sexta-feira, 31 de outubro de 2014

Reflexões Franciscanas - 4


9. Quem é Francisco de Assis, que fez este itinerário a ultrapassar fronteiras? Um homem gracioso, organismo frágil, sensível e forte na vontade e determinação. Dos quinze aos vinte anos vive em torno aos projetos de seu pai. Dos vinte anos em diante faz uma escolha pelos sonhos de seu coração e do coração de Deus. Ama o que é belo e que vale a pena. Não é redutivo, mas amplo. O que toca reconstrói e refloresce. Como jovem está onde estão as serenatas, os perfumes, os tecidos, a imaginação, a alegria de viver e a segurança confortável da casa paterna. Passa pela doença e pelo desencanto do mundo. Saúde recuperada, volta a agitar Assis com sua presença. Ele viveu entre festas e canções de gestas, andou pelas ruas e campos, conviveu com nobres, plebeus e burgueses. Líder, afável, sabia das delícias dos sentidos. Exibia luxo e esmolas. Era um jovem normal, porém sem vícios, era apenas focado em sonhos. Mesmo exuberante em suas posses, jamais deixou de ter compaixão pelos pobres. Tinha senso moral, nobreza de costumes e um coração generoso.

10. Francisco de Assis conheceu a riqueza, glória, prazeres, paixões, derrotas e doença; mas sempre entrou e saiu das experiências com uma entrega impressionante. O que depõe contra a vida o incomoda muito. Se fugiu das fétidas chagas do leproso, foi capaz de abraçar o humano presente entre as feridas. Sofrimento dos outros o faz derramar lágrimas abundantes, sofrimento próprio o leva a uma fantástica mudança. Ser sensível para ele é trabalhar bem a memória e não esquecer nada e ninguém. Nada passa despercebido em sua vivaz e tenaz, objetiva e realista presença. Ele não apenas vê as coisas, mas se identifica com elas. Vida nova para ele é ter um ideal e concretizar sonhos. Apaixonado e ponderado. Jovem alegre e festivo e, ao mesmo tempo, espírito sério. Jovem do cuidado, prudência, habilidade, sólida vontade. Uma alma ansiosa por algo maior, mas nunca precipitado, egoísta ou banal. Entusiasmado, audacioso e voluntarioso, tinha jeito de mercador, alma de cavaleiro, postura de eremita.

Imagem: No alto, cena do filme de "Irmão Sol Irmã Lua", quando Francisco volta, ferido, da guerra.

Frei Vitório 

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quinta-feira, 30 de outubro de 2014

Reflexões Franciscanas - 3


6. Na Quaresma de 1212, recebe a jovem Clara de Favarone, a futura Santa Clara de Assis e com ela funda a Ordem das Damas Pobres, a segunda Ordem, as Clarissas. Neste ano de 1212, as Cruzadas agitam o mundo de então. Multidão transformada em exército partem para a guerra contra os muçulmanos. Há uma guerra santa no ar, sede de martírio e ambição em aumentar bens materiais, tudo isto aliado a um ideal de libertar a Terra Santa das mãos dos assim chamados infiéis. No meio disso tudo acende a vontade missionária, no meio do choque de religiões e civilizações, Oriente e Ocidente se dão a conhecer. A submissão pelas armas recebe o nome de conversão. Claro que ninguém converte ninguém pela violência. Francisco sonha um outro modo: dialogar no espírito. Faz um capítulo de sua Regra de Vida para “aqueles que quisessem ir entre os Sarracenos”, e dá o exemplo, embarca para a Síria para dialogar com o diferente. Uma tempestade impede a viagem e Francisco volta para a Porciúncula no inverno de 1213. Não deixa de realizar suas viagens apostólicas. Em 8 de maio de 1213, recebe do Conde Orlando a doação da montanha do Alverne. Em 1215 Francisco está em Roma, onde se realiza o IV Concílio de Latrão. Aí encontra-se com Domingos de Gusmão, São Domingos, que veio ao Concílio pedir a aprovação da Ordem dos Frades Pregadores, os Dominicanos. Na pauta do Concílio: preparativos de uma nova Cruzada, a união da Igreja grega e latina, condenação de novas heresias e autorização ou não para a fundação de novas ordens religiosas.

7. Em 1216 morre o Papa Inocêncio III, muito importante para a vida inicial da Ordem. Honório III é o sucessor e vai aprovar a indulgência para quem visitasse a Capela da Porciúncula. No Capítulo de Pentecostes de 1217 há as resoluções de instituir Províncias, Ministros Provinciais e as primeiras missões fora da Itália e rumo ao Oriente. Francisco escolhe a França por causa de seu nome, do forte espírito católico  e eucarístico. Em 1218 acontece o célebre Capítulo das Esteiras durante a Festa de Pentecostes na Porciúncula. A partir daí, organiza-se a formação dos postulantes e  noviços.

8. Em 05 de Novembro de 1219, Francisco está em Damieta, no Egito. Entre batalhas perdidas e vencidas, o exército cristão está acampado ali numa Cruzada contra os muçulmanos. Francisco consegue chegar até o sultão Melek-el-Kamel. Sem espada, lança ou escudo, aproxima-se do sultão e os dois dialogam na fé. Francisco sai vivo em meio aos escombros da batalha. Estavam com ele Pedro de Cattani e Iluminado de Rieti. Volta para a Itália, passando antes pela Terra Santa. Na sua volta encontrou a Ordem nos primeiros conflitos para que se modificasse o rigor da sua Regra inicial. Pede ajuda do Papa Honório III que lhe dá o Cardeal Hugolino como o protetor da sua Ordem. Em meio a tudo, Francisco não desiste de sua pregação e faz o seu caminho como peregrino e forasteiro.

Imagem da atriz inglesa Judi Bowker, que fez o papel de Clara no filme "Irmão Sol Irmã Lua" de Zeffirelli

Frei Vitório

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terça-feira, 28 de outubro de 2014

Reflexões Franciscanas - 2



4. Bernardo de Quintavalle, Pedro de Catani, Egídio e alguns jovens de Assis e redondezas formam com Francisco uma fraternidade de penitentes. Vestem-se da mesma forma e esforçam-se por seguir de um modo encarnado o Santo Evangelho. Um dia vão à Roma pedir aprovação para o modo de vida. Levam uma Regra despojada de palavras, mas plena de conselhos do Santo Evangelho. Assustou o Papa e a Cúria com um novo jeito de viver religiosamente.  Ousadia de um leigo sempre causa hesitação em aprovações hierárquicas; mas Francisco e seus primitivos companheiros são compreendidos pelo Papa Inocêncio III.  Recebe abraço e bênção para autorizar a licença de viver e pregar o Evangelho. A primeira profissão da futura Ordem acontece ali, no ano de 1209.

5. Com a aprovação verbal do Papa, Francisco parte para concretizar a experiência daquela fraternidade de penitentes de Assis que a partir de 1210 se consolida como a Ordem dos Frades Menores. A primeira casa da Ordem é a restaurada capela de Santa Maria dos Anjos, a Porciúncula. Dali partiam, para ali voltavam numa prece contínua e pregação contínua levando a paz. Da Porciúncula para Assis, Perugia, Ímola, Cortona,  Bevagna,  Ascoli, Alviano, Arezzo, Firenze, Pisa, Siena, Sartiano, Bolonha... cidades da Itália que receberam as primeiras presenças dos frades. Depois o mundo!

6. Na Quaresma de 1212, recebe a jovem Clara de Favarone, a futura Santa Clara de Assis e com ela funda a Ordem das Damas Pobres, a segunda Ordem, as Clarissas. Neste ano de 1212, as Cruzadas agitam o mundo de então. Multidão transformada em exército partem para a guerra contra os muçulmanos. Há uma guerra santa no ar, sede de martírio e ambição em aumentar bens materiais, tudo isto aliado a um ideal de libertar a Terra Santa das mãos dos assim chamados infiéis. No meio disso tudo acende a vontade missionária, no meio do choque de religiões e civilizações, Oriente e Ocidente se dão a conhecer. A submissão pelas armas recebe o nome de conversão. Claro que ninguém converte ninguém pela violência. Francisco sonha um outro modo: dialogar no espírito. Faz um capítulo de sua Regra de Vida para “aqueles que quisessem ir entre os Sarracenos”, e dá o exemplo, embarca para a Síria para dialogar com o diferente. Uma tempestade impede a viagem e Francisco volta para a Porciúncula no inverno de 1213. Não deixa de realizar suas viagens apostólicas. Em 8 de maio de 1213, recebe do Conde Orlando a doação da montanha do Alverne. Em 1215 Francisco está em Roma, onde se realiza o IV Concílio de Latrão. Aí encontra-se com Domingos de Gusmão, São Domingos, que veio ao Concílio pedir a aprovação da Ordem dos Frades Pregadores, os Dominicanos. Na pauta do Concílio: preparativos de uma nova Cruzada, a união da Igreja grega e latina, condenação de novas heresias e autorização ou não para a fundação de novas ordens religiosas.

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Frei Vitório

segunda-feira, 27 de outubro de 2014

Reflexões Franciscanas



     1. São Francisco de Assis sempre ultrapassa o que esperamos dele como modelo de fé e caminho espiritual. Sua forte experiência pessoal de uma radical busca espiritual na imitação e seguimento do Senhor tornou-se o patrimônio da Ordem, da Igreja e do mundo. Ele rejuvenesce as espiritualidades. Luminoso e coerente, pé no chão e transcendente, ele é o Evangelho vivente. No solo da realidade e da fraternidade ele construiu um jeito de ser humano, cristão e santo.

     2. Muitos perguntam qual a formação que Francisco teve já que ele mesmo gostava de dizer que era ignorante e iletrado. Este seu modo de dizer tem a ver com o seu modo de despojar-se de qualquer poder de quem sabe. Um modo de viver a minoridade. Ele teve forte formação vinda da parte de seus pais. Seu pai, Pedro Bernardone, homem de negócios delegou a formação de seu filho mais à sua mãe, Jeanne de Bourlemont, a Dona Pica. Sua mãe moldou-lhe a alma com virtuosidade, sensibilidade e piedade. Estudou junto à igreja de San Giorgio, uma instrução que o tornaria apto para o comércio. Estudou latim, aprendeu a ler e fazer cálculos. Mãe e pai ensinaram rudimentos da língua francesa. Francisco torna-se assim um hábil negociador.

     3. Em 1202, Francisco se envolve na guerra entre Assis e Perugia. Alistou-se e lutou. Derrotado foi feito prisioneiro. Em 1203 está em liberdade, mas vai revelando uma total mudança de vida. Mesmo assim, seu sonho cavaleiresco e algumas ambições de seu pai, o levam a seguir Gualter de Brienne para uma expedição às Apúlias. Neste caminho dialoga com suas perguntas e dúvidas, escuta seus sonhos, que em forma de visão apontam um outro destino.  Novamente desiste do projeto e volta para Assis. Não é um derrotado, mas conquista um novo lugar. Toda mudança provoca, e a cidade de Assis assustou-se com o moço rico que se torna penitente, mudando seus hábitos. É recebido com muita ironia, sarcasmo, descrédito. Alguns conseguem ver em Francisco  sinais de uma nova santidade.

     4. Bernardo de Quintavalle, Pedro de Catani, Egídio e alguns jovens de Assis e redondezas formam com Francisco uma fraternidade de penitentes. Vestem-se da mesma forma e esforçam-se por seguir de um modo encarnado o Santo Evangelho. Um dia vão à Roma pedir aprovação para o modo de vida. Levam uma Regra despojada de palavras, mas plena de conselhos do Santo Evangelho. Assustou o Papa e a Cúria com um novo jeito de viver religiosamente. Ousadia de um leigo sempre causa hesitação em aprovações hierárquicas; mas Francisco e seus primitivos companheiros são compreendidos pelo Papa Inocêncio III. Recebe abraço e bênção para autorizar a licença de viver e pregar o Evangelho. A primeira profissão da futura Ordem acontece ali, no ano de 1209.

Imagem:  Cena do filme "Irmão Sol Irmã Lua", de Franco Zeffirelli

Frei Vitório

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sexta-feira, 24 de outubro de 2014

São Luís de França e os Franciscanos - Final


São Luís e o Papa Inocêncio IV (1248), de Louis Jean F. Lagrenee
Frei Sandro Roberto da Costa, ofm
4. Conclusão
A infância do príncipe Luís foi marcada pela presença dos primeiros franciscanos que chegaram à França. Religiosos austeros, piedosos, penitentes, mas ao mesmo tempo plenamente inseridos nos centros urbanos que surgiam, cientes de suas labutas e ambiguidades cotidianas, seja na política, seja no mundo acadêmico ou eclesiástico-religioso.
Franciscanos e dominicanos influenciaram o modo de Luís impostar a política na França. Ambas as Ordens contavam com homens preparados, intelectuais e pensadores que dominavam as cátedras na universidade de Paris. Da parte especificamente franciscana, é interessante notar que Luís se cerca daqueles frades imbuídos de uma nova visão do modo de ser religioso e de impostar as relações com o mundo. O empenho nas reformas, a radicalidade de vida, o combate aos abusos, a visão alegórica, apocalíptica e milenarista, prospectando um mundo diferente, transformado pela radicalidade evangélica, marcam a vida destes homens. Mas não são monges, isolados nos eremitérios e mosteiros, distantes e alheios aos problemas humanos. Ao contrário, são religiosos empenhados em buscar respostas às grandes questões e desafios que aquele momento e aquela sociedade lhes propõem, vivenciando-as e conhecendo-as a partir de dentro. Le Goff afirma que “São Luís... entre os franciscanos estava inclinado a seguir os joaquimitas: mas ele se cerca daqueles que se impõem por sua influência na sociedade da segunda metade do século XIII, quer dizer, pessoas da Igreja que buscam antes de tudo achar um modus vivendi entre as novas seduções da vida, o desenvolvimento de uma economia de troca e empréstimo, e as necessidades da salvação. Pessoas partidárias tanto do compromisso religioso como do compromisso social, de uma evangelização da sociedade nova equilibrando o admissível e o inaceitável”[56].
Os franciscanos correspondem muito bem a esse novo modus vivendi: são homens de uma piedade e seriedade religiosa a toda prova, fautores da pobreza e da simplicidade, vivem nas cidades, e estão nos grandes centros de estudos, discutindo em pé de igualdade com os maiores pensadores de seu tempo, dando respostas pertinentes e eficazes aos desafios dos novos tempos. São homens que entendem as necessidades, a linguagem e os desafios das cidades. Encontram-se, com a mesma desenvoltura, nos mais simples e humildes tugúrios ou nos palácios e parlamentos dos reis. Homens preparados e capazes de corresponder às exigências dos espíritos mais sérios e preocupados em impostar uma política de governo que correspondesse aos desígnios de Deus. Mas, ao mesmo tempo, capazes de guiar os espíritos humanos nas árduas batalhas espirituais travadas dia a dia na busca da salvação da própria alma. Com os discípulos de Francisco de Assis, Luís de França aprendeu a cuidar bem da cidade dos homens, sem perder de vista a Cidade de Deus.
Na peregrinação em busca da salvação, a exemplo de Francisco de Assis, Luís seguiu os passos do Cristo da Paixão. Através da penitência, do sacrifício e da caridade para com o próximo, os pequenos e pobres, conseguiu atingir a meta. Na decisão de partir para a segunda cruzada, doente e enfraquecido, estava a certeza de que a derrota da primeira fora causada por sua culpa, por causa de seus pecados. Assim, a cruzada revela-se como uma via purgativa, de salvação e de conformação com o Cristo pobre e sofredor[57]. A morte na cruzada é a conclusão ideal de sua vida.
As palavras dirigidas ao filho no seu Testamento Espiritual representam o ponto de chegada de uma vida pautada pela busca do bem comum, e pelo empenho pela própria salvação, seguindo as pegadas de Cristo: “Filho dileto, começo por querer ensinar-te a amar ao Senhor, teu Deus, com todo coração, com todas as forças, pois sem isto não há salvação... Guarda, meu filho, um coração compassivo para com os pobres, infelizes e aflitos e, quanto puderes, auxilia-os e consola-os. Por todos os benefícios que te foram dados por Deus, rende-lhe graças para te tornares digno de receber maiores. Em relação a teus súbditos, sê justo até o extremo da justiça, sem te desviares; e põe-te sempre de preferência  da parte do pobre mais do que do rico, até estares bem certo da verdade. Procura com empenho que todos os teus súditos sejam protegidos pela justiça e pela paz, principalmente as pessoas eclesiásticas e religiosas. Sê dedicado e obediente a nossa mãe, a Igreja Romana, ao Sumo Pontífice, como pai espiritual. Esforça-te por remover de teu país todo pecado, sobretudo o de blasfêmia e heresia. Ó filho muito amado, dou-te, enfim toda bênção que um pai pode dar ao filho e toda Trindade e todos os santos te guardem do mal. Que o Senhor te conceda a graça de fazer sua vontade de forma a ser servido e honrado por ti. E assim, depois desta vida, iremos juntos vê-lo, amá-lo e louvá-lo sem fim. Amém”.

Bibliografia:

Livros:
Fontes Franciscanas e Clarianas, Tradução de Celso Márcio Teixeira, Vozes/FFB, Petrópolis 2004, Primeira Vida de Celano; Compilação de Assis; Crônica de Jordão de Jano; Crônica de Frei Salimbene de Adam (de Parma); Testemunhos Menores – Jacques de Vitry.
Guillaume de Nangis, Vie et vertus de Saint Louis, Librarie de la Société Bibiographique, Paris 1877.
Joinville, Jean, Histoire de Saint Louis, edição de Natalis de Wailly. Paris: Librairie Hachette, 1921.
le Goff, Jacques, São Luís, Record 1999.
____________, Uma longa Idade Média, Civilização Brasileira, RJ 2008.
____________, O maravilhoso e o cotidiano no Ocidente Medieval, Edições 70, Lisboa, Portugal 1985.
____________, São Francisco de Assis, Record, RJ e SP 2011.
Madaule, J., Saint Louis de France, Aux Editions Franciscanies, Paris 1946.

Artigos:
Cardini, F., Nella presenza del Soldan superbo: Bernardo, Francesco, Bonaventura e il superamento dell’idea di Crociata, Studi Francescani, 71, 1974, 199-250.
Carolus-Barre L., Guillaume de Saint-Pathus, confesseur de la reine Marguerite et biografe de Saint-Louis. Archivum Franciscanum Historicum, Firenze 1986, vol. 79, no1-2, pp. 142-152. 
D’Aincreville, P., Le voyage de Salimbene en France, La France Franciscaine, t. I, 1912, p. 21-75.
Miatello, A. L. Pereira, Os frades mendicantes e a educação política no século XIII (Vicente de Beauvais e Gilberto de Tournai), XVIII Encontro Regional da ANPUH, 24-27 de julho de 2012
Miatello, A. L. Pereira, O rei e o reino sob o olhar do pregador: Vicente de Beauvais e a realeza no século XIII, Revista Brasileira de História, vol. 32, nº 63.
Peano, P., Resenha de obra sobre frei Hugo de Digne, Archivum Franciscanum Historicum, 79, 1986, 14-19.

Arquivos eletrônicos:
Carolus-Barré Louis, Le Procès de canonisation de Saint Louis (1272-1297). Essai de reconstitution. Rome : École Française de Rome, 1994, 328 p. (Publications de l'École française de Rome, 195). http://www.persee.fr/web/ouvrages/home/prescript/monographie/efr_0000-0000_1994_edc_195_1
Delaborde Henri-François. Le texte primitif des Enseignements de saint Louis à son fils. In: Bibliothèque de l'école des chartes. 1912, tome 73. pp. 73-100. Doi : 10.3406/bec. 1912.448470. http://www.persee.fr/web/revues/home/prescript/article/bec_0373-6237_1912_num_73_1_448470
Genet, Jean-Philippe. Saint Louis : le roi politique. In: Médiévales, N°34, 1998. pp. 25-34. doi : 10.3406/medi.1998.1410.  http://www.persee.fr/web/revues/home/prescript/article/medi_0751-2708_1998_num_17_34_1410
Glorieus, Paul, Prélats français contre religieux mendiants. Autour de la bulle: “Ad fructus úberes” (1281-1290). In Revue d'histoire de l'Église de France. Tome 11. N°52, 1925. pp. 309-331. Doi : 10.3406/rhef.1925.2360. http://www.persee.fr/web/revues/home/prescript/article/rhef_0300-9505_1925_num_11_52_ 2360.
Laband, Edmond-Rène, Saint Louis Pèlerin. In: Revue d'histoire de l'Église de France. Tome 57. N°158, 1971. pp. 5-18. Doi : 10.3406/rhef.1971.1856.  http://www.persee.fr/web/revues/home/prescript/article/rhef_0300-9505_1971_num_57_158_1856   
Mercuri, Chiara. San Luigi e la crociata. In: Mélanges de l'Ecole française de Rome. Moyen-Age, Temps modernes, T. 108, N°1. 1996. pp. 221-241. doi : 10.3406/mefr.1996.3483. http://www.persee.fr/web/revues/home/prescript/article/mefr_1123-9883_1996_num_108_1_3483
Stein, Henri, Pierre Lombard, médecin de Saint Louis In: Bibliothèque de l'école des Chartes. 1939, tome 100. pp. 63-71.doi : 10.3406/bec.1939.449186.  http://www.persee.fr/web/revues/home/prescript/article/bec_0373-6237_1939_num_100_1_449186.




[56] Le Goff, Uma Longa..., oc, p. 261.
[57] “O Cristo sofredor é aquele proposto por Boaventura e pelo movimento franciscano, ao contrário de Francisco que tinha, ele mesmo, privilegiado o rosto amoroso do Pai celeste e que se viu ‘irmão’ do Cristo. Francisco se identificou com os sofrimentos espirituais do Filho, ao Cristo do Monte das Oliveiras, e não aos tormentos do supliciado, ao Cristo do Gólgota”. Mercuri, Chiara, San Luigi e la Crociata, 235-236. In: Mélanges de l'Ecole française de Rome. Moyen-Age, Temps modernes T. 108, N°1. 1996. pp. 221-241. doi : 10.3406/mefr.1996.3483. http://www.persee.fr/web/revues/home/prescript/article/mefr_1123-9883_1996_num_108_1_3483.  

quarta-feira, 22 de outubro de 2014

São Luís de França e os Franciscanos - XVI


Frei Sandro Roberto da Costa, ofm
3.3 Um encontro de Luís com os frades
Frei Salimbene de Parma, cronista medieval, é o responsável pela descrição de um dos mais belos quadros de convivência do rei Luís com os franciscanos. Salimbene viajou a Sens, na França, para participar do Capítulo Geral. Além das autoridades da Ordem, como o Ministro Geral João de Parma, chega ao local o rei da França, dirigindo-se em peregrinação para a cruzada. Salimbene descreve a cena da chegada do rei. Povo e religiosos se aglomeram à espera da chegada do rei. Em meio à multidão, perdido, porque se atrasara e os outros frades já tinham ido ao encontro do rei, encontra-se o franciscano Eudes de Rigaud, arcebispo de Rouen, que, mitra na cabeça e cajado à mão, gritava: “Onde está o rei? Onde está o rei?”. Salimbene passa a descrever o rei: “O rei era esbelto e delicado, magro e alto, tendo um rosto angelical e face simpática. E vinha à igreja dos Frades menores não na pompa régia, mas no hábito de peregrino, tendo uma sacola e bordão de peregrinação ao pescoço que decoravam muito bem as espáduas do rei. E vinha não a cavalo, mas a pé; e os seus irmãos de sangue, que eram três condes, [...] seguiam-no em semelhante humildade e hábito. [...] Na verdade, parecia mais um monge, quanto à devoção do coração, do que um cavaleiro, quanto às armas de guerra. E assim, entrando na igreja dos irmãos, tendo feito a genuflexão mui devotamente diante do altar, rezou. [...] Em seguida, o rei disse, com voz bem clara que ninguém entrasse na sala do Capítulo, a não ser os cavaleiros, exceto os irmãos, aos quais ele queria falar. E quando estávamos reunidos no Capítulo, o rei começou a relatar seus atos, recomendando-se a si mesmo, aos irmãos e a rainha sua mãe, e toda sua comitiva; e, fazendo genuflexão com muita devoção, pediu as orações e os sufrágios dos irmãos”[53]

Frei João de Parma tomou a palavra e prometeu as orações da Ordem, devendo cada padre celebrar quatro missas pelo rei. Após o encontro, seguiu-se um lauto banquete, tudo às expensas do rei. Frei João de Parma, embora tendo lugar reservado ao lado do rei, preferiu sentar-se com os mais pobres[54].

No dia seguinte o rei retomou seu caminho em direção ao porto que o levaria para a Terra Santa. Mas ainda faria vários desvios, para visitar os eremitérios franciscanos pelo caminho, onde se punha em oração. De novo é frei Salimbene quem nos descreve uma destas visitas. Em Vézelay, no dia 21 de junho de 1248, o rei e seus três irmãos dirigiram-se ao convento dos frades, modesto e recém-construído. Entraram na igreja e, embora os frades lhes oferecessem bancos e cadeiras, o rei se senta no chão, na poeira, já que o piso da igreja ainda não estava pavimentado. Sentados todos no chão, em círculo em volta do rei, este lhes dirige a palavra e se recomenda às suas orações[55].  



[53] Fontes Franciscanas e Clarianas,  2004, Crônica de Frei Salimbene de Adam (de Parma), o.c., p. 1402.
[54] João de Parma também era fautor da ala reformista dos joaquimitas. São Boaventura foi seu sucessor, que o processou e condenou à prisão perpétua.  A proximidade dos soberanos franceses com os franciscanos espirituais vai continuar após a morte de Luís. Já citamos aqui São Luís de Toulose, sobrinho de Luís. Ele e seus irmãos tiveram como preceptor frei Pedro de João Olivi, um dos maiores expoentes da corrente dos Espirituais.
[55] Carolus-Barré, Louis. Le Procès de canonisation de Saint Louis (1272-1297). Essai de reconstitution. Rome: École Française de Rome, 1994, p. 295, (Publications de l'École française de Rome, 195). http://www.persee.fr/web/ouvrages/home/prescript/monographie/efr_0000-0000_1994_edc_195_1 . Descrição também em Le Goff, São Luís, 401-402.

Continua

sexta-feira, 10 de outubro de 2014

São Luís de França e os Franciscanos - XV

Boaventura também era admirado por Luís
Frei Sandro Roberto da Costa, ofm
3.2 Outros franciscanos influentes no “entourage” de Luís
O encontro e as palavras proféticas de Hugo de Digne certamente impressionaram profundamente o espírito de Luís, educado desde criança num ambiente de piedade, que favorecia uma mística religiosa e devocional, de busca de realizar, na terra, o reino de Deus. Mas já antes deste encontro o rei mantinha, em sua “entourage”, além dos dominicanos, religiosos franciscanos empenhados com a seriedade da reforma dos costumes. Um dos franciscanos mais próximos de Luís é o mestre da Universidade de Paris, Eudes de Rigaud.
Eudes era mestre regente do convento de Paris e mestre de teologia na universidade daquela cidade. Foi o sucessor de Jean de la Rochelle e de Alexandre de Hales, e foi mestre de São Boaventura. Eudes é um dos “Quatro Mestres”, que redigiram o comentário oficial da Regra franciscana, em 1242[48]. Em 1248 foi nomeado arcebispo da diocese de Rouen, a mais importante da França, mas continuou fazendo parte do círculo dos amigos do rei, sendo um dos frades franciscanos mais íntimos de Luís: “Seu mais próximo conselheiro e amigo”, nas palavras de Le Goff[49].
Em 1255 ele celebrou o casamento da filha de Luís, Isabel. A partir de 1258 Eudes se encontra frequentemente na corte. Em novembro de 1258 presidiu a missa no aniversário de morte de Luís VIII, pai do rei. Os documentos testemunham vários encontros do rei com o arcebispo franciscano, em 1259 e 1260, quando da morte de seu herdeiro, o primogênito Luís. Em 1261 ele foi convidado a pregar na Saint-Chapelle. Sabe-se que, quando o rei estava na abadia de Royalmont, pedia que Eudes presidisse a celebração, como na festa de  Pentecostes de 1262. A presença de Eudes na corte se justifica também pelas missões diplomáticas que o rei lhe confiara, como o tratado entre a França e a Inglaterra, em 1259. Em 1264 Eudes tornou-se membro do Parlamento de Paris.
Destaque-se, no comportamento do arcebispo franciscano, seu espírito reformador e de combate aos abusos no clero regular e secular. Visitando incansavelmente todos os mosteiros, abadias e conventos masculinos e femininos de sua arquidiocese, Eudes conseguiu dar uma nova imagem à Igreja. Seus escritos somam mais de mil páginas, consistindo hoje num documento de valor inestimável para conhecermos a realidade da Igreja em uma região da França, no século XIII. Antes de morrer, Luís o designou um de seus executores testamentários. Eudes também tornou-se membro do Conselho de Regência encarregado de governar a França, sendo o primeiro membro  nomeado pelo rei Felipe III, sucessor de Luís, quando ainda se encontrava em Cartago, em outubro de 1270.
Ainda no campo intelectual, outro mestre franciscano de Paris muito próximo do rei é Gilberto de Tournai. Das poucas informações que nos chegaram sobre ele, sabemos que era mestre de teologia em Paris, amigo de São Boaventura e de Luís, e pregador de cruzadas. Escreveu várias obras de cunho pedagógico. Algumas dessas obras nasceram da amizade com o rei, como a Eruditio Regum et Principum (Educação dos reis e dos príncipes), uma coleção de três cartas escritas em 1259, endereçadas a Luís, versando sobre os princípios necessários ao bom governo dos príncipes[50]. Depois de 1261, Gilberto abandonou a cátedra para viver uma vida de oração e contemplação. A pedido de Boaventura, participou do 2º. Concílio de Lião, em 1274, onde teria apresentado sua obra De Scandalis Ecclesiae[51].
Boaventura de Bagnoregio era um dos maiores pregadores da época, mestre da universidade de Paris até 1257, quando foi eleito Ministro Geral dos Franciscanos, também era admirado por Luís, que o convidava para pregar em sua presença. Boaventura pregou pelo menos dezenove vezes diante do rei.  
A proximidade e intimidade entre Luís e os franciscanos mostra-se numa querela séria, que estourou na Universidade de Paris. Entre 1254 e 1257, alguns mestres seculares colocaram em questão o estilo de vida dos mendicantes, uma novidade que, segundo eles, ia contra o Direito Canônico, especificamente por causa do princípio mendicante e do ensino universitário e da pregação. O chefe dos seculares era Guilherme de Saint-Amour. Depois de uma acirrada polêmica, com a intervenção dos maiores mestres da época, Boaventura e Tomás de Aquino, entre outros, a Santa Sé reconheceu, por duas vezes, o direito dos frades. O rei Luís executou imediatamente as ordens em favor dos frades. Obrigou Saint-Amour a entregar seus cargos e benefícios, proibiu-o de pregar e ensinar, e o exilou da França[52].




[48] A pedido do Ministro Geral frei Haimon de Faversham, alguns mestres das escolas de Oxford e Paris se dispuseram a “interpretar” a Regra, para responder às dúvidas surgidas na Ordem. O resultado da consulta foi a “Expositio quatuor magistrorum super Regulam Fratrum Minorum”, dos mestres de Paris Alexandre de Hales, João de La Rochele, Roberto de Base e Eudes de Rigaud.
[49] Le Goff, Jacques, São Luís, o.c., p. 269.
[50] Veja-se: Retrato do rei ideal, in Le Goff, Um Longa..., oc., p. 217-238. Miatello, A. L. Pereira, Os frades mendicantes e a educação política no século XIII (Vicente de Beauvais e Gilberto de Tournai), XVIII Encontro Regional da ANPUH, 24-27 de julho de 2012.
[51] Cardini, F., Gilberto de Tournai: un francescano predicatore della crociata, Studi Francescani 72, 1975, 31-48.
[52] A questão vai ter seus desdobramentos, a favor e contra os mendicantes. Veja-se a propósito: Glorieus, Paul, Prélats français contre religieux mendiants. Autour de la bulle: “Ad fructus úberes” (1281-1290). In Revue d'histoire de l'Église de France. Tome 11. N°52, 1925. pp. 309-331. Doi : 10.3406/rhef.1925.2360. http://www.persee.fr/web/revues/home/prescript/article/rhef_0300-9505_1925_num_11_52_ 2360.     

Continua

terça-feira, 7 de outubro de 2014

São Luís de França e os Franciscanos - XIV


Continuação do texto depois da interrupção por ocasião da festa de São Francisco
Frei Sandro Roberto da Costa, ofm
3.1 O encontro com frei Hugo de Digne
Em 1254, voltando do Oriente derrotado, após a morte da mãe, Luís ouve falar de Frei Hugo de Digne, um frade franciscano da corrente dos espirituais, defensor das ideias de Joaquim de Fiore. Frei Hugo era um grande pregador, que arrebatava multidões[46]. Em Hyères, Luís pediu para trazerem o frade à sua presença, pois queria ouvi-lo pregar. Ficou tão maravilhado que queria, a todo custo, que o frade se juntasse a seu séquito que retornava para Paris. Hugo se negou peremptoriamente. Acabou ficando apenas dois dias com Luís, mas este encontro marcou, a partir de então, a vida e o governo do rei. Hugo, segundo as palavras do biógrafo de Luís, Joinville, exortou ao rei que este “deveria se conduzir de acordo com seu povo”. No fim do sermão o frade afirmou que nunca tinha lido que um reino ou domínio se tivesse perdido ou passado a um outro senhor, “a não ser por vício de justiça”. E terminou: “Ora, que atente o rei, continuou, uma vez que vai para a França, que faça tanta justiça a seu povo que o povo assim conserve o amor de Deus, de tal maneira que Deus não lhe tire o reino de França com a vida”[47].
Depois de 1254, Luís assumiu um comportamento sempre mais austero. No dizer de seus biógrafos, passou “da simplicidade, à austeridade”. E este espírito passou à atuação política. Um sinal claro desta orientação foi a chamada “Grande Ordenação”, de dezembro de 1254. Trata-se de uma série de determinações legais que objetivavam reformar profundamente o governo do reino. Entre elas, destacam-se aquelas visando uma moralização da administração pública, para um governo justo (ético e não corrupto, diríamos hoje). Os oficiais do reino deveriam fazer justiça sem fazer distinção de pessoas. Não deveriam aceitar presentes, nem para suas mulheres ou filhos. Também em relação aos costumes e à moral eram promulgadas medidas severas: contra a blasfêmia, contra os jogos, contra a prostituição, contra a usura. No espírito da época, são emanadas também leis contra os judeus.



[46] Sobre frei Hugo de Digne nos informa o cronista medieval Salimbene de Parma: “Ele era um dos maiores clérigos do mundo, solene pregador, querido pelo clero e pelo povo, o maior nas disputas e preparado para tudo. Envolvia a todos, tinha uma conclusão para tudo, tinha língua eloquente e voz como de tuba que soa, de grande trovão e de muitas águas que soam, quando descem pelo precipício. Nunca impunha [suas ideias], nunca complicava. Estava sempre preparado para toda resposta. Dizia coisas maravilhosas da corte celeste, isto é, da glória do paraíso, e coisas terríveis das penas do inferno. Era oriundo da província da Provença, de estatura média e não muito escuro. Homem espiritual além da medida... Havia (em Hyères) muitos notários, juízes, médicos e outros letrados que nos dias solenes se reuniam na sala de Frei Hugo para ouvi-lo, enquanto ele falava da doutrina do abade Joaquim, ensinava e expunha os mistérios da Sagrada Escritura e predizia as coisas futuras. Pois era um grande joaquimita e tinha todos os livros do abade Joaquim escritos com letras grandes”. Fontes Franciscanas e Clarianas, Tradução de Celso Márcio Teixeira, Vozes/FFB, Petrópolis 2004, Crônica de Frei Salimbene de Adam (de Parma), p. 1400-1401.
[47] Joinville, Histoire de Saint Louis, citado por le Goff, São Luís, p. 193. O autor vê neste encontro com o franciscano Hugo de Digne um momento fundamental no governo de Luís, pois, voltando derrotado e decepcionado da Cruzada (Luís vai passar um período em profunda tristeza), busca respostas para a derrota e sobre o melhor modo de servir a Deus. O encontro com Hugo é, para Luís, a resposta: governar de modo a fazer reinar, aqui na terra, a justiça do reino de Deus. 

Continua 

sexta-feira, 3 de outubro de 2014

Viva São Francisco de Assis!

Outubro, um mês de ricas festas, entra no cativante momento de celebrar São Francisco de Assis. Ele é Padroeiro da Itália e de muitas igrejas que estão no mundo inteiro, Padroeiro de capelas, lugares, parques e jardins e Patrono  da Ecologia. Suas três Ordens alegram-se em solenes liturgias e momentos muito especiais. A Juventude Franciscana vibra. Todas as famílias religiosas, inspiradas em seu modo de vida, marcam este momento com muita criatividade celebrativa.  Por viver de bem com a vida, fez da sua morte um ritual de passagem sereno e cantante, é o seu emocionante e sereno  Trânsito.

 O mundo não é indiferente ao Pobre de Assis. Ele é uma bênção na história. Humanos e animais fazem fila para serem abençoados. Está em todos os cantos, onde lembrar a vida e seus cuidados se faz necessário. Ele é onipresente em todas as feiras de artesanato, em lojas de presentes, em múltiplas imagens, canções, musicais, filmes e teatros. A humanidade o representa e o torna vivente lá onde o humano é mais humano, um humano possível, um quadro simpático do jeito de Deus reentrar na história. Francisco faz Deus tornar-se mais doméstico. Em meio aos escombros da nossa fragmentação modernosa, ele aponta uma lenta e fervorosa reconstrução.

Lá vai São Francisco reconstruindo a nossa inocência perdida; fazendo devagar um caminho passo a passo. Ele teve tempo de ser peregrino e forasteiro andando pela vida sem pressa hiperativa. Com olhar e prece contemplativa nos ensinou a louvar tudo o que existe. Lá vai São Francisco homem santo, primitivo, arcaico, fonte de inesgotáveis mananciais, um moderno que revela um futuro traçado por muitos   sonhos. Lá vai São Francisco levando oito séculos de vida original e originante. Lá vai São Francisco dizendo para nós que a história não é um amontoado de ruínas, mas que podemos erguer espaços sagrados onde habita um humano excluído e chagado.


Como os sonhados projetos deste jovem medieval valem ainda nos dias de hoje! É preciso construir casas em meio a sendas perdidas. É preciso repensar um modo de existir franciscanamente no mundo. Nós precisamos deste Poverello  para nos achar em meio a labirintos consumistas. Ele nos ensinou que decisão é cisão; que grandes escolhas comportam certas rupturas. Ele permanece como uma grande provocação para ser o que temos que ser. Ele nos mostrou que o simples é inteiro, que ser santo é resgatar a nossa identidade. Ele atravessa épocas porque continua sendo uma promessa de realização humana. Por isso que vale a pena celebrá-lo neste 04 de outubro! Viva São Francisco de Assis!

Frei Vitório Mazzuco