quinta-feira, 29 de março de 2012

Bloco de ideias para compreensão de alguns conteúdos do Curso de Espiritualidade

A mística nos dá um modo singular de pensar a existência e com isto podemos falar de um pensamento místico, de uma filosofia mística que perpassa a experiência religiosa. Nela a experiência se articula e faz uma ponte entre o mundo vivencial e o mundo da fala. Mas não podemos esquecer que a palavra mística sinaliza essencialmente uma experiência.

Não é fácil falar sobre mística, porque é perseguir aquilo que se subtrai, mas é estar sempre na dinâmica de alcançá-lo. É a busca de Deus. É querer falar com a língua dos Anjos... Quem garante que alguém quer ouvir, quem garante que alguém vai entender? É como falar sobre a experiência de se ter uma dor intensa. O outro entende o que é a dor, porém não sente a dor que você sente. De forma semelhante vive o místico a sua experiência; para ele há uma evidência, mas não para o outro.

Mística é a profunda experiência de união do eu com o Todo(o Divino). Este encontro possui um potencial místico que salta para fora e faz uma ponte de ligação com todos os detalhes da existência. É unidade, presença, felicidade, vida, morte, amor e tempo.

Mística possui uma força que visa a união, o amor a todos os seres e abre as experiências humanas para viver positivamente.

Ser místico não é viver numa passividade, mas sim no movimento de perceber o Encantamento do Inefável.

É muito difícil encontrar um nome para o Todo; por isso os místicos se afinam mais com uma linguagem poética. A linguagem poética não fecha-se no círculo de uma definição, mas sugere, representa, faz alusão em vez de uma denominação exata. O Todo aparece sob muitos significados. Podemos dizer Deus, o Divino, o Absoluto... Podemos sempre dizer com reverência quando, através da linguagem, ficarmos maravilhados. A linguagem é o lugar onde o místico se depara com a prece. É a comunicação de sua experiência com o Divino.

Continua

quarta-feira, 21 de março de 2012

A espiritualidade do Oriente e do Ocidente - 2

Tornar-se Um em Si mesmo

A mística do cristianismo oriental

“(...) descrevem uma Mística da Unidade, o que muitas vezes fazem numa linguagem erótica, porém, antes de tudo, plenamente filosófica, pela qual, segundo eles, o homem realiza a experiência de  união. Nesta união, deus é vivenciado não como um ser diante de nós, mas como o fundamento de todo ser, ou seja, vivencio a unidade na origem e não pergunto a quem estou unido. É simplesmente uma experiência que me eleva acima da dualidade, que me torna UM comigo mesmo. E, ao refletir sobre isto, constato que sou UM com Deus, a origem de tudo. UM com todos os homens e com o meu próprio ser. O caminho para a unidade não é psicológico, e sim espiritual. Ele conduz à deificação do homem: quando Deus, com sua natureza, infiltra-se no homem, unifica tudo que o homem costuma vivenciar de modo dividido e internamente conflituoso.(...) Irineu, Bispo de Lion ( 135-202) entendia a humanização de Deus como sendo a própria deificação do humano. É dela a frase: “A glória de Deus é o humano vivente, e a vida do humano é a visão de Deus”. O homem chega a si mesmo quando se une à imagem de Deus; assim a glória de Deus se reflete no homem que vivifica” (cfr. pág 39 a 50).

Tornar-se UM no TU divino

A Mística do cristianismo ocidental

“Todo humano deseja intensamente amar e ser amado. No amor experimentamos o encantamento e a plenitude, mas também a decepção e a mágoa. Ansiamos, então por um amor maior que o amor humano, que ultrapasse e, ao mesmo tempo, inclua as nossas experiências da plenitude e da decepção. É, enfim, o anseio por um êxtase do amor em Deus. Esse místico amor divino não é uma oposição ao amor humano, e sim algo que o permeia e purifica” (cfr. pág 51 a 102 ).

Continua

quarta-feira, 14 de março de 2012

A Espiritualidade do Oriente e do Ocidente - 1

INTRODUÇÃO
Inicio aqui umas reflexões onde coloco algumas aproximações entre a tradição espiritual oriental e ocidental. Estudar e conhecer  a Espiritualidade nos dá um oxigênio para uma reflexão teológica, para nossas vivências e práticas. O que é a Espiritualidade será sempre a pergunta do humano religioso. É a mesma coisa de perguntar: quem é Deus? Quem sou eu?  

O oriente quando fala de espiritualidade fala no seu aspecto místico, orante, contemplativo e verificativo; a espiritualidade é vista a partir do Espírito, deixar-se transformar num ser sagrado. A experiência espiritual passa pela mediação do conhecimento: experimentar, conhecer e depois falar.
O ocidente se preocupa mais com o “ethos”, isto é, o humano deve dar conta do espiritual a partir de valores e códigos religiosos. Ser espiritual significa ser ético. O humano ocidental é habituado primeiro a fazer o bem para depois dizer que é Deus que age em sua vida.

O oriental primeiro abraça o divino e depois, lado a lado com o mistério, parte para as práticas.
No ocidente a busca espiritual é mais doutrinal, é mais estudo.

No oriente é um conhecer intelectual mais experiencial. É saber o que se conhece. João Evangelista escreve a partir da experiência que teve de Deus. Gregório Nazianzeno diz: “Quem não sente a experiência de Deus é como um cadáver que é vestido, mas não sabe que está vestido”.

O ser espiritual é aquele que fala da experiência que tem de Deus. Quem não faz um caminho espiritual não pode falar de Deus. Tanto para o oriente como para o ocidente, espiritualidade não é qualquer coisa que alimenta a vida, mas é Alguém. É o sentimento de uma presença. Deus não é uma experiência filosófica, mas um fato de Amor.

O ocidente gosta de “fazer espiritualidade”, isto é, evidenciar movimentos, criar eventos espirituais e um mar de literatura edificante.

O oriente diz que não basta apenas fazer, mas pregar a espiritualidade e ensiná-la.
No ocidente Deus é conhecido a partir de nós; não  conhecemos  Deus como Ele é, assim como nós nos conhecemos. Há uma busca da espiritualidade para encontrar-se.

No oriente se conhece a Deus mais que a si mesmo. Mesmo com todo limite humano busca-se a substância de Deus e a energia de Deus. Esta é a alma de todo movimento espiritual do oriente.  O Sagrado sai de si, vem a nós e nos transforma. Fala-se mais do Espírito. É um contato com o Espírito, um contato que acende!  São Basílio Magno diz: “Nós conhecemos Deus em suas energias”. A essência de Deus é o Santo dos Santos que permanece escondido.

No ocidente há também uma mística profunda; a mística é um impulso para determinar projetos pessoais e comuns, para motivar grupos, criar belos textos espirituais.

No oriente, a mística leva a mente a contemplar; quanto mais contempla mais encontra a sua natureza divina.

No ocidente conhecer é amar mais; no oriente conhecer é comunhão com o divino. Tanto no oriente como no ocidente, o humano é imerso no tempo e no espaço, por isso concebe tudo no tempo e no espaço. Mas Deus está além do tempo e do espaço, por isso o humano não consegue enquadrá-lo. Deus é além de tudo o que existe. Quando se olha o sol ele cega. O excesso de conhecimento de Deus pode cegar. Deus é além do ser em si mesmo. A espiritualidade é sempre um estar diante desta verdade: união do humano com o divino e do divino com o humano para uma iluminação da existência. É criar uma disposição de espírito: Deus se revela à vida! É preciso estar nesta disposição constantemente numa aventura que tem início, mas não tem  jamais um fim. Deus não se esgota.

A tradição oriental chama isto de experiência apofática. O que é o apofatismo? É a via teológica que se realiza por negação; que se aproxima de Deus pelo indizível e pelo inacessível, pelo inefável. Este não é Deus... Deus é muito mais! A nossa experiência é muito limitada, Deus a supera. Ele é fora de qualquer conceito, vai além do conceito. Deus é potência, Deus é força! Esta experiência apofática é feita numa atmosfera contemplativa.

quinta-feira, 8 de março de 2012

SANTA CLARA, MODELO FORTE DE MULHER

Clara de Assis não é importante somente como a companheira de São Francisco, mas é um forte exemplo do Movimento Religioso Feminino dos séculos XII e XIII. Exerceu uma influência muito grande entre as mulheres de seu tempo a tal ponto que Hortolana, sua mãe, Inês e Beatriz, suas irmãs de sangue, Inês de Boêmia, e tantas mulheres a seguiram. Donato de Besançon foi o primeiro a escrever uma Regra de Vida para mulheres que viviam nos mosteiros; e a partir daí todas as Regras, por assim dizer, femininas, ou compilações de Regras, são feitas por homens. Clara foi a primeira mulher a escrever uma Regra própria para mulheres. Não temos o original com a chancelaria pontifícia, mas nos restou o texto de Clara com sua limpidez original.

 A firmeza de Clara causa certa perplexidade. Ela conduz vidas! Escreve um texto tendo como pano de fundo São Bento e a Regra não Bulada de Francisco; mas não deixa de ser original. Seu tempo é o tempo litúrgico. Seu tema mais importante é a Pobreza. Clara causa impacto! Pode uma mulher e seu grupo de mulheres viverem sem nada? Podem sim! Se há um intenso amor existe um desatrelamento do jurídico e a entrega à algo mais substancial: não preciso ter nada pois tenho uma riqueza essencial, a capacidade de amar o Amado!

Clara sempre falou mais que Francisco sobre a Pobreza. A sua fraternidade feminina de São Damião viveu radicalmente pobre e esta é a sua original irradiação. Clara pede o direito de não ter nenhum direito; quer ser livre para amar. É como se voltasse às fontes do feudalismo: autogerir-se!

Clara viveu tão coerentemente a sua vida que o Mosteiro passa a ser um lugar de irradiação: não é reclusão entre paredes, mas sim um ideal que voa para o mundo. Um ideal sai pelas frestas de São Damião e ganha corações. Em Clara todos podemos ser de Deus; todos podemos ser nobres de alma através de seu amor. Santa Clara, abençoai todas as Mulheres hoje, no dia dedicado a elas!

8 de março de 2012 - Dia Internacional da Mulher

quarta-feira, 7 de março de 2012

A propósito do Jubileu de Santa Clara - VII

“Pois o próprio Senhor nos colocou não só como modelo, exemplo e espelho para os outros, mas também para nossas irmãs, que ele vai chamar para a nossa vocação, para que elas também sejam espelho e exemplo para os que vivem no mundo. Portanto, se o Senhor nos chamou a coisas tão elevadas que em nós possam espelhar-se as que deverão ser exemplo e espelho para os outros (...). Se vivermos de acordo com essa forma, daremos aos outros um nobre exemplo e vamos conquistar o prêmio da bem aventurança “

 “(...) Repetidas vezes fizemos nossa entrega voluntária à nossa santíssima Senhora Pobreza, para que, depois de minha morte, as Irmãs que estão e as que vierem não possam de maneira alguma afastar-se dela(...).  Por isso, de joelhos dobrados e prostrada de corpo e alma, recomendo todas as minhas Irmãs atuais e futuras à santa mãe Igreja, ao sumo pontífice e principalmente ao senhor cardeal que for encarregado da Ordem dos Frades Menores e de nós, para que, por amor daquele Deus que pobre foi posto no presépio, viveu pobre no mundo e ficou nu no patíbulo, faça com que sempre o seu pequeno rebanho, que o Senhor Pai gerou em sua Igreja pela palavra e exemplo do nosso bem aventurado pai São Francisco para seguir a pobreza e a humildade do seu Filho dileto e da Virgem sua gloriosa Mãe, observe a santa pobreza que prometemos a Deus e a nosso bem aventurado pai Francisco e nela se digne encorajá-las e conservá-las”

 “ No Senhor Jesus Cristo, aconselho e admoesto a todas as minhas Irmãs, presentes e futuras, que sempre se empenhem em seguir o caminho da santa simplicidade, da humildade, da pobreza e também uma vida honesta e santa, como aprendemos de Cristo e de nosso bem aventurado pai Francisco desde o início da nossa conversão. Foi dessas coisas que, não por nossos méritos, mas só por misericórdia e graça de quem o deu, o Pai das misericórdias, se espalhou o perfume da boa reputação, tanto para os de longe como para os de perto. E amando-vos umas  às outras com caridade de Cristo, demonstrai por fora, por meio das boas obras, o amor que tendes dentro(...)”

quinta-feira, 1 de março de 2012

A propósito do Jubileu de Santa Clara - VI

Não é um texto simples, tem a densidade dos místicos e o estilo próprio de uma literatura espiritual direcionada às contemplativas. É doutrina segura, experiência viva, maravilhosa fidelidade ao Senhor Jesus e a Francisco. É o coração de Clara , um aceno autobiográfico de uma vida que sabe que está deixando uma grande herança. Vejamos alguns trechos deste Testamento:

“(...) Reconhece a tua vocação. O Filho de Deus fez-se para nós o Caminho, que nosso bem aventurado pai Francisco, que o amou e seguiu de verdade, nos mostrou e ensinou por palavra e exemplo.”

“Pois quando o santo, logo depois de sua conversão, sem ter ainda irmãos ou companheiros, estava construindo a igreja de São Damião, em que foi visitado plenamente pela graça divina e foi impelido a abandonar totalmente o mundo, numa grande alegria e iluminação do Espírito Santo, profetizou a nosso respeito aquilo que o Senhor veio a cumprir mais tarde”.

“Nisso nós podemos considerar, portanto, a copiosa bondade de Deus para conosco, pois, em sua imensa misericórdia e amor, dignou-se contar essas coisas sobre nossa vocação e eleição”.

Imagem de Colantonio del Fiore

Continua