bola de cristal, nem é um adivinho ou guru de plantão gerando consultas. Mas é um ser de total intimidade e sincronia com o Senhor da vida e portador da maior certeza: um Deus misericordioso e compassivo aproxima-se da história, humaniza-se, devolve dignidade ao humano e esperança aos pobres. Sabe que Deus precisa de sua presença, palavra e protagonismo.

Profecia não é um tratado teológico, mas um uma experiência de Deus. Sabe a força divina presente nos fatos do Antigo e Novo Testamento e torna-se um protagonista desta força de um Deus que age através dele. Sabe compreender um Deus terno, paterno, materno e fraterno que gerou, na Aliança, grupo humano forte, desde Abraão, Isaac e Jacó até a Encarnação do Verbo. Sabe continuar a atuação encarnada deste Deus na vinda de seu Filho que pisou fraternalmente o chão da terra dos humanos para falar da Boa Nova, do Reino, da justiça, da cura, da defesa dos fracos, da sorte do povo, e de toda uma história transformada a partir da Ressurreição

Francisco de Assis, Clara de Assis e sua comunidade primeira tiveram um modo diferenciado de viver em seu tempo e em sua terra porque, através de um modo terno, vigoroso, paterno, materno e fraterno souberam fazer do Evangelho a sua própria vida, históra e votos. O amor a Deus era a primazia absoluta de suas palavras e atos. A partir deste amor encontraram a riqueza de viver em fraternidade, pregar a paz em tempo de guerras, tensões entre classes sociais, injustiça e discriminação de doentes, pobres e leprosos. Francisco de Assis, Clara de Assis e seus primeiros irmãos e irmãs viveram natural e corajosamente pobres, desapropriados e desapegados num tempo de ostentação de poder de bens, armas, terras, cavalos, roupas, hierarquia, guerra de religião, e ambição de títulos de nobreza.

Imagem: Piero Casentini 

No próximo post, continua a introdução deste tema.

sexta-feira, 16 de outubro de 2015

FRANCISCO DE ASSIS E A OBEDIÊNCIA COMO SERVIÇO


Esta é a chamada obediência amorosa que tem que caracterizar a fraternidade. Ela é fruto do Amor no Espírito, ajuda tanto os superiores como os súditos a viverem segundo o Espírito do Senhor. Assim, quando um Ministro Provincial, um Ministro da Fraternidade, não se comporta segundo o Espírito, segue a carne e vai contra a pureza da vida fraterna, e devem levá-lo ao Ministro Geral. Quando entre os irmãos existe alguém que não vive segundo o Espírito, mas segundo a carne, os demais irmãos devem admoestá-lo solícita e humildemente, se não emendar-se devem levá-lo ao Ministro Provincial.

Isto não é castigo, mas serviço recíproco. “E nenhum irmão faça mal a outro ou diga mal dele; muito pelo contrário, através da caridade do espírito, sirvam e obedeçam uns aos outros de boa vontade. E esta é a verdadeira e santa obediência de Nosso Senhor Jesus Cristo” (RnB 5). Aqui, Francisco de Assis recorre com liberdade, que é uma de suas características, a uma expressão bíblica, tirada de São Paulo: Irmãos, sois chamados à liberdade.

Procurai que esta liberdade não sirva a carne, mas sim uns aos outros ao Espírito, por amor ao Espírito. Pois toda a Lei se resume em uma só palavra, a saber: ama ao próximo como a ti mesmo ( .... ) E digo: caminhai no Espírito contra a carne. As obras da carne são impuras ( .... ). Porém, os frutos do Espírito são: amor, alegria, paz, paciência, benevolência, bondade, longanimidade, mansidão, fé, modéstia, abstinência, castidade ( .... ). Se, pois, vivemos no Espírito temos que caminhar com o Espírito “ (Gal 5, 13-26; Rm 15,30).

Francisco de Assis acrescenta a obediência como serviço recíproco e de modo livre a compara à obediência de Cristo. Servir e obedecer mutuamente é o caminho de Cristo que resume toda lei, todo amor. Viver assim é vencer o egoísmo.

Imagem: Francesco Podesti (Ancona 1800-Roma 1895)

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terça-feira, 13 de outubro de 2015

FRANCISCO CHAMA A ATENÇÃO PARA OS PENITENTES SÓ NA APARÊNCIA



E as Admoestações XIV? Vejamos: “Bem-aventurados os pobres de espírito, porque deles é o reino dos céus. Muitos há que, insistindo em orações e serviços, fazem muitas abstinências e macerações em seus corpos, mas, por causa de uma única palavra que lhes parece ser uma injúria a seu próprio eu ou por causa de alguma coisa que se lhes tire, sempre se escandalizam e se perturbam. Estes não são pobres de espírito, porque quem é verdadeiramente pobre de espírito se odeia a si mesmo e ama quem lhe bate na face” (Adm XIV).

São palavras surpreendentes em Francisco de Assis, tão dedicado à oração e a exercícios de penitência. Mas estas palavras revelam a perspicácia que Francisco tinha em distinguir entre os pobres, penitentes e contemplativos só na aparência, que no fundo de seu coração não buscavam mais do que a si mesmos, e ao menor mal que sofressem, ou algo de ruim que os afligisse, fugiam da serenidade.

Muito diferente daqueles que faziam da penitência um caminho para diminuir os exageros do eu, e desprendidos e humildes, amavam as contrariedades, não temiam perseguições, porque o seu eu se anulava na força do Senhor. A expressão pobreza de espírito ou pobreza com espírito é, efetivamente, a ação do Espírito Santo que opera em pessoas de virtudes autênticas. Aquelas pessoas que tinham um verdadeiro amor ao Espírito do Senhor. Para isto temos que ir à Regra não Bulada, Capítulo V: "E cuidem todos os irmãos, tanto os ministros e servos como os demais, para não se perturbarem ou se irritarem por causa do pecado ou do mal do outro, porque o demônio quer, por causa do pecado de um só, corromper a muitos; mas ajudem espiritualmente, como melhor puderem, aquele que pecou, porque não são os sadios que precisam de médico, mas os enfermos. Igualmente, nenhum irmão exerça qualquer poder ou domínio, mormente entre si. Pois, como diz o Senhor no Evangelho: Os príncipes das nações as dominam e os que são os maiores exercem poder sobre elas; não será assim entre os irmãos; e quem quiser tornar-se o maior entre eles seja o ministro e servo deles; e quem é o maior entre eles faça-se o menor ( cf Lc 22,26)” (RnB 5)

Imagem de Mariano Salvador Maella, pintor espanhol (1739-1818)

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quinta-feira, 8 de outubro de 2015

NÃO EXISTE CIÊNCIA QUE NÃO VENHA DE DEUS



Vamos continuar comentando umas palavras de São Francisco presentes nas Admoestações VII: “Diz o apóstolo: a letra mata, o espírito, porém, vivifica. São mortos pela letra aqueles que somente desejam conhecer as palavras para serem considerados mais sábios entre os outros e poderem adquirir grandes riquezas, para dá-las aos parentes e amigos. São também mortos pela letra aqueles religiosos que não querem seguir o espírito da divina escritura, mas apenas desejam conhecer as palavras e interpretá-las aos outros. E são vivificados pelo espírito da divina escritura aqueles que não atribuem a seu eu toda letra que conhecem e desejam conhecer, mas, pela palavra e pelo exemplo, as retribuem ao altíssimo Senhor Deus, de quem é todo bem”.

O Espírito vivifica a letra como um bem, como um dom de Deus; o Espírito coloca a palavra em referência a Deus. Os que abusam do conhecimento da letra para fins egoístas, por razões de orgulho, podem conhecer o fracasso, e morrem em suas palavras. Não existe ciência que não venha de Deus e que não remeta a Ele.

As Admoestações VIII completam: “Diz o apóstolo: Ninguém pode dizer Senhor Jesus, a ser no Espírito Santo. E também: Não há quem faça o bem, não há sequer um só. Portanto, todo aquele que inveja seu irmão, por causa do bem que o Senhor diz e faz nele, pertence ao pecado de blasfêmia, porque inveja o próprio Altíssimo que diz e faz todo o bem”. Existem currículos? Existem graus acadêmicos? Existe brilho de conhecimento? Não é apenas mérito humano, mas ação do Espírito do Senhor e a Ele deve retornar. O conhecimento é mediação da Sabedoria que vem do Altíssimo.

Imagem de São Francisco no altar da Paróquia São Francisco de Assis - SP

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terça-feira, 6 de outubro de 2015

OBEDIÊNCIA AMOROSA


Continuação do tema abordado no último dia 2 de outubro

Quem são estas pessoas que vivem religiosamente no mundo sem estarem ligadas a uma Instituição? São aquelas que querem viver os conselhos que brotam do Evangelho. Em obediência mútua formam fraternidades. Para as três Ordens, e aqui Francisco escreve para a Ordem Franciscana Secular, vale a obediência amorosa, os que recebem um encargo sejam os menores e servos de todos, que tratem os irmãos e irmãs com misericórdia.

Vejamos uns trechos da Carta aos Fiéis: “Sendo servo de todos, tenho por obrigação servir e ministrar a todos as odoríferas palavras de meu Senhor. Por isso, considerando em meu espírito que não posso visitar a cada um pessoalmente por causa da enfermidade e fraqueza de meu corpo, resolvi transmitir-vos por meio da presente carta e de mensageiros as palavras de Nosso Senhor Jesus Cristo, que é a Palavra do Pai, e as palavras do Espírito Santo, que são espírito e vida. Esta Palavra do Pai tão digna, tão santa e gloriosa, o altíssimo Pai a enviou do céu por meio de seu santo anjo Gabriel ao útero da santa e gloriosa Virgem Maria, de cujo útero recebeu a verdadeira carne da nossa humanidade e fragilidade. Ele, sendo rico acima de todas as coisas, quis neste mundo, com a beatíssima Virgem, sua Mãe, escolher a pobreza. (....) Tenhamos igualmente caridade e humidade; pratiquemos a esmola, porque ela lava as almas das imundícies dos pecados. Pois os homens perdem tudo o que deixam neste mundo; levam, porém consigo, o fruto da caridade e as esmolas que praticaram, pelas quais terão do Senhor o prêmio e a digna remuneração. (...) Àquele a quem foi confiada a obediência e que é tido como maior seja o menor e servo dos outros irmãos. E faça e tenha misericórdia para com cada um dos irmãos, como gostaria que se lhe fizesse, se estivesse em caso semelhante. Não se ire contra o irmão por causa do pecado dele, mas, com toda paciência e humildade, admoeste-o e benignamente o apoie. Não devemos ser sábios e prudentes segundo a cerne, mas antes devemos ser simples, humildes e puros. (...) Nunca devemos desejar estar acima dos outros, mas antes devemos ser servos e submissos a toda criatura humana por causa de Deus. E a medida que todos aqueles e aquelas fizerem tais coisas e perseverarem até o fim, pousará sobre eles o Espírito do Senhor e fará neles habitação e um lugar de repouso e serão filhos do Pai celestial, cujas obras realizam. E são esposos, irmãos e mães de Nosso Senhor Jesus Cristo. Somos esposos, quando a alma fiel se une pelo Espírito Santo a Jesus Cristo. Somos seus irmãos, quando fazemos a vontade do Pai que está nos céus; somos mães, quando o trazemos em nosso coração e nosso corpo através do amor e da consciência pura e sincera; damo-lo à luz por santa operação que deve brilhar como exemplo para os outros” (Carta aos Fiéis).

São trechos entusiasmantes desta Carta aos Fiéis que nos leva a colocar-se de um modo semelhante ao Pai, Esposo, Irmão e Filho. Este é o segredo de ser um irmão e uma irmã menor. Viver a pobreza, a humildade, a submissão, a disponibilidade, e receber assim o Espírito do Senhor, que nos faz participantes da vida íntima, extraordinária, beatificante de Deus, com as qualidades de filhos e filhas do Pai, esposos e esposas do Filho, irmãos, irmãs e mães no Espírito. Um caminho sagrado, assim na terra como no céu.

Imagem que ilustra este post: Jose Benlliure

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sábado, 3 de outubro de 2015

A VERDADEIRA E PERFEITA ALEGRIA DE SÃO FRANCISCO



Todas as quintas-feiras, às 19h30, num Curso Especial aqui no Instituto Teológico Franciscano, um grupo de 40 pessoas reúne-se para ler, conhecer, estudar, conhecer, compreender e meditar textos das Fontes Franciscanas. É um paciente trabalho de exercitar o gosto pela Leitura Espiritual e buscar a adequada aproximação de um forte documento espiritual. Há uma reverência na leitura, porque se percebe as etapas da formação de um espírito próprio. Ler o ontem e trazê-lo para o hoje da pertença. A leitura de textos fontes vai dando mais nitidez ao que queremos neste mundo. Não é fácil fazer isto sozinho, por isso buscamos a força do grupo.

Terminamos nesta quinta-feira, dia 1º de outubro a Leitura das duas versões do texto "Da verdadeira Alegria e da Perfeita Alegria", uma versão original pertencente aos Escritos de São Francisco e a outra a versão ampliada na legendária versão de "I Fioretti", cap. 8. Dois textos que surgiram na paixão de uma procura e que revelam que a verdadeira e perfeita alegria não é o fazer, não é o status de cargos de mando, nem a evidência de obras extraordinárias, mas estar atentos ao surpreendente do Caminho que vai surgindo em cada passo, no vencer-se a si mesmo, no suportar pacientemente toda a realidade da vida que nos surpreende. Como? Sem perturbação, sem murmúrio, num modo de ser que assume a realidade situacional que se nos apresenta tal qual ela é. Assumimos na positividade ou na tragédia da negatividade? Mergulhar no interior da realidade é enfrentar a vida com serenidade.

O texto tem uma transição na pergunta existencial: Mas o que é mesmo a verdadeira e perfeita alegria? Na proximidade da Festa de São Francisco foi muito bom encerrarmos a leitura deste texto. Foi nosso caminhar de volta à Santa Maria dos Anjos, a Porciúncula, que aliás, não é um simples lugar, mas o ponto de partida e chegada de um encontro onde surgiu e sempre refaz o processo de caminhar num mesmo ideal fraterno. Ser o  que se é na caminhada. Suportar pacientemente a vida não é algo estático, mas caminhar vigorosamente para o coração do que somos. Assumir na cordialidade até mesmo as portas fechadas e a agressividade das palavras não acolhedoras.

Para Francisco, a interioridade é abraçar a Cruz e a sua convocação. A partir daí nada mais nos importuna, tudo se suporta na paciência do viver ao ritmo do Evangelho. Mas o que é a verdadeira e perfeita alegria? Ainda não sabemos plenamente, mas o texto em narração breve ou mais ampla, compacta ou floreada nos revela algo de muito profundo. Ele abre um processo de busca para a compreensão, e para um processo de transformação de pessoas evoluídas. Para mostrar o que é revela o que não é a verdadeira e perfeita alegria.

Ela não é o poder da sabedoria, não é o poder eclesiástico, não é o poder político e civil, não é o poder da pregação, nem o êxito da missão, nem o poder de curar e operar milagres. Nisto não está e nem consiste a verdadeira e perfeita alegria. O caminho traz provas e provações. Prestígio pode trazer sucesso, mas não realização. A questão é estar no caminho e ter um irmão que não abre a porta, estar na neve, na noite, no frio, na lama, na espera longa para ser atendido, ser provado pela distância e pelo cansaço, ser agredido em palavras e por um bastão, ser considerado simples demais, ignorante demais, não mais necessário para a comunidade. Há ideais que ficam fora enquanto os demais, que são tantos e tais, ficam dentro.

Mas onde está a verdadeira e perfeita alegria? Na paciência da compreensão do diferente. Se tenho paciência não serei perturbado. É a saúde da alma, mais forte que o corpo sofrido. A perfeita e verdadeira alegria não está no orgulho de viver sobre a proteção de uma instituição, mas sim em abraçar a despojada liberdade do Evangelho. No princípio era a pregação, mas agora é a palavra encarnada que não se altera diante de situações contrárias. Ser alegre, feliz e realizado não está em elementos externos de status, mas na integração pessoal. Não há discurso, mas a fala serena da não alteração. É difícil! Mas aí está a verdadeira e perfeita alegria. É uma busca! Um dia chegaremos lá! Lemos os textos para conhecer; e ler para conhecer é interpretar, e começar a interpretar é empreender um caminho de mudanças!

BOAS FESTAS DE SÃO FRANCISCO!

Frei Vitório

           

sexta-feira, 2 de outubro de 2015

AS PALAVRAS E CONSELHOS BROTAM DA PROFUNDIDADE DO CORAÇÃO DE FRANCISCO




No Espírito de Francisco, podemos dizer também, que o espírito da carne é a apropriação do Bem de Deus, o enriquecer-se, glorificar-se, a si mesmo às custas de Deus e do próximo. O Espírito de Deus é entregar-se a si mesmo por completo, dispor-se inteiramente ao serviço de Deus e do próximo, viver sem nada de próprio, ser um servo total do Senhor e da humanidade, sobretudo dos pobres. O irmão e a irmã Menores não reconhecem mais do que um só Senhor, a saber, Deus e seu Amor por toda humanidade. Quem ajusta a sua vida com este princípio, prega, como diz Francisco de Assis, com suas obras.

Claro que não conseguimos dizer, com nossas palavras, sem fundamentarmos nas Fontes, tudo o que São Francisco entendia sobre o espírito do Senhor e eu santo modo de operar. São Francisco expressou, com maior clareza, sua própria experiência mística, tão profunda, colocando em relevo sua íntima comunhão com o Pai, Filho e Espírito. Suas palavras e seus conselhos brotam da profundidade de seu coração e nos deixam sentir porque insistia tanto nas virtudes da cruz: pobreza, humildade, paciência, obediência, serviço, minoridade. Vamos analisar um pouco alguns pensamentos da Carta aos Fiéis.

Para quem escreveu Francisco esta carta? Para os fiéis leigos, consagrados a Deus, mas vivendo no mundo; aos cristãos que querem viver com seriedade o ideal evangélico; aos que Francisco propõe a mesma vida de amor radical. São homens e mulheres que querem fazer e viver uma vida de penitência no mundo. O essencial na Carta se resume em mostrar a autêntica penitência, que a conversão consiste em vencer o espírito do egoísmo ( o espírito da carne ) e uma total receptividade do Espírito do Senhor, no serviço a Deus, à toda humana criatura, e a todos os seres criados. Isto consiste em viver segundo o Evangelho: seguir as pegadas de Nosso Senhor Jesus Cristo! Em nenhum de seus escritos, Francisco de Assis se expressa com tanta naturalidade e autenticidade como nesta carta. Ele se dirige a todos os homens e mulheres que vivem no mundo e querem seguir em seu espírito o Espírito do Senhor.

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quinta-feira, 1 de outubro de 2015

O ESPÍRITO DO SENHOR SANTIFICA A PESSOA POR DENTRO


Tenho colocado aqui estes textos para mostrar a distinção que Francisco de Assis faz entre Espírito do Senhor e o espírito carne. O Espírito é o Santo Espírito do Senhor e o seu santo modo de operar; carne é tudo o que tem o nível da materialidade sem a presença do Espírito do Senhor. Vejamos o que ele diz na Regra não Bulada:

 “Por isso, na caridade que é Deus, suplico a todos os meus irmãos que pregam, que rezam e que trabalham, tanto aos clérigos quanto aos leigos, que se esforcem por humilhar-se em tudo e por não se gloriar nem regozijar consigo mesmos nem se exaltar interiormente das boas palavras e obras e menos ainda, de nenhum bem que Deus muitas vezes faz ou diz e opera neles e por eles, segundo o que diz o Senhor: Não vos alegreis, no entanto, porque os espíritos se vos submetem (Lc10,20). E saibamos firmemente que não nos pertence, a não ser os vícios e pecados. E mais devemos alegrar-nos, quando suportarmos quaisquer angústias da alma ou do corpo ou tribulações neste mundo por causa da vida eterna.
Portanto, acautelemo-nos, irmãos todos, de toda soberba e vanglória; e guardemo-nos da sabedoria deste mundo e da prudência da carne (Rm 8,6); pois o espírito da carne quer e se esforça muito por ter as palavras, mas pouco por fazer as obras, e procura não a religião e a santidade interior do espírito, mas quer e deseja ter a religião e santidade que aparecem exteriormente aos homens. E estes são aqueles de quem diz o Senhor: E, em verdade vos digo, já receberam a sua recompensa. O Espírito do Senhor, porém, quer que a carne seja mortificada e desprezada, vil e abjeta. E procura a humildade, a paciência e a pura, simples e verdadeira paz do espírito. E deseja sempre e acima de tudo o divino temor, a divina sabedoria e o divino amor do Pai e do Filho e do Espírito Santo (cf. Mt 28,19).
E restituamos todos os bens ao Senhor Deus Altíssimo e Sumo e reconheçamos que todos os bens são dele e por tudo demos graças a ele, de quem procedem todos os bens. E o mesmo Altíssimo e Sumo, único Deus verdadeiro, os tenha, e lhe sejam restituídos; e ele receba todas as honras e reverências, todos os louvores e bênçãos, todas as graças e glória, Ele, de quem é todo o bem, o único que é bom.
E quando nós virmos ou ouvirmos dizer ou fazer mal ou blasfemar contra Deus, nós bendigamos, façamos o bem e louvemos a Deus, que é bendito pelos séculos!"  (Rnb 17).

Aqui, neste trecho da Regra, Francisco de Assis deixa claro o que é essencial. O espírito da carne, o egoísmo, busca à honra e à glória, busca à boa aparência, se esvanece em palavras solenes, para ser bem visto por todos. Este é o orgulho e a vã sabedoria do mundo da carne. Já receberam a sua recompensa, uma santidade aparente. Mas o Espírito do Senhor santifica a pessoa por dentro, em seu coração; é ali onde opera a humildade, a paciência no sofrimento, a simplicidade, a paz, e sobretudo, as virtudes divinas: a reverência, a sabedoria e o Amor. Esta é a participação na santidade do Senhor, sua Fonte Única, em louvor e ação de graças.

Continua