segunda-feira, 29 de dezembro de 2014

Reflexões Franciscanas - 16


37. A partir de 1211, Francisco de Assis, estava disposto a ir para a Síria e Marrocos, não para guerrear, mas para testemunhar. Como a dizer: “Eu creio, vocês creem, vamos conversar na maior riqueza que temos: a fé! Ter fé é transformar sentimentos!” Não foi desta vez.  O IV Concílio de Latrão preparava mais uma Cruzada entre 1215 e 1216. Francisco preparava pregação de paz. Inocêncio III, que iria comandar esta Cruzada, morre em 16 de julho de 1216, e com ele morreu o que seria o estigma de um Papa à frente de um exército fortemente armado. Francisco estava no funeral do Papa e queria pedir ao sucessor Honório III a suspensão de mais esta batalha contra os muçulmanos. Não consegue a suspenção, porém em 1218, consegue autorização do Papa para ir até o acampamento dos cruzados, em Damieta, e convencer os seus chefes, o cardeal Pelagio e o Rei João de Brienne, para que dialoguem com Melek-el-Kamel, o sultão, que tinha uma proposta: os cristãos se retirariam do Egito e ele devolveria Jerusalém. A bem da verdade esta Cruzada não era para conquistar Jerusalém novamente, mas para destruir o poderio militar do Islam.  E lá vai São Francisco! Passa do acampamento cristão para o muçulmano e vai dialogar com Melek-el-Kamel. Quando o sultão vê aquele homem frágil, maltrapilho e desarmado até se assusta, mas percebe que ele não oferece perigo. O que ele oferece é que a violência seja substituída pela mansidão, que o ódio seja trocado pelo respeito, que o inimigo seja irmão, que morrer por amor e caridade é muito melhor que guerrear por nada.

38. Escreve Tomás de Celano: “No tempo em que o exército dos cristãos sitiava Damieta, o santo de Deus estava presente com seus companheiros(...) Então, ao prepararem-se os nossos para o dia da batalha, tendo ouvido isto, o santo queixou-se profundamente da guerra. E disse a seu companheiro: “Se em tal dia acontecer o embate, o Senhor me mostrou, os cristãos não se sairão bem. Mas se eu disser isto, serei julgado como louco; se eu me calar, não escapo da consciência. Portanto, o que te parece?” O companheiro respondeu-lhe, dizendo: “Pai, não te importe que sejas julgado pelos homens, porque não é agora que começas a ser julgado como louco. Descarrega tua consciência e teme mais a Deus do que aos homens. Então, o santo sai e dirige aos cristãos com admoestações salutares, desaconselha a guerra, anuncia a derrota. A verdade torna-se fábula, eles endureceram o coração e não quiseram ser advertidos. Vai-se, combate-se, guerreia-se e os nossos são acuados pelos inimigos.” Ali, em Damieta, no Egito, Francisco viu o inútil mecanismo de morte, gerado por aqueles que não quiseram reconhecer em suas palavras, uma exortação vinda de Deus. Mas foi após a derrota, que no dia 31 de Agosto de 1219, que permitiram que ele fosse até o sultão. Então, ele vai com coragem e fé. Até prevendo se fosse preciso o martírio, mas que fosse pelo bem de cristãos e muçulmanos. Francisco quer dialogar com o sultão. Se existe a boa vontade sempre há aproximação, presença e conversa. Mesmo assim a fé tem que ser provada. Há em Francisco de Assis e em Frei Iluminado de Rieti, os dois que chegaram ali na tenda do sultão, uma doçura, simplicidade e transparência que encanta a todos. Eles se apresentam em nome de Deus. Isto é causa de admiração, veneração e estima. Em meio à guerra alguém vem apresentar-se na paz do Senhor! Há em Francisco e em seu companheiro uma atitude de humildade e bondade que não existia nos violentos cruzados. Melek-el-Kamel, aceita o testemunho do santo, porque sabe que ele vem como portador de uma Palavra Sagrada. O sultão é líder dos Islam e tem muita consciência religiosa para perceber que pobre frade traz o fervor do Espírito, e é neste espírito que vão dialogar. Não há entre os dois nenhuma palavra de agressividade e desprezo. Não é momento de falar contra Jesus ou Maomé, ou contra a Bíblia ou contra o Corão. Não está ali, um cristão latino,  que jamais seria capaz de insultar o profeta ou quem quer que seja. Francisco tem o maior respeito pelo sultão e seus comandados a partir do espírito do Evangelho. Como era tradição, aceitou o desafio do Ordálio de Fogo.

Frei Vitório

segunda-feira, 22 de dezembro de 2014

Reflexões Franciscanas - 15



35. Francisco de Assis é lembrado hoje, em tempos de Estado Islâmico, como alguém que esteve lá entre os muçulmanos. Vamos falar um pouco sobre isto nesta continuidade de reflexões. No seu tempo, Francisco viu a expansão muçulmana como uma grande desforra contra as conquistas do Império Romano tendo Alexandre Magno como grande protagonista. A cristandade medieval foi cercada pelo mundo do Islã e viu nela uma força política, militar e ameaçadora da fé. Ambos os lados usaram a força das armas para dizer que cada lado tinha o seu lado diabólico e infiel. Assegurar a paz e restituir terras virou guerra santa cujo único resultado foi um ódio secular. Nas pregações cristãs, os Cruzados não eram tratados como homicidas por matarem muçulmanos, mas sim 'malicidas', matavam o mal que era o “infiel”. Soldado morto em combate nas Cruzadas tinha a glória no céu. Do lado islâmico, a ideia era a mesma, pois os “cristãos hereges” queriam terras e destruição da religião do Profeta. A bem da verdade, nenhum dos lados conseguiu enfraquecer o outro. Os dois lados saíram  fortalecidos do  ódio e da guerra. Como isto aconteceu? Aproximação de línguas, cultura, ritos, unificação política, ortodoxia forte, Jerusalém, Damasco, Cairo passam a ser centros referenciais importantes. Tanto cristãos como muçulmanos se apegam à Cidade Santa, na Terra Santa. Conquistar lugares é purificá-los, cada um impondo ali a sua fé. Entre vitórias e derrotas, as Cruzadas e o Islã fazem propaganda de vitórias e castigos divinos; ira divina contra povo pecador. Sempre Deus e povo levam a culpa geradas por alguns senhores da guerra. Somente uma nova vida moral, muita penitência e armas na mão podem mudar destinos dos povos. Saladino, Balduíno, Gregório VIII, Clemente III, Celestino III, Inocêncio III, sultões e reis católicos querem conquistas e respostas precisas. Para reformar é preciso libertar. Há uma certa diplomacia de cartas, negociadores, atividade política misturando soberanos, Papas, cardeais, príncipes e soldados. Toda a questão é devolver a Terra Santa. Lugar de fé torna-se elemento diabólico de guerra. Se não existe diálogo no espírito aparece a força das armas. Como os cristãos poderão ser chamados cristãos se não reivindicarem seus direitos libertando a Terra Santa das mãos dos inimigos? O outro lado pensava o mesmo.

36. Em meio a este turbilhão aparece Francisco de Assis. Só tem as armas da fé para combater o bom combate. Não é tarefa de mero combatente, mas tarefa profética. Todo profeta surge quando não se vê mais saída, e tem a coragem de mostrar o reverso da história. Não pode haver violência conduzida pelo nome de Deus. Ele prefere ir na paz do Evangelho, dom de Deus, vitória de Cristo com o sangue da Paixão. Quem tem o Evangelho não precisa de espada, lança ou escudo. Cruzada armada não é nenhum remédio. As pessoas se curam, se convertem  e se encontram no bem. Não existe, para Francisco, inimigo que não possa ser amado. Isto está no Evangelho. “Amai vossos inimigos; fazei o bem aos que vos odeiam” (Lc 6,27). Sabedoria divina é missão salvífica. Mais do que pregar, ele vai amar. Não se vai ao campo contrário levando sofrimento e morte; o inimigo não tem como acreditar que possa existir uma saída. Não há nada a defender de material, mas sim conquistar uma força espiritual. Para ele, tudo e todos são Irmãos, os muçulmanos também são irmãos. Você pode ser irmão e irmã  quando dialoga, quando escuta e fala do conhecimento dos mistérios de Deus. Você pode ser irmão e irmã pelo exemplo e palavra, pelo Amor, pela caridade, pela doação, até pelo martírio se for preciso. Isso Francisco fez. Ele não quis espiritualizar as Cruzadas, porque sabia que não se espiritualiza uma violência; ele quis evangelizar, isto é: mostrar que é possível uma Boa Nova de justiça e paz. É por aí que temos que dialogar.

Frei Vitório

Imagem: "Francisco e o Sultão", de Giotto

sexta-feira, 19 de dezembro de 2014

Reflexões Franciscanas -14



33. Argumentos teológicos se unem a argumentos de uma evangelização necessária. A pobreza interna e externa entra no modo de estar no mundo ontem e hoje a partir do Evangelho: no social e nas questões sociais, entre os embates políticos do liberalismo, socialismo e comunismo, nos que não têm nada e são excluídos, na pobreza produzida, na economia de desenvolvimento, na fome do mundo e nos que sofrem as consequências dos mecanismos de morte. A pobreza entra nas famílias religiosas e seus carismas. A discussão sobre a pobreza avança no campo teológico, litúrgico, eclesial e conciliar. Uma Igreja pobre entre os pobres, sinal dos tempos. Houve um homem chamado Francisco de Assis; há um Papa chamado Francisco. Ambos apontam que o caminho para mudar o mundo e a Igreja começa pelo ideal da máxima simplicidade, humildade e pobreza. Jesus construiu o Reino sobre esta base. Nós seremos capazes de reconstruir?

34. Escreve São Boaventura: “Francisco é uma nova manifestação da graça salvífica de Cristo, por um apelo à total imitação de Cristo e pelo profundo desejo da sede do divino” ( LM, Prólogo 5 ). Restaurar a casa arruinada é reconstruir a partir de um modelo: o da pobreza! O Papa Inocêncio III reconhece naquele mendicante que entrou em seu sonho como o que sustentava a Basílica de Latrão para que ela não desabasse. A pobreza foi a resposta silenciosa e gritante de Francisco, foi a sua natural pregação. Ele viveu a pobreza em oposição à tentação da grandeza e poder temporal. Andou pelas ruas e praças, e a sua simples presença abalou a avareza e o orgulho do clero e dos poderosos de seu tempo. Ele queria que todos se preocupassem exclusivamente com as coisas de Deus e a partir daí melhorar o mundo. No “Sacrum Commercium Beati Francisci cum Domina Paupertate”, provavelmente escrito por Frei Giovanni Parenti, numa alegoria poética estimula-se a esposar-se com a pobreza, ter uma vida de pobreza, tomar partido pela austeridade. Sede pelo Evangelho e não sede pelo dinheiro. Poder dado não é para dominar, mas para santificar. O remédio para as crises de relações que brotam dos que têm muito em mãos, é libertar-se de bens terrenos;  ou talvez até quem sabe desfazer-se deles entregando a quem puder usá-los para o bem comum! É testemunho de pobreza evangélica ter prédios, grandes construções e conventos fechados, sem uso, deteriorando, e sem saber o que fazer com eles? Se pobreza é ter em comum, que tal propiciar a oportunidade de outras formas de uso deste espaço para o bem comum? Este seria um verdadeiro sinal profético de reconstruir a casa!

34a) Gostaria de deixar aqui duas colocações de  Michel Mollat, sobre o que é ser pobre no período medieval: “O pobre é aquele que de forma permanente ou temporária se encontra numa situação de fraqueza, de dependência, de humilhação, caracterizada pela provação de meios, variáveis segundo as épocas e as sociedades, meios de poder e de consideração social: dinheiro, relações, influência, poder, ciência, qualificação técnica, honorabilidade de nascimento, vigor físico, capacidade intelectual, liberdade e dignidade pessoais. Vivendo do dia a dia, o pobre não tem nenhuma possibilidade de se levantar sem a ajuda do outro. Uma tal definição pode incluir todos os frustrados, os deixados por conta deles próprios, os associais, os marginais; esta definição não é específica de uma época, duma região, de um meio. Ela não exclui sequer aqueles que por um ideal ascético ou místico quiseram se desapegar do mundo ou que, por devotamento, escolheram viver pobres entre os pobres” (Michel Mollat, Les pauvres au moyen-âge, Paris, 1978).

 E diz também Mollat:  “A novidade específica consiste em se ter ele, Francisco de Assis,  instalado perto do pobre, procurando reabilitá-lo a seus próprios olhos, trazendo-lhe uma mensagem contra a pobreza em nome de uma vitória sobre a pobreza. Isto equivalia a proclamar a dignidade do pobre como tal, não só como imagem de Jesus Cristo, mas porque Jesus o amou. Assim se explica o beijo no leproso” (Michel Mollat, A pobreza de Francisco: opção cristã e social, in Concilium/169, 1981, vol. 9, p.36)

Frei Vitorio


quarta-feira, 17 de dezembro de 2014

Reflexões Franciscanas - 13



31. O século XIV foi um século de crises. A Ordem Franciscana conhece momentos de decadência, mas não vê decair seu ideal de pobreza. Nestes séculos, entre os anos 1380 e 1396 surge o I Fioretti, livro que narra em forma legendária a luta heroica dos seguidores da Senhora Dama Pobreza para manter vivo este ideal. A reação contra uma decadência reforça o surgimento da Observância, com o beato Paoluccio de Trinci , em 1368, que foi reconhecida pelo Papa Eugênio IV, em 1446 com a bula “Ut Sacra”. Neste período refloresce o ideal franciscano da pobreza, pregação e santidade. Surgem São Bernardino de Siena, São João de Capistrano, São Thiago das Marcas. Em 28 de maio de 1517, a separação da Ordem entre Observantes e Conventuais. Em 1525 surgem os Capuchinhos. Todos buscando viver de modo mais perfeito possível a pobreza. A Ordem cresce e se difunde em ramos diversos: Reformados, Recoletos, Alcantarinos. Aparecem São Leonardo de Porto Maurício, Beato Leopoldo de Gaiche, Lino de Parma, todos procurando viver radicalmente  o espírito e a vida da pobreza.

32. A Segunda e Terceira Ordem dão também a sua silenciosa, mas efetiva contribuição. As Clarissas, na sua incansável fidelidade, no silêncio e na contemplação, no trabalho e na prece vivem a única riqueza necessária  e  escondida aos olhos do mundo, dentro dos Mosteiros, deixam transparecer o ideal franciscano, pelo brilho de Clara de Assis, com uma clareza inquestionável. A Ordem Franciscana Secular dá o seu memorável exemplo no mundo, fazendo renascer o espírito do Seráfico Pai na prática da simplicidade, da humildade e da pobreza. As Ordens em suas Regras e Constituições, seguram entre concessões e proibições, a pobreza como garantia de um límpido modo de vida. A pobreza franciscana tem implicância ascético-místico, espiritual, bíblico, histórico, apologético, jurídico, econômico. Nasce daí uma sólida espiritualidade que mostra que a essência e a alma do franciscanismo é realmente  a pobreza.

Frei Vitório

Imagem: São Bernardino de Siena e São João de Capistrano, óleo de Alonso Cano, Museu de Bellas Artes, Granada.

sexta-feira, 12 de dezembro de 2014

Reflexões Franciscanas - 12


29. Numa das ilustrações de Giotto, na igreja inferior da Basílica de São Francisco, em Assis, na alegoria da Pobreza, o artista tem uma finíssima intuição. Francisco segura uma vela, um pouco abaixo da representação de Madonna Povertà, e nesta vela está escrito: Sancta Paupertas. É o modo como Giotto, artisticamente, exalta o ideal do Poverello. Desde os tempos de Francisco e até hoje o tema da Pobreza é de viva atualidade. Há muita doutrina, arte e poesia sobre “la gente poverella” das três Ordens fundadas pelo Pai Pobre; porém mais que isto há uma história e uma espiritualidade viva por detrás deste tema. Não é um novo modo de ver a economia, mas é a máxima identificação com o modo de ser pobre de Nosso Senhor Jesus Cristo. É aceitar a pobreza da Cruz sempre solidária com a real pobreza dos crucificados da realidade. Não é apenas um fervor espiritual, mas é um modo de viver em comunhão fraterna. Não tem como ser fraterno sem a mística da pobreza. Não tem como estar com os necessitados deste mundo sem um Evangelho vivido pra valer, sem trabalhar com as próprias mãos, em não deixar-se corromper pela sedução dos bens.

Pobreza tem a ver com a minoridade e a minoridade é evitar qualquer triunfalismo, e não querer que estruturas fortemente econômicas adentrem às fraternidades dos Menores. Pobreza é ter em comum, portanto a Fraternidade deve ser a única riqueza. Ser mendicante, para as Ordens Mendicantes, era refazer a experiência de Jesus pobre e peregrino, que “ não tinha onde repousar a cabeça”(Lc 9,3-5). O mendicante não era um parasita grudado na bondade dos outros, mas sim um “Alter Christus”, uma pobreza itinerante, um esforço ascético e um ideal de despojamento pessoal e coletivo, para pregar unicamente o Reino de Deus sem estar preso a nada.

30. Como é que as Ordens Mendicantes depois foram construir grandes conventos e casas? Quando o ideal torna-se decadente é preciso o reforço de estruturas. Hoje sobram as estruturas que mal podem ser administradas. O ideal seria entregá-las aos que cuidam dos pobres e para o cuidados dos pobres. Os  bens conquistados têm que estar a serviço de Deus. A Pobreza Evangélica deve ser um ministério e não apenas um conselho. De 1203 até a sua morte em 1226, Francisco é pobre por imitação e seguimento do Senhor Jesus, por intuição e atuação, por enamoramento e núpcias com a Senhora Dama Pobreza. Ele sempre teve diligente atenção aos mistérios da Pobreza que é o modo de ser do Senhor, e por causa dela regrou a sua vida e deixou que a Pobreza o conduzisse aos pobres, leprosos e infiéis. Não foi uma imitação branda, mas uma conformidade, isto é, tomar a mesma forma de Jesus Cristo, “que sendo rico se fez pobre”. Suas preces, escritos, Regras e Testamento exaltam e propõem o ideal da altíssima pobreza.

De 1226 até 1256 a Ordem cresce muito e isto traz algumas crises. Como ter uma atuação prática da pobreza quando há milhares de frades. A Bula “Quo elongati” de 28 de dezembro de 1230, concede aos cardeais protetores administrar as doações dos benfeitores. Os recursos  vem dos amigos espirituais, mas as necessidades se tornam acomodação. A construção da Basílica de São Francisco, o recolher de ofertas, a construção de grandes conventos, privilégios e posses de bens são causas de desentendimentos e contrariedades. Há mais garçons e operários nos conventos do que frades e leigos. É muito difícil ser fiel à Regra de Vida quando o patrimônio cresce.

De 1256 a 1279, período de São Boaventura e Nicolau III, há lutas internas e externas nas fraternidades. A mendicância torna-se apostolado, mas nem sempre evangelização. A pobreza torna-se tema de pregação apologética e a minoridade corre risco pois valores espirituais tonam-se espécies materiais. De 1279 até 1334 há uma luta entre a prática e a vivência da pobreza e a pobreza que é pura teoria. Muitos escritos sobre a pobreza, muitas opiniões diversificadas, e muita mudança de opinião. A pobreza é idealista, e o ideal ganha posicionamento moral e jurídico e por ele se luta e se morre.

Frei Vitório

Imagem: Alegoria da Pobreza, Giotto, Basílica de São Francisco de Assis, em Assis

terça-feira, 9 de dezembro de 2014

Reflexões Franciscanas - 11



26. A pobreza franciscana é um modo de ser que, ao se desfazer de tudo, encontra a riqueza maior: "Compartilha-se a pobreza de Cristo, que sendo rico, por causa de nós se fez pobre para que da sua pobreza tornássemos ricos" (2Cor 8,9; Mt 8,20), ( Perfectae Caritatis, 13). Desapropriação não é privação, mas libertação de apegos, sobretudo de apegos internos. Libertar-se de amarras internas é libertar-se também da prisão escravizante da materialidade. Isto dá a liberdade para a maior disponibilidade. Livre para amar, doar, servir e fazer acontecer o Reino. A liberdade para amar é que fez de Francisco a transparência da humildade. Nele, ser menor e súdito de tudo e de todos era um jeito de ser e estar. Nos seus Escritos e Fontes sempre aparece: “Servir ao Senhor em pobreza e humildade”. Ser pobre não é apropriar-se de cargos de mando. É não atribuir nada a si mesmo. “Eis o meio de reconhecer se o servo de Deus tem o Espírito do Senhor. Se Deus por meio dele operar alguma boa obra, e ele não o atribuir a si, pois o seu próprio eu é sempre inimigo de todo bem, mas antes considerar como ele próprio é insignificante e se julgar menor que todos os outros homens” (Adm 12). “Bem-aventurado o servo que, sendo louvado e exaltado pelos homens, não se considera melhor do que quando é tido por insignificante, simplório e desprezível. Porque o homem vale o que é diante de Deus e nada mais” ( Adm 20 ).

27. Abraçar a pobreza evangélica é mais do que abraçar o não ter nada. É preciso ter Deus como a riqueza essencial para viver desapropriado. São Francisco de Assis entregou seus pertences ao seu pai, diante do Bispo, em público, numa praça de Assis porque podia realmente afirmar: “Agora direi livremente: Pai nosso que estais nos céus, não pai Pedro Bernardone, a quem devolvo - eis aqui - não somente o dinheiro, mas entrego também todas as vestes. Portanto, dirigir-me-ei nu para o Senhor. Ó espírito nobre deste homem a quem somente o Cristo basta!” (2Cel 12). Pobreza não é uma questão de materialidade ou não materialidade, mas é identidade sagrada. Como diz o próprio Francisco à Santa Clara e para as  Clarissas: “Eu, Frei Francisco pequenino, quero seguir a vida e a pobreza de nosso altíssimo Senhor Jesus Cristo e de sua Mãe Santíssima e perseverar nela até o fim; e rogo-vos, senhoras minhas, e dou-vos o conselho para que vivais sempre nesta santíssima vida e pobreza. E estai muito atentas para, de maneira alguma, nunca vos afastardes dela por doutrina ou conselho de alguém” (Última vontade escrita para Santa Clara ).

28. Ser pobre de coisas é o caminho mais rápido para herdar a riqueza do Reino. Ser pobre de coisas é exercitar o não apego, sincero e afetivo, a moradia, comida, vestes, dinheiro e seu uso, viagens e carro. Ser pobre é sentir mais alegria e satisfação, unida à humildade, em não ter nada, e estar mais junto de gente simples e desprezível, pobres e fracos, doentes e leprosos e os mendigos dos caminhos (Rb III e Rb VI). Ser pobre é transformar a pobreza em virtude: “Ave, rainha Sabedoria, o Senhor te salve com tua irmã, a santa e pura simplicidade. Senhora santa pobreza, o Senhor te salve com tua irmã, a santa humildade. Senhora santa caridade, o Senhor te salve com tua irmã, a santa obediência. Santíssimas virtudes todas, salve-vos o Senhor de quem vindes e procedeis” (Saudação às Virtudes, 1-4) “ A  pura e santa simplicidade confunde toda sabedoria deste mundo(...) A santa pobreza confunde a ganância e a avareza e os cuidados deste mundo” (Saudação às Virtudes, 10 e 11).

Frei Vitório

|Imagem do filme "Brother Sun Sister Moon", by Zeffirelli

sexta-feira, 5 de dezembro de 2014

Reflexões Franciscanas - 10



23. Continuando a franciscana reflexão sobre a pobreza: “Ser franciscano, ser franciscana dentro do mundo e da Igreja que faz tais opções pelos pobres, comporta uma verdadeira conversão de nossas práticas tradicionais. E para esta conversão contamos com o melhor exemplo de São Francisco de Assis. Ao mudar de vida, não permaneceu na casa de seu pai, rico comerciante, e aí trabalhou para os pobres. Abandonou tudo e se misturou com os pobres e foi ser um deles. Viveu como eles viveram, sofreu a força de marginalização que a sociedade impõe aos pobres e aí dentro descobriu uma dimensão da riqueza de Jesus Cristo em sua Encarnação e Paixão. Começou a ver o mundo com os olhos dos pobres. Por isso que foi um revolucionário religioso com repercussões no social”. (Leonardo Boff, O que significa ser franciscano hoje no Brasil, in O Franciscanismo no mundo de hoje, Vozes, Petrópolis, 1981, p. 35).

24. “Em que não consiste fundamentalmente a pobreza de São Francisco de Assis? Não é simplesmente não ter; isso é consequência! É deixar as coisas serem, respeitar as coisas, não colocá-las sob o domínio do humano, não possuir, não deixar que elas entrem no interesse, com todos os seus lobos. O que São Francisco quer é dar-se, estar junto do outro e da outra; e se dá conta que entre o eu e os outros estão as coisas que nos separam. Então, ele tira as coisas não porque não as ama, mas porque elas separam um de outro. Na medida que tira, ele se associa, se faz junto do outro e da outra, se coloca junto. Não sobre o outro e a outra, sobre a natureza, sobre os poderes, isso seria dominação” (Leonardo Boff, O que significa ser franciscano hoje no Brasil, in Franciscanismo no mundo de hoje, Vozes, Petrópolis, 1981, p.25). “O projeto  da Igreja, de unir seu destino ao destino dos pobres, tem um claro conteúdo evangélico, o que não se pode dizer do velho projeto do poder. Essa adesão à Igreja significa nada mais nada menos que uma volta aos mais originário da identidade franciscana. A Igreja de hoje, na América Latina, criou condições espirituais e pastorais mais favoráveis que em outras épocas para que o espírito franciscano possa viver seu carisma de pobreza como solidariedade e identificação com os pobres. Esse é o melhor serviço que podemos prestar à Igreja e ao mundo” (Idem, obra acima citada, p. 76)


25. No que se refere a sua vida simples e pobre, Francisco de Assis enfrentou alguns desafios: Viveu em tempo conturbado de guerras frequentes entre Assis e Perugia, entre cristãos e muçulmanos e muitas batalhas de conquistas de terra, patrimônio e poder. Em meio a isto tudo pregou a paz em oposição à guerra, proibiu que seus frades e seguidores usassem armas, deu de presente a sua armadura, administrou rivalidades urbanas, e uma rixa entre o prefeito e o bispo de Assis. Foi trabalhar com os camponeses e vestiu-se como um deles. Experimentou os abusos cotidianos que eles sofriam, as dominações variadas sobre os pobres: trabalho excessivo, esgotamento físico, e uma injusta exclusão. Abençoou prostitutas, esteve ao lado de mulheres e crianças, gritou contra as crianças abandonadas na Sardenha por armadores genoveses, no famoso episódio da Cruzada das Crianças, em 1212. Venceu as tentações para dominar a sensualidade. Venceu o domínio do saber, para que isto não levasse ao orgulho, promoção e privilégios, embora jamais tenha condenado o saber, pediu que os frades letrados não perdessem o espírito de devoção.  Esteve no mundo com tudo o que ele comporta, mas mostrou o que é viver religiosamente no mundo. Quanto ao modo de viver a pobreza no tempo de Francisco de Assis, cf. Michel Mollat, A pobreza de Francisco: opção cristã e social, in Concilium/169, 1981/9, p. 37-38).

Frei Vitório

Imagem: Francisco e seus primeiros confrades com o Papa Inocêncio, cena do filme "Irmão Sol Irmã Lua", de Zeffirelli