segunda-feira, 30 de março de 2015

ANO DA VIDA RELIGIOSA CONSAGRADA - Alguns Apontamentos - XI


56. Na Carta a Diogneto, os cristãos não se distinguem dos outros pelo modo de vestir, nem habitam em lugares isolados. São do mundo, mas têm um modo diferenciado de viver no mundo pela qualidade de seus atos. São no mundo o que a alma é no corpo. Tertuliano rejeita qualquer fuga do mundo para que não se repudie nenhuma obra do Criador. A ascese nasce na Igreja como exemplo do modo de viver o Evangelho. São exemplos consideráveis de intensa espiritualidade. Não existe fuga do mundo, mas reagrupamento de modo de viver comunitariamente. A palavra monge veio pelos que viam de fora os que escolhiam viver retirados. São Basílio Magno é o Padre dos Monges Orientais e não usou o vocabulário monacal. Os de fora viam estes como “um animal monástico”. Mono = um, isolado, feito para a solidão. Mas não conseguiam entender que não havia solidão, mas o dom de estar só, com Deus e com a comunidade. A palavra Monge ganha depois um sentido teológico espiritual: só com Deus em perfeita unidade com o Divino e suas obras. “Como é bom e suave que os irmãos habitem entre si!”

57. Não pode haver uma Vida Una que não seja em Deus, no Amor e pelo Comum. Unidos para formar uma só Unidade. Muitos corpos, mas uma só alma. Irmãos e Irmãos que habitam juntos, é a essência da vida monástica. A mãe da comunidade é a Caridade! Uma vida de silêncio, prece, trabalho e convivência. Empenho na prática da virtude e busca da perfeição cristã. Daí nasce uma forte Espiritualidade Cristã. Viver nos mosteiros significa focar a vida para conseguir o mais pleno desenvolvimento da vida cristã e a maior imitação da natureza divina. O verdadeiro cristão, a verdadeira cristã tem que ter traços dos verdadeiros santos e santas. Mas o que conta é o que o Amor e o que Deus quer de cada um, de cada uma! O modo de ser de Deus encarnado no modo de ser pessoal. No início não existiam Regras. “Enquanto defende a túnica regular perdes a túnica de Cristo que é a túnica da caridade”.

58. No decorrer da história, embora na história tudo possa ser uma representação, e uma leitura histórica não possa ser feita num único sentido, existe um lento e gradual processo de desenvolvimento da Vida Religiosa Consagrada. Há alguns fatores! O fator sociológico é que ser monge e pertencer a um grupo religioso dá prestígio, sobretudo no estado de vida monástico. Dentro dos mosteiros e fora deles havia uma decadência da vida cristã. Em menos de um século, a Igreja passa de perseguida à perseguidora. Cresce muito, mas não mantém a qualidade. Existem conversões em massa, mas isto não ajuda porque não há perseverança. Inicia-se uma contestação heroica e silenciosa contra o relaxamento da vida cristã. Um retorno mais original ao Evangelho, um retorno corajoso ao Espírito de Pentecostes. Para fugir das perseguições alguns fogem para lugares desertos ou para a clandestinidade de grupos cristãos. Ali permanecem e vão moldando um novo modo de vida. Não basta a salvação, mas é preciso buscar a perfeição. Isto é reservado a poucos, porque muitos não conseguem. O fato exegético-bíblico é que estes cristãos, por uma necessidade de motivação, autojustificação e encarnação procuram buscar na Palavra de Deus uma explicação superior para a sua escolha e encontrar na Palavra a sua identidade. É uma motivação preferencial em comparação com os cristãos que ficavam nas casas e no mundo. Mas há o risco de traduzir o Evangelho direcionado para um único sentido: viver de um modo religioso consagrado. O fato jurídico administrativo ancora-se na norma jurídica canônica. Aparecem as Regras e Constituições. Há uma estruturação social de uma inspiração. De uma comum vocação cristã passa-se a vários estados de vida. Mas a administração jurídica não atrapalha, mas reforça a diversas vocações cristãs. É preciso organizar os grupos que se reúnem por Amor. A Vida Religiosa Consagrada entra na disciplina pessoal e comum da Igreja, um modo de vida dentro de uma sociedade eclesiástica.

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sexta-feira, 27 de março de 2015

ANO DA VIDA RELIGIOSA CONSAGRADA - Alguns Apontamentos - X



52. Seguir e imitar Jesus não é fazer apenas o que ele fez e copiar a fisionomia externa de sua vida, mas sim SABER  o PORQUÊ e COMO ele fez, os valores de seu agir. Isso é que deve ser compreendido e imitado (cf. Fl 2,5). Devemos ter o pensamento (1Cor 2,16) de Jesus, temos que ser cristologicamente mentalizados. Seguir a partir de dentro. Viver em Cristo! Jesus é o modelo de cada perfeição (PC 2 e LG 40). É perguntar sempre: porque e como (com que sentimentos) faria Jesus o que eu faço agora? Ele agia a partir do Amor! Seguir e imitar Jesus é realizar um relacionamento fundamental de Amor! Ele é o Verbo Encarnado, é o Amor Encarnado. O seu verdadeiro e supremo modo de ser no Amor porque é o Amor, a Misericórdia e a Verdade (Jo 13,34; Mt 11,29). Não basta agregar-se a um grupo, é preciso uma adesão ao seu ideal de vida.

53. A missão dos Apóstolos era não apenas dar uma doutrina, mas mostrar um modelo de vida (Jo 13,15). Seguir e imitar sabendo o porquê do seguir e imitar. Imitar a Perfeição de Deus como máxima vontade. “Sede todo bondade como o Pai do céu é bom” (Mt 5,48; Lc 6,36; Ef 5,1). Uma vida operante no Amor. Uma fé operante no Amor. Uma verdade que se traduz no Amor! Mudar o coração para mudar a vida! Na Vida Religiosa Consagrada nós perdemos muito tempo brigando em querer mudar as estruturas e leis, o que é bem mais fácil... O difícil é ser o Amor de Deus encarnado!

54. O Amor que move Jesus, a razão última de seus sentimentos é a obediência incondicional à vontade do Pai e amar até a Cruz. Por Amor renuncia a sua vontade para realizar uma vontade maior, a vontade do Pai. Sua vida é Via-crúcis! Abraçar a Cruz e seguir (Mc 8,34; Mt 10,24; Lc 5,40 ). É a prova do mais profundo e verdadeiro Amor (Jo 15,13). É obedecer por Amor! Aceitar, na fé, um projeto do amor sobre mim! Não podemos entrar na Vida Religiosa Consagrada para cumprir um ponto de vista teológico específico, prioritário, em função de um serviço, para atingir um objetivo apostólico. Entra-se na Vida Religiosa Consagrada porque Jesus Cristo assumiu a centralidade da minha existência e me leva à mais plena doação no Amor. Crer nesta verdade é fazer crer aos outros que o nosso amor é algo muito sério! A partir desta centralidade, desta atenção constante ao Amor Perfeito se explica a identidade da vocação à Vida Religiosa Consagrada, que é uma exigência ilimitada e radical do Amor. Este é coração do seguimento.

55. A Igreja Primitiva compreendeu o projeto e o programa de vida evangélica e por isso tinha a perfeição cristã como ideal de vida próprio de todos os discípulos e discípulas de Jesus, sem monopólio ou classes, ou status entre os fiéis. Não havia modos de atuar, o que havia era um carisma fundamental de Amor e Serviço. Todos são eticamente empenhados em fazer valer uma vida cristã. Comunidade, grupo, fraternidade têm que ser o Corpo Físico de um Corpo Místico. Isto é o mais importante, o resto é organização institucional. Instituição sem amor e caridade não tem valor. Ser cristã, ser cristão é dizer: sou chamado(a) à santidade e à perfeição. Por isso Paulo chama os fiéis de santos: “Saudai todos os santos!” A Igreja Primitiva, sensível e fiel, era a pluralidade de cada identidade dos seguidores e seguidoras do Evangelho. Cada fiel deve se realizar heroicamente no seu estado de vida. Não existia na Igreja Primitiva uma fórmula particular e específica de seguir a Jesus Cristo.

A foto de Francisco abraçando o Cristo Crucificado é da sede da Ordem Terceira Secular de Petrópolis. 

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quarta-feira, 25 de março de 2015

ANO DA VIDA RELIGIOSA CONSAGRADA - Alguns Apontamentos - IX




47. Seguimento e imitação é a mesma coisa? Pode ser..., mas existe algumas nuances. Há aproximação, mas não uma total identidade. Seguimento pode ser mais exterior, mais material, mais ideológico. Imitação é mais interior, é mais comunhão de vida, é tornar-se igual. Imitar Jesus não é a interpretação impessoal do Evangelho, mas fazer de suas palavras a própria vida. Imitar é reproduzir na própria carne uma vida concreta que se toma como modelo. Cristo se encarnou para sacralizar a experiência humana.

48. Tanto no seguimento como na imitação a razão essencial de Jesus deve ser a nossa. A sua razão essencial era realizar a própria vida segundo o desígnio e a vontade do Pai. Seguimento não é apenas reproduzir ou repetir ensinamentos, mas é entrar na imitação com os mesmos sentimentos de Cristo, ser relacionado com Ele naquilo que Ele é! Clara de Assis e Francisco de Assis nos ensinaram que não basta seguir e imitar o Senhor, tem que apaixonar por Ele!

49. O Concílio Vaticano II destacou que todos os fiéis (LG 40.41) são chamados a perfeição segundo o modo de ser de Jesus Cristo, reatualizando e exprimindo, na própria vocação a vocação de Jesus Cristo. Ele é a nossa realização existencial.

50.Viver a Vida Religiosa Consagrada é a mesma coisa que dizer: a razão essencial de Jesus deve ser a nossa! A razão essencial de Jesus sempre foi realizar a própria vida sob a vontade do Pai. Não é apenas repetir, reproduzir ou copiar a fisionomia; o mais importante é ter os mesmos sentimentos dele, ser o que ele é! O Concílio Vaticano II destacou que todos os fiéis (cf. Lumen Gentium 40.41) em todos os estados de vida, são chamados à perfeição segundo a vida de Jesus Cristo, reatualizando e exprimindo na própria vocação e no seu contexto de vida. Esta é a plenitude de vida cristã!

51. Qual seria a verdadeira imitação de Jesus? De um modo metafísico procurar movimentar as maiores motivações interiores para equiparar: sentimento, carisma, dimensão divina, pessoa divina. De um modo moral e real entrar no mundo de sua dimensão humana e de seus valores éticos. Ele se fez um de nós! Seus atos são possíveis de reprodução, suas vivências históricas também. Cada vida humana tem a sua história própria, mas pode espelhar-se em Jesus. Cada um, cada uma, deve ser fiel a grandiosidade da escolha de sua vida, mas ter um valor encarnado de vida numa situação histórica. Jesus é inspirador e nós somos pessoas que inspiram uma motivação encarnada! É o mesmo que dizer: a minha vida é um dom individual, um dom comum, um dom do Espírito! Nós somos as disposições interiores de um profundamente humano chamado Jesus! O mundo de seus sentimentos, o mundo de suas intenções e valores, um mundo íntimo!

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sexta-feira, 20 de março de 2015

ANO DA VIDA RELIGIOSA CONSAGRADA - Alguns Apontamentos - VIII



41. A partir desta convocação à uma mesma vocação cristã, todos os que seguem Jesus têm os melhores meios para reunir perfeição e santidade. Para isto é preciso ser coerente com o que propõe o Evangelho. Podem variar os modos, podem variar os estados de vida, mas não variam as exigências. Para cada cristão, a melhor vocação é a sua vocação concreta, escolhida segundo o projeto de Deus sobre si. A vocação cristã, a vocação à santidade é universal, mas cada um e cada uma, é um Projeto de Deus.

42. Jesus, convidando todos a segui-lo, propõe para todos uma mensagem ético-religiosa-radical de vida. Não oferece modelos existenciais diferentes, sociologicamente, dos modelos normais de vida daqueles que o seguiam ou estavam bem próximos, como eu falei antes Marta, Maria e Lázaro continuaram em sua casa. O que importa é, no lugar onde se está, empenhar-se na máxima realização cristã. Nenhuma estrutura de vida e vocação religiosa tem o monopólio do Evangelho.

43. Não podemos concluir que todas as vocações são iguais; mesmo os diversos Carismas têm unidade e diversidade, são diferentes, como diferentes são as pessoas que o seguem. Não existem vocações para escolher, existe a minha vocação que devo seguir! Devo seguir o projeto de Deus sobre mim!

44. Deus não chama apenas para um projeto de vida, mas sobretudo para um estado de vida! Ser religioso ou religiosa consagrados não é pertencer a uma elite ou primeira classe ou categoria de pessoas (isto não dá segurança para ninguém), mas é sobretudo entregar-se com fé a esta certeza: há um projeto de Deus sobre a minha pessoa! Hoje, mesmo na animação vocacional, faz-se um discurso abstrato  da qualidade da vocação e das atividades que ela comporta (confiram os folders vocacionais). Não existe uma vocação abstrata, existe uma vocação concreta encarnada na existência humana, encarnada numa pessoa.

45. Nunca se está totalmente pronto no campo deste estado de vida. No campo do Amor não se faz nunca o bastante ou suficiente. O Amor é sempre mais livre e criativo. Ele nos liberta de uma moral de defesa (do mínimo) para uma moral de entrega, de pacto, de aliança de compromisso (do máximo).

46. São Francisco de Assis viveu radicalmente o Sermão da Montanha e a partir daí viveu todo o Evangelho. Do Evangelho que era para todos, Francisco fez a Regra de Vida de seu grupo. No seu tempo pensava-se que o Evangelho era monopólio de monges, ele colocou o Evangelho na estrada. Francisco de Assis não se apropriou do Evangelho, mas codificou a vida de seus frades com o Evangelho. Era a sua concretude. Encarnar o Evangelho era o modo mais perfeito para chegar a ser cristão. Stefano de Muret  Grandmont diz: “ Para a casa do Pai se vai por várias estradas. Se deve escolher uma estrada para chegar melhor”. Ao escolher o Evangelho como Regra e Vida, Francisco faz da Regra a seta indicativa para o caminho que é o seguimento de Cristo. Ele é o imperativo categórico de toda vida cristã.

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terça-feira, 17 de março de 2015

ANO DA VIDA RELIGIOSA CONSAGRADA - Alguns Apontamentos - VII



36. A Vida Religiosa Consagrada que nasce no rastro da experiência apostólica é algo personalizado, é um   plano de empenho ético e religioso de refazer a experiência de Jesus. A identidade de cada religioso e religiosa encontra a sua razão nisto. Jesus é o centro, a opção fundamental, o valor absoluto, o sentido maior da vocação ao discipulado. Neste ponto temos que entender Francisco de Assis, ele é um homem totalmente inspirado no Senhor e na sua Palavra.

37. A vida de Jesus é teologicamente o fundamento da Vida Religiosa Consagrada e o Evangelho é a Forma de Vida por excelência, como lemos em Clara de Assis, o indiscutível ponto de partida: o Evangelho é a novidade ético religiosa de Jesus. Não é apenas um escrito, é uma proposta, uma convocação, uma chamada. A proposta de transformar o mundo em Reino de Deus está encarnada em Jesus e deve estar encarnada no discipulado. É uma entrega de Fé e Amor. Jesus é o modelo perfeito da doutrina que prega. Viver o Evangelho é empenho radical para uma comunhão de vida e destino com Ele; é um serviço incondicional à causa do Reino.

38. Jesus propõe a todos um ideal de vida, um único ideal de vida, e chama todos indistintamente  a encarná-lo. Não se encontra no Evangelho propostas diversas, existe somente uma única  e heroica vocação, a vocação cristã! Podem variar o modo como se vive, mas não varia a força radical do Evangelho. Cada um de nós é um Projeto de Jesus!

39. Jesus, convidando a todos a segui-lo e propondo a mensagem ético religiosa radical de vida, respeita a vida sociológica de todos de seu tempo. Marta, Maria e Lázaro continuaram na sua casa. O casal de Emaús voltou para o seu lugar. Outros foram pescar. O que importa é,  no lugar onde se está, viver com empenho a máxima realização cristã! Nem todas as vocações são iguais porque as pessoas são muito diferentes. Não existem vocações para escolher, existe a minha vocação que devo seguir. Há um projeto de Deus sobre a minha pessoa! Não existe uma vocação abstrata, mas existe uma vocação concreta encarnada na existência humana.

40. “Senhor, que queres que eu faça?” Preciso ajudar Deus a realizar a sua vontade sobre mim!
Jesus propõe   à  todos  um  ideal de vida, e coloca como modelo o seu ideal de vida, chamando a todos indistintamente a encarná-lo. Não se encontra no Evangelho propostas diversas, mas sim uma única vocação, a vocação cristã, a vocação à santidade, isto é, ter o modo de ser de Nosso Senhor Jesus Cristo. Para isto existe uma intrínseca univocidade e radicalidade. Há exigências, preceitos e conselhos, como a do Sermão da Montanha, que apresenta o modo cristão ideal, a dinâmica totalizante da entrega por Amor, e é para ser seguido de um modo heroico.

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quinta-feira, 12 de março de 2015

ANO DA VIDA RELIGIOSA CONSAGRADA - Alguns Apontamentos - VI



31. Jesus teve uma proposta concreta e epifânica do Reino. Formar comunidades não é o centro de sua preocupação. Ele escolhe discípulos e apóstolos que fazem com ele um caminho e não formam de imediato comunidades. As comunidades nascem após a Ressurreição. Jesus conheceu de perto a experiência monástica dos essênios, mas não existe nenhuma prova de seu relacionamento direto com eles. O fenômeno do silêncio entre Jesus e Qumrân é recíproco. Jesus não empostou sua mensagem diretamente para os grupos de seu tempo. Mas isto não quer dizer que a Vida Religiosa Consagrada não tenha inspiração no Evangelho.

32. Por que Jesus não mandou o Jovem Rico para a comunidade de Qumrân? Ele não queria a Perfeição? Para seguir e imitar Jesus não há total necessidade de entrar num estilo comunitário de vida. À rigidez de normas de vida dos essênios Jesus contrapõe a pregação contra os exageros do formalismo. Em Qumrân havia muita hierarquia. Os essênios viajavam armados. Jesus prega a não violência e manda bendizer os inimigos. Os essênios dividiam a sociedade em duas categorias: os filhos das trevas e os filhos da luz; para eles não havia salvação fora da comunidade.

33. A mensagem de Jesus não é exclusiva para um asceta, para um membro de uma comunidade ou de um gueto. Jesus prega a perfeição como meta para todos, de um modo especial para os perdidos, os simples, os pescadores e os sem oportunidades. O Evangelho não fala do essenismo e não esclarece as formas religiosas de seu tempo; só há citação sobre fariseus e saduceus que entram em conflito com a pregação de Jesus. Há uma vida religiosa primitiva pré-cristã que habitava ruínas, cavernas e comunidades, mas com inspiração um tanto diferente da pregação de Jesus.

34. Historicamente, os Apóstolos vêm apresentados como modelo de vida religiosa. Pode-se dizer que a Vida Religiosa Consagrada é uma continuação natural e específica da forma de vida e seguimento dos Apóstolos? Uma resposta afirmativa não se pode dizer com um simples sim ou não. Mas é preciso olhar atentamente a mensagem e a vida de Jesus e do Evangelho.

35. Os Apóstolos tiveram uma existência, uma convivência física com Jesus. Viveram de um modo singular, exclusivo, excepcional, que nunca mais se repetiu na história de uma vida condicionada em tempo, lugar e missão específica. Para viver e seguir o Mestre se destacam de seu ambiente abandonando tudo. Depois da morte de Jesus retomam a sua vida. Tempos depois, por uma chamada excepcional do cristianismo nascente, continuam o movimento do Reino deixado por Jesus e levam o cristianismo para todas as fronteiras. Formam comunidades institucionais de divulgação e vivência do cristianismo, organizam a assembleia dos que creem. Os Apóstolos respondem a uma conjuntura histórica muito específica, nisso são inimitáveis! Isto comporta uma opção de Carisma, muita determinação, dever, missão, um ofício próprio diante do mundo e no seio da comunidade que vai nascendo por inspiração de Jesus. Ele é a pedra angular, os Apóstolos são os construtores. É uma construção teológica, espiritual e comunitária da experiência de vida cristã.

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sexta-feira, 6 de março de 2015

ANO DA VIDA RELIGIOSA CONSAGRADA - Alguns Apontamentos - V



26. QUMRÂM é um monaquismo surpreendente, muito próximo do monaquismo cristão que virá posteriormente: prece, trabalho, vida em fraternidade, conduta ascética, regra, capítulo conventual, método formativo segundo as diversas etapas, empenho, celibato. Levantavam a noite para rezar. A prece era “o momento eucarístico da fraternidade”. Havia no entardecer a reunião com pão, vinho e a bênção. Jean Danielou defende a tese de que Qumrân é a forma inicial do monaquismo cristão. Beda Rigaux diz que o monaquismo cristão é muito vizinho de Qumrân.

27. A Vida Religiosa Franciscana, inspirada por Francisco de Assis, tem traços e expressões belíssimas de uma espiritualidade comunitária pré cristã. Ele parte da solidão para a comunhão.

28. Monge, mosteiro, vida monástica... vão dar origem à uma Vida Religiosa Consagrada com muito embasamento, mostram que e preciso, a partir do dom de estar só, saber estar com todos. É preciso fazer uma escolha forte e pessoal para se dar melhor a Deus e ao próximo.

29. Na Religião da Encarnação é preciso ter na história um modo de vida muito espiritualizado. Somente a verdade da escolha traz a liberdade da escolha. A verdade é uma orquestra sinfônica, o Espírito é o Maestro, a melodia é o que brota daí. A humildade é saber que não temos ainda o Espírito e é preciso buscá-lo radicalmente deixando que Deus tenha o monopólio do corpo.

30. Cada forma de Vida Religiosa na Igreja se volta para Jesus e ao Evangelho. Este é o ponto de partida. Não se descobre de imediato. Jesus não foi monge, não impostou a sua doutrina na linha dos religiosos de seu tempo como os essênios e comunidade de Qumrân; fez duras críticas aos fariseus que eram uma espécie de instituto secular na época. Toda a existência de Jesus não vem estruturada sob um modo monástico. Ele se inspirou nos Rabis de seu tempo, mas esteve mais na estrada junto aos marginalizados. Não escreveu nenhuma regra, nem propôs votos aos discípulos; mas tornou-se Mestre e Modelo Divino de toda perfeição.

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quinta-feira, 5 de março de 2015

ANO DA VIDA RELIGIOSA CONSAGRADA - Alguns Apontamentos - IV



21. Para vivermos a dimensão essencial da Vida Religiosa Consagrada temos que ter bem claro quais são os mais fundamentais motivos religiosos que levaram a escolher esta vida. Onde se quis pacificar a vida na tranquilidade da escolha e consagrar-se a Deus. É um caminho de perfeição e santidade e isto não é qualquer escolha. Quais são as linhas mestras da Espiritualidade desta vida que se transformou em Projeto de Vida?  Não é uma escolha marginal em confronto com tantas outras escolhas.

22. Há uma Forma de Vida nesta vida. Ela tem estrutura de governo, sistema de formação, sistema de vida comum, disciplina, linhas comuns que trabalham valores em conjunto. Isto é um valor, não pode somente ser visto como peso estrutural; mas a união de forças para um testemunho, serviço, pastoral e formação humana.

23. Há  um caráter que amplia o significado e missão da Vida Religiosa Consagrada. Obriga-se a verdadeiros valores, virtudes e princípios redimensionando a partir deles todo o mais da vida.

24. Hoje há uma diversidade de grupos dentro da Igreja. Há até influxos de grupos não cristãos nos grupos da Igreja. Podemos reconhecer traços da vida religiosa que não são originais do Evangelho. Há explosões carismáticas; surgem novas formas de vida religiosa. Onde a Vida Religiosa se encontra em meio a tudo isto? Quais são os passos que dá para não diluir-se e ser uma encarnação real do que acredita.

25. A Vida Religiosa Consagrada é um fenômeno de inculturação. Ela vem bebendo nas fontes dos primeiros séculos do cristianismo. No tempo de Jesus havia os Essênios. Mais tarde a área geográfica ocupada pelos essênios foi habitada pelos monges e eremitas cristãos. O monaquismo judaico dos essênios vivia em comunidades isoladas, mas tinham uma casa mãe no centro do Mar Morto. Eram mais ou menos 4000 monges no tempo de Jesus.

Imagem: Representação do trabalho dos essênios

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