terça-feira, 28 de abril de 2015

ANO DA VIDA CONSAGRADA - Reflexão sobre os votos - V



2. A OBEDIÊNCIA

Na Vida Religiosa, nós corremos o risco de passar o tempo todo em querer obedecer somente  estruturas, sofrer com elas ou querer mudá-las. Isto não é a Obediência. Isto é seguir de um modo mecânico um mundo de normas, o que é bastante fácil. Obediência é ser o Amor de Deus encarnado, e isto é o maior desafio. Jesus é o Obediente ao Amor do Pai, e isto foi a razão última de seus sentimentos. Isto o levou até a Cruz. A Obediência é um Amor que nasce na dinâmica de cumprir uma vontade maior. É comportar-se, fazer, reatualizar, assimilar o Modelo Obediente de Jesus Cristo, que ama o Pai e leva este amor à humanidade, sem reservas. Obedecer é aceitar, na fé, um Projeto de Deus sobre a minha pessoa. Não é entrar na vida religiosa por um gosto pessoal ou porque alguém quis e incentivou, mas sim porque Deus e seu Filho Jesus Cristo assumiram a centralidade de minha vida.

Obedecer é crer no amor de Deus Pai e fazer crer aos outros que o nosso Amor Evangélico de irmãos/irmãs é uma coisa muito séria. Deus e Jesus Cristo não são um simples critério ou norma, mas são Alguém cujo desejo se torna razão e significado decisivo da minha vida. A obediência é somente compreensível à luz da Vontade de Deus. É o constante exercício da identificação da vontade de Deus com a minha vontade. Isto dá luz ao meu Projeto de Vida. É um “Sim” filial constante. É a expressão teológica de meu modo de Amar. A Obediência é o meu encontro com a Vontade de Deus que se torna lei determinante e permanente da minha própria existência. Vale a pena justificar a minha vida na fé e no amor como um processo de descoberta e acolhida do Amor e da Vontade do Pai. A Obediência fortifica a minha liberdade.

No próximo post,
Algumas ideias sobre a Obediência para a reflexão pessoal e comunitária

quinta-feira, 23 de abril de 2015

ANO DA VIDA CONSAGRADA - Reflexão sobre os votos - IV



FUNDAMENTAÇÃO TEOLÓGICA DOS VOTOS

É perceber que o Espírito Santo revela a Congregação para o mundo, com seu Carisma, com sua Tradição, com sua diversidade de obras, e com o seu modo de ser original. O Espírito vai conduzir o cultivo dos valores essenciais da Congregação, sua intuição e sua intervenção evangélica fundamental para a história da humanidade.

É saber que, cada Irmão/ã, no tempo e lugar onde está é um lugar teológico e existencial. Não existe Vida Religiosa Abstrata, existe o ser Religioso Concreto. A expressão Vida Religiosa é viver religiosamente no mundo como Jesus viveu. Ele nos inspira, num modo particular, a não ser chamado ao deserto de uma vida eremítica, mas a viver para a Fraternidade Universal, que é no mundo. Ser pessoas do Evangelho apostolicamente ativas. O claustro é o mundo! Todo religioso é um eremita sobre a estrada.

É rezar a Vida Religiosa. A expressão orante significa rezar evangelicamente a Vida Religiosa como um meio de amar mais e melhor.

Continua (no próximo post o voto de obediência)

quinta-feira, 16 de abril de 2015

ANO DA VIDA CONSAGRADA - Reflexão sobre os votos - III



1.FUNDAMENTAÇÃO TEOLÓGICA DOS VOTOS

Como fundamentar teologicamente uma experiência viva, fiel ao Evangelho, um dos grandes sinais dos tempos, um brilho a mais no carisma cristão a partir do Carisma específico? O que é este modo de ser cristão com um modo tão peculiar de viver a própria fé? A Vida Religiosa é, antes de tudo, um fato teológico! Ela é naturalmente uma identidade teológica e uma identidade cristã. Pertence à vida e a santidade da Igreja. É, antes de tudo, um modo de ser em Deus e não apenas um modo de fazer.

A Vida Religiosa não consiste em fazer qualquer coisa, mas existir numa maneira religiosa. Ela é, antes de tudo, um Estado de Vida Religioso, e não uma atividade, um serviço, um ministério. Toda atividade na Vida Religiosa é uma função apostólica que revela, em primeiro lugar, a sua identidade. O primeiro e grande serviço é a sua presença revelando o seu Carisma.

É viver em Deus, para Deus e a partir de Deus, pois é Ele mesmo quem comunica este Projeto de Vida. Este Projeto de Vida é real no seguimento apaixonado de Jesus Cristo apoiado na convocação do Evangelho. São Francisco de Assis conhecia e vivia tanto o Evangelho que tinha uma intuição teológica maior que qualquer escola teológica. É uma vida voltada ao Senhor mediante a prática dos Votos que me remetem à humanidade.

É escutar a Vontade de Deus na própria vida e entregar a própria vida num gesto de total oferenda a esta vontade. É o maior gesto de amor filial. É um Amor que obedece, que dá o mesmo Sim de Maria. É um amor tão grande e profundo que necessariamente se torna fraterno. É mostrar a força vigorosa de um coração sensível à vontade de Deus.

É seguir, imitar e apaixonar-se por Jesus Cristo, modelo vivo e próprio para se encarnar. Ele é caminho, verdade e vida. Pessoa concreta a ser imitada.

É entender que os nosso Carisma Fundacional, no plano de Deus, é um instrumento privilegiado de mediação entre o Evangelho, Jesus Cristo e o sonho de transformar o mundo em Reino de Deus.

Imagem de São Francisco no Museu da Catalunha

Continua

sexta-feira, 10 de abril de 2015

ANO DA VIDA CONSAGRADA - Reflexão sobre os votos - II



O que distingue a pessoa religiosa consagrada de uma pessoa leiga é a dimensão comunitária e apostólica da vivência dos votos. O amor comporta uma dimensão comunitária. O amor leva a uma comunhão. A busca da perfeição não é individual, pessoal e egoística, mas é substancialmente comunitária. Não há felicidade se não houver uma fidelidade de uma busca conjunta, de cada dia, viver a perfeição cristã. Estudar os votos é repensar criativamente a nossa vida. Chamar à uma criatividade e serenidade pessoal e comunitária.

Fazer votos não é despir-se do próprio ser, mas revestir-se do Evangelho. Fazer Votos é um modo muito forte de orientar e ordenar o próprio ser no Amor e pelo Amor. Somente a lógica do Amor pode fazer compreender os Votos. Os Votos são a reafirmação e concretização dos Conselhos Evangélicos. O Evangelho diz e eu assumo em mim! Não são Votos isolados e autônomos. São aspectos articulados de uma única Vida Evangélica vivida em fidelidade e comunidade para fazer valer uma exigência radical de Vida Cristã. O Amor Verdadeiro exige uma entrega. Os Três Votos não são uma gratificação egoísta, mas sim sinais de uma dedicação a Deus e ao próximo. Através da dinâmica dos Votos alguém pode exprimir a plena profundidade de seu Amor. É uma implicação existencial de uma experiência de Amor e de Fé. Eu não posso fugir disso, se não a obediência vira descarregar a minha responsabilidade no outro ou no Superior; a pobreza vira a gratificação que recebo numa vida que me dá trabalho, conforto e segurança; e a castidade se transforma na fuga da minha capacidade de amar.

Continua

quarta-feira, 8 de abril de 2015

ANO DA VIDA CONSAGRADA - Reflexão sobre os votos - I



INTRODUÇÃO

O objetivo deste estudo sobre os Votos é o reecantamento da nossa Vida Religiosa a Luz dos Votos que professamos como instrumentos necessários para a nossa vida à serviço da vida. É, mais uma vez, redescobrir o Espírito da própria vida; a especificidade do próprio Carisma; preencher de inspiração Evangélica as nossas práticas e atualizar a encarnação do Carisma no tempo presente. Encarnação e não uma peça para ser exposta para a visitação. É fazer o que pede o Carisma: colocar a Vida Vivida a partir do Evangelho sobre o mundo. A nossa Vida Religiosa  é garantida pelo Evangelho e não apenas pelo Direito Canônico. Não podemos nunca perder o Espírito Primitivo de nosso Carisma.

A Vida Religiosa está inserida na Vida Cristã e é um dos fenômenos maiores entre os fenômenos religiosos da humanidade. Supera e precede no tempo e como fato histórico a vivência radical do Evangelho, a encarnação real do Evangelho. A Vida Religiosa tem que retomar a pureza original da Igreja Primitiva. Não é um voltar atrás, mas um beber na Fonte. As expressões de Vida Religiosa que brotam de sua vida são expressões de uma corrente belíssima de espiritualidade pré-cristã.

A Vida Religiosa é para as pessoas que amam muito e não para aqueles (as) que querem privar-se ou são privadas da sua capacidade de amar intensamente. Fazer Votos não é reprimir a capacidade de amar, mas ter um amor tão forte capaz de dar passos, cada dia, rumo à perfeição cristã. Todos os cristãos são chamados à plenitude do amor, à uma santidade heroica. “Diga seu sim total a Deus e prove!” (Santa Joana de Chantal ). Os três votos só podem ser compreendidos e vividos a partir da raiz do Amor. Não existe vocação para a vida religiosa abstrata, mas sim, a partir de cada pessoa consagrada, um grau de felicidade tal que mostre a encarnação concreta do amor em alguém.

Continua

segunda-feira, 6 de abril de 2015

ANO DA VIDA RELIGIOSA CONSAGRADA - Alguns Apontamentos - XIII



62. Ninguém pode dizer que o Carisma específico de sua Ordem, Congregação ou Instituto tem um grau de perfeição melhor que os outros, mas sim que o grau de perfeição corresponde ao enamoramento que se tem pelo Carisma específico. É preciso lançar-se no exercício heroico de abraçar o Carisma no cumprimento fiel do dever que ele propõe. A partir daí, tudo se explica e se compreende, inclusive os Votos. Fazer os Votos não é um martírio físico, mas uma entrega moral e espiritual, um Amor vivido com radicalidade.

63. O Documento Lumen Gentium (32,39, 40 e 41) fala da unidade e pluriformidade. São ternos que se completam. Uma única busca de santidade vivida nos vários estados de vida. Uma encarnação existencial pluriforme. Por quê? A partir de identidade pessoal a pessoa escolhe um valor que responde à sua vocação. A santidade é uma, mas não é a mesma. Substancialmente pessoal e realisticamente encarnada. Em cada pessoa é única e diversa. Não existe vocação abstrata, mas existe uma vocação encarnada no grau de fidelidade pessoal e comunitária. O que distingue um religioso, uma religiosa de um leigo não é radicalismo da vivência da consagração, mas o contexto vital, a plataforma existencial do Carisma próprio que se abraçou. A perfeição e a santidade cristã podem e devem ser conquistadas na estrutura, na vida e nos meios que se escolheu para viver. É a dimensão pessoal, comunitária e apostólica da perfeição cristã. A Vida Religiosa Consagrada comporta uma dimensão comunitária porque isto faz parte da força do Amor que não sabe ser sozinho. O Amor leva à comunhão. A santidade e o caminho da perfeição não são vias percorridas egoisticamente, mas quanto mais convicção pessoal, mais necessariamente comunitária (Lumen Gentium, 9).  A Vida Religiosa Consagrada é uma modalidade expressiva da vocação à santidade. Os diversos estados de vida e os diversos Carismas não são modificações essenciais do Ser Cristão, mas sim formas concretas de realizar em cada pessoa a plenitude da Vocação Cristã. São apelos e respostas diversas que vêm de Deus e retornam para ele. É fazer a teologia da própria vida, cada dia, buscando o essencial. Não se conquista a Vida Religiosa Consagrada com estudos, mas sim com um comprometimento a este chamado.

64.  A compreensão e o amor à VRC não se esgotam. Repensar criativamente a VRC é sempre um ponto de partida. Viver o chamado com paixão e criatividade traz uma serenidade pessoal, uma alegria da entrega plena e voluntária ao Amor a Deus e à humanidade com toda a sua consequência.

Continua

quarta-feira, 1 de abril de 2015

ANO DA VIDA RELIGIOSA CONSAGRADA - Alguns Apontamentos - XII



59. Existe um risco da institucionalização do carisma. Ele não é apenas um produto cultural religioso que nasceu dentro de um momento histórico que precisava de seu sentido. O carisma é a própria vontade explícita de Jesus para que se concretize o Evangelho! São Tomás de Aquino diz que não era próprio de Jesus fazer votos porque era Deus, mesmo tendo-se encarnado como homem, seus olhos estavam fixos só no bem. Os que o seguiram fizeram votos naturalmente a partir do momento que entraram num estado de perfeição no seguimento de Jesus. Por causa dele deixaram tudo e moldaram um outro modo exigente de um Amor exigente. Aí nasce a Vida Religiosa Consagrada: direto do seguimento e imitação da proposta do Mestre. É direto e divino, não de origem da eclesiologia. Os Apóstolos são modelos de vida religiosa e identidade religiosa.

60. O Concílio Vaticano II traz ideias essenciais para a Vida Religiosa Consagrada. Coloca a centralidade desta vida no Evangelho. O documento Lumen Gentium (40 e 43) diz que a Vida Religiosa Consagrada se inspira no Evangelho. O documento Perfectae Caritatis (2a) diz que se atualiza no Evangelho. O Concílio Vaticano II realça a Vida Religiosa Consagrada como a santidade cristã levada a um caminho de perfeição. Um modelo e fonte inspiradora de cada forma de vida cristã. Unidade. Radicalidade. Globalidade. O chamado é para todos. A pluriformidade dos diversos Carismas corresponde a modos diversos de viver uma única vocação cristã. O Evangelho é uma referência global. Não insiste sobre um determinado texto do Evangelho, porque o fundamento da Vida Religiosa Consagrada não está neste ou naquele texto específico do Evangelho, mas no conteúdo global da boa nova. A radicalidade vem da exigência de dar continuidade ao projeto de Jesus: implantar o Reino de Deus no mundo. É não estar nem além, nem na periferia da vida cristã, mas imerso dentro dela. Para isto é preciso renunciar, deixar tudo e seguir. É usar o Carisma para o bem da Igreja e do mundo. Nenhuma instituição pode por si só garantir a perfeição, mas sim a vivência apaixonada da vida cristã pode mudar o modo de estar no mundo.

61. A Vida Religiosa Consagrada não é uma consagração específica do batismo, mas é uma consagração madura e consciente da consagração iniciada no batismo. Testemunhar e mostrar que a vida cristã é um chamado universal, a convocação à perfeição cristã é para todos os fiéis, de qualquer estado, grau, gênero e condição de vida. Todos são chamados por Deus, mas alguns se identificam mais com determinado Carisma. Um Carisma bem vivido é um modo heroico de viver a perfeição cristã. Cada um escolhe um caminho indicado por uma inspiração (Gaudium et Spes, 58). Não existe monopólio ou exclusivismo no caminho da vida cristã. Ninguém tem a fórmula melhor para a santidade. Não existem categorias de fiéis diferentes, porque um Carisma não pode reconhecer ou escolher uma determinada classe. O que une todos os Carismas é identificar-se com o modo de Amar e o dinamismo das práticas de Amor. Todos os cristãos são chamados à plenitude do Amor, mas um Carisma específico pode organizar a força deste Amor. O Amor é tudo e tem um valor absoluto e essencial. O Carisma vive em função de transformar este Amor numa grande prática. É um empenho cristão com jeito próprio mas concretiza o que diz o documento Lumen Gentium, 42: “Toda virtude é a ordem do Amor”.

Continua