segunda-feira, 26 de janeiro de 2015

Reflexões Franciscanas - 20



46. Francisco de Assis é muito realista no modo de tratar os que erram com um modo lúcido e leve, seguro e sadio. Tem apreço e respeito pela pessoa, mas sabia ser enérgico quando devia reerguer fraquezas. “No início da Ordem, havia um frade que rezava pouco e, por vergonha, nunca ia pedir esmola, mas comia bem. O bem-aventurado Francisco, preocupado com o comportamento deste irmão, foi advertido pelo Espírito Santo de que se tratava de homem carnal. Por isso falou-lhe assim: 'Vai-te embora, irmão Mosca, porque tu queres comer o fruto do trabalho dos frades e ficas ocioso no jardim de Deus, como o irmão Zangão que não colhe nada, não trabalha e vive à custa das canseiras das diligentes abelhas' (cf. LP 62  e 2Cel 45,75). É preciso ter força do espírito diante das fraquezas da carne. A luta entre o bem e o mal é constante: “E odiemos nosso corpo com seus vícios e pecados; porque, vivendo carnalmente, o demônio quer tirar de nós o amor de Jesus Cristo e a vida eterna e perder a  si mesmo(...)”  (Rnb 22,5-9).

47. Francisco de Assis, em cada detalhe da sua vida, aspirou a transcendência. Em tudo percebia a presença do Altíssimo, em tudo um significado, um outro ser humano a encontrar e em cada situação amar intensamente. Para ele, tudo isto tem um nome: Deus, vivido por ele como o Bem Maior, o Bem Absoluto, a animação maior para um grande Amor. Diz nas Admoestações: “Bem-aventurado o servo que não se considera melhor quando é engrandecido e exaltado pelos homens do que quando é considerado insignificante, simples e desprezado, porque o homem é o que vale diante de Deus e nada mais” (Adm 19,1). “Bem-aventurado o religioso que não tem prazer e alegria a não ser nas palavras e obras do Senhor e com estas leva os homens, com satisfação e alegria, ao amor de Deus” (Adm 20,2). “Presta atenção, ó homem, à grande excelência em que te colocou o Senhor Deus, porque te criou e te firmou à imagem do seu dileto Filho segundo o corpo e à sua semelhança segundo o espírito” (Adm 5,1). “Comovia-se acima da compreensão dos homens, quando nomeava vosso nome, ó Senhor santo, e,  permanecendo todo em júbilo e cheio de castíssima alegria, parecia realmente um homem novo e um homem de outro mundo. Por esta razão, onde quer que encontrasse algum escrito, seja divino seja humano, no caminho, em casa ou no chão, recolhia-o com muita reverência e recolocava-o em lugar sagrado e honesto, temendo que aí estivesse escrito o nome do Senhor ou algo relativo a Ele” (1Cel 29,82).

48. Francisco exortava os frades a fazerem da Regra de Vida uma fonte de meditação e construção do humano forte interiormente: “Zelava ardorosamente pela profissão comum e pela Regra e dotou-a com bênção especial aos que zelassem por ela. Pois dizia aos seus que ela é o livro da vida, a esperança da salvação, a medula do Evangelho, a vida da perfeição, a chave do paraíso, o pacto da eterna aliança. Queria que todos a possuíssem e todos a conhecessem, e por toda parte ela conversasse com o homem interior, como palavra de alento no aborrecimento e recordação do juramento prestado. Ensinou-lhes que ela deve sempre ser trazida diante dos olhos para recordação da vida a ser praticada e, o que é mais importante ainda, com ela eles deviam morrer” (2Cel 208). Em Francisco, há uma consonância de vida, um equilíbrio entre as exigências naturais, as exigências normativas com as mais elevadas aspirações do espírito.

Imagem: São Francisco e o Evangelho, de Lodovico Cardi (21 setembro 1559 – 8 junho 1613), conhecido como Cigoli.

Frei Vitório

quinta-feira, 22 de janeiro de 2015

Reflexões Franciscanas - 19



43. Francisco de Assis não foi um estudioso, pesquisador ou acadêmico; nem foi teólogo, filósofo, nem alguém que quis intencionalmente elaborar uma teoria de valores para a vida. Ele foi um sentimento encarnado e não um pensamento a ser estudado. Ele era concreto no que falava e fazia. Nunca foi contra os estudos, mas não precisava deles para explicar as razões de viver. Francisco de Assis mais mostrava que demonstrava; era um testemunho vivo e não um  explicador, muito espontâneo, direto, imediato. Não escrevia Legendas, mas tornou-se ele próprio uma Legenda. Abriu caminhos e não precisou descrevê-los. Viveu enamoradamente a vida e não construiu sistemas. Um gênio da ação e uma vontade que era só paixão. Podemos dizer, como afirmava o fundador da fenomenologia dos valores, Max Scheler: “Francisco de Assis era uma filosofia encarnada e vivida, enquanto soube fundir de modo harmonioso a dimensão pessoal, humana, fraterna e religiosa”. É da sua própria vida que podemos falar dos valores que o animavam.

44. Cada pessoa elabora, no percurso de sua vida uma escala de valores. Alguns com forte influência ideológica, outros valores que brotam de uma expressiva experiência existencial. Organiza a vida, lança-se em projetos, encontra as maiores motivações. Francisco de Assis inspirava a sua vida na compressão que tinha dele mesmo como pessoa humana. Não vamos encontrar nele uma definição científica do que é o ser humano, mas ele põe em ação a força humana que brota de seu ser. Como diz Antonio Merino: “Cada ação, quando é dinâmica, criadora e coerente, inclui implicitamente uma filosofia e pressupostos muito válidos que condicionam e orientam, de modo muito específico, o comportamento humano e a visão do humano e do mundo” (Merino, in “Humanismo Franciscano”, p.15). Em Francisco a pessoa humana merece total respeito e confiança. A Regra Bulada diz: “Eu os admoesto e exorto a que não desprezem nem julguem os homens que virem vestir roupas macias e coloridas e usar comidas e bebidas finas, mas cada qual julgue e despreze antes a si mesmo” (Rb 2,18). E diz ainda a mesma Regra Bulada: “E onde estão e onde quer que se encontrarem os irmãos, mostrem-se mutuamente familiares entre si. E com confiança um manifeste ao outro a sua necessidade, porque, se a mãe nutre e ama a seu filho carnal, quanto mais diligentemente não deve cada um amar e nutrir a seu irmão espiritual?” (Rb 6,8-9). E continuando a citar a Regra Bulada: “E devem acautelar-se para não se irar ou se perturbar por causa do pecado de alguém, porque a ira e a perturbação impedem a caridade em si e nos outros” (Rb 7,4). E quanto aos frades que têm dificuldade em observar a forma de vida, Francisco recorda: “ Os ministros, porém, recebem-nos caritativa e benignamente e tenham para com eles tanta familiaridade que eles possam falar-lhes e agir como senhores com seus servos; pois assim deve ser: que os ministros sejam servos de todos os irmãos” (Rb 10,6).

45. Gosto da firmeza que Francisco de Assis demonstra quando cuida da realização humana, do enriquecimento do humano ao convocar à coerência e à convicção, palavra e vida, testemunhadas pelas boas obras: “Tanto possui um homem de ciência, quando aquilo que realiza nas suas obras; e tanto possui um religioso de oração, quanto aquilo que na vida põe em prática”. Como se quisesse dizer:” Não se conhece a árvore boa, senão pelos frutos” (Legenda Perusina,74). Ou como diz a Legenda Maior: “E porque propunha primeiramente a si mesmo com obra o que aos outros aconselhava com palavras, não temendo repreensão pregava com muita intrepidez a verdade (...) Falava com a mesma firmeza de espírito aos grandes e aos pequenos e com a mesma alegria de espírito falava a muitos e a poucos” (LM 12,8). A Legenda dos Três Companheiros atesta: “A partir de então, o bem-aventurado Francisco, percorrendo as cidades e aldeias, começou a pregar por toda parte de maneira mais ampla e perfeita, não em palavras persuasivas da sabedoria humana, mas na doutrina e na virtude do Espírito do Espírito Santo, anunciando com confiança o reino de Deus. Pois era um pregador veraz, fortalecido pela autoridade apostólica, não empregando qualquer adulação e evitando as lisonjas das palavras, porque o que propunha aos outros pela palavra, primeiramente já havia proposto a si mesmo em obra, de modo que falava a verdade intrepidamente. Muitos letrados e doutos também admiravam a força de sua palavra e a verdade que nenhum homem lhe ensinara, e apressavam-se em vê-lo e ouvi-lo como um  homem  de outro mundo. Começaram, por conseguinte, muitos do povo, nobres e não-nobres, clérigos e leigos, animados por divina inspiração, a seguir os passos do bem-aventurado Francisco e, abandonando as preocupações e as pompas do mundo, a viver sob a sua disciplina” (3Comp 13, 54).

Frei Vitório

quinta-feira, 8 de janeiro de 2015

Reflexões Franciscanas - 18



41. Francisco de Assis povoa o mundo dos valores e virtudes; ele é um paradigma do comportamento humano e naturalmente convoca às maiores motivações. Ele é uma meta a qual sonhamos chegar, uma orientação para a vida. Das naturais virtudes que conquistou vivendo intensamente a sua juventude, até a mais transparente imitação de Jesus Cristo e a sua profunda união com Deus, presente em toda criação, a sua vida em fraternidade e os modelos de vida que incentivou, em tudo isto, Francisco é por si só uma pedagogia de valores humanos e espirituais que inspiravam a sua relação com as pessoas, com Deus e com todo ser criado. Francisco continua nos provocando, sobretudo em tempos como este que vivemos, onde existe uma desorientação no quadro ético dos valores, sobretudo no que se refere ao empenho cristão e religioso. Como escolher o que quero e o que Deus quer através de mim se as coisas não estão claras? A indagação de Francisco é sempre atual: “Senhor, que queres que eu faça?”. Que projeto tenho para a minha vida? Quais são os meus sonhos? Quais são as aspirações mais profundas? Os desejos? Os interesses? Os ideais mais autênticos que vivem na alma? Francisco foi um grande sonhador, por isso mesmo um grande realizador. Ele é um modelo e guia de uma escolha pessoal e convicta, um quadro de certezas, um equilíbrio entre a realização de uma vida à luz de valores transcendentes. Ele soube, como ninguém, a interiorizar os valores presentes no Evangelho. Se hoje queremos moldar um projeto pessoal de vida, precisamos de Francisco de Assis.

42. Ele nos ensinou que um processo de maturação humana e espiritual deve ser para todas as etapas da vida, é para sempre. Sua fala no final da sua vida é muito reveladora: “Vamos recomeçar, porque até agora nada fizemos!” Francisco começou escutando mais suas emoções, sentimentos, intuições. Escutar bem as intuições é escutar uma sensibilidade que salta de dentro para fora. Francisco percebeu atentamente tudo o que estava ao seu redor, os estímulos ambientais, a fala de todas as coisas. Francisco estava sempre atento as pessoas; elas não eram para ele um conglomerado de gente, mas expressões afetivas de aproximação e de encontro. O valor fraterno, a vida em fraternidade deve ser a motivação de cada dia, a personificação do ter tudo em comum, que é a pobreza; a partilha da vontade, que é a obediência; o espalhar as boas energias do Amor, que é a pureza de coração.

Frei Vitório
Imagem: Francisco de Assis, de Piero Casentini

sexta-feira, 2 de janeiro de 2015

Reflexões Franciscanas - 17



39. Ordálio (Mubahâla), era uma fogueira feita em público para que por entre chamas, fogo e brasas, numa prova de coragem e fé, as pessoas a atravessassem incólumes. O sultão propõe o desafio, chama seus doutores para que o façam junto com Francisco. É um testemunho público de uma fé levada ao fogo da experiência. Já havia acontecido esta cena em Medina, onde Maomé, frente a uma delegação de cristãos e seu bispo, tinham que se submeter à autoridade civil do profeta. Em Medina, discutiram sobre o significado da Paixão de Jesus Cristo e tiveram que provar a verdade da Encarnação, a Divindade de Jesus Cristo, diante do ordálio de fogo. Maomé queria que os cristãos pedissem o regresso imediato de Cristo e reconhecessem a sua missão profética. Os cristãos não aceitaram o desafio, queriam apenas negociar as ideias teológicas. Perderam a chance de fazer com que a doutrina cristã da Divindade, Paixão e Encarnação fosse mais conhecida por parte dos muçulmanos. Mas em Damieta, novamente vem a prova de fogo. Há uma nova atitude; o santo de Assis é um profeta de Deus diante do Islam. De repente, os dois lados percebem, um pelo Corão outro pelo Evangelho, que estão na mesma busca: ser capaz de testemunhar a fé pela vida e pela morte; a reparação de um sofrimento causado por tantas lutas, batalhas, saques e massacres; manifestar uma caridade que vem de um amor sagrado; as boas obras muçulmanas e a caridade cristã; não julgar, mas dialogar; reconhecer os dons do Altíssimo e fazer-se Irmãos. Fazer ou não fazer o ordálio não é fundamental, o importante é saber que tanto cristãos e muçulmanos não podem desafiar o juízo de Deus, nem duvidar da fé do diferente, mas ter a postura do sultão que diz para Francisco: “Creio que vossa fé é boa e verdadeira”.

40. Melek-el-Kamel viu em Francisco um dom de amor, na coragem de expor sua vida ao martírio se fosse preciso, para dialogar na força da fé. Francisco, em primeiro lugar ama os muçulmanos e a partir daí pode falar de seu Deus. Uma experiência tão forte que se transforma em Regra de vida, onde é compilado um capítulo todo a falar para os frades que quiserem partir para junto dos sarracenos (Rnb 16). Testemunhar o Evangelho na vivência de virtudes cristãs. Vivência e não violência. Não provocar litígios nem contendas, mas serem submissos a toda criatura humana por amor do Senhor. Ir para junto de um modo humilde, pobre, com muita doçura e mansidão e por fim pregar a verdade cristã! O diálogo religioso para os Franciscanos não é mais um simples dado histórico, cultural e eclesial, mas é definitivamente Forma de Vida!

Frei Vitório

Na imagem de Fra Angelico, o ordálio é visto na parte inferior.