quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

A propósito do Jubileu de Santa Clara - II

Clara de Assis foi a primeira mulher na história da Igreja a escrever uma Regra de Vida para suas Irmãs. Por muitos anos, as Clarissas não possuíam uma Regra própria, original, bem a jeito do seu inconfundível Carisma. Não tinham mesmo? Não era bem assim. Viviam o Evangelho radicalmente, escutando o Mestre e refazendo a sua Boa Nova. Seguiam exemplo e ensinamentos de Francisco. Amavam os frades primitivos numa forte experiência fraterna. Existe Regra maior e melhor? Mas, às vezes, é difícil para o jeito canônico perceber Regra de Vida na naturalidade da palavra encarnada. O Concílio de Latrão, de 1215, proibiu a fundação de novas Ordens. Clara e Clarissas eram uma clara novidade. Como poderia uma mulher e suas mulheres companheiras viveram sem uma Regra que tivesse um dedinho do canonista? Tiveram que aceitar a forte e bela tradição da Regra Beneditina. Clara aceitou, mas pediu muito ao Papa Inocêncio III que as deixassem viver a Pobreza do modo mais radical possível. Conseguiu o “Privilegium Paupertatis”. Santa Regra de Vida viver sem estar presa a nada! Livre de tudo! Possuindo apenas a única riqueza necessária: a capacidade de amar!


Clara sonhava uma Regra parecida com a Ordem dos Frades Menores. Não como cópia, mas como um forte senso de unidade. Ela e Francisco já haviam trocado alma, conversas, ideias, bilhetes e certezas: é preciso escrever uma Forma de Vida na qual se garanta a mais pura observância da perfeição evangélica. Frades e Clarissas assegurando um único projeto de vida. E Francisco, então, escreveu uma Forma de Vida para Santa Clara que diz assim: “Visto que por divina inspiração vos fizestes filhas e servas do altíssimo e sumo Rei, o Pai celeste, e desposastes o Espírito Santo, escolhendo viver segundo a perfeição do santo Evangelho, quero e prometo, por mim e por meus irmãos, ter sempre por vós diligente cuidado e especial solicitude, assim como tenho por eles”( Cfr. FF pág. 128). Esta foi a Regra primeira e de um cuidado amoroso e originalidade fraterna impressionante! E Clara escreve em seu Testamento: “Para maior segurança, tive a preocupação de conseguir do senhor Papa Inocêncio, em cujo tempo começamos, e dos seus outros sucessores, que corroborassem com os seus privilégios a nossa profissão a santíssima Pobreza, que prometemos aos Senhor e ao nosso bem-aventurado pai, para que, em tempo algum, nos afastássemos dela de maneira alguma” (TestC 42). Estas palavras de Clara e Francisco eram a base da sonhada Regra definitiva. Mas isto não foi conseguido de imediato. Entender a força originante de uma Forma de Vida demora anos!

Continua

quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

A PROPÓSITO DO JUBILEU DE SANTA CLARA

O  ano do Jubileu de Santa Clara nos ajuda muito a pensar a presença de  Santa Clara  há 800 anos,   não apenas como uma bela figura da história, mas  como a  grande oportunidade de  conhecê-la,  de sabermos da  sua   importância para o franciscanismo, de como dizia  seu biógrafo,  Clara  como uma grande “ Mestra de Vida”.   Uma Mestra de Vida nos dá, naturalmente, normas para viver.  O que aprendemos com Clara?

Ela é mãe espiritual porque  tem um pai espiritual, Francisco de Assis.
Mãe e pai espirituais geram vida e relações. Sentimos que todos somos filhos, filhas,  irmãos e irmãs de Clara. Ela é mestra de vida porque fundamentou  sua existência no amor esponsal a Cristo. Ele é o modelo vivente, o amado, o espelho. Maria é modelo  de mãe guardando a fecundidade da Palavra. A Igreja é a mestra e mãe, guia segura de seu caminho. A fraternidade é a direcionada atenção de seus afetos e cuidados. A minoridade é o seu jeito de abraçar a verdadeira investidura da simplicidade, da desapropriação, do desapego, e da renúncia dos cargos de mando. A clausura é o seu coração recolhido no amor e aberto para o mundo. A alegria é sua boa energia, a transparente fala do sorriso perene, rosto feliz da mulher santa e  realizada. A prece é a sua linguagem de amor. A pobreza é a sua perene partilha. A castidade é o seu amor espalhado no cuidado das Irmãs e por toda parte do mosteiro. A obediência é a sua atenciosa escuta da vontade do Amor e do Amado.  A sua mística é fazer-se uma só com o Divino numa superação de si mesma para ser sempre Irmã, Esposa e Mãe. A sua perseverança é assumir a vida de cada dia como um lavar os pés das irmãs na humildade e serviço. A santidade brotou naturalmente: uma clara santa brilhando, inundando o mundo em chamas de luz que saíram das frestas das pedregosas paredes de São Damião e clareou a nossa vida.

Para conhecermos Clara  e fundamentarmos o que falamos acima, temos que  beber na fonte de suas Fontes: escritos, biografias, documentos escritos a respeito da sua vida e experiência.

Continua

segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

2012: MAIS UM JUBILEU DE SANTA CLARA!

Neste ano quero escrever um pouco mais sobre Clara de Assis aqui no meu blog. Ela é a escondida Santa Medieval que sempre está no centro das atenções. A história não passa indiferente a Clara de Assis. Tanto ela como Francisco de Assis são modelos humanos inspiradores para um modo de existir no mundo. Santa Clara é a mulher dos passos decididos, da busca radical do Amor, de viver em silêncio e no mais livre privilégio de não ter bens materiais por possuir o Essencial que satisfaz o coração humano. A mulher que simplifica a vida e cuida da vida comum como mãe e irmã zelosa.

Modelo de conversão verdadeira, isto é, não só mudar de mentalidade, mas mudar de lugar; Clara saiu do palácio e do status de dama nobre e foi morar no Evangelho. Quando se passa para o lugar do Evangelho, toda a casa da existência tem uma nova reconstrução. Quer ser seguidora do jeito de Francisco, mas ambos encontram um modo próprio; ele sai itinerante pela casa do mundo; ela permanece cuidando do que a casa tem de mais profundo: alicerce, inspiração, convivência, proximidade, silêncio, inspiração original, fé viva, fraternidade que transforma, pobreza como ética, estética e coerência.

Para nós, acelerados e consumidores modernos, é complicado pensar que alguém renuncie tudo e vá viver num mosteiro. Esta proposta de vida não é negação nem anulação, mas é a natural liberdade de quem abraça bens superiores. Nós entendemos de bens efêmeros que preenchem nossas necessidades imediatas. Clara entende de desejo, de coração feliz, pleno, realizado. Ama o Amado, o Deus Pobre e Simples. Renuncia a fama da corte de Assis e assume ser feliz, não por um momento, mas por toda vida. E neste ano é isto que estamos comemorando: Oitocentos anos de uma vida encantadoramente feliz! Oitocentos anos de passos ligeiros rumo a um novo modo de vida. Há 800 anos muitos achavam que isto era loucura... estavam enganados! Era uma lógica de Amor que se chama Vocação!