quarta-feira, 24 de julho de 2013

Francisco de Assis, modelo referencial do humano - XV


FRANCISCO E O DIÁLOGO INTER-RELIGIOSO

Religiões fazem mais um movimento ecumênico do que um diálogo religioso. Ecumenismo é estar entre os da mesma casa, por exemplo, a aproximação entre as igrejas cristãs; experiência inter-religiosa é dialogar com os desafios do pluralismo cultural e religioso presente em outras fronteiras. Mesmo que nos atinja em nossa acomodação da nossa profissão de fé, o paradigma do diálogo inter-religioso hoje é este: há mais verdades no conjunto das religiões do que no dogma isolado de cada uma delas. Francisco e o franciscanismo sempre foram referências desta verdade pela vivência da fraternidade. Como crer sem relacionar-se com o diferente? Em tempos de globalização, a fé também encontra um horizonte amplo de experiências. Por caminhos diferentes, todos chegamos à mesma busca de Deus. Nem sempre é possível dialogar com o dogma e a doutrina, mas é sempre possível fazer unidade na espiritualidade.

O diálogo inter-religioso não coloca em risco nenhuma identidade religiosa; a identidade cristã não corre risco se tiver que ir ao encontro do diferente de si mesma. É preciso amar apaixonadamente a sua religião, mas respeitar por demais a religião do outro. Como entender a singularidade da fé do diferente se eu não faço uma aproximação? No catolicismo temos a intercessão dos santos e das santas. É possível uma intercessão sem comunhão? Como acreditar se não conheço nada da vida do padroeiro? Tem muita gente que faz promessas a Santo Expedito, mas não sabe quem ele é. Francisco é um santo amado porque é conhecido e deixa-se conhecer. Não podemos estabelecer uma postura crítica sem um verdadeiro conhecimento. Ou será que para nós, manipulados pelos  bombardeios midiáticos e ideológicos, pelos conchavos dos senhores das armas, acreditamos que os muçulmanos  são sinônimo de terroristas? O diálogo inter-religioso repara injustiças que estão incrustradas em nossa tacanha mentalidade, que tem um horizonte muito redutivo e reza olhando para o próprio umbigo.

Crer é ter uma nova sensibilidade. Deus é maior que qualquer religião. Fé não é fechamento, mas abertura para o que a vida tem de esperança, de futuro, de utopias, de encontros e certezas.  Jesus pregou o Reino que está além das muralhas das fortes tradições. Ele não mandou o jovem rico morar na perfeita comunidade de Qunram, mas pediu que ele amasse os pobres e dividisse os seus bens, que ele aprendesse que é preciso eternizar-se defendendo a integridade da vida e do ser humano.

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sexta-feira, 19 de julho de 2013

Francisco de Assis, modelo referencial do humano -XIV


Em Maria, a sua Mãe Divina, ele vive o encantamento de saber que ela é a primeira casa que hospedou o Senhor. Ele professa a fé em Maria como a primeira seguidora de Jesus Cristo, aquela que traz para sempre o Senhor para a história, a Esposa do Espírito Santo, a Virgem feita igreja, ela sozinha é a igreja em perfeição. O que ele escreve de melhor para a Mãe de Deus é esta Saudação: “Ave, Senhora Rainha santa, santa Maria mãe de Deus, virgem feita igreja e que do céu foste escolhida pelo santíssimo Pai, a quem ele consagrou com seu santíssimo e dileto Filho e com o Espírito Santo Paráclito, e em quem esteve e está toda a plenitude da graça e todo o bem! Ave, palácio do Senhor! Ave, tabernáculo do Senhor! Ave, casa do Senhor! Ave, vestimenta do Senhor! Ave, serva do Senhor! Ave, mãe do Senhor, e vós santas virtudes todas, que pela graça e iluminação do Espírito Santo sois infundidas nos corações dos fiéis para os tornardes de infiéis em fiéis a Deus!”.

Em Clara de Assis, a mãe cuidadosa do Mosteiro de São Damião, ele aprende que não basta seguir o Senhor, tem que se apaixonar por ele; seguimento é enamoramento. Clara recolhe-se contemplativa em seu mistério de esposa do Rei. No silêncio de São Damião, Clara escolhe o Único Amor para ser livre no Espírito. Assim como Maria, Clara se esconde na Eucaristia do Filho e vai ser a guardiã da Inspiração, vivendo para sempre aos pés do Crucifixo de São Damião. Uma escolha radical e total para viver a virgindade de Maria. No recolhido do claustro, o Verbo Encarnado é gerado cada dia e sua Palavra ressoa nas preces de quem guarda o Segredo. É um esconder-se para encontrar-se. Abandonar a sabedoria do mundo para se transformar na nova sabedoria do Evangelho. A identidade comum de Clara e Francisco é não perder jamais o sentido originário do Espirito. Não perder de vista o ponto de partida (20).

 Amar a vida até o fim, até a sua mais profunda raiz para reencontrá-la em sua Fonte. Clara jamais saiu de perto do Crucifixo e foi, exatamente ali, que Francisco não queria que se apagasse uma lâmpada. Francisco encontrou em Clara o seu coração esponsal e a certeza de sua escolha. Em corações abertos para o Absoluto, o Pai sempre deposita a semente do Sim! Em Clara, a mulher pode encontrar a razão sagrada de sua feminilidade; em Clara, Francisco encontrou a razão de sua alma de mãe e pai de uma imensa família espiritual.

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terça-feira, 16 de julho de 2013

Francisco de Assis, modelo referencial do humano - XIII

Estátua dos pais de Francisco onde residiram em Assis   
FRANCISCO E O FEMININO

Francisco de Assis, há oito séculos, usava a seu modo, uma linguagem de gênero. É o seu jeito de lembrar, como um bom medieval,  que tudo o que acontece é a vida também nos exercitando. Usa palavras para instaurar consciência e prática. Gostava de dizer Irmã Lua, Irmãs Estrelas, Irmã Água, Irmã Clara, Irmã e Mãe Terra. De onde vem esta sua fala  ritual e natural?

 Da presença em sua vida de três grandes mulheres: sua mãe Jehanne de Bourlemont, Dona Picà; a Virgem Maria, a Mãe Divina e Clara de Assis. Estas três mulheres ensinaram para ele que receber amor exige muita humildade, muito acolhimento, muita confiança. É ir do simples para o grande, do pobre ao coletivo.

 A pobreza de Francisco tem muito a ver com a grandeza do amor que recebeu, porque ser pobre é deixar uma obra maior de amor aparecer. Estas três mulheres são a sua fonte de amor, o feminino que o molda e o leva a escolher um Único Amor para ser livre.

Em sua mãe biológica, Jehanne de Bourlemont, a Dona Picà, Francisco é educado na ternura e com muito carinho. Ser amado e educado assim gera pessoas normais. Quem é Dona Picà? Como já citamos, o nome original da mãe de Francisco, no francês provençal é Jehanne, Giovanna em italiano e Joana em português. Ela nasceu na região da Picardie, norte da França. Os Bourlemont trazem o sobrenome forte das famílias típicas deste lugar, com seu passado nobre e vigoroso.

A grande heroína e santa francesa, Jeanne d’Arc, tem raízes na Picardie e, provavelmente, é descendente dos Bourlemont. Ainda criança, Jehanne muda-se com a família para a região da Provence e vai se estabelecer em Tarascon. Numa típica capela medieval de Tarascon, do século IX, dedicada a São Vitor, que a mãe de Francisco foi batizada. Ali viveu, casou-se, ficou viúva e conheceu Pedro Bernardone, o pai de Francisco, que a leva para Assis.  Em Assis, esta nobre e fina mulher não passa despercebida. É querida pelos assisienses, que na dificuldade de pronunciar o seu nome francês, carinhosamente o abreviam chamando-a como Dona Picà. Ela ensinou a Francisco o francês com dialeto provençal, cantou com ele as Cantiga de Amor, as Cantigas de Amigo e Canções de Gesta da nobre Cavalaria Medieval. Percebeu os dons naturais e as virtudes conquistadas de Francisco. Deu a ele a fé e trabalhou suas qualidades.

Toda virtude natural bem trabalhada leva à perfeição. Como o pai, devido ao seu ofício de mercador, vivia muito ausente de casa, Dona Picà está sempre mais próxima ao filho e passa para ele o “esprit de finesse”, a alegria, a positividade do querer. A maturidade afetiva dada pela mãe influenciou a sua liberdade interior. Diz Tomás de Celano: “E aconteceu que, como seu pai por causa familiar urgente se tivesse ausentado por algum tempo de casa e como o homem de Deus permanecesse algemado na prisão da casa, sua mãe, que ficara sozinha com ele em casa, não aprovando o ato de seu marido, consola o filho com palavras ternas. E ao ver que não podia chamá-lo de volta de seu propósito, suas entranhas maternas se comoveram para com ele e, tendo quebrado as cadeias, permitiu que ele partisse livre”.

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sexta-feira, 12 de julho de 2013

Francisco de Assis, modelo referencial do humano - XII


Hoje vivemos a grande crise da alteridade por causa da perda do sentido dos outros. Há a fragmentação da família, a desatenção a idosos, enfermos e crianças, a intolerância, impaciência, nacionalismos e regionalismos que vêm à tona, preconceitos, exclusão, segmentação de linhagens, indiferença para com os indígenas, xenofobia e outras atitudes de indiferença, agressão e morte.

Para Francisco, nada do que era humano era estranho; ele recuperou a pertença ao grupo humano e ao convívio com todos os seres. Para ele, mais importante do que viver é conviver.

É preciso intuir com ele que a fraternidade é o grande princípio para novamente estabelecer uma nova humanidade. Com o seu grupo primitivo, que na intensa vivência fraterna são modelos de alteridade, aprendemos a não viver no grupo da mediocridade e da banalidade, mas sim dos que têm o vigor do espírito para encontrar o sentido de estar juntos.

Vejamos o que diz uma Legenda Franciscana: “Quando voltavam a se ver, enchiam-se de tão grande prazer e de alegria espiritual que não se recordavam de nada da adversidade e, mormente, da pobreza que padeciam (...) Amavam-se uns aos outros com profundo amor, serviam-se e nutriam-se mutuamente, como uma mãe serve e nutre seu filho. Tanto ardia neles o fogo da caridade que lhes parecia fácil entregar seus corpos, não somente pelo nome de Nosso Senhor Jesus Cristo, mas também um pelo outro, de boa vontade (...). Estavam arraigados e fundados no amor e na humildade, e um reverenciava o outro como se fosse seu senhor. Quem entre eles sobressaía pelo ofício ou por qualidade parecia mais humilde e desprezível do que os outros. Igualmente, todos se dispunham totalmente a obedecer: quando se abria a boca de quem ordenava, imediatamente estavam preparados seus pés para andar e as mãos para trabalhar. Qualquer coisa que lhes era ordenada julgavam que lhes era ordenada segundo a vontade do Senhor; e, por isso, era-lhes suave e fácil executar tudo”.

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segunda-feira, 1 de julho de 2013

Francisco de Assis, modelo referencial do humano - XI

FRANCISCO E A ALTERIDADE

Francisco, ao viver de um modo intenso a fraternidade, antecipa paradigma da alteridade. O que é alteridade? É levar demais em conta a grandeza e a dignidade da pessoa, criar relacionamentos fecundos de amizade, de convívio, de coexistência. A experiência alteritária clama: você é a soma de muitos; não é a aniquilação do “ego”, mas uma grande ampliação e complementação. A Legenda Franciscana, chamada o Espelho da Perfeição, em seu conhecido e atraente capítulo 85, narra que, quando perguntaram a Francisco o que seria um verdadeiro frade menor, ele responde que, “transformados os frades pelo ardor do amor e pelo fervor do zelo que tinha pela perfeição deles (...) pensava muitas vezes dentro de si sobre as qualidades e virtudes que deviam ornar um bom frade menor. E dizia que seria bom frade menor aquele que tivesse a vida e as qualidades destes santos frades (...)”

E a Legenda continua elencando, de um modo belíssimo, que deviam reunir a fé de Frei Bernardo; a simplicidade e a pureza de Frei Leão; a cortesia de Frei Ângelo, que foi o primeiro cavaleiro a entrar na Ordem e que era ornado de gentileza e benignidade; o aspecto gracioso, o senso natural e a conversa agradável e devota de Frei Masseo; a mente elevada em contemplação de Frei Egídio; a virtuosa e constante oração de Frei Rufino; a paciência de Frei Junípero; o vigor corporal e espiritual de Frei João das Laudes, que ultrapassava a todos com a força física; a caridade de Frei Rogério e a solicitude de Frei Lúcio.

Alteridade e o encontro perceptível e sensível com as qualidades do outro, é fazer existir e acontecer o “tu” muito mais do que o “eu”. É olhar a outra pessoa de um modo que ela seja, exista, aconteça em sua diferença e singularidade. É desapegar-se de qualquer superioridade e status. A minoridade é a grande virtude franciscana da alteridade, pois é a renúncia do poder de quem tem, de quem sabe e de quem pode, para viver a reciprocidade nas relações. É um encontro de afeto e um transformar a convivência numa causa, num projeto, num ideal, numa obra que respire valores e buscas comuns. É olhar o outro como um espelho, como relata a Legenda acima citada. Especular é olhar alguém a partir do reflexo de algo maior. Permitir que o outro se revele em sua identidade. Retomar as mais belas amizades que são a concretização da mais pura alteridade.

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