sexta-feira, 30 de agosto de 2013

A ESPIRITUALIDADE PRESENTE NO CUIDADO DA SAÚDE - 1



(A ENFERMAGEM E OS MÚLTIPLOS SENTIDOS DA VIDA)


INTRODUÇÃO

Estamos num evento gerado por um espaço educacional (FASE) que está preocupado com o desenvolvimento total do humano. Educar é trazer para a luz um novo parto. O parto mais dolorido e iluminado é dar a luz a si mesmo. Educação é Iluminação. É a doação do EU ao SER DIVINO, isto é a restituição para o lugar de onde o Humano provém: a sua Fonte Sagrada.

Uma das características da pós-modernidade é o retorno ao Sagrado. Estamos vivendo o grande momento da mística e da espiritualidade. Espiritualidade é sentir o ritmo do próprio sopro como inspiração, expiração e inspiração. Respirar a vida segundo o Espírito. Respirar é deixar a energia passar sem nenhum bloqueio, é a fluência natural da sua Inteireza. Educar com Espírito é viver da Luz e mudar de mentalidade e de lugar; sobretudo do lugar da acomodação.

A Espiritualidade não é uma doutrina, é um Caminho. É o caminho do discernimento, que é a reta compreensão, o reto falar, a reta aspiração (ter sonhos e projetos), o reto agir.

Vamos usar aqui o uso benéfico da linguagem Simbólica numa simbiose do material, físico, espiritual, psicológico. Enfim um mundo alegórico para repassar um grande ensinamento.

A arte de educar é a transformação do humano. A arte de educar é enveredar por um caminho de sinais que são setas indicativas para um rumo mais preciso.  Estamos no mundo da Saúde, e saúde não é contrário de doença. A palavra saúde vem do latim, “salus”, e significa: cuidar, sanar, sarar, encaminhar para o sadio da existência. A palavra salvação, tão querida pelas religiões, vem desta raiz. Toda vida sadia é um caminho inspirado pelo Amor, pelo Conhecimento e pelo Cuidado.

Nesta reflexão, para fixar em nossa memória pontos essenciais, vou usar um Mito Grego. Em tempos de crises sempre ressurgem os Mitos. O mito é sempre usado para comunicar uma Ordem em meio a uma possível desordem; ele usa a linguagem figurada para elucidar as forças da existência. O mito é uma profunda compreensão da realidade vazada numa linguagem fantasiosa para provocar o natural e o real.

Continua

quarta-feira, 28 de agosto de 2013

ALGUMAS CONSIDERAÇÕES SOBRE O AMOR

A universalidade do amor está no particular profundo do encontro entre duas almas, corpo, mente, alma e coração. A glória do amor passa do êxtase à dor, da calma ao desespero, da vida à morte, da chama à sombra. O jeito de amar dispara corações, enrubece faces, dá fogo aos olhos, ritmo nas palavras e delirantes conversas silenciosas.

O amor cria mil e-mails, pertinentes telefonemas, desperta a criança adormecida, cria exaustivas cobranças, adora defeitos e sublima virtudes. O amor condena e endeusa; gosta de deitar acordado para que o sonho venha antes de dormir. O amor brinca no céu e desce ao inferno. É uma química de energia, nó na garganta, aperto no peito, fôlego acelerado e escancarada porta dos desejos.

O amor é cantado por poetas, bardos e menestréis, seresteiros, romancistas, compositores e autores. Ele é drama e rito, cama e mito, sonhados passeios de mãos entrelaçadas. Tempestade interna e beleza simples de paisagem externa, píncaro e abismo, flor e espinho. Anima quando aparece e cresce quando se ausenta, é um comichão de saudade quando separa. Das Cantigas de Amor às Cantigas de Amigo, crime e castigo, louvor e prece, o amor e os amantes são bênçãos e marcas no chão da existência.

Adão e Eva jogaram a serpente no paraíso do amor. Orfeu e Eurídice mostraram que é preciso morrer com a amada. Tristão e Isolda conheceram a mais mortal tristeza. Heloísa e Abelardo estudaram nas noites e descobriram que o intelecto também desperta paixão intensa. Romeu e Julieta experimentam a tragédia de separar e unir famílias. Dante e Beatriz revelam o amor que é musa e inspiração, divina comédia humana. Léo e Bia, de Oswaldo Montenegro, dizem que qualquer maneira de amor varia, “como se faz com todo cuidado, a pipa que precisa voar; cuidar do amor exige mestria, e souberam amar”. Eduardo e Mônica, o amor em meio a toda Legião Urbana perguntam: “Quem um dia irá dizer que existe razão nas coisas feitas pelo coração? E quem irá dizer que não existe razão?”

E Francisco de Assis e Clara de Assis? Como dizer? Há o segredo e o silêncio das Fontes. Eles são a mais nítida evidência de que o Amor é Encarnado, é Pão e Cruz, prece e sintonia, mística e poesia, itinerário e sacrário, palavras e recolhimento... enfim mostraram que o Amor é Divino!
   
                                                                                                         Vitório Mazzuco OFM

terça-feira, 27 de agosto de 2013

EVOCAÇÕES EM TORNO DO FILME SOBRE HANNAH ARENDT


Um filme maravilhoso como este ajuda a pensar, resgata a filosofia como força de reencantamento do humano, no caso especifico aqui, Hannah Arendt, uma grande mulher. Um filme que nasce do pensamento e leva, cada vez mais, a paixão por um modo de ser. Ele fala de um julgamento de um nazista ( Adolf Eichmann) e este julgamento se estende a quem procurou entender o processo na medida exata da justiça. A vida nos conduz ao atropelo da interpretação ideológica que se dá. Hannah Arendt nos ensina a ser livres do atropelo ideológico; a nunca aprisionar-se na publicidade do  julgamento como verdade.

São as diversas modalidades de interpretação que me enviam à compreensão da vida. A filosofia existe para compreender todas as modalidades da vida; esse é o modo de viver que brinda a riqueza universal da existência. Facilmente nós passamos por cima das diferenças e vamos para o idêntico, que é sempre algo mais cômodo. A beleza da vida é o nosso não saber da vida; assim, cada dia, ela é uma descoberta e não uma cópia. Hannah Arendt nos ensina que o discurso que se faz tem que ser a interpretação correta da vida. Unir pensamento, emoções, interpretações, discussões nas diferenças, para uma leitura da vida de um modo lógico. A interpretação que você faz da vida é a sua filosofia de vida. O “sófon” é o retraído que se esquiva do sistema e traça questionamentos que mexam com as estruturas da existência.

Pensar é ser como uma criança... isto é, não ouvir o sistema. Temos que ficar na estranheza da existência. Todo gesto, todo olhar, todo toque, é estar na afeição de todas as perguntas que estão em nós. Todo gesto, todo olhar, todo toque são uma resposta. Afeiçoar-se a pergunta é deixar-se sofrer pela pergunta (em geral confundimos isto com medo, mas não é medo, é o balançar do ser sofrido do questionamento). Estamos na vida e ela nos conduz a isto; o questionamento é a segurança da vida. A resposta é o perfume da pergunta. O espetáculo da vida está na estranheza da vida (até no surpreendente de um Amor assim...). O pensamento é a resposta que nos leva a estranhar as perguntas da vida.

Bom é ver um filme cuidando do coração que palpita dentro e ao lado. Nós podemos ver um filme e ver apenas a exposição e captamos apenas a representação e não o coração do filme. Ao ver um filme cuidando do coração percebemos melhor a interioridade da vida. Vemos o essencial em cada cena, em cada gesto, em cada palavra. O essencial é aquilo que experimenta e aceita o limite do possível.

Cada momento do pensamento é a minha possibilidade, isto é, a possibilidade de descobrir quem eu sou. Para descobrir quem eu sou preciso de modelos como Hannah Arendt. Ela é uma heroína do pensar correto e coerente. O herói não é herói por causa da representação que faz da vida, mas porque na representação evocou a pátria e a identidade da pátria judaica. Para herói não há indecisão. Há firmeza e certezas. A indecisão é o espírito ainda não suficientemente amadurecido para dialogar com a vida.

Vi no filme uma heroína decidida e simples. O pensamento nos conduz a nossa identidade que é a nossa maior humildade.  A consciência tranquila de Hannah fez dela uma mulher despojada, apenas voltada para o essencial. A essência do humano se dá na sua consciência...

O filme me ensinou também que é preciso estar nos acontecimentos humanos com mais profundidade e não apenas como um mero espectador. Mesmo que isto leve a um mundo de incompreensões. A consciência da verdade é o nosso tormento. O lobo (o nazismo e seu fruto chamado Adolf Eichmann) devorou as ovelhas (os judeus massacrados no campo de concentração). Todos julgaram a partir da fragilidade da ovelha. Hannah Arendt, sem estar do lado do lobo, procurou entender a bravura irracional do lobo, que apenas para cumprir ordens criou a banalidade do mal.

O ser de Hannah Arendt reacendeu em mim o ser cativante que ama e pensa.  O amor de Hannah e Heidegger revela que pensar com maior radicalidade as experiências é apaixonar-se. Mediante o pensamento é possível colocar-se também na correspondência perfeita do amor e do mútuo encantamento. O pensamento é a grandeza do humano; deixar de pensar é colocar a humanidade em risco.  Somos inumanos quando não deixamos ser a verdade das coisas e dos seres.

O caminho de Hannah e Heidegger, o caminho do campo, é a paisagem do ser. O caminho faz surgir, a cada instante, um acontecer inusitado... e isto é alcançado pelo pensamento e pelo Amor. Hannah não copiou o mestre. Copiar o mestre não é unidade; mas empenhar-se totalmente em refazer o caminho do mestre é unidade. O que levou Hannah a romper o estar-junto ao mestre? Ela esteve sempre presente de um modo fisicamente ausente. Isto só é possível na máxima fidelidade. Neste momento, a discípula tornou-se tão boa ou melhor que o mestre. É nesta hora que a discípula faz a sua Obra-Prima.

Hannah revela um certo sofrimento que vai se diluindo como a frequente fumaça de seu cigarro. É melhor sofrer muito estando apaixonada do que sofrer sem causa.  Viver é sempre diligência sofrida de busca e procura daquilo que não se tem para melhor ser o que se tem: a Vida! A experiência bem saboreada da situação é a reflexão. A experiência bem pensada e vivida no coração é o Amor. Este é o nosso grande encontro com a vida: a acolhida da doação de fazer todas as nossas experiência no bem pensar e no Bem Amar!

(Vitório Mazzuco, provocado e encantado com o filme )

segunda-feira, 26 de agosto de 2013

Francisco de Assis, modelo referencial do humano – Conclusão

Assim discorremos alguns aspectos da filosofia de vida desta Testemunha do século XII e tão atual, IL Poverello, um simples apaixonado pela sua identidade. Alguém que nos ensinou que mais que um lugar, o céu é Alguém e precisa estar em nosso aqui e agora. Um louco apaixonado pela sua época e por isso é uma eterna permanência, que não fez concorrência, mas realizou  convivência. Que rezou 30 e duas vezes o “Tu” em suas preces que nos deixou por escrito, mas não fez pedidos para o “eu”, porque escutou mais o Tudo e o Todos, e disse que orar assim supera qualquer atividade. Ele foi o santo da Majestade Divina e dos pobres. Fez de cada lugar, das grutas, da Porciúncula, dos bosques, do Alverne e das estradas, a casa típica de sua Ordem, a exteriorização do ideal interno de cada Irmão e Irmã que o seguiu. A sua vida é simples; não é complicada, é límpida e livre; tem a originalidade própria do Amor que ele sempre buscou.
Foi um sonhador e por isso mesmo um grande realizador. Por acreditar em seus sonhos foi à frente e continua a puxar para frente a história da humanidade. Inspirou o nome do novo Papa, para ser mais uma vez, aquele que coloca ruínas em pé, com o paciente e artesanal trabalho de reconstruir. Não é um santo do passado, é do futuro, do amanhã e do hoje das nossas mais belas esperanças. Com ele, aprendemos a acordar de manhã e não desfazermos dos sonhos. Ele convoca a um novo jeito de viver a Boa Nova que é exatamente a fazer nova a humanidade. Nisto está a sua profecia, cortesia e delicadeza espiritual. Ele é uma ação humana ética! Um complexo de amor ao Pai. Não brigou com o errado, mas viveu o certo.
Aprendeu com o Senhor que nós mesmos temos que ser o Bem, o Bem Absoluto, o Sumo Bem, mergulhar no Bem. Ele é um fervor da Vida, uma Comunhão Universal, uma Fraternidade. Simples e essencial. Menor, vazio de apegos, completamente despojado, sem negatividades, sem pessimismos, sem dramaticidade. Nasce a cada instante. Concretizou, de um ou outro modo, o seu projeto inicial: ser um Cavaleiro Medieval,  ou melhor, adequou um código de comportamento para um novo ideal humano caracterizado pela nobreza de alma, honradez, coragem, fidelidade, jovialidade, prodigalidade e uma forte espiritualidade. Que São Francisco de Assis resgate em nós o melhor de nós! Paz e Bem!

NOTA
Todas as citações das Fontes Franciscanas e Clarianas que estão nas notas deste artigo com a consequente explicação das Siglas Abreviadas estão em: Fontes Franciscanas e Clarianas, Vozes- FFB, Petrópolis, 2004.

Imagem de Vittore Crivelli

quarta-feira, 21 de agosto de 2013

Francisco de Assis, modelo referencial do humano – XXI

Francisco de Assis nos ensina que viver é despojar-se de qualquer sofisticação e beber mais do puro aberto do natural. Ir mais aos detalhes da vida e ver seus muitos gestos de doação e acreditar numa novidade originária. Ele é o homem que voltou ao Paraíso.  Que ele nos dê novamente esta imensa saudade do Paraíso do qual nós mesmos nos expulsamos. Ele é a Poesia da Vida e a Poesia do Humano. E o humano que anda leve no movimento sem pressa do caminho, percebendo ritmo e o verso do próprio passo. Franciscanismo e Poesia não se separam porque estiveram sempre juntos na percepção da sua identidade, mergulhados no Natural. E por falar em Poesia, vamos encerrar este ponto com o grande Drumond, poeta de Itabira, de Minas, do Rio e do Mundo:

“Francisco operário madrugador na construção de igrejas,
(não de edifícios de renda, longe disso).
Tantas coisas pra lhe contar, daqui de baixo!
Mas você não cansou, em sete séculos e meio,
de ouvir a eterna queixa, o monocórdio estribilho
de nossa falta de humildade cortesia ternura nudez?

Veja por exemplo os bichos (só a eles me refiro
porque não falam por si). Arvoro-me em secretário
do mico-estrela, da tartaruga, da baleia,
de todos, todos. Dos mais espetaculares aos mínimos,
tão míseros.
De irmãos você os chamava. Repare: aterrorizados.
fogem de nós, com muita razão e longos medos.
E um e outro, isolados, gostamos.
Coisa nossa, brinquedo. É gosto sem gostar,
feito de posse-domínio.
Veja as infinitas coleções
de animais que padecem em todos os chãos e águas da Terra
e não podem dizer que padecem, e por isso padecem duas vezes,
sem o suporte da santidade.

Pior, Francisco: o padecimento deles
é de responsabilidade nossa, humana? Desumana.
Nós os torturamos e matamos
por hábito de torturar e de matar
e de tornar a fazê-lo, esporte,
com halalis, campeonatos, medalhas, manchetes,
pólvora cheirando festa,
ouro pingando sangue...

Repiso estas coisas meio encabulado.
Tão velhas!
Tão novas sempre, secamente.
Técnicas letais varejam o fundo do mar
E o velho tiro, a velha lâmina
estão sempre caçando o irmão bicho.

Lembrar que terrível penúria de amor
lavra nos corações convertidos em box
de supermercados de crueldades?
E penúria logo de amor,
essa matéria prima, essa veste inconsútil de sua vida, Francisco?

Culpo-me, santinho nosso,
mas antes faço-lhe um apelo:
Providencie urgente sua volta ao mundo
no mesmo lugar, em lugar qualquer
(não, é óbvio, onde se comercia a santa esperança dos homens),
para ver se dá jeito,
jeito simples, franciscano, jeito descalço
de consertar tudo isso. Os bichos,
por este secretario, lhe agradecem.

(Carlos Drumond de Andrade, in Jornal do Brasil, 01.10.1976 )

continua

sexta-feira, 16 de agosto de 2013

Francisco de Assis, modelo referencial do humano – XX


Francisco de Assis pisou a terra e confraternizou-se com o solo. Olhou e cantou a vida por isso o horizonte da sua janela era mais amplo e fazia desaparecer problemas. Quem olha com profundidade apaixona-se pelo que vê; quem não olha com profundidade apenas usa; talvez este seja o olhar industrial que vai demolindo os sistemas vivos que dão suporte à vida. Nunca se falou tanto em meio ambiente, em consciência ecológica e planetária como hoje. Quantos seminários e palestras, livros e tentativas de soluções técnicas. Procura-se o remédio e a marca do remédio, mas ninguém quer entrar na causa da doença. A verdadeira causa é mais profunda, é uma questão de cosmovisão. Sobrevoamos paisagens belíssimas, mas fechamos as janelas do voo. A maioria das pessoas não enxerga o mundo. Que São Francisco de Assis nos proteja e nos ajude a não entulhar estradas e calçadas com detritos, que a mansão não jogue lixo no terreno baldio, que os esgotos não escorram nos mananciais, que o mundo não termine na cerca de nossos limites, que a Amazônia não seja conhecida pelo exótico, que os ecossistemas e biomas nos salvem, que as nossas escolas formem para existir prestando atenção na torneira que escorre, que as universidades, cada vez mais técnicas não formem profissionais de visão estreita, mais Biologia e menos fobias, que a gente ame e não brigue com a Criação ou, então, cantemos com São Francisco o seu famoso Cântico das Criaturas:
“Louvado sejas, meu Senhor, com todas as tuas criaturas, especialmente o senhor irmão sol,o qual é dia, e por ele nos iluminas. E ele é belo e radiante com grande esplendor, de ti, Altíssimo, traz o significado.
Louvado sejas, meu Senhor, pela irmã lua e pelas estrelas no céu as formaste claras e preciosas e belas. Louvado sejas, meu Senhor, pelo irmão vento, e pelo ar e pelas nuvens e pelo sereno e por todo tempo, pelo qual às tuas criaturas dás sustento.
Louvado sejas, meu Senhor, pela irmã água que é muito útil e humilde e preciosa e casta. Louvado sejas, meu Senhor, pelo irmão fogo pelo qual iluminas a noite e ele é belo e agradável e robusto e forte.
Louvado sejas, meu Senhor, pela irmã nossa, a mãe terra que  nos sustenta e governa e produz diversos frutos com coloridas flores e ervas.”
Continua 

quarta-feira, 14 de agosto de 2013

Francisco de Assis, modelo referencial do humano – XIX


Abraça todas as coisas com o afeto de inaudita devoção, falando com elas sobre o Senhor e exortando-as a louvá-lo. Poupa os candeeiros, lâmpadas e velas, não querendo com sua mão extinguir o fulgor que era sinal da luz eterna. Anda com reverência sobre a pedra em consideração daquele que é chamado de Pedra. Quando precisa recitar aquele versículo: Vós me exaltastes sobre a pedra, para expressá-lo mais reverentemente, diz: “Vós me exaltastes aos pés da Pedra”.

Proíbe aos irmãos que cortam lenha cortar pelo pé toda árvore, para que tenha esperança de brotar de novo. Manda que o hortelão deixe sem cavar a faixa de terra ao redor da horta, para que, a seu tempo, o verdor das ervas e a beleza das flores apregoem que é belo o Pai de todas as coisas. Manda traçar um canteiro na horta para as ervas aromáticas e que produzem flores, para que elas evoquem os que as contemplam à recordação da suavidade eterna.

Recolhe do caminho os vermezinhos, para que não sejam pisados, e manda que sejam servidos mel e ótimos vinhos às abelhas, para que elas não morram por falta de alimento no rigoroso frio do inverno. Chama com o nome de irmão todos os animais, conquanto entre todas as espécies de animais prefira os mansos. Quem seria capaz de narrar tudo? Na verdade, toda aquela bondade fontal, que há de ser tudo em todos, já se manifestava a este santo como tudo em todos”.
 
Quem escreveu o Gênesis, certamente, andou primeiro pela natureza. Francisco não tem uma relação romântica com as coisas, como podemos pensar, mas sim uma relação de consanguinidade. Ele não conquistou o mundo das criaturas pelo intelecto, mas sim pelo Amor que tinha no coração. Era um artista da vida, e o artista é aquele que pinta a estrutura num quadro de paisagem, e põe na tela a sua profundidade. Francisco é o artista e sábio que deu sabor às estruturas. A veste que vestiu seu corpo não deu apenas a beleza da veste, mas a beleza do corpo, mente, alma e coração. Francisco revestiu-se da vida. Suas palavras eram em função da verdade das coisas; ele sabia usar a informação para ser um aprendiz das verdades de todas as coisas que estavam ali no cotidiano, aos pés do familiar, bem próximo. A pátria do humano é o que está mais percebido e valorizado. Ao pensar as coisas, as imagens, os símbolos, Francisco conquistou as coisas não para o uso, mas para o louvor.

A pós-modernidade vive no esquecimento das coisas mais familiares e tem medo das ruas e estradas. O medo esconde o olhar e prende os passos. Francisco nos liberta e destrava para que possamos voltar a uma devoção às coisas da terra. Ele é o gênio do gosto, do belo e do bom; ele é o padroeiro da comunidade dos que amam a Beleza e quer que toda a ação humana seja um esplendor. Quem vê a beleza em tudo o que existe está sendo sempre vendo o celestial. Quem vê o limpo e transparente, vê bem a profundidade. A civilização pós-moderna não permite mais a beleza dos pés descalços. Francisco marcava o chão com seus pés ou com uma surrada sandália; nós deixamos as marcas das grifes de nossos caríssimos tênis. O humano de hoje já não sente mais o chão, então, como dizer que aqui passou alguém? Se tivermos medo da espessura do caminho, não iremos muito longe.

Continua

segunda-feira, 12 de agosto de 2013

Francisco de Assis, modelo referencial do humano – XVIII

Francisco de Assis deixou-se conduzir por Deus, mas sempre mergulhado na terra, irmão de toda criatura. Não quis ser dono ou senhor de nada e de ninguém, quis apenas ser o irmão da água, do fogo, do sol, da lua, dos pássaros, das florestas e das plantas, captando assim que a vida é parte de um todo. Colocou-se na esteira admirável do engrandecimento e respeito por todo ser criado, nada destruindo, nada ferindo, nada prejudicando, quase que pedindo licença para pisar a terra, desculpando-se com seus irmãos e irmãs criaturas por não servi-los bastante. Vejamos o que nos dizem as Fontes Franciscanas:

“Quanta alegria julgas que a beleza das flores lhe trazia à mente, quando ele via a delicadeza da forma e sentia o suave perfume delas? Voltava logo o olhar da consideração para a beleza daquela flor que, brotando luminosa no tempo da primavera da raiz de Jessé, ao seu perfume ressuscitou milhares de mortos. E quando encontrava grande quantidade de flores, de tal modo lhes pregava e as convidava ao louvor do Senhor, como se elas fossem dotadas de razão. Assim também, com sinceríssima pureza, admoestava ao amor divino e exortava a generoso louvor os trigais e vinhas, pedras e bosques e todas as coisas belas dos campos, as nascentes das fontes e todo verde dos jardins, a terra e o fogo, o ar e o vento. Enfim, chamava todas as criaturas com o nome de irmão e, de maneira eminente e não experimentada por outros, percebia com agudeza as coisas ocultas do coração das criaturas, como quem já tivesse alcançado a liberdade gloriosa dos filhos de Deus”.

“Tendo pressa de sair deste mundo como de um exílio de peregrinação, este feliz itinerante era auxiliado pelas coisas que estão no mundo, e realmente não pouco. Usava o mundo como campo de batalha, mas também o usava, com relação a Deus, como espelho limpidíssimo de sua bondade. Em qualquer obra de arte, ele exalta o Artífice e atribui ao Criador tudo o que descobre nas coisas criadas. Exulta em todas as obras das mãos do Senhor e intui, através dos espetáculos do encantamento, a razão e causa que tudo vivifica. Reconhece nas coisas belas aquele que é o mais Belo; todas as coisas boas lhe clamam: “Quem nos fez é o Melhor”. Por meio dos vestígios impressos nas coisas ele segue o Amado por toda parte e de todas as coisas faz para si uma escada para se chegar ao trono.

continua

sexta-feira, 9 de agosto de 2013

Francisco de Assis, modelo referencial do humano – XVII

FRANCISCO E A QUESTÃO AMBIENTAL

Francisco é aquele, que ao receber a convocação para reconstruir a casa, de um modo imediato põe-se em ação. A Idade Média nos legou este seu modelo vivo e grandioso, um humano enamorado pela vida e pelo Deus da vida. E os dias de hoje o que tem para nos oferecer? Certamente, existem muitas pessoas envolvidas com o cuidado da nossa casa, o belo planeta terra; por outro lado, se hoje vivemos a assim chamada crise ecológica é porque existe muita gente que não sabe estar em casa. Há uma crise de relação entre o humano e a natureza, e isso afeta valores e identidade. Aqui, também, entra a provocação de Francisco. Ele está lá onde floresce a verdade, a formação de um humano total, onde viceja a fraternidade, amor, ternura, comunhão com tudo e com todos.

Ecologia é o discurso sobre a casa, seu cuidado e preservação. Nunca se falou tanto em defender, promover, valorizar e estar ao lado da vida. Se existe esta fala e as ações em função das questões ambientais, é porque há evidências e consequências de que a nossa Irmã e Mãe Terra, como chamava Francisco, está agredida, usada, ameaçada, explorada de um modo desenfreado e desumano. A questão ambiental é o grande tema do momento e gera grandes congressos, fóruns, cúpulas, debates e preocupações. Ocupa as razões da ética e a argumentação holística, traz a reflexão mais aguçada para a totalidade humana. Teria sentido uma ecologia que esqueça a antropologia? O paradigmático Salmo 8 proclama: “Senhor, nosso soberano, como é grandioso teu nome em toda terra! Quando contemplo o céu, obra de teus dedos, a lua e as estrelas que fixaste, o que é o homem, para que te lembres dele, o ser humano, para que com ele te ocupes?”

Francisco de Assis pregou e viveu a fraternidade como uma relação e não deixou a parte o relacionamento de todo ser vivente. Viver a fraternidade universal é dar condições de vida a tudo o que vive, é sentir-se irmanado com animais, minerais, vegetais, macrocosmo e microorganismos. Relacionar-se para cuidar e transformar para o melhor, equilibrar o potencial da vida. “São Francisco de Assis, uma tão elevada personalidade, mostrou ao mundo o que significa exercer uma subjetividade integrada e solidária com os seres e suas fragilidades, sem restringir o acolhimento a quem quer que seja, celebrando a profunda vibração da vida que está no recôndito da existência. Acima das ideias e ideologias, medos e apegos, estava ali a receptividade, simplicidade e equilíbrio dinâmico do humano no mundo”.

Continua

quarta-feira, 7 de agosto de 2013

Francisco de Assis, modelo referencial do humano – XVI



Como Francisco aparece nesta verdade? Ele tem bilhete de entrada em todas as culturas e em todas as religiões porque é alguém reconciliado com a vida, com as pessoas, com o verme da estrada, e apaixonado a ponto de transformar o seu Deus na Senhora Dama Pobreza e casar com este projeto. Ele é um santo que viveu tão intensamente o seu tempo que atravessou épocas. Reconstrói a casa da existência calejando as mãos erguendo as ruínas de São Damião. Deu um sentido fraterno e coletivo à existência. Integra todos os significados e símbolos. Há algo de sadio em suas sandálias, hábito, cordão, Tau, cruz, Porciúncula, estigmas e aquele jeito de dizer as criaturas. Porque aprendeu que orar nos bosques pode ir melhor ao Papa. Pregou aos pássaros e praças cheias de gente. Conheceu as dores morais e materiais dos desfavorecidos. Sua escolha religiosa tinha uma missão: melhorar a humanidade a partir do protótipo do humano divinizado, Jesus Cristo! A partir daí foi ao mundo do ocidente e do oriente pregando a paz e o bem. Não foi às Cruzadas para dialogar com espada e lança. Foi para procurar pacificar com o escudo da fé. Quem vive bem Santa Maria dos Anjos pode ser bem recebido na tenda do sultão. É um itinerante com coração de monge, um fundador de uma Ordem com o hábito de camponês, um cantor do Irmão Sol e das glórias do Altíssimo. Um dia saiu de Assis e foi a Damieta, no Egito; passou pelas fileiras dos Cruzados em campo de batalha e foi conversar com Melek-el-Kamil:

“E o sultão, vendo no homem de Deus o admirável fervor de espírito e a virtude, ouvi-o com prazer e convidava-o com insistência a morar com ele”. 
“Não somente os féis de Cristo, mas também os sarracenos (...), admirando-lhes a humildade e perfeição, quando por causa da pregação se aproximam deles intrepidamente, recebem-nos com boa vontade, providenciando as coisas necessárias com ânimo grato. Vimos que o primeiro fundador e mestre desta Ordem - a quem  todos os outros obedecem como a seu prior gera -, homem simples e iletrado, amado por Deus e pelos homens, chamado Frei Francisco, foi levado a tal excesso de ebriedade e fervor de espírito que, quando chegou ao exército dos cristãos diante de Damieta, na terra do Egito, dirigiu-se intrépido e munido com o escudo da fé ao acampamento do sultão do Egito. Como o tivessem detido no caminho, disse: “Sou cristão, conduzi-me ao vosso senhor”. (...) Os sarracenos ouvem de bom grado os mencionados frades menores todo o tempo que pregam a fé em Cristo e a doutrina evangélica, enquanto não contradizem manifestadamente com sua pregação a Maomé”. 

Continua