segunda-feira, 29 de setembro de 2014

São Luís de França e os Franciscanos - XIII


Frei Sandro Roberto da Costa, ofm
3.      O franciscanismo reformador de Luís de França
A proximidade de Luís com os franciscanos e dominicanos é-nos atestada por uma anedota, transmitida por seus biógrafos: “Godofredo de Beaulieu e Saint-Pathus afirmam que Luís quisera fazer-se dominicano ou franciscano, mas não soube decidir-se sobre as duas ordens, e a rainha Margarida (sua esposa) à qual teria manifestado a sua intenção de deixá-la para entrar no convento na altura em que fosse possível transmitir a coroa ao filho maior, tê-lo-ia dissuadido de tal propósito”[40]. Embora contestado pelos historiadores modernos, este fato, relatado pelos biógrafos contemporâneos ao santo testemunham a proximidade de Luís, senão a simpatia de que gozavam diante dele os franciscanos e dominicanos. Mais séria é, no entanto, a afirmação de que ele teria desejado que seu segundo e terceiro filhos se tornassem frades, um dominicano, outro franciscano[41]. Por outro lado, como já acenamos, os biógrafos são concordes sobre a crítica que se fazia no reino, à imagem de um rei manipulado pelos mendicantes, sendo ele mesmo, quase um frade sobre o trono.
O pesquisador Jean-Philippe Genet afirma que os dominicanos exerceram uma influência fundamental sobre o pensamento político de São Luís. A ideia de um rei como padrão de comportamento moral, um rei com a virtude da sabedoria, teria sido construída e seguida por Luís, seguindo os ditames dos sábios teólogos e filósofos dominicanos que dominavam a universidade de Paris, nos anos 1250-1280[42]. Apesar de Le Goff afirmar que as  elocubrações filosófico-teológicas que fervilhavam na universidade de Paris não interessavam a Luís, o fato é que Luís se cercou de grandes nomes da intelectualidade de seu tempo, pensadores, filósofos e teólogos, principalmente franciscanos e dominicanos, que colaboraram na administração e ajudaram a dar uma determinada direção política ao reino. Le Goff afirma que havia em Paris “uma ‘academia política’ de São Luís cujo coração era o convento dos jacobinos, o célebre convento de Saint-Jacques dos dominicanos parisienses”[43]. Vicente de Beauvais, dominicano, autor do Speculum Maius, a principal enciclopédia utilizada na Idade Média, era um de seus mais próximos colaboradores[44].

Podemos afirmar que dominicanos e franciscanos rivalizavam no papel de conselheiros do rei. Da parte dos franciscanos, porém, graças às pesquisas dos últimos anos, sabemos que Luís tinha um apreço particular pelos frades empenhados numa vivência mais radical dos ditames do Evangelho, que chegavam quase a se constituir uma “seita” dentro da Ordem franciscana. Referimo-nos, aqui, à proximidade de Luís com o movimento dos “Espirituais”[45]. E nesse particular, um encontro vai causar profunda impressão no rei da França.




[40] Le Goff, Jacques, O Maravilhoso..., oc, p. 79.
[41] Seu sobrinho, Luís de Toulose, vai se tornar franciscano e bispo, e também vai se canonizado.
[42] O autor chega a afirmar que Le Goff teria privilegiado, através de Gilberto de Tournai, o São Luís dos franciscanos, em detrimento do São Luís dominicano In: Genet, Jean-Philippe. Saint Louis: le roi politique, In: Médiévales, N°34, 1998. pp. 25-34. doi : 10.3406/medi.1998.1410. http://www.persee.fr/web/revues/home/prescript/article/medi_0751-2708_1998_num_17_34_1410
[43] Le Goff, Jacques, Uma longa Idade Média, o.c., 226.
[44] “...foi também o compilador de um amplo tratado filosófico-teológico (Speculum doctrinale) em que são discutidos os temas relativos ao poder, ao governo, ao ministério régio, sua função natural e sobrenatural, a constituição mesma de uma comunidade política e sua necessidade. Além de teorizar sobre a política, Vicente também procurou educar os governantes, no sentido de ensinar a arte do governo: devem-se a ele duas das principais obras do século XIII sobre essa matéria”. Miatello, A. L. Pereira, O rei e o reino sob o olhar do pregador: Vicente de Beauvais e a realeza no século XIII, Revista Brasileira de História, vol. 32, nº 63, p. 227. Uma dessas obras é o De Morali principis institutione, escrita em 1247, a pedido da rainha Margarida, para a educação de seus filhos. Roberto de Sourbonne, fundador do Colégio (depois Universidade) de Sorbonne, era outro clérigo muito próximo de Luís.
[45] Os “Espirituais” surgiram na Ordem franciscana logo após a morte de Francisco, em oposição ao que consideravam desvios na proposta original de vida do fundador. Sinteticamente, seu programa tinha quatro pontos: atacavam os abusos contra a pobreza, eram contra os estudos, defendiam que a Regra e o Testamento eram obrigatórios para toda a Ordem, eram contra os privilégios pontifícios. São chamados espirituais porque assumiram as doutrinas do abade Joaquim de Fiore, morto em 1202 (por isso também “joaquimitas”), que dividia a história do mundo em três eras: a do Pai, a do Filho e a do Espírito Santo. Os frades fiéis (segundo os Espirituais) aos propósitos originais de Francisco, fiéis à pobreza e à simplicidade, iriam inaugurar a era do Espírito: por isso, Espirituais. Com o tempo o grupo se amplia, constituindo um verdadeiro partido rigorista, de reforma e de radicalidade dentro da Ordem, suspeito de heresia.  

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quinta-feira, 18 de setembro de 2014

São Luís de França e os Franciscanos - XII

Frei Sandro Roberto da Costa, ofm
2.2.3 Luís e o combate aos inimigos da Igreja
Uma das mais sérias ameaças à fé cristã na passagem do século XII para o século XIII foi a heresia cátara. Por ter seu centro principalmente na região de Albi, no sul da França, eram também chamados de Albigenses.  No auge do reinado de Luís, após o duro combate da Igreja, inclusive com a pregação de Santo Antônio e outros grandes nomes das Ordens mendicantes, a heresia cátara havia se enfraquecido, mas permanecia como uma ameaça. Luís, fiel aos ditames do IV Concílio do Latrão (1215), que determinava que os soberanos cristãos dessem combate à heresia, recomenda ao filho nos seus ensinamentos: “Persiga os hereges e as pessoas ruins de tua terra tanto quanto possas, pedindo como é necessário o sábio conselho das pessoas boas a fim de purgar assim a terra”. Na concepção medieval de colaboração entre Igreja e Estado, o soberano é o defensor da fé e a realeza é o braço secular da Igreja, que deve “caçar” e combater os hereges.

 Em relação aos muçulmanos, o fato de se empenhar na realização de duas cruzadas exemplifica bem o quanto esta atividade era importante para Luís. Os muçulmanos eram, sobretudo, os infiéis, e deveriam ser convertidos. De um rei piedoso cristão, o mínimo que se esperava é que se empenhasse na defesa da fé frente ao islã[39]. No entanto, em que pese a violência das cruzadas, em vários momentos, especificamente da primeira, Luís entra em diálogo com os muçulmanos. Algumas fontes afirmam que, durante sua prisão, surgiu um afeto e respeito mútuo entre o rei e o sultão que o mantinha prisioneiro. Outros autores relatam que os muçulmanos teriam pedido a Luís que se tornasse seu chefe. O biógrafo Godofredo de Beualieu, testemunha ocular da morte do rei, revela que, no momento extremo de sua agonia, umas das últimas palavras balbuciadas pelo rei foram de preocupação com a conversão dos muçulmanos: “tentemos, pelo amor de Deus, pregar e implantar a fé católica em Tunis. Òh como poderíamos enviar um pregador capaz a Tunis”, e teria citado um pregador que já havia pregado em Tunis, e se tornara conhecido do sultão. 

 A relação de Luís com os judeus é mais complexa. Antes de mais nada, não podemos julgar as relações entre cristãos e judeus na Idade Média a partir dos parâmetros contemporâneos de ecumenismo e tolerância, que são conquistas modernas. Luís age como os soberanos cristãos de seu tempo. Os judeus, embora sejam uma verdadeira religião, são considerados os “assassinos de Cristo”. Luís tomou medidas severas contra os mesmos, visando a “purificação do reino”, mas ao mesmo tempo os protegeu do abuso de extremistas. Também promoveu a conversão de vários deles, e foi padrinho de alguns judeus convertidos.

 Outro perigo que rondava o Ocidente medieval era a ameaça tártara, representada pelos mongóis. Luís acalentava o sonho de aliar-se a eles para combater os muçulmanos. Depois de algumas expedições fracassadas, enviadas pelo papa, Luís enviou o dominicano André de Longjumeau, que também não obteve sucesso. Por fim, em 1253, foi enviado o franciscano Guilherme de Roubroek, que se aventurou até a Mongólia, ao Grande Khan, em Karakorum, no coração do reino mongol. Apesar da valiosa relação que o franciscano fez da vida e dos costumes mongóis, o resultado desta missão também foi efêmero. Finalmente, em 1264, uma embaixada de 24 mongóis, tendo à frente dois frades dominicanos como intérpretes, se apresentou em Paris, propondo ao rei uma aliança contra os muçulmanos da Síria. Também esta tentativa de aliança não frutificou.



[39] A Terra Santa sempre foi, desde as origens do movimento franciscano, mais do que um lugar geográfico, um ideal de santidade e de santificação.

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quarta-feira, 17 de setembro de 2014

São Luís de França e os Franciscanos - XI

Frei Sandro Roberto da Costa, ofm
2.2.2 Um rei paciente no sofrimento
Luís é um rei que, como cristão exemplar, suporta pacientemente os sofrimentos. E não são poucos. Ainda jovem, aos 28 anos, após a guerra contra os ingleses, começa a sofrer de febre terçã (uma espécie de malária). Em 1244, sofre com uma diarreia tão grave, que chegam a considerá-lo morto. Nesta ocasião faz o voto de partir em cruzada[35]. As doenças o perseguem, sejam as crônicas, como a febre ocasionada pelo paludismo, sejam outras que surgem em várias ocasiões: erisipela, diarreia, escorbuto. Mas todos testemunham a paciência do rei frente aos sofrimentos. Joinville testemunhou os sofrimentos do rei durante a sétima cruzada. Segundo ele, o rei, quando prisioneiro dos muçulmanos, sofria de grave infecção intestinal. Estava muito pálido, “com os ossos da coluna todos tão pontudos e tão fraco que era preciso que um homem de sua criadagem o levasse para todas as suas necessidades... À noite desmaiou por várias vezes; e, por causa da forte disenteria que tinha, foi preciso cortar o fundilho de suas  ceroulas, tantas vezes ele descia para ir ao banheiro”[36]. Na partida para a oitava cruzada, o rei estava tão fraco que provocou a indignação de seu amigo Joinville, com aqueles que o deixaram partir naquele estado. O rei mal podia caminhar, pela fraqueza: “ele não podia aguentar ir nem de carroça nem a cavalo. Sua fraqueza era tão grande que ele se resignou que eu o carregasse...”[37]. Sua morte será causada pelo tifo. Mas Luís não é um rei triste. Le Goff afirma: “Talvez nisso também haja um traço de espiritualidade franciscana”[38].



[35] Stein, Henri, Pierre Lombard, médecin de Saint Louis In: Bibliothèque de l'école des Chartes. 1939, tome 100. pp. 63-71.doi : 10.3406/bec.1939.449186.  http://www.persee.fr/web/revues/home/prescript/article/bec_0373-6237_1939_num_100_1_449186.
[36] Le Goff, São Luís, oc., p. 175; p. 766, citando Joinville. 
[37] Idem, 768.
[38] “Graças a Joinville, vemos São Luís rir e às vezes rir às gargalhadas”. Le Goff, Jacques, São Luís, oc., p. 431.

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sexta-feira, 12 de setembro de 2014

São Luís de França e os Franciscanos - X


Frei Sandro Roberto da Costa, ofm
2.2.1 Sua devoção à Paixão
A posse de relíquias era prática comum na Idade Média. Devoção, prestígio, necessidade de proteção eram elementos que se misturavam na procura por relíquias cada vez mais preciosas. Luís tinha um apreço especial pelas relíquias da paixão de Jesus. Prova disso é um acontecimento envolvendo a relíquia do cravo de Jesus. Em 1232, quando a relíquia foi exposta para veneração dos fiéis na catedral de Saint Denis, acabou caindo do relicário e desapareceu. Seguiu-se uma comoção em todo o reino. Guilherme de Nagis relata o sentimento do rei e sua mãe: “O santo rei Luís e a rainha sua mãe, quando souberam da perda desse altíssimo tesouro e o que tinha acontecido ao santo cravo sob seu reinado, sentiram grande dor e disseram que notícia mais cruel não podia ter sido levada a eles nem lhes fizesse sofrer mais cruelmente”[33]. Esta devoção era testemunhada publicamente na Sexta-Feira Santa: “A sua devoção à Cruz, especialmente na Sexta-Feira Santa, tem como momento forte a visita das igrejas ‘próximas do lugar onde se encontrava’: ia lá ‘descalço’, e depois, para a adoração da cruz, tirava o chapéu e a touca e avançava, de cabeça descoberta de joelhos, até à cruz, ‘beijava-a’, e por fim ‘punha-se inclinado para o chão com os braços abertos, como na cruz, durante todo o tempo em que a beijava, e diz-se que enquanto fazia isto chorava’”[34].
Nada, porém, supera o esforço para conseguir duas das relíquias mais preciosas para a cristandade: a coroa de espinhos de Jesus e o lenho da Santa Cruz. Luís adquire a coroa do Imperador de Constantinopla, Balduíno. Quando a coroa entra em território francês, em 1239, depois de uma longa viagem desde Constantinopla, o rei e seus irmãos vão ao seu encontro. Carregam o relicário às costas, em procissão, vestidos de túnica branca e descalços, em sinal de humildade e penitência. Os nobres também se associam aos príncipes, participando descalços da procissão. Seguem-se a aquisição do lenho da Cruz e de outras relíquias da Paixão, como a esponja e o ferro da santa lança. Para guardar as relíquias, Luís construiu um dos maiores tesouros da arte gótica: a Saint-Chapelle, capela privada do rei. A estas relíquias preciosas soma-se o travesseiro de São Francisco, enviado ao rei pelos frades de Assis, quando de sua coroação, em 1226.
O movimento cruzado tem sua legitimação nesta devoção às relíquias: as terras onde Cristo nasceu, viveu e morreu, estão em mãos infiéis, de pecadores. Jerusalém, a maior relíquia da cristandade, precisa ser libertada.




[33] Guilherme de Nagis, citado por Le Goff, São Luís, 115.
[34] Le Goff, Jacques, O maravilhoso..., o,.c.. p. 86. As citações entre aspas simples dentro do texto referem-se à citação da obra de  Guilherme de Saint-Pathus. 

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quinta-feira, 11 de setembro de 2014

São Luís de França e os Franciscanos - IX


Frei Sandro Roberto da Costa, ofm
(continuação do subtítulo 2.2 São Luís e a espiritualidade mendicante)
Vítima de vários males físicos, Luís se solidariza com os mais fracos. O rei se preocupa com os cegos, e para eles manda construir um hospital em Paris. Dá muitas esmolas aos pobres, principalmente aos leprosos, a quem cuidava carinhosamente, dava de comer, beijava-lhes a mão. Seus biógrafos destacam o fato de que ele se levantava muito cedo, sem fazer ruído, para ir à Igreja, para rezar, o que obrigava seus guardas a também se levantarem cedo, alguns tendo que se vestir correndo pelo caminho, para alcançar o rei. Quando os monges vão construir a abadia de Royaumont, Luís os ajuda a carregar pedras, e obriga seus irmãos a fazerem o mesmo, embora estes não o façam de bom grado[28].
Luís também obriga aqueles que o servem, sejam marinheiros ou soldados, a ouvirem longos sermões, e a participarem de ofícios religiosos. Para impedir que seus soldados almoçassem nas tavernas da cidade, lugares mal afamados, de jogos, bebida e mulheres, oferece-lhes o almoço no próprio local de serviço, no refeitório do palácio, sem cobrar por isso. Ao contrário, continuando dando aos soldados a ajuda de custo a que tinham direito para comer fora. Alguns o fazem a contragosto, pois comendo no palácio, seriam obrigados a ouvir sermões durante a refeição. Para Luís as tavernas eram tão perigosas quanto os bordéis.
Algumas destas práticas causavam transtornos no meio em que vivia o rei. Luís era consciente de que seu comportamento piedoso não agradava a todos, e suscitavam inúmeras críticas. Uma das mais comuns era o fato de gastar muito com esmolas e com a construção de edifícios religiosos[29]. Era claro, para os medievais, burgueses e nobres que o cercavam, que Luís não podia ultrapassar o limite do rei para o de sacerdote. 
Uma forte crítica vinha daqueles que consideravam Luís como um refém dos colaboradores e conselheiros religiosos, principalmente dos franciscanos e dominicanos[30]. Um episódio contado por seu biógrafo franciscano Guillerme de Saint-Pathus, demonstra bem a sua proximidade com o clero. Diz-se que uma mulher o abordou na saída do parlamento, e teria exclamado: “Só és rei dos frades menores e dos pregadores, dos padres e dos clérigos!”[31]. A reação de Luís, segundo seu biógrafo, foi de calma. Concordou com a mulher, e disse que ela tinha razão, e que outro governaria melhor o reino. E pediu a seus soldados que dessem dinheiro a ela. O fato em si demonstra o quanto Luís prezava a companhia do clero, e como isso não era bem visto por alguns setores da sociedade[32].  




[26] Le Goff, O maravilhoso..., oc., p. 89, nota 41.
[27] Idem.
[28] Vários gestos de Luís demonstram um espírito livre das amarras do poder e das convenções sociais. Ele é um rei que se senta no chão, na terra nua, para conversar com seus súditos; é capaz de fazer reuniões sob as árvores, nos jardins do palácio; frequentemente come com os monges, vai à cozinha e lhes traz a terrina com a sopa, e os serve. Quando é advertido pelo abade que acabou sujando a capa na terrina de sopa, o rei responde: “não tem importância. Eu tenho outras”. Cfr. Guilherme de Saint-Pathus, citado por Le Goff, São Luís, oc., p. 557.  
[29] Quando lhe criticam pelo excesso de despesa na construção dos conventos dos franciscanos e dominicanos em Paris, Luís responde: “Meu Deus! Como acredito ser bem empregado este dinheiro para todos esses frades tão eminentes que do mundo inteiro confluem aos conventos parisienses para estudar a ciência sagrada, e que, aí tendo aprendido, voltam ao mundo inteiro para expandi-la pelo amor de Deus e a salvação das almas”. Le Goff, São Luís, oc., p. 725.
[30] Franciscanos e dominicanos eram os principais confessores da família real. A esposa de Luís e sua filha, Branca, tinham como confessores frades franciscanos.
[31] Guilherme de Saint-Pathus, Vie de Saint Louis, p. 118-119, citado por Le Goff, São Luís, oc., 729.
[32] Apesar desta proximidade com os religiosos, os estudiosos são concordes em assinalar a independência de Luís em relação aos bispos e mesmo em relação ao papado. Em várias ocasiões o rei não vai deixar de expressar sua opinião contrária à política eclesiástica diante das autoridades da Igreja, inclusive o próprio papa. 

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quarta-feira, 10 de setembro de 2014

São Luís de França e os Franciscanos - VIII

Claustro da Abadia de Royaumont, construída por São Luís aos monges cistercienses

 Frei Sandro Roberto da Costa, ofm
2.2 São Luís e a espiritualidade mendicante
Na vida de São Luís, homem religioso e piedoso, os religiosos em geral ocupam um lugar de destaque. Mas entre estes, gozam de maior simpatia e familiaridade do rei aqueles que têm sua vida pautada por uma regra de mais estrita observância e radicalidade evangélica. A amizade que unia o rei e os beneditinos cistercienses era conhecida de todos[18]. O rei construiu para os monges uma belíssima abadia, a de Royaumont, e para lá se dirigia com prazer, com toda sua família, onde se entretinha com os monges, como se fosse um deles, nas orações, ofícios, práticas devocionais e de caridade. Outro grupo religioso que ocupa um lugar central na vida de Luís são os mendicantes, especificamente dominicanos e franciscanos[19].
Quando Luís nasceu, o movimento franciscano estava nos seus inícios, dando os primeiros passos fora da Úmbria. Francisco de Assis tinha uma ligação sentimental com a França: sua paixão pela língua francesa provavelmente estava na origem de seu nome[20]. Há indícios de que sua mãe fosse de origem francesa, e por isso era também chamada de “Provençal”. Nos inícios da Ordem, Francisco havia tentado viajar à França, mas foi impedido pelo cardeal Hugolino, que o aconselhou a ficar na Itália[21]. Francisco enviou assim alguns frades. Frei Pacífico chega a Vézelay em 1217, e aí estabelece o primeiro convento franciscano em terras francesas, denominado “la Cordelle” (por causa da “corda” com os três nós que os frades usam)[22]. Em 1219, estão em Paris e em Saint Denis, onde serão conhecidos como “cordeliers”. Em 1223, estão em Lens, no Norte da França. 
Luís é muito próximo dos franciscanos e dominicanos, e é a espiritualidade preconizada pelos mendicantes que vai inspirá-lo no exercício de seu governo enquanto leigo cristão[23]. Os franciscanos, nas suas pregações nas cidades, são os maiores divulgadores desta espiritualidade nova, do Cristo vivo, encarnado, humano, humilde e sofredor, crucificado pelos pecados da humanidade. Uma espiritualidade cristológica, de um Cristo que se revela nos pobres, nos leprosos, nos abandonados[24]. É, ao mesmo tempo, uma espiritualidade penitencial, de conversão pessoal e de reforma, de combate aos abusos da Igreja, uma espiritualidade da “sequela christi” (seguimento de Cristo), do seguimento da “Vita Apostolica” (da vida dos Apóstolos), que encontra eco nas almas mais sérias e sedentas de uma prática cristã original, propugnada e popularizada pelos pregadores dos movimentos heréticos.
Luís pratica todos os atos de devoção, então comuns e esperados dos reis cristãos piedosos: os ofícios litúrgicos, a frequência aos sacramentos (confissão, comunhão), o culto às relíquias, o respeito à Igreja e a sua hierarquia, as práticas penitenciais e ascéticas, e a prática da caridade, principalmente para com os pobres. Sua mãe foi a grande responsável por discipliná-lo, desde a mais tenra idade, no caminho da devoção e da piedade. “No centro de sua vida está a oração, como um sol que ilumina todas as horas do dia. À meia noite o rei se veste para dizer as matinas na capela; depois ele torna a se deitar, mas semi-vestido, para estar pronto para se levantar assim que soe a hora da prima... Após a prima, a cada manhã, ao menos duas missas; uma breve, para os mortos, a outra cantada, que é a missa do dia. Durante a Quaresma, ele assiste uma terceira... Durante a jornada, algumas horas canônicas não podem faltar. Mesmo quando o rei cavalga, ele é acompanhado de seu capelão, e as horas são ditas a cavalo”[25].   



[18] Os Cistercienses são uma reforma do ramo beneditino, surgida na França em 1098, buscando uma maior radicalidade na vivência da Regra de São Bento. Seu maior nome é Bernardo de Claraval (1090-1153).
[19] Na liturgia da Saint-Chapelle, a magnífica capela pessoal que o rei construiu para colocar as relíquias, Luís institui três ofícios litúrgicos por ano, em honra das relíquias: um para os dominicanos, um para os franciscanos, e um dividido alternadamente entre as outras ordens religiosas presentes na capital. 
[20] “‘Quando ele estava cheio do ardor do Espírito Santo’, diz Tomás de Celano, ‘falava francês em voz alta’. Nos bosques, cantava em francês, pedia como esmola em francês, óleo para a luminaria de San Damiano  que tinha consertado”. Le Goff, Jacques, São Francisco de Assis, Record, RJ e SP 2011, p. 59.
[21] Fontes Franciscanas e Clarianas, Tradução de Celso Márcio Teixeira, Vozes/FFB, Petrópolis 2004: Primeira Vida de Celano 74-75, p. 248-249; Compilação de Assis 18, p. 944-945.
[22] Os primeiros frades que chegaram à França foram confundidos com os albigenses. Depois da intervenção de um bispo e uma carta do papa Honório, atestando a seriedade de vida dos frades, estes puderam se estabelecer no país. Cfr. Crônicas de frei Jordão de Jano, in Fontes Franciscanas..., oc., p. 1265. Destruído durante a revolução francesa, o convento de Vézelay foi reaberto em 1997, tornando-se um eremitério franciscano.
[23] A simpatia de Luís pelos franciscanos tem sua origem na devoção de sua mãe, Branca, por São Francisco.
[24] A biografia de São Francisco, escrita em 1228 por Tomás de Celano, coloca no encontro com o leproso, que se revela como sendo o próprio Cristo, o momento central da conversão do santo. Francisco vai evocar esta experiência vital no seu Testamento, um de seus mais importantes escritos. Outra experiência de conversão se dá quando Francisco entrega sua capa a um pobre que está sofrendo com o frio. O pobre logo desaparece, o que faz entender que se tratava do próprio Cristo.
[25] Madaule, J., Saint Louis de France, Aux Editions Franciscanies, Paris 1946, p. 17-18.

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terça-feira, 9 de setembro de 2014

São Luís de França e os Franciscanos - VII

São Domingos e São Francisco de Assis, óleo sobre tela por Angelo Lion.
Frei Sandro Roberto da Costa, ofm
2.1 Espiritualidade medieval: movimentos de contestação, franciscanos e dominicanos
Nos séculos XII e XIII, um dos principais motes dos movimentos de contestação, liderados por leigos, mas  também por clérigos, era a dura crítica que faziam à Igreja e seus membros, principalmente da hierarquia, por sua ligação com o “século”, o apego às riquezas, a luta pelo poder, seu distanciamento dos fiéis a quem deviam pastorear, a incapacidade de pregar, seja pelo mal preparo intelectual, ou pela acomodação em que viviam, ao mesmo tempo em que mantinham os fiéis distantes da Palavra de Deus[16]. A resposta a esta incapacidade dos membros da Igreja de proferir uma palavra evangélica de esperança e de coragem à imensa massa dos fiéis, foram os movimentos alternativos, protagonizados por leigos e clérigos. Nem sempre ortodoxos, propunham meios para o retorno ao Evangelho, através principalmente da pregação e de um exemplo de vida pobre e humilde, calcado na vivência do Evangelho “sine glosa” (ao pé da letra). Alguns destes movimentos descambaram para a heresia. Consolida-se, aos poucos, a certeza de que o caminho de santificação não é exclusivo de clérigos, monges e membros da hierarquia, mas que todos, inclusive homens e mulheres casados, sem renunciar ao seu estado, também podem encetar a “Sequela Christi”: seguir nu o Cristo nu.
Domingos de Gusmão, com os dominicanos, e Francisco de Assis, com os franciscanos, constituem, de um certo modo, o ponto de chegada de todo esse movimento de contestação. “Esses religiosos de um novo gênero, cujo rápido sucesso é extraordinário em toda a cristandade, vivem, diferentemente dos monges, entre os homens nas cidades, misturam-se estreitamente aos leigos e são os grandes difusores das práticas religiosas que renovam profundamente: a confissão, a crença no Purgatório, a pregação. Penetram nas consciências e nas casas, entram na intimidade das famílias e dos indivíduos. Praticam as virtudes fundamentais do cristianismo primitivo em uma sociedade nova: a pobreza, a humildade, a caridade”[17]. Diferentemente das instituições monásticas tradicionais, que vivem no isolamento de seus mosteiros, distante do “mundo”, o espaço urbano, com todas as suas contradições e perigos, é o lugar privilegiado de atuação dos frades. Não moram em “conventos”, mas em “locus”, casas simples, em meio às pessoas, que deveriam converter pelo exemplo de vida.
Tendo suas origens como movimento misto, onde não havia a distinção entre clérigos e leigos, logo são assimilados pela Igreja e passam a fazer parte da hierarquia e a servir aos seus projetos de poder. Mas a origem laica e o protagonismo dos leigos sempre esteve no horizonte do movimento, ao menos como ideal. O melhor exemplo disto é o próprio Francisco de Assis, que era leigo, sem provas conclusivas de que teria sido ordenado diácono. Além de criar uma instituição para receber mulheres (as Damas Pobres ou Clarissas), Francisco também iniciou a Ordem Terceira, para leigos, homens e mulheres, casados ou não, que não precisavam “abandonar o mundo”, mas poderiam se santificar permanecendo no seu estado de vida laica, em família. São Luís é leigo, e seu principal biógrafo também é leigo. A espiritualidade leiga que começa a avançar no século XIII, e a santidade, até então apanágio de clérigos e monges, passa a ser possível também aos leigos. Santificar-se vivendo o Evangelho em fraternidade, pobreza e penitência, praticado a caridade, anunciando, principalmente pelo exemplo de vida, a paz e o bem, eram os principais motes dos seguidores de Francisco de Assis. Luís se insere neste contexto.



[16] O clérigo Jacques de Vitry, escrevendo em 1216 sobre o movimento franciscano vai comentar, sobre os clérigos que não desempenhavam a contento sua função de cuidar dos fiéis, que eram quais “cães mudos, incapazes de ladrar (Is 56,10)”. Fontes Franciscanas e Clarianas, oc., Testemunhos Menores – Jacques de Vitry, p. 1423.
[17] Le Goff, Jacques, S. Luís, p. 661-662. Em outra obra, o mesmo autor afirma: “É sabido quanta influência tiveram sobre São Luís os mendicantes, de que se rodeou”. In Le Goff, Jacques, O maravilhoso e o Cotidiano no Ocidente Medieval, Edições 70, Lisboa, Portugal 1985, p. 75. Quando da morte de Luís, existiam na França mais de duzentos conventos franciscanos e mais de cem dominicanos. Quando voltou da sua primeira cruzada, Luís mandou construir uma biblioteca na Saint-Chapelle, onde guardava originais dos maiores escritores eclesiásticos, como Agostinho, Ambrósio, Jerônimo, Gregório, e outros autores. Quando morreu, estes livros foram deixados em herança aos frades menores de Paris, aos dominicanos e aos cistercienses de Royaumont. Ele ajudou ainda sua irmã, Isabel de França, a fundar a abadia das Clarissas de Longchamps, com o título de Irmãs Menores da Humildade de Nossa Senhora. Luís conseguiu que seu nome e o de sua mãe fossem incluídos no memento dos vivos em todos os mosteiros da Ordem Cisterciense da França, bem como dos dominicanos, dos franciscanos e dos beneditinos de Grandmont. 

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segunda-feira, 8 de setembro de 2014

São Luís de França e os Franciscanos - VI

Partida e bênção de São Luís para as Cruzadas
Frei Sandro Roberto da Costa, ofm

1.4  A volta da cruzada, a saudade do Oriente: a morte às portas de Túnis
De volta da cruzada, entre 1254 a 1270, Luís continua desempenhando sua missão de monarca cristão. Se antes já exercia suas funções como rei exemplar, praticando a justiça e defendendo o direito, principalmente dos pobres, após o retorno do Oriente estas práticas se acentuam. Os estudiosos sublinham a mudança de comportamento após a volta da cruzada. A experiência frustrada deixou marcas profundas na alma de Luís. O rei justo, ético, modelo de cristão piedoso, passa a ser ainda mais cioso da prática da justiça, além de acentuar suas práticas de devoção e de piedade, e suas obras de caridade para com os pobres e os religiosos.

Desde que retornara da cruzada, o horizonte de vida de Luís passou a ser a Terra Santa. Em meio às funções que exigiam a administração do reino, o monarca deixava claro que não sossegaria enquanto não organizasse uma nova expedição à Terra Santa. A decisão foi anunciada a 25 de março de 1267. Em 04 de junho de 1270, Luís, seus filhos João Tristão e o herdeiro Filipe, além de vários nobres, partiram em direção a Túnis. Desembarcados às portas da cidade, uma forte epidemia de disenteria e febre ataca os cruzados. João Tristão morre a 03 de agosto. Depois de muito sofrimento, estendido sobre um leito de cinza em forma de cruz, Luís inicia sua definitiva viagem ao encontro daquele que tão ardentemente buscara nesta vida. Um longo processo iniciado logo após sua morte vai culminar com a canonização solene, sob o pontificado de Bonifácio VIII, em 1297. Sua festa foi fixada em 25 de agosto, dia de sua morte.

      2. A espiritualidade que moveu São Luís de França
“Os contemporâneos do rei... praticamente não tinham como deixar de classificar esse soberano a não ser com a palavra santo – mas um santo excepcional, do mesmo modo que São Francisco o tinha sido como religioso, no início do mesmo século XIII”[15]. Esta afirmação do ilustre medievalista francês nos fornece elementos para uma análise da espiritualidade que inspirou os gestos e decisões do monarca, a ponto de ter sido declarado santo pela Igreja. Um dado importante é o fato de que Luís já era considerado santo por seus contemporâneos. Mas era um santo com um endereço definido: um santo franciscano. Ora, de onde vem esta percepção? Para dar uma resposta, temos que nos debruçar brevemente sobre a espiritualidade cristã que dominava então o Ocidente à época de Luís. 




[15] Le Goff, Jacques, Uma longa Idade Média, Civilização Brasileira, RJ 2008, p. 93. 

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quinta-feira, 4 de setembro de 2014

São Luís de França e os Franciscanos - V


Frei Sandro Roberto da Costa, ofm
1.3 Gravemente doente: o voto da cruzada
Uma vez organizado e pacificado o reino, Luís organizou a sétima cruzada. Na origem desta expedição está a grave doença que o acometeu, em dezembro de 1244, e que o deixou praticamente à beira da morte. Num esforço extremo para recuperar a saúde, o rei fez a promessa de que, se ficasse curado, iria organizar uma cruzada[13]. Depois de quatro anos de preparação, em junho de 1248, com sua mulher Margarida, e seus irmãos Carlos de Anjou, Afonso e Roberto de Artois, após receberem a bênção do papa Inocêncio IV, partiram para libertar o Santo Sepulcro. O reino ficou a cargo de sua mãe, Branca de Castela, que já dera provas suficientes de que teria condições de conduzi-lo na ausência do filho. Devido a uma série de reveses, incluindo tempestades que desviaram a frota, além de epidemias, os cruzados tomaram, em 08 de junho de 1249, a cidade de Damieta, no Egito. No caminho para o Cairo, deu-se a famosa batalha de Mansurá, onde perdeu a vida o irmão de Luís, Roberto de Artois. A disenteria e o escorbuto ajudaram a enfraquecer ainda mais a tropa. Luís e seus soldados foram feitos prisioneiros pelos muçulmanos. Sua mulher, Margarida, passou a comandar os cruzados. Após o pagamento de um vultuosa soma, Luís e seus soldados foram libertados depois de um mês de cativeiro, em maio de 1250. O rei e suas tropas passaram ainda quatro anos na Terra Santa, consolidando as fortalezas cristãs, conduzindo negociações entre cristãos e muçulmanos. Tendo recebido a notícia da morte da mãe, retornou à França, entrando em Paris em setembro de 1254[14].



[13] Segundo uma fonte contemporânea aos fatos, teria sido a mãe de Luís, Branca de Castela, a fazer o voto, com as relíquias sobre o corpo do filho, num momento de desespero, quando todos achavam que o rei estivesse morto. In Mercuri, Chiara. San Luigi e la crociata. In: Mélanges de l'Ecole française de Rome. Moyen-Age, Temps modernes, T. 108, N°1. 1996. pp. 221-241. doi : 10.3406/mefr.1996.3483. http://www.persee.fr/web/revues/home/prescript/article/mefr_1123-9883_1996_num_108_1_3483
[14] Sobre a participação de Luís em duas cruzadas há muita bibliografia. Citamos apenas algumas obras: Laband, Edmond-Rène, Saint Louis Pèlerin. In: Revue d'histoire de l'Église de France. Tome 57. N°158, 1971. pp. 5-18. Doi : 10.3406/rhef.1971.1856  http://www.persee.fr/web/revues/home/prescript/article/rhef_0300-9505_1971_num_57_158_1856; San Luigi e la Crociata, oc.

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quarta-feira, 3 de setembro de 2014

São Luís de França e os Franciscanos - IV

Vitral do casamento do Rei Luís IX
Frei Sandro Roberto da Costa, ofm

1.2 Um santo leigo!
Diferentemente dos santos de seu tempo, Luís é um santo leigo, e é casado. Isto não deixa de ser notado pela maioria de seus biógrafos: santo, apesar de ser leigo e casado! Humilde, piedoso, virtuoso, Luís, no entanto,  continua um leigo, não é um sacerdote[11]. É, sobretudo, casado, pai de família, que não renuncia às obrigações e prazeres conjugais e à sexualidade, submetidos aos ditames da lei da Igreja, como os “dias de resguardo”[12]. Luís vai ser pai de onze filhos, três dos quais nascem durante sua permanência no Egito. Sua mulher o acompanha na peregrinação. Sua biografia, a primeira vida de um santo escrita por um leigo, vai priorizar elementos que normalmente não se destacavam nas biografias, quase todas escritas por eclesiásticos e sobre clérigos: Jean de Joinville vai pôr em relevo, na vida de Luís, sua relação com a sexualidade, com a guerra e a política. É um rei que vai à guerra, que combate valorosamente, inclusive nas cruzadas, mas é, ao mesmo tempo, um rei de paz, que tudo faz para mantê-la, através dos tratados e negociações.
Isso não o impede de exercer bem suas funções em favor do povo. Coadjuvado em grande parte pela astúcia política de sua mãe, Branca de Castela, Luís conseguiu estabelecer a paz e a harmonia no reino. Isso foi conseguido após árduas batalhas, mas também através de hábeis negociações e uma série de tratados, onde não faltaram os matrimônios arranjados entre os irmãos do rei e as filhas da nobreza de reinos circunstantes, em função da pacificação e do fortalecimento dos laços do reino com outras potências. Outra frente de atuação de Luís foi a organização das finanças. Em política, Luís tentou instaurar um código de conduta especificamente cristão.





[11] Quanto à pertença de Luís à Ordem Terceira Franciscana, nada consta de uma efetiva profissão, que, por outro lado, nem era comum naqueles inícios da Ordem. Ele é, de fato, Terceiro Franciscano, e a justo título Patrono da Ordem Terceira, pela seriedade com que assumiu em sua vida, enquanto leigo, os valores franciscanos. Já a iconografia que o representa como membro da Ordem franciscana é tardia. Por volta de 1330, Giotto (+1337) pintou um afresco na capela Bardi, na Igreja de Santa Cruz, dos franciscanos de Florença. Nesta capela, que servia de local de reunião dos terceiros florentinos, São Luís aparece segurando o cordão franciscano. A iconografia representando São Luís como pertencente à Ordem Terceira vai se multiplicar: 1330, afresco na capela de São Francisco, de Lucca (Itália), hoje perdida; 1450, desenho na obra Armorial d’Auvergne (França), pintado por Guilherme Ravel; terracota de Andrea della Robbia (1435-1525), representando São Francisco entregando a Regra a Santa Isabel e a São Luís. As representações seguem este padrão,  em afrescos, quadros e pinturas nas principais igrejas franciscanas, continuando a tradição que se afirma após a canonização: Luís de França pertenceu à Ordem Franciscana. O Ofício dos Terceiros, de 1550, afirma que “Luís se associou a São Francisco porque a Regra da Penitência dirige seus passos”.  
[12] Seu biógrafo, Jean de Joinville atesta: “Nunca um homem leigo de nosso tempo viveu tão santamente durante todo o seu tempo, desde o começo de seu reinado até o fim de sua vida”. Seu papel de pai dedicado aparece nos Ensinamentos que deixou a seu filho. A obra  reforça a imagem do tipo ideal de soberano cristão, suas regras de conduta moral e política. Delaborde Henri-François. Le texte primitif des Enseignements de saint Louis à son fils. In: Bibliothèque de l'école des chartes. 1912, tome 73. pp. 73-100. Doi : 10.3406/bec. 1912.448470. http://www.persee.fr/web/revues/home/prescript/article/bec_0373-6237_1912_num_73_1_448470    

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