segunda-feira, 27 de maio de 2013

Francisco de Assis, modelo referencial do humano - III

Renunciou às coisas que a casa de Bernardone oferecia, porque estava na utilidade serviçal das coisas e não no domínio sobre elas. Para nós, o céu é um lugar; para Francisco é Alguém. Seu pai queria que ele fosse o administrador de seus bens, do patrimônio e moedas. Francisco espalhou o dinheiro do pai nas tabernas e boêmia, nas esmolas e cortesia. Francisco não tinha medo do dinheiro, mas sim do abuso e da escravidão que ele pode criar. Seu jeito convida as pessoas de seu século a um rigoroso exame de consciência: que o dinheiro que contagiou a passagem do feudalismo às novas “comunes”, que sempre é importante para as necessidades passageiras, não bloqueie os desejos perenes de felicidade. Ele ensinou a dividir prodigamente; pois quando a humanidade não divide, experimenta estas crises cíclicas de ter muito e não ter nada. Francisco preferiu viver a serenidade do apenas necessário que nunca termina. Francisco não amontoou dinheiro para não amontoar poder.

Francisco não é um cortesão de ricos e nem adulador de pobres. Não considera a situação através do prisma de uma classe social, de um partido político, ou de uma ideologia; ele pensa, vive, age e julga, vai para junto, a partir do modelo do Evangelho que o inspira. O anúncio levado aos simples, pobres e pequenos faz dele a Boa Nova entre os desafortunados de se tempo. Abraçar, beijar e curar feridas de leprosos era deixar-se beijar por uma Inspiração, que se tornou práxis. Ele não é um revolucionário preso a uma barulhenta militância, mas instaura a verdadeira revolução dos autenticamente convertidos: de uma súbita mudança pessoal para uma concreta transformação do comum. Hoje, há organizações, governamentais ou não, que querem a obra, mas não o doente; querem a creche, mas não a criança. Francisco abraçou prioritariamente o humano desesperançoso e descuidado.

Ele não deixou o mundo, mas mudou completamente o seu modo de estar no mundo. É um santo de legenda, não somente uma legenda humana medieval, mas uma legenda divina encarnada a nos ensinar que é preciso submeter o corpo da existência que eu sou às exigências do Espírito. Foi à comunidade humana e disse: “Pace bene, buona gente! Eu estou muito bem entre vocês!” Foi o seu primeiro gesto de generosa atenção e mostrou que o estar no meio de todos de um modo disponível já é um sinal da sua pobreza.

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segunda-feira, 20 de maio de 2013

Francisco de Assis, modelo referencial do humano - II


FRANCISCO E O ARQUÉTIPO DA SÍNTESE
 
Francisco de Assis nasce em 1182, na atraente cidade de Assis, na região da Úmbria, Itália. É filho de Pedro Bernardone, rico comerciante, mercador, homem determinado, que sonhava para o filho as glórias da Cavalaria Medieval e o salto para o status da alta nobreza. De seu pai, Francisco herdou o nome, em homenagem à França, que era o centro cultural e econômico do século XII, e também o espírito de liderança, ambição e rigor consigo mesmo. Da mãe, Joana de Bourlemont, uma dama francesa da região da Picardie, norte da França, conhecida em Assis com o cognome de Dona Picà (a madame que veio da Picardie), Francisco recebeu esmerada educação, a nobreza de costumes, os rudimentos da fé e da língua francesa. Pelos anos 1201 a 1205, ele vai dando um salto em sua vida. Inicia um lento e gradual processo de conversão, não apenas a mudança de mentalidade, mas a radical mudança de lugar. Ele é um convertido e nisto se enquadra a sua forte personalidade, a sua conversão não é um ardor momentâneo, mas sua perene identidade de busca. Sai do espaço da casa e dos projetos de seu pai para ser um humano despojado que não queria ter nada de específico a não ser dispor-se a viver algo de grandioso, algo que fizesse dele um homem realizado. O pai, dono de uma loja de tecidos e uma tinturaria em Assis, queria que ele conhecesse o sucesso do mercado. Francisco não quer o sucesso, quer a realização. O sucesso é efêmero, a realização é para sempre.

Num determinado momento de sua vida, tira as suas roupas em praça pública e, sozinho, nu, livre e feliz com sua decisão empreende um caminho de ir à dimensão originária do verdadeiro humano: buscar o espírito do Senhor e o seu santo modo de operar; fazer valer os desejos, ter uma vida orientada por uma forte busca, dizendo para si mesmo e para quem quisesse ouvir: “É isto que eu quero, é isto que eu procuro, é isto que eu desejo de todo coração!” Despojou-se das vestes e vestiu-se da simplicidade, faz a medieval investidura: colocar na vida a adequação que a torna mais leve. Não mais a armadura de guerreiro que sonhava seu pai, mas a coragem e fortaleza, a fidelidade e lealdade, a obediência dos cavaleiros. Toma por vestimenta a túnica dos camponeses, dos mendigos e penitentes, tornando-se assim um mendicante de sentidos. Na cidade foi amado e incompreendido, abraçado e apedrejado, este limiar entre os que o consideram um santo ou um louco. Francisco é um louco apaixonado pela sua identidade: ser arauto do Grande Rei, fazer o Amor ser amado e ir onde ninguém queria estar.

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sexta-feira, 17 de maio de 2013

Francisco de Assis, modelo referencial do humano - I






















Na efervescência da crise da modernidade ou pós-modernidade em que vivemos, na mudança de época e de paradigmas, estonteados como a pluralidade cultural e religiosa, na dependência das novas mídias, na fragmentação das relações, na aceleração dos processos, nas múltiplas necessidades instauradas pelo mercado, livres no pensamento, mas presos num consumo escravizante, aqui estamos nós no novo patamar civilizatório. Na esperança de que a política volte a ser o arranjo existencial para o bem comum e não tráfico de influências; de que escolas moldem um humano forte e não subjetividades fracas; de que as religiões desçam da sedução hierárquica das fortes estruturas e voltem a revelar a mais pura mística e o inspirador sopro do Espírito, aqui estamos nós gritando que precisamos ser olhados com prioridade em nosso ser pessoa, em nossa mais nítida identidade.

Na diversidade de pensamentos, no conhecimento interdisciplinar, no pensar a existência de um modo holocentrado, de ações articuladas na rapidez da comunicação, da globalização que traz o mundo para os quintais e conviver com os problemas que antes estavam distantes, e que, hoje, acotovelam-se na calçada de nossa casa; deste jeito cansado de dormir anônimo e acordar célebre sonhando o bem-estar que vem  do econômico, do social, do político e cultural, ou talvez da mega-sena que pagará nossas dívidas com os megaprocessos, aqui estamos nós  sobreviventes do novo século.

Não, não somos trágicos e nem cultores do pessimismo, mas amamos os desafios de bons sonhos e excelente realidade. Questionamos para crescer e sabemos que perguntas existenciais esquentam a busca. Temos um cabedal de perguntas técnicas que, cada dia, vivem em nós e mostram como isto funciona; porém, precisamos de perguntas comprometidas com o modo de ser humano para, se não tivermos respostas, que ao menos apontem caminhos de todos os porquês. Sabemos como fazer, nem sempre como Ser. Na busca de sendas precisas, com o mapa orientador na mão e na mente, queremos sair da imensidão da floresta e encontrar clareiras que apontem: é por aqui! Nas luminosas clareiras, onde paramos para tomar fôlego, como réstias indicadoras de luz, aparecem a mística, a alteridade, o feminino, o diálogo Inter-religioso e a questão ambiental, a grande síntese dos paradigmas do século XXI.  Seguir as indicações destes sentidos nos ensinará a ler, analisar, pensar, perceber e se comprometer com o que se passa ao nosso redor e no mundo. É um conjunto de setas que nos apontam a direção neste momento histórico atual. Não podemos caminhar sozinhos, precisamos olhar os modelos vivos, os modelos referenciais de ontem e de hoje; e, por isso, vamos sentar aos pés das testemunhas da humanidade, do século XII ao século XX, e escutá-las. Testemunhas são parâmetros para elevar o nível da nossa existência e convocar ao seguimento e imitação. Quem tem modelos de referência, tem futuro. Nosso tempo tem professores demais e poucos mestres. Professores trazem conhecimento e ensinamento, os mestres trazem a compreensão da vida.

Vamos ouvir, ver e reler as testemunhas de ontem, humanos plenos e, por isso, sempre atuais, para que possamos reencantar a vida, redescobrir valores, acertar o ritmo de nossos passos no caminho seguro, e assim purificar as nossas escolhas. Voltemos aos mestres! Os novos gurus cobram, os mestres estão na gratuidade da partilha. Hoje, nós, que pagamos para ouvir e escutar, vamos ouvir mais a terapêutica transparência das testemunhas. São nossos exemplos os arquétipos, o resgate dos valores neste  nosso atual processo civilizatório. Nós, que gritamos e lutamos pelo que estamos perdendo: espaços e espécies, da falência dos biomas à falência do caráter, que salvamos orquídeas, capivaras e ararinha azul, mico-leão dourado e prédios decadentes, devemos perguntar: e o verdadeiro humano? Será que não é uma espécie em extinção?

Em meio a isso tudo, renasce sempre a figura frágil e forte, santa e simpática, medieval e moderna, despojada e atraente, heroica e holística, poética e mística, aglutinadora e provocadora, a sempre presente e profética vida de São Francisco de Assis. É sobre ele que discorre esta despretensiosa reflexão.

Continua.

quarta-feira, 15 de maio de 2013

Algumas ideias sobre a Teologia Franciscana - Final


Deus est id quod nihil maius cogitari potest!” Cremos que tu é um Ser do qual não é possível pensar nada maior! Um ser é, certamente maior, se pensado na inteligência da realidade do que existente apenas na inteligência. Pensar Deus é pensá-Lo existente na realidade. Não é possível pensar que Deus não existe, nós O pensamos porque Ele existe. Existir na realidade é mais do que existir no pensamento. Quem pensa Deus só pode pensá-lo existente e dizer isto a partir da fé e do coração que crê.

A Filosofia e a Teologia Medieval são meios para assimilar os conteúdos da religião e progredira na fé.

Filósofos judeus também inspiram o pensamento teológico medieval. Ben Joseph (882-942), Ibn Gabriel (1058) e Moisés Maimônides ( 1135-1204) dizem que não é possível a revelação exata de uma verdade religiosa, por isso os profetas usam uma linguagem metafórica que nos ajuda a pensar. É preciso perceber o movimento da existência que revela a força de algo ou de Alguém. Tudo o que se move é movido por outro. É o “panta rei” de Hieráclito... tudo está na fluência de algo maior.

Se não existisse um Ser Necessário não existiria nada. De Deus nasce a realidade de mundo e o mundo tem evidências para encontrar razões necessárias para a existência de Deus. Nosso ser é dado por Deus. Ele não quis reter nada para si, a sua perfeição está em doar-se.

Voltaremos, oportunamente, com este tema! 

segunda-feira, 13 de maio de 2013

Algumas ideias sobre a Teologia Franciscana - XV


Existência e Essência são a mesma coisa em todo ser criado. Como sabemos que uma coisa existe? Através do Ver = o imediato visível. A intuição. A maneira imediata de constatar a existência de tudo aquilo que é. O Tocar: tocar o objeto é um modo de ver. O Ouvir: escutar a fala de todas as coisas. Isto tudo traz a percepção pela mediação. É um caminho de fé subjetiva muito maior que as crenças. Crença é o que os outros ouviram e relataram, fé sou eu mesmo que verifico. Ver, pensar, crer e provar não se separam. É deixar vir as interrogações: Vocês duvidam que existe? Alguém já viu a alma? Existe em nós algo que não é corpo, que não é matéria? O Espírito pode ser uma realidade permanente pensado em nossa identidade e consciência? Como lembramos de fatos passados?  Como o nosso hoje é um ontem de lembranças? Porque alguma coisa guardou para nós ou se guardou em nós. A grande questão medieval: como podemos estar certos da existência de Deus?

Teologia e Filosofia medieval sentam-se aos pés uma da outra e escutam-se mutuamente. Tanto a serva filosofia como a serva teologia querem mostrar que Deus é um Ser e uma Essência existencializada. Que Ser?

O Ser Possível = a Essência não inclui uma existência visível. O Ser Necessário = a Essência inclui uma existência. Deus é um Ser que passa da não existência para a existência. Deus existe por ser o que é! Ele existe pelo fato de ser Deus. Ele é “prius natura” = anterior por natureza. Ele não existia e passa a existir.

Deus é um Ser absolutamente Necessário. É forçoso que exista algo absolutamente necessário. Enquanto a Obra, a Criação, o Mundo existir, Deus existe necessariamente. A criação (o mundo) é eterna e necessária. A criação só pode provir de Deus que gera este processo necessário. O mundo é causado por Deus!
A Teologia Medieval, que vai gerar uma Teologia  Franciscana, inaugura o confronto  Fé e Razão. É a Teologia Medieval que traz o conceito da “fides quaerens intellectum”, isto é, a fé que procura compreender; ou o “credo ut intelligam”, creio para compreender. Deus, primeiro você procura e depois você compreende.

Não pode haver um mais ou menos se não houver o Máximo!

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sexta-feira, 3 de maio de 2013

Algumas ideias sobre a Teologia Franciscana - XIV



A força que move os corpos, a vida, a natura é Deus. O humano tem que abraçar estas leis e colocá-las a seu serviço. Leis gerais são as condições necessárias dentro das quais se movem as criaturas do universo. Não há senão Deus como a única força para mover os corpos. Qualquer movimento que o corpo faça, ele o faz pela causa divina.

Pode-se dizer que o Sol, com sua potência de energia, é uma causa geral de uma infinidade de bens, mas não tem nenhuma força por si mesmo. A sua única força é Deus. O Cântico das Criaturas de São Francisco de Assis só pode ser lido e compreendido dentro desta perspectiva. E o humano medieval se coloca diante de uma condição: viver é estar na fidelidade, na lealdade, na obediência de uma causa divina.

Natura e creatio é dizer: creiamos em Deus criando por uma criação contínua. A visão de Deus é esta: “Que nous voyons toutes choses em Dieu”. A ontologia medieval é um aprofundamento do “a priori”. A sua cosmologia é afirmar  que a essência de Deus se revela nas coisas criadas.

Conhecer é estar em união com Deus (unio mística) e por esta união conhecer e amar todas as coisas criadas. O Ser é o humano em comunhão com o divino. A Cosmologia é a grande reverência à criação. A Teodiceia nasce aqui como a força natural que mostra o divino e o pensamento focado nos atributos de Deus.

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quinta-feira, 2 de maio de 2013

Algumas ideias sobre a Teologia Franciscana - XIII



Catedral de Évora
ALGUMAS ANOTAÇÕES EM TORNO DE CARACTERÍSTICAS DA TEOLOGIA MEDIEVAL E SEU PANO DE FUNDO PARA A COMPREENSÃO DE UMA TEOLOGIA FRANCISCANA

O Medieval, em sua produção teológica, usa o espaço da Universidade, da Catolicidade, e sua efetuação universal da estética teológica é a construção de Catedrais. A Fé como caminho de busca do Sagrado, e a Intuição como leitura de uma Inspiração (para o medieval a intuição não é ciência) e a Teologia como compreensão da  existência.

Fazendo um paralelo, o Moderno usa a Universalidade, a Cristandade, e a sua efetuação universal é construir empresas. A Intuição passa a ser a força de uma espiritualidade e transformou a intuição em ciência; a Causalidade (relação que une causa e efeito), e Ciência como compreensão e funcionalidade da existência.

Tanto para o Medieval como para o Moderno, a Teologia é vista como o “experimentum” da fé, mas não é a fé. Nos dois, a Teologia é a tensão entre o ser doutrina e o ser caminho.

O ser medieval, no que se refere à construção de uma identidade teológica, parte da “natura creata” (a contingência e a dependência do ser criatura), do “creatio” (o mundo, a criação, a cosmovisão) e da “fides” (acreditar na existência de Deus). E seu confronto entre doutrina e o Ser que se faz caminho, está na grandiosidade do momento que produz e sofre forte influência das Sumas Teológicas, dos Silogismos, do Voto de Suzerania, do Código da Cavalaria, das Cruzadas e Peregrinações.

O pensar teológico traz a experiência da “filiatio”, a consanguinidade criaturas. A natura é o espaço da salvação, contém por si só todas as promessas da Terra Prometida. A Antiguidade inspira-se na “aletheia”, o Medieval na “natura”, um forte caminho de lembranças. Deus é o “a priori” de todas estas lembranças e experiências.

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