terça-feira, 26 de março de 2013

Algumas ideias sobre a Teologia Franciscana - V



Giotto di Bondone (1267-1337), Basílica de Assis,
 morte e ascensão de São Francisco
Da vida de Francisco nasce um movimento em Assis que vai transformar-se em Ordem e exercer forte influência na arte, no pensamento, na mística e espiritualidade, na teologia, na poesia, no teatro, cinema e música. Ele escreveu textos do próprio punho e ditou a Frei Leão outros tantos. Sobre ele surgiram muitas legendas. Escritos e legendas revelam a  fidelidade criativa e uma fértil produção de obras. As Fontes Franciscanas são ricas e dão uma identidade e um rosto para o que é o verdadeiro franciscanismo.

A inteligência de Francisco é perspicaz, aguda e precisa. Vejamos o relato de seu biógrafo (1Cel 83), que diz: “Quão belo e esplêndido, quão glorioso se manifestava na inocência de vida, na simplicidade das palavras, na pureza de coração, no amor a Deus, na caridade fraterna, na obediência ardorosa, no serviço cordial, no aspecto angelical. Delicado nas maneiras, tranquilo por natureza, afável na palavra, muito convincente na exortação, fidelíssimo ao que era confiado, previdente na deliberação, eficiente no trabalho, simpático em tudo. Sereno no pensar inteligente, brando no ânimo, sóbrio no espírito, absorvido pela contemplação, assíduo na oração e fervoroso em tudo. Firme no propósito, estável na virtude, perseverante na graça e sempre o mesmo em tudo. Veloz para perdoar, lento ara irar-se, inteligência livre, memória brilhante, sutil em discutir, circunspecto em escolher e simples em tudo. Rigoroso para consigo mesmo, compassivo para com os outros, discreto para com todos”

A sabedoria de Francisco está na busca do essencial; o mergulho no essencial o torna simples. A simplicidade é consanguínea da sabedoria. Quem possui uma, necessariamente tem a outra. Diz ele em seu escrito, “Saudação às Virtudes”: “ Ave, rainha sabedoria, o Senhor te salve com tua irmã, a santa e pura simplicidade.”

Continua

quinta-feira, 21 de março de 2013

Algumas ideias sobre a Teologia Franciscana - IV


Nas Fontes Franciscanas e em toda a tradição de estudos, que gira em torno destas Fontes, fala-se que Francisco tinha uma certa aversão aos estudos; podemos aceitar isto como verdade?  Como, então, falar sobre ou justificar a existência de uma Escola de Teologia Franciscana com forte cunho intelectual?  Francisco não é alguém contrário aos estudos, o que ele não queria era a sedução do status do poder de quem sabe; que o frade teólogo não se inchasse de orgulho e santa presunção, já que na Idade Média a teologia era considerada a ciência de todas as ciências; e o saber, na época, era portador de status e poder.

Ao exercitar a desapropriação, a vivência da pobreza, a minoridade, ele se dizia ignorante, idiota, iletrado, simples e totalmente despojado de qualquer domínio que possa vir da intelectualidade. Não queria estar acima de ninguém. Ser ignorante era o seu jeito convicto de ser Menor. Para a nossa compreensão, ignorante é analfabeto. Para o mundo medieval era comum o analfabetismo; 80% da população não sabiam ler, nem escrever. Saber ler e escrever era privilégio de uns poucos: nobres, monges e clero com suas instâncias hierárquicas. Como filho de um notável mercador de Assis, Pedro Bernardone, e participando da classe nos novos ricos de seu tempo, ele tem a oportunidade de estudar junto à Escola Episcopal (uma espécie de escola paroquial) que ficava na igreja de San Giorggio (hoje Basílica de Santa Clara). Lá, ele estudou os rudimentos de latim e gramática com monges beneditinos que prestavam este serviço aos filhos privilegiados da nobreza e da burguesia crescente. Os monges usavam como cartilha a Sagrada Escritura e os Hinos Litúrgicos, sobretudo as antífonas e os salmos. A repetição constante de textos bíblicos e litúrgicos era o método de alfabetização. Francisco aprendeu não mais que umas trezentas palavras em latim. Não era um analfabeto; tinha algum conhecimento de matemática pois ajudava nas contas dos negócios de seu pai; aprendeu com Bernardo de Quintavalle e Pedro Cattani algumas noções de Direito Comercial. Conhecia também rudimentos da língua francesa; sua mãe era da França e seu pai tinha verdadeira paixão pela França, para onde viajava frequentemente a negócios. Com a mãe aprendeu canções de gesta da cavalaria francesa, valores e costumes da corte, o “sprit de finesse”; e com o pai palavras precisas da comunicação formal em francês.

Continua

quarta-feira, 13 de março de 2013

Algumas ideias sobre a Teologia Franciscana - III

Uma Teologia Franciscana olha a floração que vem dos textos sagrados. É a floração do saber e viver com raiz na fé. É recolher o fruto saboroso que vem do solo fértil da fé. O humano, pequeno fragmento da Criação, quer ver, contemplar e louvar. Como procurar? Como conhecer? Invocar com fé e louvor. O Inefável, o Imenso está nos seres por Presença, nada lhe é oculto; por Substância (existe em todas as coisas); e por Potência (opera em todas as coisas ). Quais são as suas Perfeições? Quais são as suas Qualidades? Para Francisco, a qualidade é a melhor maneira de não se prender à quantidade.

A Teologia Franciscana não é uma disciplina, é a Vida! Por isso, aquele mendigo que andou pelas ruas de Assis não tinha menos competência que um teólogo... Ele também pôde falar do encanto da vida. Ele tinha intuição, o teólogo tinha a ciência. A teologia tinha a leitura de sua experiência de fé, mas não a sua fé. Ele tinha a evidência do Infinito.

Continua


sexta-feira, 8 de março de 2013

Algumas ideias sobre a Teologia Franciscana - II


Até que ponto Francisco é um teólogo? Pela sua vida e não pela academia. Seguiu um ideal de “conformitas”, isto é, ter a mesma forma, ser igualzinho a Palavra e a prática sagrada. Isto significava descer do alto da ostentação do poder de quem sabe, de quem pode e de quem tem; abandonar todos os interesses terrenos, inclusive os interesses do próprio corpo, para ascender espiritualmente. Pobre por convicção e seguidor apaixonado do Evangelho de Jesus Cristo. Isto fez Escola!

Seus seguidores perceberam ali uma Teologia própria e original. Descobriram vestígios de pegadas de um caminho que poderia estar esquecido. A teologia nos lembra que há marcas em nossa alma daquilo que esquecemos. E o Sagrado é o que nos diz algo neste esquecimento. Francisco é uma espécie de saudade que nós temos de nós mesmos. Um fragmento, uma esperança, um momento de mais pura teologia. É difícil dizer porque isto foge ao alcance dos conceitos. O mistério foge da comunicação usual, mas Francisco encontrava esta comunicação. Sua experiência no chão real da fé abriu um caminho de compreensão teológica da existência. Teve um momento que sentiu-se sozinho num mundo de sacralização feita por estruturas religiosas humanas. Ele queria o Sagrado feito por Deus. Foi onde Deus estava. Para ele, o Sagrado faz-se presente em lugares, em momentos, em pessoas, em todo ser criado, em tudo o que está envolvido na manifestação do Sagrado. Ele mostrou que o Sagrado está ao alcance da experiência humana. O temporal deixa transparecer o eterno!

Ao olhar isto a Teologia da Escola Franciscana convoca à valorização da existência. Ela é necessariamente a experiência de Alguém, e este Alguém está aí, é preciso ver! A teologia tem que ser uma ciência de contemplação e não apenas elaboração de conceitos. Ela nos convoca: coloque-se no Templo da Vida, contemple! Que seu espírito seja afeiçoado por aquilo que você contempla da vida e na vida. Ver o Reino do Pai Eterno. É preciso estudar teologia para ver a vida mais presente. A teologia franciscana nos traz a vida para a experiência com mais intensidade. Teólogo é aquele que lê Deus em tudo o que aparece.

Continua

quinta-feira, 7 de março de 2013

Algumas ideias sobre a Teologia Franciscana


Estudar uma Teologia Franciscana presente a partir do século XIV tem valor porque é um passado que se atualiza através da busca da compreensão acadêmica atual. O passado tem valor na medida em que o trazemos para o presente com intensidade e curiosidade. Todos estamos vivendo num ausente que trazemos para o presente através de um conhecimento, de uma curiosidade, de uma compreensão e de uma interpretação. São as modalidades diversas de conhecimento do método teológico que me enviam à compreensão da vida. Se estudarmos bem a Escola Franciscana de Teologia, vamos entender todas as modalidades teológicas. Este é um modo que brinda a Riqueza Universal da Existência. Facilmente, nós passamos por cima das diferenças e vamos para o idêntico.

Nós precisamos da Teologia para clarear algum caminho de fé e conceitos referentes ao Divino. Só o Divino não precisa da Teologia para dizer quem Ele é. Como caminho teológico, entramos nas trilhas da Escola Franciscana. Ela nasceu de um olhar sobre como Francisco de Assis viveu a sua experiência do Sagrado. Francisco não criou e nem nos deu uma Teologia; ele quis apenas mostrar como viveu Deus em sua vida. Os pensadores franciscanos medievais é que elaboraram esta Escola Teológica. É um corpo de ensinamentos que apontam um caminho e não apenas uma doutrina. Teologia Franciscana não é doutrina, mas sim um modo teológico que nos ajuda a perceber a interioridade da vida. É olhar a fé e dizê-la: a fé é a experiência de cada instante.

Deus é a primeira causa da qual o Ser emana formando ideias teológicas e sonhos de eternidade. Ideias eternas são matrizes de tudo o que realmente é. Na compreensão natural e encarnada desta experiência surge Francisco de Assis (1181 – 1226).  Homem tipicamente medieval, carisma irresistível, atraiu grupos de admiradores. Construiu uma comunidade com características fraternas que vivia de esmolas e partilha; uma comunidade que cuidava de leprosos e ia onde ninguém queria ir. Orientava seus seguidores a não aceitar qualquer benefício em dinheiro ou bens materiais; nem armazenar para o futuro ou construir suntuosas moradias. Sua comunidade fraterna transformou-se em Ordem em 1223. Ganhou uma Regra de Vida e foi integrada no jeito eclesial de ser na época. Isto não deve ter deixado Francisco totalmente feliz, mas ele acatou a institucionalização de seu projeto para se proteger da psicose das heresias e de uma provável perseguição; afinal de contas, ele e seus primeiros companheiros estavam vivendo igualzinho o Evangelho. Ele queria apenas isto: ser e viver a Boa Nova!

Continua