quarta-feira, 18 de julho de 2012

OS ÍCONES E AS IMAGENS - Final

Diz o apostolo João: ”ninguém jamais viu a Deus”, mas Jesus prometeu àqueles que têm o coração puro verão a Deus (MT 5,8). Essa bem aventurança faz do olho o símbolo da pureza interior. A primeira pregação cristã insiste em mostrar a oposição entre os olhos da carne e os olhos de espírito, a seguir a física precedendo simbolicamente a abertura dos olhos do coração (At 9,18). A função do Filho é revelar seu Pai: “quem me viu, vê o Pai” disse Jesus a Filipe, mas no fim dos tempos a plena visão será dada a todos e “os olhos de todos contemplarão a glória de Deus assim como ele é” (Jo 14,9; 1Jo 3,2). O olho é a luz interior no humano iluminado, e o protótipo desse humano de luz é o “olho de luz”.

Em numerosas tradições filosóficas religiosas esse interior permite acesso a sabedoria. O olho da alma ofuscado pela luz da inteligência, se fixa na pura claridade; a alma vê então a luz que se encontra no interior de seu próprio olhar.

O olho interior só é órgão de sabedoria porque é capaz da própria experiência de Deus. Toda revelação se apresenta como um véu que se retira diante dos olhos para se ver a visão beatifica e a contemplação. Olho do coração é um tema freqüente na literatura espiritual e na arte. Não pode nem ver nem discernir seu objeto sem a luz, assim também a alma não pode contemplar a Deus sem a luz da fé, a única que pode abrir os olhos do coração. Para os padres do deserto o “homem inteiro, deve se tornar olho”.

No século X, Filóteo o Sinaíta, escrevia: “nos encontraremos a pérola do Reino dos Céus dentro do coração, se primeiro purificarmos os olhos de nosso espírito”.

terça-feira, 17 de julho de 2012

OS ÍCONES E AS IMAGENS - IX


O olho chega a sua oferenda sacrifical, de onde nascera uma segunda visão, a sobrenatural, que sublima, substituindo a simples visão corporal. É o olho interior, o olho do coração, o olhar dos místicos que percebem a luz divina.

Os valores mais propriamente religiosos e místicos do olho são numerosos e variados. A palavra ‘ayin’, olho, ocorrem 675 vezes no Antigo Testamento e 137 vezes no Novo Testamento o que marca a riqueza de suas significações simbólicas. Ele designa primeiro o órgão da visão modelado pelo Criador para o bem do homem e da mulher, pois “é uma alegria para o olho ver o sol”. Mas o olho é também um órgão do conhecimento que a Escritura associa sempre a qualidade de sábio e prudente: assim Balaão, o adivinho cujo olho esta fechado para as realidades terrestres que o cerca, mas que se abre para o escondido e o invisível desde momento que ele encontrou o Todo Poderoso (Nm 25,25). O Senhor faz dele um vidente cego usando assim o tema de uma visão superior a visão corporal normal. Simbolicamente, o olho designa a consciência do humano que Javé abre para o conhecimento de sua lei.

Para o mundo bíblico Deus vê tudo, Ele é o Deus ao qual nada escapa. Sua soberania transcendente tem como característica a onividência. Seu olho divino é justiceiro, diante dele o justo poderá encontrar graça; é um olho paternal, o da providência divina. Mas qualquer que seja seu desejo o humano não tem a possibilidade de ver a Deus face a face, pois ninguém pode ver Javé sem morrer (Sl 42,3).

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quinta-feira, 12 de julho de 2012

OS ÍCONES E AS IMAGENS - VIII

A Imagem permite aquilo que seria apenas uma experiência puramente interior e inefável, um elo que liga a pessoa a uma comunidade religiosa, mas muito mais a uma totalidade, na qual se crê ver um sinal divino. A Imagem alimenta também a fé. A Imagem é a transfiguração da realidade material; permite a passagem do cotidiano para o  eterno.

A Imagem traz a Espiritualidade do Olhar. O olho é um dos símbolos mais comuns nas representações religiosas da humanidade. Órgão ativo da percepção visual, ele está estreitamente ligado à luz. Sem ela, o olho não pode nem discernir nem ver claramente. É o fato de ver que explica que, na maior parte das culturas, o olho é símbolo da percepção intelectual e da descoberta da verdade: o olho sabe por que vê. A pupila é uma  alma em miniatura. O mundo do humano é o seu olhar. O olho é o espelho da alma, a janela do corpo que revela os pensamentos profundos. “A lâmpada do corpo é olho. Se, pois teu olho é são, todo teu corpo será luminoso, mas se teu olho é mau, todo teu corpo será tenebroso.” (MT 6, 22-23)

Espelho do interior, o olho é o lugar onde se entrevê a vida misteriosa da alma. O olho descobre alem das aparências físicas que ele percebe, tornando-se assim o lugar de uma revelação interior. A expressão “seus olhos se abriram” significa a revelação de uma verdade, racional ou religiosa.

O olho esta ligado ao sol como astro luminoso, ele vê tudo, irradia e faísca por seu olhar, que pode ser penetrante como uma flecha. Olho e sol revelam valores morais e religiosos segundo os quais toda visão é de clarividência, de retidão e de justiça. Assim como o sol ilumina projetando em toda parte sua luz, assim também o olho procura descobrir tudo e tudo vê, mesmo as faltas e os crimes.

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quarta-feira, 11 de julho de 2012

OS ÍCONES E AS IMAGENS VII

Pietà, de Michelangelo
Imagens são representações do Ser e da Luz Divina. Não podem ser objetos de idolatria. Sua função é didática sacramental. Ela representa  seu original que é o Transcendente. Ela representa uma porta que se abre para mais além, para o reino de Deus. Nela os extremos se tocam.

As imagens são canais indispensáveis para a comunicação e a atualização do espiritual. Volta a questão do Belo e do Bom. A Beleza é exterior e a Bondade é interior. Elas representam uma inteligência contemplativa.

O ser humano não cessa, a cada instante de sua existência, de interpretar e transpor a experiência imediata que ele faz de todas as coisas. Desta forma, ele dá um sentido aos fenômenos que verifica nos acontecimentos que vivem; essa interpretação se torna para ele a própria expressão da realidade. Tem a capacidade de ir além da aparência material das coisas, impregnando-as de uma significação especial.

A Imagem é uma experiência mística e espiritual. Ela é a comunicação desta experiência. Cada vez que o ser humano quer exprimir a natureza das suas relações que o unem ao divino, cada vez que ele quer estabelecer um diálogo com seres superiores, ele utiliza uma imagem simbólica. A Imagem por si só não é o divino; ela é hierofânica, mas a sua hierofania é feita através da linguagem humana. A imagem por si só é muda; ela fala pela expressividade que o humano lhe confere. Ela é uma realidade espiritual, um fenômeno sensível. Sem a Imagem, o divino ficaria inexprimível. Revelando o inexprimível e exprimindo o indizível, a Imagem religiosa facilita a passagem do imaginário à realidade ontológica.

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quinta-feira, 5 de julho de 2012

OS ÍCONES E AS IMAGENS - VI

A imagem sagrada compreende uma doutrina, uma disciplina espiritual. A imagem revela a continuidade da Encarnação. São os arquétipos eternos que permanecem no inconsciente. Deus em sua essência transcendente não pode ser representado, mas a natureza humana de Jesus, que ele recebeu de sua Mãe, é passível de representação figurativa.

A forma humana de Cristo está misteriosamente ligada à sua essência Divina.
O Verbo não é meramente a Palavra, ao mesmo tempo eterna e temporal de Deus; é, também, a sua Imagem. O Verbo reflete Deus em todos os níveis de manifestação. A Imagem representa a projeção última da descida do Verbo Divino à terra.

Tem um texto do Concílio de Nicéia (787 d. C) que diz: “O Verbo indefinível do Pai definiu-se a Si Mesmo, fazendo-se carne por Ti, ó Geradora de Deus. Reconduzindo a imagem de Deus manchada, à sua forma primordial, Ele infundiu-lhe Beleza Divina. Reconhecendo e confessando isto, nós imitamos em nossas obras e nossas palavras”.

Dionísio, o Areopagita (imagem ao lado), demonstra o princípio do simbolismo das imagens: “A tradição, assim como os oráculos divinos, oculta o que é inteligível sob o que é material, e o que está além de todos os seres, sob o véu desses mesmos seres, dá forma e figura ao que não tem forma nem figura, e através da variedade e da materialidade desses emblemas, torna múltiplo e composto o que é essencialmente único, simples e incorpóreo” (“Dos Nomes Divinos”– Obra de Dionísio, no século V).
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