quinta-feira, 25 de abril de 2013

Algumas ideias sobre a Teologia Franciscana - XII



PONTOS DETERMINANTES:

1. A experiência que está na base de qualquer sistema. O pensamento dos mestres franciscanos articulou-se a partir de uma experiência prévia, pessoal e comunitária. A teoria é resultado de uma práxis condicionante.

2. A experiência instalada em uma situação. Contexto histórico social. O fundacional, o originário, o tempo, as circunstâncias da Idade Média.

3. O suporte vital do pensamento franciscano não são as ideias do pensamento grego, mas as verdades reveladas do cristianismo. É uma filosofia na fé.

4. O  horizonte é importante para a compreensão de um texto, de um sistema, da realidade. Colocar-se e compreender a partir dele. O horizonte do franciscanismo consiste em ter vivo o sentido da presença gratuita de Deus e de todo ser criado que é interpretado como linguagem divina. Este sentido de presencialidade gratuita em Francisco e nos pensadores de sua Família lhes dá um modo peculiar de ver, de sentir, de participar, de celebrar a própria vida e de elaborar um sistema filosófico com grande atenção e respeito às diversas realidades que resistem a ser interpretadas a partir dos grandes princípios.

5. Tudo isto dá um  empenho  especial: a vida como um modo de ser espiritual, psicológico e existencial que se traduz num estilo concreto e específico de viver, pensar e de construir um universo mental articulado em sistema filosófico. O humano pode conhecer o mundo, a natureza e todos os seres que há nela, mas tudo isso serviria muito pouco, se ele não descobrir na natureza o vestigium Dei, isto é, as pegadas de Deus, e em si mesmo a imago Dei e o ser capax Dei in homine, se ele não percebe a ação divina no mundo e a capacidade de infinito no ser humano.

6. Um campo inteligível : o modo próprio e original de focalizar os grandes temas de Deus, do humano e do mundo. Um sentido prático de estudo. A reflexão pensada a partir do cotidiano, a partir da própria vida em toda a sua problemática humana, social, ética e política. É um pensar inquieto que constantemente busca. Aberto ao que acontece na vida, todos os seres são interlocutores válidos aos quais se deve escutar. O intelectual franciscano tem mais vontade de escuta do que de suspeita. Não só buscar a razão das coisas, mas a verdade das coisas. Esta verdade só se encontra na humildade e na atitude de escuta e acolhida. No franciscanismo, os grandes problemas ontológicos, antropológicos, religiosos, éticos, epistemológicos e cosmológicos nunca estão definitivamente possuídos, mas convidam a novas “posses” e interpretações. O pensamento franciscano que brota da vida e da experiência inacabada, é sempre um ´pensamento inaugural que vai além da palavra falada e escrita para converter-se em palavra falante.

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segunda-feira, 22 de abril de 2013

Algumas ideias sobre a Teologia Franciscana - XI


- O pensamento filosófico-teológico dos mestres franciscanos possui plena coerência na elaboração e estruturação de um sistema cosmovisional, em sintonia com os princípios – chave do franciscanismo.

- O pensamento franciscano, por ser luminoso, é sumamente simples, imediato e coerente. Desenvolve-se em forma circular até chegar ao centro ôntico de sentido, em torno do qual se movem, gravitam e se explicam todas as esferas referenciais.

- A arqueologia viva do franciscanismo é Francisco de Assis e a experiência primitiva de fraternidade, que são como que o código genético que condiciona e quase determina o conteúdo e a expressão do pensamento elaborado posteriormente. É somente partindo desta arqueologia prévia e do código genético comunitário, que se gesta na experiência compartilhada do grupo, que poderemos compreender aquilo que se chama pensamento franciscano.

- O franciscanismo não é um sistema teológico-filosófico elaborado especulativamente a partir de princípios puramente racionais e abstratos, mas nasce, potencializa-se e amadurece a partir de uma experiência vivida e compartilhada; e só é compreensível e apreensível em contato com essa experiência pessoal e comunitária.

- Não se deve esquecer que o franciscanismo primordialmente é vivência, mas ao ser vivência partilhada se converte em convivência.

- Não é o pensamento pensado dos escritores franciscanos que forma e conforma o conteúdo ou o estilo do pensamento pensante franciscano e que orienta e configura sua forma e seu estilo de viver, mas é a dimensão existencial franciscana, a existência transformada em convivência que atua como energia espiritual e como pensamento do pensamento.

- Um pensamento que nasce e se descobre na sua identidade de propósitos e na sua fidelidade ao espírito do Evangelho em cada pensador, reconhecível comunitariamente. Se forja e se nutre na fraternidade.

- A presença é uma realidade fontal, originante e configurante.

- O franciscanismo tem um corpo doutrinal, mas, ao mesmo tempo é trabalho, é núcleo e é desdobramento, é vivência e é projeto.

- Tem a força de criar um universo simbólico, que brota da raiz comum do próprio grupo e sua interpretação específica do mundo vivido e pensado.

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sexta-feira, 12 de abril de 2013

Algumas ideias sobre a Teologia Franciscana - X



- Há uma Teologia Franciscana porque seus pensadores souberam e lograram articular uma reflexão sistemática do cristianismo a partir da sensibilidade e da vontade própria da família.

- São diversos os autores desta escola, neles se harmonizam a originalidade, as diferenças nas abordagens e as críticas construtivas.

- A Teologia Franciscana não é patrimônio exclusivo desta família, mas pertence ao patrimônio da Igreja e ao campo da cultura universal.

- “No suceder-se das gerações sempre cresce o conhecimento da verdade” (Duns Scotus ).

- É surpreendente que a partir de Francisco, com quem conviviam simples e letrados, se criara e se articulara uma autêntica escola de pensamento que é solidária com os temas tratados nas demais escolas de seu tempo, embora fosse singular e diferente o modo de fazê-lo.

- Paris, Oxford, Agnello de Pisa, Roberto Grosseteste, Adam de Marsch, Tomás de York, Roger Bacon, Duns Scotus, Guilherme de Ockham, Alexandre de Hales, João de la Rochelle, Odo Rigaldi, Guuilherme de Meliton, Boaventura de Bagnoreggio, um significativo grupo de filófosos e teólogos, que se sintonizavam numa cosmovisão comum e num modo peculiar de ver a existência  e de interpretar a vida e o que há e acontece nela.

- Um modo peculiar de ver, de interpretar e de avaliar a vida e os problemas existenciais.

- Deus, o Humano, o mundo e a história articulados numa metafísica e em uma epistemologia específicas.

- Máxima liberdade de pensamento, a capacidade de pensar em oposição para o devido crescimento, a crítica aberta entre os seus próprios membros.
- Sensibilidade intelectual.

- O que lhe dá originalidade é sua consistência vital e temperamental, sua intuição e sua sensibilidade que oferecem uma visão e interpretação de Deus, do Humano e do Mundo em sintonia com a Espiritualidade do Fundador desta Família.

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quinta-feira, 11 de abril de 2013

Algumas ideias sobre a Teologia Franciscana - IX

Imagem de Giustina de Toni

O estudo está em função da pregação. Os frades que não vão pregar não necessitam dedicar-se aos estudos. O estudo pelo estudo não faz sentido. Ser um bom frade é mais do que ser um estudioso:

“Admoesto e exorto que os irmãos se acautelem de toda soberba, vanglória, inveja, avareza, cuidado e solicitude deste mundo, detração e murmuração; e os que não sabem ler não se preocupem em aprender; mas atendam a que, acima de tudo, devem desejar possuir o Espírito do Senhor e o seu santo modo de operar, rezar sempre a ele com o coração puro e ter a humildade e paciência na perseguição e na enfermidade e amar aqueles que nos perseguem, repreendem e censuram(...) (RB 10).

IDÉIAS PRESENTES NO MANUAL DE TEOLOGIA FRANCISCANA:

- O patrimônio doutrinal e cultural de uma escola serve na medida em que continua alimentando o pensamento das diversas gerações e é capaz de oferecer uma cosmovisão válida para cada época.

- Um pensamento criador articulado, quando é original, tem a força de estimular a continuar criando, não só demonstra seu vigor, mas também sua capacidade de sugerir que se avance pelos rumos de um mesmo horizonte espiritual.

- Todo grande pensamento fecundo é explícito no que afirma e no que evoca.

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sexta-feira, 5 de abril de 2013

Algumas ideias sobre a Teologia Franciscana - VIII



No seu Testamento diz: “E a todos os teólogos e aos que ministram as santíssimas palavras divinas devemos honrar e venerar como a quem nos ministra espírito e vida” ( Test 13).

No primeiro grupo de Companheiros de Francisco, temos Bernardo de Quintavalle, que era “notaio”, isto é, escrivão; e Pedro  Cattani, jurista, formado em Direito na Universidade de Bolonha. Homens letrados e homens simples encontraram na Ordem o seu espaço para o aprendizado e o ensinamento; e muitos estudaram para o sacerdócio dentro da Ordem. Os frades sacerdotes, na Ordem, assumiam a pregação; e esta não era uma tarefa fácil: a pregação era feita em praça pública, com disputas, questionamentos e afrontas do público que parava, interessadamente, para ouvir. Não podemos esquecer que pairava no ar medieval a psicose da heresia. Os hereges e suas ideias atacavam os pregadores. A questão do estudo, do preparo, do testemunho, eram o modo de preparar-se para este embate. Era típico do medieval de fazer bem o que devia ser feito.

Francisco exigia uma boa preparação de  seus frades pregadores. Eles deviam ser cuidadosamente examinados pelos Ministros. Ofício da pregação e exemplo de vida não se separam:
“Não preguem os irmãos na diocese de algum bispo, quando este lhes tiver proibido. E absolutamente nenhum dos irmãos ouse pregar ao povo, se não tiver sido examinado e aprovado pelo Ministro Geral desta fraternidade e se não lhe tiver sido concedido pelo mesmo o ofício da pregação. Admoesto também e exorto os mesmos irmãos a que, na pregação que fazem, seja sua linguagem examinada e casta, para a utilidade e edificação do povo, anunciando-lhe, com brevidade de palavra, os vícios e as virtudes, o castigo e a glória; porque o Senhor, sobre a terra, usou de palavra breve” (RB 9).

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quarta-feira, 3 de abril de 2013

Algumas ideias sobre a Teologia Franciscana - VII

São Francisco aparece para Santo Antônio, na pintura de Giotto

Para Francisco de Assis, a “Sabedoria do Mundo” não significa a “Ciência Profana”. O estudo da Teologia torna-se “ciência profana” se for usada para dominar ou sobressair. Mas qualquer ministério pode ser usado para impor a dominação de quem sabe:

“E disse que se deviam lamentar os pregadores que muitas vezes vendem o que fazem pela moedinha do vão louvor. E por vezes tratava os tumores deles com este antídoto: “Por que vos gloriais da conversão dos homens que os meus irmãos simples converteram com suas orações? (...) E não gostava muito daqueles que desejam ser louvados mais como oradores do que como pregadores, que falam com ornato das palavras e não com afeto. E dizia que fazem má distribuição aqueles que aplicam tudo à pregação e nada à devoção. Na verdade, louvava o pregador, mas aquele que por sua vez saboreava e degustava a pregação” ( 2 Cel 164 ). ( cfr. também RnB 17)

Diz também, a respeito dos que ministram a Palavra:

“Queria que os ministros da palavra fossem de tal modo dedicados aos estudos espirituais que não fossem impedidos por outros ofícios. Dizia que eles foram escolhidos por um grande rei para transmitir aos povos os editos que recebessem de sua boca. E afirmava: “O pregador deve haurir nas orações secretas aquilo que depois vai difundir em palavras sagradas; deve antes aquecer-se por dentro para não proferir palavras frias”. Dizia que este ofício devia ser respeitado e que aqueles que os exercem deviam ser venerados por todos. Dizia: “ Eles são a vida do corpo, são eles que combatem os demônios, eles são a lâmpada do mundo”. E considerava os doutores na Sagrada Teologia dignos de mais amplas honras. De fato, certa vez, mandou escrever de modo geral: “A todos os teólogos e aos que nos ministram as palavras divinas devemos honrar e venerar como a quem nos ministra espírito e vida” ( 2 Cel 163 ).

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terça-feira, 2 de abril de 2013

Algumas ideias sobre a Teologia Franciscana - VI

Pintura da artista Regina Ammerman

Francisco de Assis é fundador de uma Ordem sem ter diploma, sem ser um intelectual, sem ter passado pelos horizontes do conhecimento humano onde está a filosofia, a física, o direito, a astronomia, a medicina... Mas tudo isto está implícito em sua grande percepção da vida. A Fraternidade por ele fundada não tinha um direcionamento da busca e da atividade intelectual. Acolheu pessoas simples, letradas ou não com uma única proposta: os dons existem para viver e servir segundo a Boa Nova. Entrar na Ordem, mesmo sendo douto, era renunciar o status da cientificidade. Unir a todos pelo amor fraterno e não pela bagagem da ciência.

Diz Tomás de Celano: “Ele sempre teve o constante desejo e o vigilante esforço de perseverar entre os filhos o vínculo da unidade, para que fossem afagados em paz ao colo de uma única mãe os que foram trazidos pelo mesmo Espírito e gerados pelo mesmo pai. Queria que os maiores se unissem aos menores, que os sábios se ligassem aos simples com afeto de irmão de sangue, que os distantes se associassem entre si pelo laço de amor” (2Cel 191, 1-3 ), Cfr. também 2Cel 192, 193 e 194 (Nova tradução das Fontes pgs. 419 a 421).

Não possuía apego aos livros por uma questão de desapego e desapropriação; ter livros era caro e privilégio de uns poucos.Seu livro era o Evangelho e o seguimento apaixonado do Deus presente na Experiência de Jesus Cristo. Acolheu com naturalidade os intelectuais na Ordem; acolheu-os com a mesma abertura que recebeu nobres e pobres (cfr 1 Cel 31). Muitos de seus frades estudaram e ensinaram nas universidades já em seu tempo.

Fazia um confronto entre a sabedoria do mundo, onde giravam os estudos, mas também a instrumentalização do saber para dominar, acumular, vangloriar-se, ser superior aos demais, ascender socialmente e distinguir classes. Ele não queria que o poder do saber desviasse da Minoridade (cfr 2Cel 189).

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