quarta-feira, 30 de setembro de 2015

FRANCISCO VIA ANTES OS VÍCIOS ESPIRITUAIS


Em Francisco existe uma atitude de moldar nos irmãos jovens, um modo de descobrirem, antes de tudo, seus defeitos espirituais e extirpá-los, mais do que as faltas corporais exteriores em que caíam. Francisco sabia que a santa obra do Espírito do Senhor supera o espírito da carne, o egoísmo do espírito e do coração, isto é, a soberba, a vanglória, a inveja, o pensar e fazer o mal, e tudo que é um obstáculo ao Espírito do Senhor. Vejamos em seu biógrafo: "Francisco, o homem beatíssimo, voltou corporalmente para junto de seus irmãos, dos quais, como foi dito, nunca se retirou espiritualmente. Entre os súditos, ele se comportava sempre com santa curiosidade, informando-se com prudente e cuidadoso exame dos atos de todos, nada deixando impune, se encontrasse algo de menos correto. E, de fato, primeiramente via os vícios espirituais, em seguida, julgava os corporais, extirpando por último as ocasiões que costumam abrir acesso aos pecados. Com todo empenho, com toda solicitude, guardava a Senhora Santa Pobreza, não permitindo, para não chegar a ter coisas supérfluas, que houvesse em casa sequer um pequeno vaso, pois que mesmo sem ele poderia fugir da escravidão da extrema necessidade. Dizia, pois, que era impossível satisfazer à necessidade e não se tornar escravo do prazer. Difícil ou rarissimamente admitia alimentos cozidos e, quando admitidos, muitas vezes, ou os condimentava com cinza ou extinguia o sabor do condimento com água fria. Quantas vezes, andando pelo mundo para pregar o Evangelho de Deus, convidado por grandes príncipes ao almoço, os quais o veneravam com admirável afeto, tendo degustado só um pouco as carnes por causa do Evangelho, colocava no bolso o restante, que parecia comer, levando a mão à boca para que ninguém pudesse perceber que ele fazia. O que direi sobre beber vinho, quando nem a própria água, abrasado ele pelo desejo da sede, admitia beber suficientemente?" (1Cel 51).

Imagem: Cena do filme "Francisco", interpretado por Mickey Rourke

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terça-feira, 29 de setembro de 2015

FIDELIDADE AO SENHOR


Francisco sabia que era tocado pela graça, mas para exercitar a humildade se considerava um pecador. Quanto mais sentia a graça de Deus que o preenchia, tanto mais experimentava sua impotência, seus limites e sua prostração. Por isto colocaram em seu pensamento a certeza de que o Amor não era suficientemente amado. E dizia com frequência aos irmãos: “Ninguém deve lisonjear-se com aplauso injusto de tudo aquilo que um pecador pode fazer. O pecador pode jejuar, rezar, chorar, macerar a própria carne. Mas isto não pode: ser fiel a seu Senhor. E assim, nisto devemos gloriar-nos: se rendermos a Deus a sua glória e, servindo-o fielmente, atribuirmos a ele tudo o que ele nos concede. O maior inimigo do homem é a carne; ela não sabe ensinar nada para afligir-se, não sabe prever nada para temer. O empenho dela é abusar das coisas presentes. E o que é pior, ela transfere para a sua glória o que foi dado não a si, mas à alma. Ela colhe o louvor das virtudes, o aplauso exterior das vigílias e orações. Nada deixando à alma, exige até mesmo a esmola das lágrimas” (2Cel 134). A nossa glória é esta única observância, fiéis até o fim, em levar cada dia a Paixão do Senhor, para vencer o único e grande inimigo: o egoísmo em si mesmo.

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terça-feira, 22 de setembro de 2015

FRANCISCO ENSINA SUPERAR O EGOÍSMO

Nas Admoestações XII, diz Francisco: “Assim se pode conhecer se o servo de Deus tem o espírito do Senhor: se seu eu não se exaltar, quando Deus realizar por meio dele algum bem – porque o eu é sempre contrário a todo bem – mas antes se considerar o mais desprezível e se avaliar como menor do que todos os outros homens”. Aqui aparece a compreensão que Francisco tem do Espírito do Senhor, que tem que superar em nós o espírito da carne, que é o egoísmo. O espírito do egoísmo é oculto, sutil, forte, e muito difícil de vencê-lo, descobrir e desmascarar. O espírito do egoísmo não poupa os bons, para que pensem que o bem que fazem é obra sua e não um dom da graça.

Corremos o risco de nos considerarmos melhores que os demais. Mas quem tem o Espírito do Senhor e o seu Santo modo de operar é humilde e se considera menor entre os menores. Exagero? Não! É caminho de quem conhece melhor a bondade do Senhor e por isso mesmo tem melhor consciência do próprio egoísmo. Por causa disso Francisco de Assis julga muito a si mesmo, mas não os demais. Olha a si mesmo controlando qualquer ostentação e egoísmo, olha os outros sob o filtro do olhar da graça do Senhor.

Nos conta Tomás de Celano qual era sua atitude quando o louvavam como santo: “Esforçava-se por esconder no arcano de seu peito os bens do Senhor, não querendo expor à glória o que poderia ser causa de ruína. Muitas vezes, de fato, quando era exaltado por muitos como santo, respondia palavras deste tipo: “Ainda posso ter filhos e filhas; não me louveis como se estivesse salvo! Não se deve louvar ninguém cujo êxito é incerto. Sempre que aquele que concedeu o empréstimo quiser tirar o que foi concedido, só restarão o corpo e a alma, coisas que também um infiel possui”. Na verdade dizia estas coisas aos que o louvavam. – E a si dizia assim: “Tivesse o Altíssimo concedido tantos bens a um ladrão, este seria mais grato do que tu, Francisco” (2Cel 133).

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terça-feira, 15 de setembro de 2015

SÃO FRANCISCO E A EUCARISTIA


Nas Admoestações 1, Francisco de Assis fala sobre o Corpo do Senhor, a Eucaristia. O Espírito do Senhor que está em nós recebe o Senhor Jesus que está na Eucaristia. É a visibilidade e o gosto do Espírito. Ver um Deus feito homem, corpo, sangue e pão. Um Deus presente que nos abre os olhos do Espírito, que nos permite vê-lo pela fé. É o Espírito que vivifica, que dá a carne, que corporiza. Sem o Espírito, a matéria de nada serve. O Espírito habita nos que creem e nos que recebem o Corpo e Sangue do Senhor. Quem crê come e bebe a própria compreensão. Há uma obra do Espírito na Eucaristia, uma íntima conexão. Ver o Corpo e Sangue com o olhar da fé, com os olhos do Espírito, é a prova que as palavras são espírito e vida (Jo 6,63).

Diz Francisco: “ (...) diariamente ele vem a nós sob a aparência humilde; todos os dias ele desce do seio do Pai sobre o altar nas mãos do sacerdote. E assim como apareceu aos santos apóstolos em verdadeira carne, também a nós se nos mostra hoje no pão sagrado. E do mesmo modo que eles, enxergando sua carne, não viam senão sua carne, contemplando-o contudo com seus olhos espirituais creram nele como no seu Senhor e Deus (cf. Jo 20,28), assim também nós, vendo o pão e o vinho com os olhos do corpo, vejamos e creiamos firmemente que é vivo e verdadeiro o seu santíssimo corpo e sangue” (Ad 1, 17-21).

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quarta-feira, 9 de setembro de 2015

O ESPÍRITO SANTO É O MINISTRO GERAL DA ORDEM


O último texto ou post conclama à obediência mútua entre superiores e súditos. Obedecer em tudo, menos aquilo que vai contra a sua consciência e a Regra. Como diz no Testamento, os superiores são seus senhores em cujas mãos se entrega. Quando os irmãos não puderem observar a Regra espiritualmente, que sejam acolhidos fortemente por seus superiores, que transformem estes irmãos enfraquecidos no espírito, como seus superiores.

O importante é que a obediência esteja em todos, e todos devem obedecer em primeiro lugar o Espírito Santo, que segundo São Francisco de Assis, é o Ministro Geral da Ordem. O Espírito Santo age santificando, faz na santidade, traz a qualidade de Espírito em todas as ações, transforma o fazer a oração em fruto divino, como diz a Regra Bulada : "Aqueles irmãos aos quais o Senhor deu a graça de trabalhar trabalhem fiel e devotamente, de modo que, afastado o ócio que é inimigo da alma, não extingam o espírito da santa oração e devoção, ao qual devem servir as demais coisas temporais"(Rb 5, 2-3).

O Espírito faz orar com o coração puro, em espírito e verdade. O Espírito fecunda o trabalho, a pregação e o estudo. Tudo o que é animado pelo Espírito é um serviço com espírito e é um serviço ao Espírito; o Espírito traz a consolidação e o favorecimento. Toda a obra do Espírito é obra da graça. O Espírito santifica as virtudes: humildade, paciência, minoridade e perseverança.

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quinta-feira, 3 de setembro de 2015

MANIFESTAÇÃO DE UMA FORÇA ESPIRITUAL



Gostamos muito de citar Francisco de Assis em seus Escritos, provamos com o depoimento de seus biógrafos a beleza do conteúdo das suas palavras e palavras a ele atribuídas pelas Legendas, mas ainda que Francisco seja divulgado e conhecido por suas palavras e expressões, não podemos esquecer que ele é a manifestação de uma força espiritual. É indispensável usar palavras para interpretar seu espírito, mas não podemos deixar de lado o olhar sobre o Espírito do Senhor que está por detrás de seus Escritos e relatos sobre ele. O verdadeiro Francisco está em suas Orações, Cartas e Regras que ele escreveu ou ditou, mas sobretudo a evidência que nele há o Espírito do Senhor.

Vamos relembrar aqui a Regra Bulada: “Os irmãos que são ministros e servos dos demais irmãos visitem e admoestem seus irmãos e corrijam-nos com humildade e caridade, não lhes ordenando nada que seja contra a sua alma e a nossa Regra. Os irmãos, porém, que são súditos, recordem-se de que, por amor de Deus, renunciaram às suas próprias vontades. Por isso, ordeno-lhes firmemente que obedeçam a seus ministros em todas as coisas que prometeram ao Senhor observar e que não sejam contrárias à alma e à nossa Regra. E onde quer que estejam os irmãos que souberem e reconhecerem que não podem observar espiritualmente a Regra, devem e podem recorrer a seus ministros. Os ministros, porém, recebam-nos caritativa e benignamente e tenham para com eles tanta familiaridade que eles possam falar-lhes e agir como senhores com seus servos; pois assim deve ser; que os ministros sejam servos de todos os irmãos. Admoesto, no entanto, e exorto no Senhor Jesus Cristo a que os irmãos se acautelem de toda soberba, vanglória, inveja, avareza, cuidado e solicitude deste mundo, detração e murmuração; e os que não sabem ler não se preocupem em aprender, mas atendam que, acima de tudo devem desejar possuir o Espírito do Senhor e seu santo modo de operar, rezar sempre a ele com o coração puro e ter humildade e paciência na perseguição e na enfermidade e amar aqueles que nos perseguem, repreendem e censuram, porque diz o Senhor: Amai vossos inimigos e rezai por aqueles que vos perseguem e caluniam. Bem-aventurados os que sofrem perseguição por causa da justiça, porque deles é o reino dos céus. Aquele, porém, que perseverar até o fim, este será salvo” (Rb 10, 1-13)

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