terça-feira, 28 de julho de 2015

FRANCISCO E A AMIZADE


Francisco de Assis, amigo de Clara de Assis, amigo de Ângelo, de Rufino, de Leão, seu amigo pessoal, confidente, confessor e secretário. Francisco amigo de todos da Fraternidade, Francisco amigo e Irmão de todos os seres da natureza. Uma amizade de presença, carinho, reconhecimento, retribuição, elogios, uma amizade realmente fraterna. Ao seu redor todos se sentem amados.

No caminho de Francisco a amizade é uma seta indicativa de lugar relacional, porque traz a raiz sólida de uma força de convivência. Todo o bom relacionamento tem interferência  na vida e na prática. Como atuar no comum sem a força de um amor fraterno pessoal?  Olhemos para Francisco como ele se aproximava de tudo e de todos: como amigo e irmão, com amor cálido, cordial e intimidade fraterna. Temos que aprender com ele!

Nossas aproximações às vezes são de interesse, de afirmar nosso lado de saber, ter e poder. Isto atinge nossa formação, nossa eclesialidade e vivência comum. Nem sempre foi priorizado o âmbito do coração, do sentimento, da afetividade e da emotividade. Muitas vezes, quando temos aproximações marcantes com alguém, somos rotulados de carentes, além de aparecerem expressões de inveja, ciúme, repressões, tensões e rupturas.

Há amigos, se é que assim podemos chama-los,  que se aproximam enquanto levam vantagem. Depois entram num ostracismo sem tamanho quando você deixou de ser útil para eles. Porém,  há aqueles que despojadamente são fiéis escudeiros de uma vida.

Imagem acima de Piero Casentini: Francisco e seus companheiros.

Continua

sexta-feira, 24 de julho de 2015

GARIMPANDO ALGUMAS ANOTAÇÕES SOBRE FRANCISCO DE ASSIS


Eloi Leclerc segue a mesma ideia ao contemplar Francisco como amante agraciado e genial. Com uma riqueza própria e excepcional de sua humanidade que trabalha bem o espírito, alma, coração, sentimento, afeto e emoção. É o caminho para amar de maneira única a Deus, o ser humano e cada criatura com tamanha profundidade. Francisco entendeu muito bem a Encarnação: o Espírito de Deus se fez de forma radical carne e sangue, se deu em todos os aspectos de pessoa, comunicou-se por inteiro como obra perfeita do Pai.

Eloi Leclerc diz que em Francisco há um humanismo afetivo, cósmico, de amor cordial sem restrições. Em Francisco, repetindo uma ideia de Chesterton, Leclerc diz que humanos e criação não formam um bosque, mas árvores independentes e únicas de uma floresta contemplativa. Cada pessoa e cada ser formam uma realidade única, objeto de um amor único. Isto traz simpatia, encanto, cortesia, nobreza, cordialidade, ternura, fineza de sentimentos, magnitude de espírito, amplidão para fazer brilhar em tudo uma amizade fraterna. Nele isto se transforma num desejo de paz, de todo bem, de bênçãos e graças, perdão, reconciliação, fraternidade recíproca, fidelidade e amizade, uma amizade diferenciada, honrada e preciosa.

Vejamos isto nas Fontes: “Um irmão de nome Ricério, nobre pela estirpe e pelos costumes, tinha tanta confiança nos méritos do bem-aventurado Francisco que acreditava merecer a graça divina quem possuísse o Dom da Amizade do mesmo Santo ou merecer a ira de Deus quem dela carecesse. E como desejasse ardentemente obter o benefício da amizade dele, temeu muito que o santo descobrisse nele algum defeito oculto e que por este motivo acontecesse que mais se distanciasse da amizade dele. Então, afligindo tal temor cada dia e gravemente o referido irmão, e não revelando ele o seu pensamento a ninguém, aconteceu que, num certo dia, perturbado como de costume, chegou à cela em que rezava o bem-aventurado Francisco. Conhecendo o homem de Deus a chegada e ao mesmo tempo o espírito dele, diz-lhe benignamente, depois de tê-lo chamado a si: 'Filho, doravante nenhum temor, nenhuma tentação te perturbe, porque me és muito caro, e entre os especialmente caros eu te amo com caridade especial. Venhas com segurança a mim, quando te aprouver, e te retirarás de mim livremente por tua vontade.' Aquele irmão ficou não pouco estupefato e se alegrou nas palavras do santo pai e em seguida, seguro quanto à afeição dele, cresceu também na graça do Salvador, como acreditara”. (2Cel 44).

Em Francisco a afetividade é um domínio da espiritualização da vida e da vivificação da vida no Espírito. É preciso conquistar pessoas amadas para a vida. Isto não é romantismo, mas Forma de Vida, Forma de Amor do jeito do Evangelho.

Continua

quarta-feira, 22 de julho de 2015

GARIMPANDO ALGUMAS ANOTAÇÕES SOBRE FRANCISCO DE ASSIS

É preciso colocar o afetivo na fé. Em Francisco afeto e espírito não se separam. Experiência religiosa que não aceita o afeto, reprime o Amor. Em Francisco, o afeto é empenhar toda força amorosa do humano, fazer tudo com sentimento, emoção e coração, que traz uma fibra consistente à alma e aos sentidos. Francisco é um gênio do Amor no sentido mais divino e humano da palavra; dele emana uma força amorosa, um carisma maravilhoso de quem põe o coração nas mãos.

Ele encarna o verdadeiro amor materno que se entrega sem cálculos e limites, denso de fecundidade e liberdade. Ele se sente pai e mãe, irmão e irmã, isto não é apenas uma afirmação, é Regra de Vida: “E onde estão e onde quer que se encontrarem os irmãos, mostrem-se mutuamente familiares entre si. E com confiança um manifeste ao outro a sua necessidade, porque, se a mãe nutre e ama seu filho carnal, quanto mais diligentemente não deve cada um amar e nutrir a seu irmão espiritual. E se algum deles cair enfermo, os outros irmãos devem servi-lo como gostariam de ser servidos” (Rb 6).

Scheler, por sua vez, descobre em Francisco um talento amoroso insuperável em que o mais profundo do amor natural humano, marcado pelo desejo, pelo eros, se eleva ao mais puro ágape, ao amor cristão feito cáritas que se entrega a si mesmo, animado pelo Espírito. A profunda e terna amizade com Santa Clara é a mais bela adequação e coroamento do Amor Espiritual, a união do amor humano e do amor divino no seu modo mais pleno.

Continua

sexta-feira, 17 de julho de 2015

GARIMPANDO ALGUMAS ANOTAÇÕES SOBRE FRANCISCO DE ASSIS


Nos surpreende em Francisco o modo como ele se vincula de corpo e alma, num enamoramento real com Deus, com as pessoas e com a criação. Muitos pensam que para ser santo é preciso amar apenas a Deus. Francisco mostra que também é preciso assumir a humanidade e a criação. Aí aparece a sua força de atração, de recriação e de renovação.

 Em 1945, De Greef escrevia: “Francisco viveu uma fraternidade autenticamente afetiva com animais e plantas, como só poderiam fazer as crianças, que veem tudo como criatura de Deus. Todas as criaturas são dignas de ter uma participação afetiva em sua vida. A intenção de Francisco é um meio de suscitar uma autêntica necessidade afetiva, imprescindível para uma autêntica humanização. Aqui se fundamenta a sua união afetiva com toda criação, que faz com que ele retome o cristianismo com brilho e plenitude excepcional.

Tudo leva a pensar que converter-se é sair da impotência dos limites para um autêntico amor, graças a esta contribuição única. Sem esta verdadeira conversão a um pleno amor para com todo ser criado, estamos perdidos, ainda que pese nossas conquistas em outros campos do conhecimento, da técnica e da ciência”.

Continua

quinta-feira, 16 de julho de 2015

GARIMPANDO ALGUMAS ANOTAÇÕES SOBRE FRANCISCO DE ASSIS



Para Francisco é Deus, Pai, Filho e Espírito de Amor que revela o amor fraterno como mãe e filho: “E onde estão e onde quer que se encontrem os irmãos, mostrem-se mutuamente familiares entre si. E com confiança um manifeste ao outro a sua necessidade, porque se a mãe nutre e ama seu filho carnal, quanto mais diligentemente não deve cada um amar e nutrir a seu irmão espiritual?” (Regra Bulada VI,9).

Todo amor e bondade humana, toda beleza criada é uma participação, um dom de todo Bem, uma fonte de toda Beleza, que nos extasia: “Por conseguinte, Francisco, o fortíssimo cavaleiro de Cristo, percorria cidades e aldeias anunciando o reino de Deus, pregando a paz, ensinando a salvação e a penitência (...), não nas palavras persuasivas da sabedoria humana, mas na doutrina e no poder do Espírito. Estava agindo em tudo mais confiantemente pela autoridade apostólica que lhe fora concedida, não usando qualquer adulação, qualquer lisonja sedutora.

Não sabia afagar as culpas de ninguém, mas pungí-las (...) porque primeiramente persuadia a si mesmo em obra o que persuadia nos outros em palavras e, não temendo repreensor, falava a verdade com muita confiança, de modo que até homens letradíssimos, célebres em glória e dignidade, admiravam os sermões dele e na presença dele eram tomados por temor eficaz.

Acorriam homens, acorriam também mulheres, apressavam-se os clérigos, aceleravam os religiosos para ver e ouvir o santo de Deus, o qual parecia a todos um homem de outro mundo. Gente de toda idade e sexo apressava-se para ver as maravilhas que Deus de maneira nova operava no mundo por meio de seu servo. Realmente, naquele tempo, seja pela presença seja pela fama de São Francisco, parecia enviada do céu à terra uma nova luz que afugentava toda escuridão...” (1Cel 36). “Comovia-se acima da compreensão dos homens, quando nomeava vosso nome, ó Senhor santo, e, permanecendo todo em júbilo e cheio de castíssima alegria, parecia realmente um homem novo e um homem de outro mundo” (1Cel 82).

Continua

quarta-feira, 8 de julho de 2015

GARIMPANDO ALGUMAS ANOTAÇÕES SOBRE FRANCISCO DE ASSIS



O Pai é para Francisco o Altíssimo, o Inefável, o Íntimo, o que está presente e operante em suas obras. Ele é o Bem, o Sumo Bem. Doador da Bondade esparramada em todas as suas obras, o jardim natural da redenção. Deus se faz Doador e Dom na casa do mundo, preparada para a morada do Filho e do Espírito Santo. Francisco vive trinitariamente de forma total, em comunhão de vida e afeto com o Pai que se espelha no Filho; com o Filho que se faz Irmão, e com o Espírito que reúne uma Fraternidade de Filiação. O Espírito gera a unidade de Pai e Filho, de Humanidade e Criação.  Expressa isso na oração que atravessa horas: “ Meu Deus é meu Tudo!”.

Louva um Amor que se dá por inteiro, agradece sua intervenção nos detalhes da vida e pede perdão por não amar o suficiente. Para expressar esta sua relação íntima com a Trindade, precisa de todas as formas de vida para colocá-las numa união amorosa. Derrama em suas palavras a certeza de ser mãe, pai, filho, irmão, irmã, esposo, esposa, noivo, noiva, amigo e amiga, Leão e Clara, Rufino, Ângelo e Jacoba de Settesoli.

Na Carta aos Fiéis escreve nos versículos 48 a 60: “E à medida que todos aqueles e aquelas fizerem tais coisas e perseverarem até o fim, pousará sobre eles o Espírito do Senhor e fará neles habitação em um lugar de repouso, e serão filhos do Pai celestial, cujas obras realizam. E são esposos, irmãos e mães de Nosso Senhor Jesus Cristo. Somos esposos, quando a alma fiel se une pelo Espírito Santo a Jesus Cristo. Somos seus irmãos, quando fazemos a vontade do Pai que está nos céus; somos mães, quando o trazemos em nosso coração e nosso corpo através do Amor e da consciência pura e sincera; damo-lo à luz por santa operação que deve brilhar como exemplo para os outros. Como é glorioso, santo e sublime ter nos céus um Pai! Como é santo, consolador, belo e admirável ter um esposo! Como é santo e dileto, aprazível, humilde, pacífico, doce, amável e acima de tudo desejável ter tal irmão e filho que expôs a sua vida pelas suas ovelhas e orou ao Pai por nós, dizendo: Pai santo, guarda em teu nome aqueles que me deste. Pai, todos os que me deste no mundo eram teus e a mim os deste. E as palavras que me deste, eu lhas dei; e eles aceitaram e reconheceram verdadeiramente eu sai de ti e creram que tu me enviaste ( Jo 17 ); rogo por eles e não pelo mundo; abençoa-os e santifica-os. E por eles santifico-me a mim mesmo, para sejam santificados na unidade assim como também nós o somos. E quero, Pai, que onde eu estou, também eles estejam comigo, para que vejam minha glória em teu Reino" (Jo 17, 24).

Continua

quarta-feira, 1 de julho de 2015

GARIMPANDO ALGUMAS ANOTAÇÕES SOBRE FRANCISCO DE ASSIS



Tudo o que queremos escrever ou falar de São Francisco parece novo, mas não é. Ele é inesgotável e sempre traz algo diferente ou dá um novo brilho as palavras que estão nas Fontes. Sua história é regida pelo Espírito e Vida.

Uma vida que só se pode conhecer pelo viés do caminho espiritual, um caminho que propõe crescimento, maturação, renovação constante, que vão além de qualquer palavra, de qualquer letra, de qualquer texto. Ele é o Santo da unicidade, da unificação de todos os seres do universo, o ser humano em crescente realização, a profunda comunhão com Deus que é Amor, Bondade e Beleza.

Ele é muito original e criativo em viver a plenitude de Deus e a inteireza do humano junto com todo ser criado. Para ele não existe superficialidade de conhecimento, mas intimidade de relacionamento. Sua pessoa funde-se com a Trindade Santa, a Fraternidade  Fontal, Francisco une-se à todas as criaturas para dizer que todos tem nas veias o sangue do mesmo Pai, a irmandade do mesmo Filho e  o feitio santo do mesmo Espírito.

Continua