quinta-feira, 27 de março de 2014

FESTA DE SANTO: UMA ESPIRITUALIDADE BRASILEIRA - VI

4. RELIGIOSIDADE POPULAR E A DIMENSÃO CELEBRATIVA

Na Religiosidade Popular Brasileira o povo foi procurar a substância de sua fé onde melhor podia encontrar: no seu jeito. Criou uma Espiritualidade própria de muita ligação afetiva. Que Espiritualidade é esta? Ter a intuição das intenções de Deus, e nas intenções de Deus perceber que tudo é sagrado. Nas intenções de Deus tudo é altar e festa, tudo é mesa, tudo é serviço bom.

Onde acontece a Celebração na Religiosidade Popular Brasileira? No que diz o Evangelho: a Celebração acontece onde dois ou três se reúnem para ter a intuição das intenções de Deus. Basta isto para ter fato, fala e festa. Quando o Senhor disse que isso devia acontecer para haver memória, não pôs nenhum limite, não separou nada. E o povo não conhece cansaço para celebrar.

O rito é a repetição cada vez igual do diferente, porque cada dia é diferente se o povo herda uma intuição e uma intenção que é sagrada.

A história é feita de gente e de fatos e não apenas de livros. O que os livros fazem é documentar de um modo bem organizado a história de um povo se encontrando.

Celebrar é também ser sal da terra e luz do mundo. E o sal não está só no lado de dentro do pão de cada dia. Está em tudo que cerca, e no que se tem para levar ao altar. Para o povo, Deus é um mundo de desejos, sonhos, confiança, segurança e fé que não pode ficar trancado. Tudo o que existe começa a caminhar. Se tirar isto a vida fica sem suporte.

O povo só para de querer Deus quando deixa de celebrar. Deixar de celebrar é deixar de ser. Na hora em que não quer mais nada com a fé não sabe para onde ir, e daí vem a morte que é a ausência de vontade.  Essa ausência é vazio onde não se planta nada.

É muito bonito o caminho para a fonte do santuário. Mas este caminho comporta certo sacrifício. Um conta um sonho, um milagre, a força do lugar e os outros vão atrás. Daí ninguém mais se pertence, pertence a Deus, ao Santo e ao lugar.

A Religiosidade Popular Brasileira é uma imensa procissão com seus símbolos, seus cantos e suas experiências. É muito linda a simplicidade e a persistência dos que caminham. Há uma força que embala os passos. Ninguém pergunta se a estrada é longa.

O terço, o canto e a prece rezada traz tudo para perto. Um confia no outro e na certeza que todos vão chegar ao lugar da celebração. O melhor é sempre o que está por vir! Isto justifica todo o cansaço.

Na Religiosidade Popular Brasileira, como já dissemos, a força do Símbolo é muito grande e a palavra sempre vence! O povo vai para dentro do templo porque sabe que as portas estão abertas e que a luz sempre entra e sai dali.

Há uma causa, na Religiosidade, sendo buscada e sendo profetizada. Quando se trabalha por uma causa, toda a humanidade acaba usando desta força. Nenhuma força se perde no mundo por causa da fé.

Vestir-se para ir celebrar é como arrumar-se para um casamento. Quem casou com o sagrado, gera o sagrado. Só tem uma vocação igual para todo mundo: colocar muito amor e fé em tudo o que se faz! Isto tira a distância entre o sagrado e o humano.

Na religiosidade popular o povo beija a verdade onde quer que ela ponha o seu rosto.

Continua

quinta-feira, 20 de março de 2014

FESTA DE SANTO: UMA ESPIRITUALIDADE BRASILEIRA - V

3. A RELIGIOSIDADE POPULAR BRASILEIRA COMO ARTESANATO DO ESPÍRITO

O povo grita pelo pão e pela Palavra e Deus põe no chão as respostas para a sua fome. Variam só as mediações e o jeito de buscar. O povo quer ver e tocar. Então cria seus altares e oratórios. Lá vai sempre. No mundo do artesanato a gente tem sempre vontade de voltar.

Artesanato é a transformação da matéria com as próprias mãos obedecendo aquilo que está no coração. É transmitir a paz e a fé com as mãos. É muito diferente de souvenir. Um souvenir é mais lembrancinha que utilidade. Tem muita religião hoje vendendo souvenir e vivendo só de lembrancinha.

O artesanato do espírito é uma atravessar de novo a história, dar um salto, construir a história com as próprias mãos, recuperar os pedaços da história e fazer uma bela e simples obra de arte. É transformar a fome em mesa.  Não é muito tranquilo criar ritos, mas é preciso torna-los suaves, abrir as janelas para os gritos que vem de fora e deixar sair alguns gritos de dentro. Algumas religiões ou igrejas continuam com alguns ritos desvinculados do sagrado. A Religiosidade Popular Brasileira diz que o destino do sagrado é ser mastigado. O que não é mastigado não é digerido.

A Religiosidade Popular Brasileira é sal da terra e luz do mundo. Ser sal da terra é ser algo mergulhado, misturado e transformado em gosto. Nunca o sal vai salgar se ficar no canto da travessa, longe do alimento. Mas porque o sal se perde no alimento e se espalha no meio de tudo, cria gosto! Assim também a religião não pode ficar só num cantinho de nossa vida. Daí veio a Religiosidade Popular Brasileira e misturou tudo!

Nas igrejas o ministério não pode ficar centrado em uma só pessoa que esqueceu o que é ser uma artesão do culto. Culto tem que misturar fé e realidade. Ministério muito personalizado não existe, é só bom para vender livros e cds. Mas com o tempo, cai em desuso... A Religiosidade Popular Brasileira reza e canta há muito tempo sem cair em desuso!

Continua

segunda-feira, 10 de março de 2014

FESTA DE SANTO: UMA ESPIRITUALIDADE BRASILEIRA - IV


2. A RELIGIOSIDADE POPULAR BRASILEIRA É UMA PRAÇA!

O QUE É A PRAÇA? 
. Lugar público, popular.
. Lugar de vivências alegres e sofridas
. Lugar do cuidado e do mal-cuidado
. Lugar de encontro de tudo e de todos
. Lugar de comunicação, fala, conversa
. Lugar de saída e chegada, ponto de convergência, de partidas e rupturas, sentimentos, incorporação de     fatos.
. Uma janela aberta para um horizonte bem maior.

- Sobre o que conversam as pessoas quando se encontram?
- Onde jogam suas fomes, sedes e carências?
- Onde misturam os seus sentimentos?
- Onde descobrem o ontem, o hoje e sonham o amanhã?
- Onde saem da rotina e começam a codificar as  suas mesmas ânsias?
- Onde foi que a humildade se divertiu e rezou?
- Onde encontrou oásis?
- Onde escutou pregações e explicações para as suas esperanças?
- Onde buscou repouso e consolação?
- Onde afogou suas mágoas? Onde namorou e sentiu os primeiros beijos?
- Onde tirou o chão duro de seus olhos cansados?

A Praça é uma porção de compartimentos onde o mundo se vê de frente, é um lugar de encaixe para os apelos de fora e de dentro. Na Praça, a Religião consegue ser assunto, consegue ser linguagem e rito. Se não consegue ser pão na proporção da fome do povo,  consegue reunir o povo para um jeito de se encontrar.

A Religiosidade Popular Brasileira quando vai à Praça tem um jeito muito especial de olhar: para ver melhor fecha os olhos, para ver mais abre para o que está ao lado. O povo, quando está na Praça, tem aí sua visão mais precisa e bonita que a roupagem  brilhante dos teólogos e pregadores. Faz aí a sua Teologia Popular que não é uma ciência exata, mas compõe com a Fé o que sobra da humanidade.

Na Praça, todo mundo entende de alguma coisa porque a humanidade ainda tem dois olhos: o da ciência e o da fé. O olhar da ciência é verificação. O olhar da fé é jeito, olhos, boca e ouvido. O intelecto fica mais quieto, em repouso, só observando... A Religiosidade Popular Brasileira caminha bem lenta com dois olhos bem abertos. Olha com certa desconfiança a ciência e diz: “ Aqui houve um erro de cálculo!”. Olha  com o olhar da fé e diz assim: “ Graças a Deus! Deus quis assim!” Com olhar da ciência é realista; com o olhar da fé cerca o ar de mistério. Com o olhar da ciência respeita o chão; com o olhar da fé vai também para as nuvens.

A Religiosidade Popular Brasileira ensina a confiar, sem prejudicar o  hábito de ver tudo certinho. Ela usa o campo da confiança bem melhor que a ciência. A  modernidade paga caro para que um analista ajude a levantar um véu. A religiosidade usa o véu. Alguém quer acabar com a sombra do fantasma (medo, culpa, pecado, demônio, etc.) que está dentro do armário. Vai lá e quebra o armário. Fica quebrado no chão, com muito barulho, e ainda preso ao que o fantasma demorou anos para criar.  A Religiosidade Popular vem, limpa o armário, enfeita com flores e bota um santinho dentro ou sobre ele.

Na Religiosidade Popular Brasileira ninguém dorme,  está acordado e atento!

Continua

sexta-feira, 7 de março de 2014

Mulher


   
               
“Estás em meu coração e nenhum outro te conhece senão teu filho”     
                                                                                                         (Grande Hino a Aton)
                                                                                                                                                                                                      Ela desenvolve um papel determinante na civilização. Nada se realiza sem sua presença. Nada se faz ordem sem o seu toque gracioso de colocar as coisas em seu lugar. Nada se realiza sem sua presença. Desabrocha como humana espécie criada artesanalmente pelo Divino. Sua identidade é múltipla: esposa, mãe, trabalhadora, companheira, guerreira, tempo e templo. 

Ela gera o lugar, o Amor, o lar, filhos, pão e prece. Um dia Deus a escolheu para que fosse a porta de entrada da Divindade na Humanidade e ela abriu vontade, coração, mãos, ventre e verdade de um sonho. Visitada por um Anjo pariu um Deus.

Ela é a polaridade da criação; fonte primária de nossos melhores sentimentos e emoções; criatividade, sensibilidade, carinho, calor e colo. Com ela nascemos sempre e voltamos sempre para a nossa casa. Amor, caridade e maternidade nasceram a partir dela, como  berço de virtudes. 

Ela garante a continuidade da vida e dos detalhes que nos permitem existir. Educar para o melhor é como lavar louça todo dia: é preciso deixar tudo arrumado no melhor modo possível. Mesmo que nem sempre compreendida e às vezes ultrajada, não percebida, subjugada, plastificada, esquecida e dispensada... ela retorna nas consciências como o último brilho. Eterniza-se em nossas fraquezas e dá tempero à saudade.

Ela está inscrita no livro de nossa alma e de nossa memória. Primeiro abrigo e eterno porto. Quem não tem casa de mãe não sabe o que é isso e nem sabe o que é uma força imensa. Ela está ali no ralhar com o filho para que ele desperte. Ela está ali enchendo a casa de flores em meio a dores da dedicação e alguma incompreensão. Arranca teimosa alguma coisa de nosso silêncio feito birra e malcriação. Faz uma pausa em tantas coisas para trazer numa colher o xarope para nossas aflições. Estende a atenção como estende um varal de roupa sempre cuidadas.

Ela é segurança quando perdemos a nossa. Responsabilidade e amorabilidade. Entre rumores de panelas um rumor de anjo. Vigor e encanto. A linha e a agulha costurando nossos caminhos. Fruição e nutrição. Por tudo e por sempre merece ocasião celebrativa. 

Feliz Dia da Mulher!

Frei Vitório

quinta-feira, 6 de março de 2014

FESTA DE SANTO: UMA ESPIRITUALIDADE BRASILEIRA - III


Esta Religiosidade tem muita procissão, muita caminhada, muita dança, muita reunião, porque refaz a verdade de um povo peregrino, refaz uma geografia, um pedaço de chão, respira com a cabeça nas nuvens, mas com os pés colados nos apelos que vem do chão. Tem muita vela acesa, porque vela que brilha na mão tem que queimar por dentro. Aparece no chão, com beleza nunca vista. Na Religiosidade há muita reflexão que se pode pegar com as mãos. O brilho das velas e das luzes tem muito a ver com isto. Qualquer pessoa que perde o dom de refletir pode correr um risco de degeneração interior, pode ter um apagão das luzes de dentro. Acender velas é acordar a fé e não deixá-la apagar! A religiosidade popular brasileira é como uma vela: entra para o serviço do invisível, iluminando! Nela, o povo acende velas porque  não caminha sem Luz!  Fé é não ficar a vida toda trabalhando num quarto escuro.

Tem santos e santas como gente nossa, porque as pessoas que aparecem em nossos sonhos de fé tem que parecer com a gente.

Na RPB é preciso sentir-se povo, mas Povo de Fé; estar no meio deste povo e prestar muita atenção em todos os detalhes. Povo simples não tem linguagem técnica para exprimir pensamento, tem símbolos. Respira-se uma ideia bonita que vem do povo. Entra nos símbolos, veste dos símbolos, como se gritasse assim: “Dá licença, que eu não quero ser apenas rebanho!”

Na religiosidade popular brasileira, quando o povo se reúne, a fé é muito real e as consequências desta fé começam a aflorar. O povo vai inteiro e mergulha de cabeça, mesmo querendo a cura de um pedaço seu que está doente, sabe que é impossível salvar apenas um pedaço da pessoa (não existe muita coisa aí...), o povo sabe que precisa salvar-se por inteiro.

Na religiosidade popular brasileira, o povo gosta de cantar muito. A Igreja, a Fé, o Povo, são muito mais bonitos quando cantam juntos e trocam gestos. A música tem muita perenidade; o povo não esquece. A fala atrasa um pouco o Mistério, mas a música tira o povo do chão.



Não podemos confundir religiosidade popular brasileira com Movimentos. Aliás, os Movimentos não acolhem muito bem a Religiosidade Popular. Movimentos surgem com suas técnicas de transformar pessoas em tempo rápido. A Religiosidade Popular atravessa séculos e as pessoas se renovam devagar, cada vez, e com muita força. Movimentos são implantados com a força das mentes carismáticas, mas a religiosidade popular É O CARISMA DO POVO!

A modernidade fala com certo desprezo e falta de conhecimento da Religiosidade Popular, desta Religião do Povo; talvez porque este modo de viver a religião não use gravatas, não fale português castiço, não tenha muito dinheiro para construir espaços. Ou porque a modernidade técnica tenha esquecido a beleza dos gestos e símbolos, porque não precise buscar mais nada, tudo já vem pronto, e quando se cansa ou se tem a validade vencida, troca-se por algo novo. O gesto perde a utilidade imediata, sufocada em tanta tecnologia, e fica somente um hábito vicioso de repetição.  Na religiosidade popular brasileira todos os gestos são gestos de buscas, feitos com ânsia nos olhos, e por isso são válidos para sempre. Tudo é um pedaço árduo de uma bela e inesgotável procura. Quem estudar a religiosidade popular descobrirá a utilidade que fez um gesto nascer!

A religiosidade popular cria o hábito, instala, grita por dentro e usa  o Mistério com uma necessidade clara. Há uma história densa na consciência e na inconsciência do povo. Ele não anula esta história, porque anular esta história é como se cortasse a carne viva. O povo precisa tocar a fé porque é a mesma coisa que tocar fundo nos sentidos de sua vida, sentidos estes que estão incorporados e andam lá por dentro.

A religiosidade popular brasileira repete gestos dos princípios, valores e virtudes levando-os tempo afora. É o velho querer humano, inventando saídas e jeitos de falar, gritar e dançar.

Continua

Imagens:  Procissão do Fogaréu é uma tradicional procissão católica realizada anualmente na cidade de Goiás, na quarta-feira santa.