sexta-feira, 31 de agosto de 2012

ITINERÁRIO A ASSIS – 5


Vitral na Igreja de São José em Milwaukee (EUA)
Há uma forte identificação com o Amado na vida de Francisco de Assis. Ele amou tanto Jesus que se tornou um outro Ele. Fusão de alma e corpo. Seu caminho de seguimento e imitação é puro enamoramento. As pessoas que se amam verdadeiramente, pouco a pouco, vão se tornando iguais. Após seu longo Itinerário para encarnar o Evangelho, a vida de Francisco torna-se comparada ao Mestre. Ele é o “um Cristo redivido” segundo as palavras do papa Pio XI. Após a sua morte são feitas muitas releituras de sua vida e, pela influência de Bartolomeu de Pisa e sua obra “De Conformitate”, são feitas muitas aproximações entre Francisco e Jesus.

Claro que ele não é Jesus, mas sim seu imitador mais intenso e perfeito. Por isso, nas legendas deste Santo há alguns paralelos. Por exemplo, ao chegar em Assis, entre as grande Basílicas encontraremos pequenas igrejas e outros lugares menores, mas com forte significado. Há o Oratório de São Francisco Menino. Como entrar ali? Há o lado artístico e histórico para se observar, afinal de contas é bem próximo à casa onde Francisco nasceu. Encontraremos uma inscrição em latim que recorda que ali, naquele oratório, foi um estábulo de boi e asno, lugar onde nasceu Francisco, um Espelho para o mundo. É a aproximação com a manjedoura; pura lenda, mas uma hermenêutica necessária para uma vida de seguimento apaixonado.

Estamos no ano de 1182 e Dona Giovanna della Picardia, conhecida e abreviada em seu nome pelo jeito italiano, como Dna. Pica (a madame “della Picardia” = da região francesa de Picardilly), esposa do rico mercador de tecidos e comerciante, Pedro de Bernardone, tem seus problemas como parturiente. O marido está viajando e sua gravidez tem sérias complicações. Há muita prece e remédios caseiros naquela expectativa do nascimento de mais uma criança em Assis.

Conta a legenda que, ela recolhe um pobre andarilho, desconhecido em Assis, dentro de sua casa e lhe dá comida e pouso. O despojado itinerante, antes de partir, muito agradecido pela acolhida daquela fina e bondosa mulher, aconselha e profetiza: “A senhora, como mãe, só poderá ter um parto bem-sucedido se deixar a criança nascer entre palhas num estábulo”.

Crucifixo de São Damião
Tomando estas palavras como um bom presságio, prepara-se o parto no estábulo dos animais, junto à casa dos Bernardone. O que veremos ali é um belo e pequeno templo construído sobre um curral. O Espelho do mundo nasce já pressentindo o que sempre será sua vida: um grande encontro entre o natural e o sobrenatural. Não viria deste fato seu amor pelos animais? Hermenêutica, alegorias, interpretações, humor e simplicidade em ler fatos e lendas não faz mal a ninguém. Desde o seu nascimento Francisco de Assis é um encontro de tantos elementos que fez dele um arquétipo humano e santo.

Saindo do Oratório de São Francisco Menino, subindo pelas vielas, podemos chegar à Basílica de Santa Clara. Templo guardião do célebre Crucifixo de São Damião e de impressionantes relíquias. Uma Basílica de contemplação, oração, silêncio e ternura. Corpo de mãe Clara repousa ali. O expressivo Crucifixo bizantino falou para Francisco palavras da inspiração; toque inicial de um longo itinerário espiritual. A inspiração gerou uma revolução naquele lugar. Clara de Assis vai ser a cuidadora da Inspiração. Um teve a Inspiração e saiu pelo mundo, a outra vai morar aos pés da Inspiração, para que a Cruz continue falando: “Reconstrói a minha casa!”. A doce Clara, convertida pela pregação de Francisco, sua mais fiel seguidora, é o degrau mais alto daquela ascensão para os lugares do Altíssimo. Mas sobre ela falaremos mais adiante, quando visitarmos, in loco, a casa da interioridade franciscana clariana.
























Da Basílica de Santa Clara chegamos à Catedral de Assis, a conhecida Duomo, dedicada ao mártir São Rufino (foto acima). Ali Francisco foi batizado. Está lá, no batistério , a pia onde ele recebeu a água da iniciação. Chegou ali para ser batizado com o nome de João. A mãe, nobre francesa, já tinha o nome em homenagem à santa e heroína francesa Joana d’Arc, e quer batizar o filho com este nome em homenagem ao Precursor, ou quem sabe, o masculino de Joana , ou para lembrar o místico de todos os Evangelistas. Nome forte este de João!
O pai, Pedro Bernardone, está viajando quando Francisco nasce e será batizado. Ao voltar, quer fazer valer as suas homenagens: ele ama a França, centro do mundo na época. É um apaixonado pela França onde vai buscar suas mercadorias que o fazem crescer entre os novos ricos em Assis. Ele ama a sua mulher a bela, piedosa, cortês e polida, a simpática francesa Giovanna della Picardia. Deste amor francês por um lugar e por uma mulher impõe um nome: Francisco! Homenagem à França! É o primeiro nome Francisco da história. Ficou na História!

Mas voltemos ao batismo: conta a lenda que um desconhecido, destes penetras que aparecem em momentos únicos, surgiu do nada e se ofereceu para tomar o pequeno nos braços. As pedras do lugar marcam este fato simbólico. Há símbolos que grudam para sempre no imaginário e mensagem. E, pouco depois, em meio a festa caseira de pós-batizado, um outro estranho e velho mendigo aparece, pede para segurar no colo o menino, e entre admiração e afagos diz à mãe: “Cuide bem deste menino, porque ele será grande diante do Senhor. O príncipe das trevas muitas vezes fará oposição aos seus planos. Zelai para que ele não caia vítima de suas armadilhas!”.

E depois destas palavras desaparece entre as ruelas de Assis, e mesmo procurado, jamais foi encontrado. A mãe de Francisco e todos os presentes, tomados de espanto, guardaram as palavras deste misterioso velho e novo Simeão. Não se espantem os que caminham comigo neste relato, Francisco é, de fato, um Santo de legenda! As legendas não têm compromisso com a história real, mas sim com relatos orais e escritos para a edificação do Espírito. Em louvor de Cristo, amém!

Acompanhe a nossa viagem!

quinta-feira, 30 de agosto de 2012

ITINERÁRIO A ASSIS - 4
















De trem, ônibus, van, carro, moto, a pé... Enfim, de tantos modos podemos chegar a Assis. Da estação de trem, ou vindo pela estrada de Perugia, podemos avistar a cidade, que do alto da colina, nos abraça. Há caminhos feitos, trilhas que levam de Santa Maria dos Anjos até Assis. Parecem um cordão franciscano lembrando votos, profissão e promessas! Um caminho feito de tijolos doados por gente de todo mundo une Porciúncula a São Damião para recordar que tudo foi reconstruído tijolo por tijolo. Caminhar ali é refazer o caminho dos penitentes tirando os excessos que nos privam da pureza de coração, do sem nada de próprio e da obediência. Em muitos cantos, nichos, oratórios e pórticos pode-se ler a onipresente bênção: “Il Signore ti benedica e ti custodisca. Ti mostri la sua faccia ed abbia misericórdia di te. Volga a te il suo sguardo e ti dia pace. Il Signore ti benedica!”. Como diz a minha amiga e irmã Mara Faustino: “É bênção, pura bênção!”

O mês de setembro, quando estaremos chegando lá, fez se outono na vida de Francisco; ele está enfermo e não tem mais, no corpo, a vigorosa e colorida primavera de Assis; mas sua alma é só Luz! Avizinha-se a Irmã Morte e ele percebe que ela vem com o leve vento de fora e o seu frágil respiro de dentro. Seu coração bate forte de Amor! Faz seu rito de passagem despedindo-se do lugar. Está pronto para voar como as cotovias. Os frades choram, mas as criaturas todas sorriem. Não é hora de lamento, mas de cântico. Pede que os frades o coloquem num lugar estratégico onde ele possa ver sua amada cidade e sussurra agradecido: “Bendita sejas do Senhor, cidade de Assis, porque muitas almas se salvarão por tua causa: pois dentro de ti habitarão muitos servos do Altíssimo e muitos de teus filhos serão escolhidos para o Reino do Céu. Seja contigo a paz!”



Há oito séculos, a Paz veio morar ali desde que aquele Poverello morreu para alguns projetos e criou o seu caminho impulsionado pelo Evangelho; morreu para a sua vaidade, ostentação, ambição, sonhos de acumular bens e terras, sonhos do poder das armas; e, agora, a Paz está ali, num momento culminante, permanecendo para sempre em Assis: pelo caminho, onde Francisco morreu, entramos na cidade. Morte que não é morte. Morte que abre as definitivas portas do Paraíso. Bendita morte, Irmã!

A cidade continua a sonhar com Francisco, com sua presença, com seus ideais que vão sendo revividos em toda parte. Entrar em Assis é como entrar nas Legendas de Francisco e Clara. Pé nos caminhos, olhos na inspiração que está marcada nas pedras e templos, bosques e praças; mente na prece; coração no Senhor! É assim que se entra em Assis.   Acompanhe a nossa viagem!

quarta-feira, 29 de agosto de 2012

ITINERÁRIO A ASSIS – 3


Há cidades que se identificam por um personagem, por um produto, por um fato. Algo vive ali ou se fantasia através de anos. História, mito, folclore, lenda ou verdade marcam o lugar. Bragança e a linguiça; Joanópolis e o lobisomem; Salinas e a cachaça; Ibitinga e o bordado; Embu e as artes; Varginha e o E.T; Bonito e sua natureza exuberante. Podemos elencar uma lista enorme. Mas as cidades mais famosas e fortes do mundo se destacam pelos seus santos e santas. Vamos iniciar domingo, dia 2 de setembro, uma peregrinação indo em direção ao centro Sul da península italiana; um lugar de um acervo riquíssimo em quadros de belezas naturais, de arte,  paisagem, história, legendas e fé. Chegaremos a Assis, lugar da piedade e das legendas de um Santo e de uma Santa. Sua forte muralha guarda a arquitetura medieval sólida e palpitante. À nossa vista abre-se uma cidade que vive um ar onde se respira o espírito. Bandeiras, estandartes, pombas, sinos, pedras e mais pedras, olivais, ruas estreitas, povo alegre acostumado  com as hordas turistas e devotos.

Chegar ali é a sensação de que, a qualquer momento, um mendigo esfarrapado vai pedir pão para dividir com todos; vai falar de Deus, cantar para o Bem Amado, e se não for ouvido ou atendido por nós, certamente irá pregar aos pássaros. Mais que monumentos, Assis tem alma. Vamos entrar nas vielas da alma. O Evangelho ali se fez um lugar na vida de dois jovens. Esta é a diferença. Hoje, fala-se do Evangelho; ali, o Evangelho fundamentou escolhas definitivas. Não foi gritado, foi gritante na vida de Clara e Francisco, que foram capazes de fazer, de Assis para o mundo,  uma verdadeira revolução. As pedras ali parecem esconder atrás de si este segredo; mas não têm pudor em revelar.

Assis de Francisco. Assis de Clara. Francisco de Assis e Clara de Assis. Nome e lugar. Viveram ali e encheram as medidas do universo. Quem viveu bem o seu tempo e lugar atravessa séculos. Nosso grupo de peregrinos, em sua marcha para Assis, não será original. Há oito séculos todo mundo vai lá; e quem nunca conseguiu ir, sente-se tão vizinho a Assis. Clara nunca saiu desta cidade. E precisava? A prece, a contemplação, o silêncio é uma viagem para o Inefável. E esta viagem não é para turistas. Em todo o caso, na investidura de peregrinos, vamos lá para conferir.

As cidades italianas são feitas de gênios e santos. Firenze, Veneza, Roma, Assis testemunham isto há séculos e séculos. Mas como Assis é difícil encontrar algo parecido. Estive ali incontáveis vezes e senti isto nos arrepios de corpo e alma.  Seu crepúsculo é diferenciado, seus telhados, as linhas de seus palácios, seus detalhes cheios de história e de um ideal que seus dois filhos ilustres legaram. Sua Rocca Maggiore aponta ao longe junto com suas torres, e nos ensina a olhar para o horizonte e para dentro. Poder e pobreza ali se encontram. Batalhas de nobres e combates espirituais de místicos. A dureza de um tempo e a bela e enternecida formosura de Clara. Fortaleza de pedra e desenhos de céu. Chegaremos lá no verão indo embora e o outono pedindo licença para entrar, ou já entrando... Veremos girassóis, flores, campos, vales, o verde, horizontes de montes e colinas e, lá longe, um eco do Poverello dizendo: “Nosso claustro é o mundo!”

Em Assis ouviremos a fala italiana dos conterrâneos de Francisco, língua que tem música em sua fluência, como se cada palavra expressasse um orgulho sutil e uma herança toda de sentimentos. Cantaremos na praça serenata brasileira em contracanto com as canções de gestas da Idade Média. Veremos um encontro entre a cidade e o campo como se um entrasse no outro; juntos fazem a evocação mística do lugar; subiremos a montanha, lugar de elevação e desceremos para o vale, lugar da humilde profundidade. A paisagem moldou seu casal de santos tendo como fundo a natureza mãe e mística. Ali, Francisco e Clara andaram com os pés no chão procurando coisas do Alto.

Vamos nos deslumbrar com aquele casario todo encostado no Subasio; subiremos para o “Eremo delle Carceri”, avistaremos os Apeninos ao longe e o imenso vale e seus pequenos rios Chiaschio e Topino. Andaremos por meio das oliveiras seculares, alguns vinhedos e a plantação preparando o recolhimento outonal sob a terra. Vamos lembrar um texto de Dante Alighieri: “Quando falardes deste lugar, não lhe chame de Assis: pouco ou nada significaria; porém chamai-lhe Oriente, se quiserdes usar a palavra que convém!” É isto mesmo! Caminho orientado pelo coração, um templo a céu aberto, um espaço onde o Amor foi vivido e pregado por Francisco, e fez de seu Amado a máxima identificação. Em Assis, Francisco nos ensinou a pegar o Evangelho com as mãos e transformá-lo em plena vida.

terça-feira, 28 de agosto de 2012

ITINERÁRIO A ASSIS -2


Não posso ir a Assis como ir a qualquer lugar para fazer uma viagem de turismo. Há certos lugares que evocam um mistério que sacode a alma. É gostoso pronunciar em italiano o nome da cidade: Assisi! O som sai agradável e sibilar, uma leve melodia de assovio, como quando se anda descontraído, lábios contraídos e circulares soando alguma canção no ritmo feliz dos passos. Estar num lugar bonito é como cantar. Na encosta do Monte Subásio ali está a cidade que é o coração do mundo. Para muitos, Nova York é o coração do mundo; ou Paris, Budapeste, Viena ou Praga. Tenho motivos para dizer que Assis é o coração do mundo, pois é como se o coração de todos batesse mais leve ali. Assis tem este jeito de domar corações com sua leveza. Quem chega ali fica um pouco melhor ou permanece para sempre. Pode até sair de Assis, mas a cidade vem junto grudada para sempre na emocionada lembrança.

Como pode uma cidade lá dos anos 1100, feita de pedras rosas e brancas, lava vulcânica, admirável arquitetura medieval, emoldurada por uma  paisagem cativante, com o seu ar de civilização etrusca e romana, ser o destino de milhares e milhares de pessoas? Será que é sua história de nobres e plebeus? Das gestas cavalheirescas ou das calendas de maio? Ou será porque ali dormem serenamente, e com gosto de que tudo valeu a pena, os restos mortais de Francisco e Clara? Restos mortais? Não! Sementes de vida plantadas naquela terra fecunda e que frutificaram ali e cujos frutos alimentam o mundo.

Não posso ir a Assis de qualquer jeito; tenho que chegar lá com o respeito àquela gente que ali habita e que guarda orgulhosa uma memória: seu casal santo é eterno. Motivo de silenciosa alegria, enormes basílicas, multidões de peregrinos, uma muralha que em vez de esconder, revela. Assis é bela porque é belo o ideal que nasceu ali. Um ideal que é igualzinho suas estradas, ruelas, casas, palácios, arquitetura, estética, luz, paredes, afrescos, eremos, praças, natureza e arte, legendas, cantos e esquinas a cuidarem de um mistério inviolável e perene.

Não posso chegar ali de qualquer jeito porque a minha alma busca a alma de Francisco e Clara; e na sintonia perfeita da paisagem do lugar, as almas se encontram. Está tudo ali de um modo sensível e vivaz. Conhecer Assis é conhecer a fundo o melhor do humano e o melhor de Deus. Se todos os caminhos levam a Roma, Assis leva para um caminho espiritual. Dá uma vontade de ir lá para conferir se o Poverello e a Sorella estão vivos. De certa forma estão: há um eco de seus passos, da Palavra Sagrada que  incendiou suas vidas, dos lugares que eles viveram e os  quais poderei tocar com as  minhas mãos, entrar, sentar  e sentir um segredo fascinante que, de repente, é revelado...

Acompanhe a viagem!

segunda-feira, 27 de agosto de 2012

ITINERÁRIO A ASSIS – 1

Esta semana começo arrumar mala e bolsa a tiracolo; hábito, sandália, roteiro, corpo, mente, alma e coração para fazer uma viagem a Assis, Itália. Vou ser guia espiritual de um grupo de leigos da Ordem Franciscana Secular de vários lugares, Minas, Rio, São Paulo; juntam–se ao grupo um frade Capuchinho e mais uma Religiosa, além de simpatizantes do mundo de Francisco e Clara. Vou fazer uma crônica desta viagem para o blog; não dá para ir lá sem dividir a experiência. Fui convidado e integrei-me a este grupo que comemora os 10 anos do primeiro Itinerário em São Lourenço, MG. O que é o Itinerário Franciscano? Um Encontro que tem a duração de um final de semana e o objetivo é apresentar a Ordem Franciscana Secular e seu carisma a interessados. O grupo que fez o primeiro Itinerário e acompanhou tantos outros planejou a viagem e foram convidando  as pessoas para completar um grupo de 30 participantes.

Começo hoje este Relato de Viagem, pois o caminho já está traçado. Para o Franciscanismo, o tema do Itinerário é importante por causa da sua Mística Itinerante. Francisco andou pelas estradas da Úmbria, da Itália, do Oriente. Mística e espiritualidade não são disciplina acadêmica, leitura de texto edificante, doutrina ou exercícios espirituais, mas sim  são passos dados num caminho de fé e sonho. Francisco deu passos concretos impulsionado pelo Evangelho: fez um Caminho! Saiu da casa de seu pai para ir para dentro de si mesmo. Deixou-se gerar por uma paternidade e maternidade espiritual e saiu nu da praça de Assis para o mundo. Foi seu novo parto. Deu passos em direção a São Damião porque ali havia ruínas e leprosos. Encontrou uma expressiva Cruz que falava em meio à fragmentação. Leu textos do Evangelho que animaram seus passos e encaminharam seus desejos. Deu passos rumo à transposição de sentidos. Irmãos e Irmãs juntaram-se aos seus passos.

Não vamos a uma peregrinação aos lugares santos franciscanos para buscarmos uma espiritualidade; mas são os lugares santos franciscanos que vêm até nós para nos ensinar a amar. Na espiritualidade somos todos itinerantes, nômades, vivemos do provisório do caminho. É o destino certo de todos os filhos e filhas do Espírito.

terça-feira, 7 de agosto de 2012

NESTA FESTA DE SANTA CLARA VAMOS LER AS CARTAS QUE ELA DEIXOU

Santa Clara torna-se mãe de muitas discípulas. Sua fama de santidade encanta e convoca. A clausura não é obstáculo para visitar os corações de tantos que moram fora do claustro. Se não há presença física pode-se escrever. Clara corresponde a este anseio através de muitas cartas. Temos quatro para Inês de Praga e uma enviada a Ermentrude de Bruges que queremos deixar aqui para a reflexão. Amizade e espiritualidade se encontram nestas palavras. Uma vida de busca lúcida do Amado, da Palavra Sagrada e da Vida Religiosa. Iluminar a escolha e ter a nitidez na vocação.Ser perseverante em imitar a Pobreza do Esposo. Seguir um caminho divino por Amor. Olhar-se no Espelho.

O caminho de Clara é o caminho de suas discípulas: recusar propostas de algum envolvimento temporal e vibrar por uma única paixão: Seguir Jesus Cristo Pobre, Humilde, nascido no Presépio, Crucificado num seguimento humilde feito Fraternidade à luz do Evangelho. Nestas cartas temos fortes  palavras místicas ditas com segurança e ternura. A ternura garante espessura humana à vida, cria relações e ligas as pessoas em profundidade. Onde falta a ternura entra o enrijecimento e desaparece a alegria de viver. Em Clara e no seu Mosteiro não há aquele véu de tristeza e rigidez que aparece em tanta gente que diz viver uma espiritualidade e criam vida em comunidades de gente triste e cheia de culpa. Clara, em suas cartas, revela o que sempre foi: terna, afável, cortês, hospitaleira, irmã e amiga, serva atenciosa e solícita, mestra da alma. Acolhe sem reservas o Amor do Esposo e ao Esposo,  e faz  dele a sua resposta de amor para a humanidade. O que escreve nas cartas está escrito em seu coração. Aqui uma junção de textos de cinco cartas. Leia e olhe-se neste Espelho e deixe que estas cartas leiam a sua alma:

Fragmentos das Cartas de Santa Clara à Inês de Praga

  Portanto, irmã caríssima, porque sois esposa, mãe e irmã do meu Senhor Jesus Cristo, ficai firme no santo serviço do pobre Crucificado, ao qual vos dedicastes com amor ardente. Ele suportou por todos nós a paixão da cruz e nos arrancou do poder do príncipe das trevas.

 Ó piedosa pobreza, que o Senhor Jesus Cristo dignou-se abraçar acima de tudo, ele que regia e rege o céu e a terra, ele que disse e tudo foi feito!  Pois disse que as raposas têm tocas e os passarinhos têm ninhos, mas o Filho do homem, Jesus Cristo, não tem onde reclinar a cabeça. Mas, inclinando a cabeça, entregou o espírito.

  Portanto, se tão grande e elevado Senhor, vindo a um seio virginal, quis aparecer no mundo desprezado, indigente e pobre, para que os homens e as mulheres, paupérrimos e miseráveis, na extrema indigência do alimento celestial, nele se tornassem ricos possuindo os reinos celestes, vós tendes é que exultar e vos alegrar muito, repleta de imenso gáudio e alegria espiritual, pois tivestes maior prazer no desprezo do século que nas honras, preferistes a pobreza às riquezas temporais e achastes melhor guardar tesouros no céu que na terra, porque lá nem a ferrugem consome nem a traça rói, e os ladrões não saqueiam nem roubam.

Vossa recompensa será enorme nos céus, e merecestes ser chamada com quase toda a dignidade de irmã, esposa e mãe do Filho do Pai Altíssimo e da  gloriosa Virgem. (...)

Por isso achei bom suplicar que vos deixeis fortalecer no seu santo serviço, crescendo de bem para melhor, de virtude em virtude, para que aquele que servis com todo desejo do coração digne-se dar-vos os desejados prêmios.

 Não perca de vista seu ponto de partida, conserve o que você tem, faça o que está fazendo e não o deixe, mas, em rápida corrida, com passo ligeiro e pé seguro, de modo que seus passos nem recolham a poeira, confiante e alegre, avance com cuidado pelo caminho da bem-aventurança. Não confie em ninguém, não consinta com nada que queira afastá-Ia desse propósito, que seja tropeço no caminho, para não cumprir seus votos ao Altíssimo na perfeição em que o Espírito do Senhor a chamou.

 Se alguém lhe disser outra coisa, ou sugerir algo diferente, que impeça a sua perfeição ou parecer contrário ao chamado de Deus, mesmo que mereça sua veneração, não siga o seu conselho. Abrace o Cristo pobre como uma virgem pobre.

Com o desejo de imitá-lo, mui nobre rainha, olhe, considere, contemple o seu esposo, o mais belo entre os filhos dos homens  feito por sua salvação o mais vil de todos, desprezado, ferido e tão flagelado em todo o corpo, morrendo no meio das angústias próprias da cruz.

Se você sofrer com Ele, com Ele vai reinar; se chorar com Ele, com Ele vai se alegrar; se morrer com Ele na cruz da tribulação vai ter com Ele mansão celeste nos esplendores dos santos. E seu nome glorioso entre os homens, será inscrito no livro da vida.

 Vejo que são a humildade, a força da fé e os braços da pobreza que a levaram a abraçar o tesouro incomparável escondido no campo do mundo e dos corações humanos, com o qual compra-se  aquele por quem tudo foi feito do nada. Eu a considero, num bom uso das palavras do Apóstolo, auxiliar do próprio Deus, sustentáculo dos membros vacilantes de seu corpo inefável.

 Quem vai me dizer, então, para não exultar com tão admiráveis alegrias? Por isso, exulte sempre no Senhor também você, querida. Não se deixe envolver pela amargura e o desânimo, senhora amada em Cristo, gozo dos anjos e coroa das Irmãs.

Ponha a mente no espelho da eternidade, coloque a alma, no esplendor da glória. Ponha o coração na figura da substância divina e transforme-se inteira, pela contemplação, na imagem da divindade.

Desse modo também você vai experimentar o que sentem os amigos quando saboreiam a doçura escondida, que o próprio Deus reservou desde o início para os que o amam. Deixe de lado tudo que neste mundo falaz e perturbador prende seus cegos amantes e ame totalmente o que se entregou inteiro por seu amor, aquele cuja beleza o sol e a lua admiram, cujos prêmios são de preciosidade e grandeza sem fim. Prenda-se à sua dulcíssima Mãe, que gerou tal Filho que os céus não podiam conter, mas que ela recolheu no pequeno claustro do seu santo seio e carregou no seu regaço de menina.

Assim como a gloriosa Virgem das virgens o trouxe materialmente, assim também você, seguindo seus passos, especialmente os da humildade e pobreza, sem dúvida alguma, poderá trazê-lo espiritualmente em um corpo casto e virginal. Você vai conter quem pode conter você e todas as coisas, vai possuir algo que; mesmo comparado com as outras posses passageiras deste mundo, será mais fortemente seu.

Feliz, decerto, é você, que pode participar desse banquete sagrado para unir-se com todas as fibras do coração àquele cuja beleza todos os batalhões bem-aventurados dos céus admiram sem cessar cuja afeição apaixona, cuja contemplação restaura, cuja bondade nos sacia, cuja suavidade preenche, cuja lembrança ilumina suavemente, cujo perfume dará vida aos mortos, cuja visão gloriosa tornará felizes todos os cidadãos da celeste Jerusalém, pois é o esplendor da glória eterna, o brilho da luz perpétua e o espelho sem mancha.

Olhe dentro desse espelho todos os dias, ó rainha, esposa de Jesus Cristo, e espelhe nele, sem cessar, o seu rosto, para enfeitar-se toda, interior e exteriormente, vestida e cingida de variedade, ornada também com as flores e roupas das virtudes todas, ó filha e esposa caríssima do sumo Rei. Pois nesse espelho resplandecem a bem-aventurada pobreza, a santa humildade e a inefável caridade, como, nele inteiro, você vai poder contemplar com a graça de Deus.

Preste atenção no princípio do espelho: a pobreza daquele que, envolto em panos, foi posto no presépio! Admirável humildade, estupenda pobreza! O Rei dos anjos repousa numa manjedoura. No meio do espelho, considere a humildade, ou pelo menos a bem-aventurada pobreza, as fadigas sem conta e as penas que suportou pela redenção do gênero humano. E, no fim desse mesmo espelho, contemple a caridade inefável com que quis padecer no lenho da cruz e nela morrer a morte mais vergonhosa.

Assim posto no lenho na cruz, o próprio espelho advertia quem passava para o que deviam considerar: Ó vós todos que passais pelo caminho, olhai  e vede se há outra dor igual à minha. Respondamos a uma voz, num só espírito, ao que clama e grita: Vou me lembrar para sempre e minha alma vai desfalecer em mim.

Tomara que você se inflame cada vez mais no ardor dessa caridade, ó rainha do Rei celeste! Além disso, contemplando suas indizíveis delícias, riquezas e honras perpétuas, proclame, suspirando com tamanho desejo do coração e tanto amor:  Arrasta-me atrás de ti! Corramos no odor dos teus bálsamos, ó esposo celeste!

Vou correr sem desfalecer, até me introduzires na tua adega, até que tua esquerda esteja sob a minha cabeça, sua direita me abrace toda feliz, e me dês o beijo mais feliz de tua boca.

Que mais?  No amor por você, cale-se a língua de carne, fale a língua do espírito.