quinta-feira, 27 de fevereiro de 2014

FESTA DE SANTO: UMA ESPIRITUALIDADE BRASILEIRA - II

1. REFLEXÃO ESPIRITUAL SOBRE A ESPIRITUALIDADE PRESENTE NA BRASILIDADE – ALGUMAS IDEIAS FORÇA

A religiosidade brasileira tem como primeiro passo ajudar o povo a dizer a PALAVRA DE DEUS com o jeito da sua Palavra. A palavra do povo foi sequestrada por um tipo de evangelização que nem sempre respeitou o que o povo tem a dizer. E aprendeu a sussurrar no ouvido de  alguns aquilo que é para todos.

Uma Religiosidade Popular Brasileira ( RPB ) é a fome e a sede do imaginado; uma saudade forte do rosto primitivo, a vontade de fazer valer a criatividade de um povo.  Criatividade vem de criar. Criar é mais que amamentar. É tudo que alguém recebe depois de chegar ao mundo. Criar é gerar outra vez!  A RPB não é conservadora. A própria palavra conservadora já diz tudo. O conservador não precisa criar nada, basta conservar. Ele não precisa descobrir caminho novo. Há nos livros e rubricas, argumentos de sobra para quem quer ficar onde está. E a fé é dinâmica, e isto a RPB nos ensina: dar um salto, dar um passo, fazer chão!

A Igreja foi uma Menina criada com mel silvestre, com palavras proféticas ditas a partir da poeira das estradas. Era do campo, das praias, das aldeias, cresceu nas pregações feitas das barcas e embaixo de árvores, só depois virou instituição. A Igreja foi levada da estrada para uma casa igual a casa do rei e virou grandes basílicas e catedrais. Nas mãos de um sonhador sempre procura voltar ao seu chão. E a religiosidade é uma ajuda para fazer este caminho inverso.

A RPB sempre foi um passo corajoso na volta às origens, uma volta às fontes mais simples da fé.  Um trazer para perto e para dentro. Olha mais a emoção para dilatar as medidas do humano e do amor. Ninguém se sente seguro com remédio dado de longe, mas de perto.

A RPB conta uma história rezando, assim como nos ensinou o povo do Antigo Testamento. Todo mundo tem duas histórias: a que se vê e a que anda escondida.

A RPB é valorização do tempo e da data: é mais uma vez Natal, é mais uma vez Epifania, é mais uma vez Semana Santa, e mais uma vez Corpus Christi... e concretizar este tempo unindo Fé e Culto dentro de uma Cultura.

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terça-feira, 25 de fevereiro de 2014

FESTA DE SANTO: UMA ESPIRITUALIDADE BRASILEIRA - I


INTRODUÇÃO

Uma Introdução com jeito de DEFINIÇÃO

O estudo da Religiosidade Popular ganha evidência a partir de 1968, quando a Igreja da América Latina, na Conferência dos Bispos em Medellín, volta o seu olhar para a piedade popular, para o catolicismo popular, para a fé popular, um jeito de viver a fé na periferia do mundo. É a experiência religiosa de comunidades. Nesta experiência, o povo age com grande espontaneidade, autonomia, linguagem simples, grande sabedoria, linguagem corporal e simbólica, forte tradição oral, fórmulas bem decoradas ou improvisadas, muito sentimento e emoção, pouco clerical, não afastada, porém não muito atrelada à religião oficial.

É um fenômeno que não nasce por decreto de ninguém. Há muita dominação na faixa do sagrado, e as pessoas acham isto normal. É o encontro da fraqueza particular, ou de uma acomodação pessoal, com a face da fortaleza institucionalizada. A Religiosidade Popular quer ser forte junto com um povo forte.

Na religiosidade popular há um respeito muito grande para com os Santuários (o zelo, o tirar o chapéu, “ Deus vos salve Casa Santa”). É uma espiritualidade ligada à vida; pouco livro, improvisação jeitosa (enfeites de papel, adaptação de benditos, histórias ligadas ao santo festejado). Fé em Deus, em Nosso Senhor Jesus Cristo, nos Santos e Santas, é uma religiosidade católica que tem  um comportamento natural diante de imprevistos; senso comunitário, muitas procissões, muita cantoria, valorização da festa, remédios, rezas e simpatias, bênçãos, e uma fé inquebrantável na certeza que as doenças serão curadas.

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terça-feira, 18 de fevereiro de 2014

Francisco de Assis, terapeuta da humanidade - final


Ele é porto e salvamento. Patrimônio do laicato e o maior cristão do ocidente. Uma pessoa aberta até ao contrário. Não via o infiel, nem o muçulmano que estava ali, mas sim um irmão.

Ele nos revela que Deus é onipotente não porque fez os céus e a terra, mas porque quis ser pequenino como nós, pode aguentar toda a tribulação humana e ser companheiro de nossa humanidade.

Ele é o homem da cortesia, isto é, cuidar do outro, fazer vibrar sempre na sintonia do outro.

Ele é o Pobre que diz que pobreza é dar-se, repartir, colocar em comum. Quando mais você divide, mais livre você é. Quanto mais você se entrega à vida, mais rico você se torna. Ele compreendeu que pobreza é estar disponível, ter contato de coração a coração, olho a olho, mente a mente com os outros. Ser livre é ser pobre e desapegado para ser para o outro.

Ele sempre está inteiro no que faz. Sempre sensível, compassivo e misericordioso.

Viver a vida com o coração é a sua identidade a abraçar a identidade de todas as coisas. Sentir o coração das coisas. Francisco sentia o íntimo de todas as coisas. Isso tem um sentido bíblico e um sentido oriental. As coisas têm coração, porque têm identidade. Sentir o diferente de mim, afinar-se e entrar em sintonia. Isto é a fraternidade universal. É tornar-se pedra, árvore, oceano e estrela. Não é a estrela estar lá e você aqui. É você virar estrela, tornar-se sol, transformar-se em lua. É ter esta união mística, uma fusão mística com a realidade.

Francisco de Assis é o homem Seráfico, isto é, o menor, o pequeno, o aberto ao ser angelical que transfigurou a sua vida. Reconstruiu o encontro entre Deus e a Humanidade na dimensão angelical: entrar onde a humanidade está, entrar no mundo e em todos os seres. Fez o encontro entre o alto e o baixo. Ele sacramentalizou as relações do humano ao universo.

segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014

Francisco de Assis, terapeuta da humanidade - III

Francisco de Assis retoma a inocência primordial, o “homo matinalis”, o ser matinal da primeira manhã da criação. O humano ecológico, o irmão universal que se confraterniza com tudo, que religa todas as coisas, religa as mais distantes às mais próximas. Francisco casa os céus com os abismos, as estrelas com as formigas e faz uma síntese, das mais fascinantes e das mais generosas da humanidade, a partir de dentro. Une a ecologia interior com a ecologia exterior.

Ele é arquétipo da humanidade reconciliada. Através dele nós temos a esperança de nos reconstruir, de nos reconciliar com todas as coisas e antecipar a utopia do Reino de Deus dentro de nós que rompe para fora como utopia e como realização histórica. Por isso, Francisco de Assis é alguém que fala à subjetividade profunda dos seres humanos de todos aqueles que estão buscando. Por isso, ele é sempre atual.

Viveu há 800 anos e é mais jovem do que nós. Misturou o seu eu profundo com a natureza. Busca uma identificação total com o próprio Deus. E fez isso com tanta leveza, tanta ternura e tanto cuidado que nós nos sentimos envolvidos em uma aura de benevolência e de benquerença.

Assim, Francisco entrou no mundo dos Terapeutas, isto é, das pessoas que observam o vivente, o ser humano no melhor de si mesmo. Um homem que ficou cego no final de sua vida, mas sua alma foi capaz de enxergar longe.

Ele continua penetrando no mais profundo do inconsciente cultural, ocidental, global e humano. Ele entra na dimensão do símbolo. Quando uma pessoa vira símbolo, ela se eterniza.


Ele é uma fonte inspiradora, uma figura seminal. Como uma semente nos coloca em crise, nos dá evocações, inspirações e intuições e funciona como uma luz. Ele não está diante de nós ocultando a realidade. Ele está dentro de nossas cabeças, atrás de nós, iluminando a nossa realidade.

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sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014

Francisco de Assis, terapeuta da humanidade - II


Vejamos alguns pontos para fundamentar a postura de Francisco de Assis como Terapeuta:

Quando estamos perdidos, procuramos um caminho. Francisco nos convida a um caminho de transformação e de reconstrução. Entrar num caminho de transformação não é estar à procura do fantástico e do extraordinário, mas é aprender a fazer de maneira certa grandes coisas pequenas.

Se hoje estudamos, de modo científico, a vida dos santos e sábios, é porque eles têm algo a nos ensinar sobre o verdadeiro ser humano.

Nós estudamos demais o ser humano a partir de suas doenças, quando poderíamos conhecê-lo melhor a partir de seu estado de realização. Francisco de Assis é um Santo realizado, de bem com a vida, reconciliado até com a própria morte. “Cantando cantigas de amor, ele morreu”.

Francisco de Assis é o Santo convertido: mudança de vida, mudança de consciência e mudança de lugar.

Ele mostra para nós que a divindade queima em nossa humanidade, não destrói a nossa humanidade, mas a ilumina por dentro.

Ele fez-se um pobre, assumiu o mundo dos leprosos, compartilhou com eles sua vida, fez-se um leproso. Bem diferente daqueles que criam uma obra para servir leprosos e não entram nela, ficam de fora.

Francisco de Assis não é mais apenas dos franciscanos, nem mais apenas da Igreja, nem é mais do Ocidente. Ele é um arquétipo da humanidade e como arquétipo, ele sempre renasce, sempre vive, sempre ganha novas figurações. Transformou-se no arquétipo do humano cordial que abraça todos os seres e com eles se identifica.

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quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014

Francisco de Assis, terapeuta da humanidade


Quando falamos de Francisco de Assis como Terapeuta da Humanidade, temos que perguntar: O que é um Terapeuta?

O TERAPEUTA É AQUELE QUE PROCURA LEVAR ALGUÉM A UM ESTADO CRÔNICO DO SADIO. ELE MELHORA, QUALIFICA, CURA E RECONSTRÓI  A PESSOA E, COM ISSO, RECONSTRÓI O SOCIAL E O COLETIVO.

Francisco de Assis faz o caminho de sua vida orientando os desejos de seu coração. Não fez o que seu pai, a sociedade, a Igreja de então queriam que ele fizesse.  Escuta o Evangelho e traça um caminho para a sua vida. Ele tinha uma pretensão fantástica que nunca se perdeu nestes 800 anos: refazer a Igreja a partir do Evangelho. Tomava o Evangelho ao pé da letra e o vivia assim como estava escrito. Na história do cristianismo, nunca alguém tomou o Evangelho tão a sério e sempre com leveza.

Mostra para nós que Saúde não é ausência de sintomas, mas é fazer o que o coração e o corpo pedem. Fez a partir do patamar de valores do Evangelho. A Boa Nova é o Sadio da existência.

Francisco de Assis, já no século XIII, revela o paradigma moderno de que a essência do humano está no cuidado. Uma das crises maiores da civilização hoje é a falta de cuidado. Se começamos a cuidar tudo começa a dar certo. A luta de todos os Carismas das Famílias Religiosas que se inspiraram em Francisco de Assis é o cuidado. Todo terapeuta é um cuidador por excelência.

Como Terapeuta da Humanidade, o que Francisco tem a nos dizer? Que a estrutura básica do humano não é a razão, mas o afeto. Ele é o Santo que une afetividade e espiritualidade, e mostra que saúde e santidade não se separam. A Espiritualidade que ele revela para nós é que precisamos de uma Nova Sensibilidade entre valores não materiais. Uma nova ética no pensar, amar e fazer surgir um novo ser humano.

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