sexta-feira, 22 de junho de 2012

OS ÍCONES E AS IMAGENS V

O cristianismo revelou seus mistérios num mundo de caráter profano; sua luz “brilhou na escuridão”, mas nunca conseguiu transformar inteiramente o ambiente no qual se expandiu. A Arte Cristã revela isto. Há um foco na pessoa do Salvador; isto exigiu uma arte figurativa, uma mistura entre o sagrado e o “mundano”.

A arte de inspiração verdadeiramente cristã deriva de imagens, de origem milagrosa, do Senhor Jesus, da Virgem Mãe, encarna uma sabedoria primordial que responde às suas verdades primordiais.

O quadro principal da arte cristã é a Liturgia. A Liturgia, em si, apresenta-se como obra de arte, que abrange vários níveis de inspiração. Seu centro é a  Eucaristia que realiza a mais perfeita e misteriosa transformação. Há a transfiguração pela luz da graça!

A Liturgia determina a ordem arquitetônica e a disposição das imagens sagradas. O mais nobre dos ofícios postos a serviço da arte sagrada é o da ourivesaria, pois é responsável pelos recipientes sagrados e pelos instrumentos rituais. Há um caráter solar nesta arte, que é a importância da luz e do brilho na Liturgia.

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terça-feira, 19 de junho de 2012

OS ÍCONES E AS IMAGENS IV

Numa figura santa que representa a pessoa iluminada, os cinco sentidos são simbolicamente representados e se interrelacionam. Os ouvidos ouvem a Palavra de Deus, o nariz sente seu perfume, a boca a louva, as mãos apontam para a sua Beleza, Bondade e Verdade e os olhos contemplam o mistério.

O Ícone mostra uma versão cósmica de eventos vistos na eternidade e, portanto, é indiferente à transitoriedade do tempo. O espaço é concebido como uma série de níveis metafóricos no mundo do espírito.

A Iconografia é uma arte teológica que consiste na visão e no conhecimento de Deus. Deve ser fiel ao mundo visível e também a Deus, que não pode ser reduzido à representação. Nem a arte nem a teologia podem criar um Ícone sem a dupla responsabilidade: ser fiel ao mundo visível e também fiel a Deus, que não pode ser reduzido à representação. O Ícone é o resultado de uma longa tradição de meditação e elaboração de aperfeiçoamento de técnicas de pintura e possui rica teologia de formas e cores estreitamente relacionada com outras formas de teologia. Os temas vêm das verdades da fé e não podem  ser sujeitos à especulação intelectual. O Ícone revela a realidade espiritual que está além de toda expressão verbal.

Neste mundo absorto em si mesmo, o Ícone ensina a receptividade do outro mundo como segredo da felicidade e nos convida a criar uma visão interior; muitos Ícones usam cumes de montanha como símbolo de elevação e proximidade de Deus e a porta como lembrete de revelação. Ele mostra diversos níveis da existência. Expressam o progresso da alma.

Imagem: Encontro de São Paulo com Cristo, ícon na Abbey Church.

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segunda-feira, 18 de junho de 2012

OS ÍCONES E AS IMAGENS III

Os Ícones revelam a espiritualização da matéria como reflexo da Encarnação, o revelar-se de Deus no Universo. Usavam material natural porque acreditavam que tinham dentro de si bem combinadas as energias divinas e terrenas que influenciavam as substâncias vegetais e minerais.  Pintar um Ícone era efetuar uma transformação da matéria, é recuperar uma visão sacramental do mundo.

Não é uma mera arte ou tarefa ligar cores, mas sim criar a irradiação do reino divino, cujo símbolo maior, no mundo físico é a Luz. A luz e suas cores simbolizam o princípio da unidade dentro da multiplicidade. Por exemplo, nos Ícones a veste que toca o corpo venerável irradia energia e luz.
Há, também, no Ícone a sutil geometria das formas puras: curvas (círculo), verticais e horizontais (quadrado) e diagonais (triângulos). Elas estão entrelaçadas em um conjunto harmonioso. É a linguagem da geometria sagrada.

Aparece o nome da pessoa sagrada. A palavra faz parte integrante do desenho e parte essencial da linguagem visual.

Os dedos e mãos também tem significado especial: abençoam, rezam e apontam para Deus. Os rostos não são retratos comuns, mas descrevem a presença divina no ser humano. As cabeças nunca são pintadas de perfil, pois a Palavra de Deus deve ser recebida face a face. O alto da cabeça tem forma aproximada de um círculo, que é o símbolo da perfeição,  concórdia, totalidade do que é santo, Deus.

A arcada superciliar forma uma ponte sobre o topo do nariz, e os olhos são moldados com cuidado para se harmonizarem com os contornos  da cavidade ocular. A linha do septo nasal termina em uma ponta oval e é contínua com as narinas. A parte inferior da orelha está sempre descoberta, pois a pessoa está ouvindo.

Imagem: Christ Pantocrator, Hagia Sophia (1185-1204)
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sexta-feira, 15 de junho de 2012

OS ÍCONES E AS IMAGENS - I I

Bizâncio (hoje Istambul), Alexandria, Antioquia e Éfeso são cidades que se tornaram grandes centros culturais e fizeram evoluir a arte cristã primitiva que usava a linguagem dos símbolos, a narrativa veterotestamentária e a reinterpretação de imagens pagãs. Há uma força espiritual gerada pelos grandes Concílios dos primeiros séculos que debateram e definiram diversos dogmas da fé cristã. O Concílio de Éfeso proclama a virgem Maria como Theotókos, Mãe de Deus.

Houve um excesso de veneração que fez surgir a grande controvérsia Iconoclasta que agitou o oriente de 725 a 843. O que era o Iconoclasmo ou os Iconoclastas. Os que quebravam imagens. Em 726, os imperadores Leão III e Leão V proibiram o uso de imagens e ordenaram que fossem retiradas de lugares públicos e que fossem destruídas. O motivo era que as imagens se transformavam em ídolos e qualquer representação de Cristo em particular separava sua humanidade e sua divindade.

É de São João Damasceno (625-749) em sua obra: “Primeira Apologia contra os que atacam as imagens divinas”, que vem a afirmação que os Ícones nos relatam em figuras o que os Evangelhos nos contam em palavras. É uma teologia visual ou as Sagradas Escrituras em quadros.

O Ícone nunca pode ser uma pintura subjetiva, pois deve identificar-se e estar ligado com uma tradição. Pintar é uma disciplina de dedicação e humildade. Os que o faziam jejuavam e faziam exercícios espirituais em preparação para o trabalho. Iconógrafo significa alguém que escreve, não pinta Ícones. A técnica do desenho assemelha-se à da caligrafia. A imagem precisa ser moldada por meio de configurações sutis e padrões geométricos.

Imagem: Ícone da Virgem de Vladimir - Séc. XII

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sexta-feira, 1 de junho de 2012

OS ÍCONES E AS IMAGENS - I

“Eu vi, escreveu São João Damasceno, a imagem humana de Deus e minha alma está salva”


A arte é essencialmente forma; para que uma obra de arte seja qualificada de arte sagrada não basta que seus temas derivem de uma verdade espiritual; é necessário que sua linguagem testemunhe e manifeste a sua origem. Toda forma transmite uma qualidade de ser. Os ícones querem ser um instrumento de oração e contemplação.

Ícone (do grego eikon) quer dizer imagem. O mundo da arte entende como figura artística. O mundo religioso compreende como pintura religiosa, quase sempre em retábulos de madeira, de origem bizantina, grega ou russa. Grandes ou pequenos os ícones, na liturgia oriental desempenham um papel mais significativo e forte do que as imagens do rito romano do ocidente. Assim como se acredita que os santos exercem poderes benéficos para o que crê, assim também os Ícones governam todos os acontecimentos importantes da vida humana e são considerados poderosos instrumentos de graça.

Uma antiga tradição descreve São Lucas como o primeiro pintor de Ícones. São atribuídos a ele vários Ícones primitivos da Virgem e o Menino. Há Ícones que o descrevem em frente ao cavalete com um Anjo guiando-lhe a mão. Esta tradição revela que os Ícones são contemporâneos aos Evangelhos.

Os Ícones mais antigos são do século I a.C ao Século II d.C, são retábulos remanescentes do período Greco-romano; em sua maioria encontrados no povoado de Fayum, no delta do Nilo, no Egito. E estes Ícones já vão caracterizando um estilo: cabeças do tamanho natural, pinturas naturalistas, expressão vigorosa do rosto para idealizar espiritualmente.
Os Ícones mais antigos que chegaram até nós  vêm do mosteiro de Santa Catarina, no monte Sinai, e de outras localidades do Egito. São dos séculos V e VI.  São pinturas feitas com têmpera de ovo e cera para ligar as cores. Pinturas feitas por pessoas profundamente religiosas sob a direção de um mestre. Havia um ritual de bênção para se iniciar o trabalho, pois estava presente a consciência que seria um objeto de veneração especial dos fiéis. Ao serem levados para o templo, os Ícones também recebiam uma bênção especial, o que lhe conferem o direito de ter um lugar apropriado no santuário. Na liturgia oriental os Ícones são incensados, levado em procissão e venerados pelos fiéis. Nos lares ocupam lugares especiais.

Imagem: São Lucas, ícone russo do século 18

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