quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

O NATAL REENCANTA A VIDA

É tempo de Natal, o nosso coração e o mundo estão em festa porque Deus se faz mundo, toma forma de humano e vem pisar o nosso chão, caminha conosco, veste-se de simplicidade e apresenta-se de um modo humilde para dizer: Paz a todos de vontade boa!

Como a mais bela paisagem de todos os tempos, uma Criança Divina sorri a todos no presépio, atraindo a atenção e mostrando que o Amor é proximidade e vizinhança e dizendo para nós: eu me faço um outro, e revelo o humano de um Deus e o Divino do humano.

Por isso, a vida se enfeita de luz e cores porque há no ar algo novo, um jeito novo, uma linguagem nova. Nosso Deus não é um Deus difícil de se encontrar, mas sim um Deus leve, lírico, amoroso, sereno, poético, terno, familiar, e faz alegria quando chega.

Por isso vivemos esta espera e a nossa vida se reencanta. Por causa deste Deus Menino, a vida vale a pena, o Amor tem nome, a família ganha sacralidade, nós trocamos presentes porque ganhamos o maior de todos os presentes: o Amor Divino pulsa na carne e no coração de todas as pessoas!

Por tudo isto quero juntar as melhores palavras, o melhor reconhecimento, a melhor gratidão a vocês que caminharam comigo, neste ano, nas reflexões, aqui neste Blog. Agradeço a sintonia, o retorno, as críticas, as contribuições, os questionamentos, as palavras de incentivo. Amemo-nos com este jeito jeitoso que este Deus Menino nos ensinou a amar! Feliz Natal e um Maravilhoso Ano Novo!

Frei Vitório Mazzuco, OFM

terça-feira, 20 de dezembro de 2011

ESPIRITUALIDADE PARA UMA VIDA VIRTUOSA - FINAL

Para encerrar esta série de reflexões sobre Espiritualidade, gostaria de transcrever um texto. Lembro de uma música de Milton Nascimento cuja letra diz assim: “Certas canções que ouço/ cabem bem dentro de mim/ Que perguntar carece/ Como não fui eu que fiz?” Pois é... gostaria de ter escrito este texto que transcrevo em seguida. Ele não quer ser uma contraposição à Religião, nem é uma crítica a Religião, mas sim é a confirmação de que as religiões precisam da Espiritualidade e da Mística.


DIFERENÇAS ENTRE RELIGIÃO E ESPIRITUALIDADE

Religião não é apenas uma, são centenas de instituições.
Espiritualidade é apenas uma – uma percepção, uma sensibilidade.
Religião é para os que ainda dormem. Espiritualidade é para os que despertam.
Religião é para aqueles que necessitam que lhes diga o que fazer, que ainda necessitam de ser guiados.
Espiritualidade é para os que prestam atenção à sua Voz Interior.
Religião tem um conjunto de regras dogmáticas
Espiritualidade te convida a raciocinar sobre tudo.
Religião não indaga, nem questiona.
Espiritualidade questiona tudo.
Religião cria dogmas. Espiritualidade descobre.
Religião pode impor, ameaçar, amedrontar.
Espiritualidade te dá Paz Interior.
Religião fala de pecado, de demônio e de culpa.
Espiritualidade te diz: aprende com o erro.
Religião reprime, pode te fazer falso.
Espiritualidade transcende e te faz verdadeiro!
Religião institucional nem sempre é Deus, é meio.
Espiritualidade é Tudo e, portanto, é Deus.
Religião é humana, é uma organização com regras.
Espiritualidade é Divina, com princípios naturais.
Religião é causa de divisões. Espiritualidade é fator de união.
Religião te busca para que nela acredites. Espiritualidade – tu tens que buscá-la.
Religião segue os preceitos de um livro sagrado. Espiritualidade busca o sagrado em todos os livros
Religião se alimenta da anti-crítica, da consciência pesada, dos clichês mentais do medo.
Espiritualidade se alimenta da Confiança e da Fé.
Religião faz viver restrito ao pensamento estereotipado.
Espiritualidade faz Viver na Consciência
Religião se ocupa com parecer, conforme modelo.
Espiritualidade se ocupa em Ser.
Religião alimenta ego. Espiritualidade nos faz transcender nosso ego.
Religião nos leva a renunciar ao mundo, independente do que é bom ou mal, natural ou artificial.
Espiritualidade nos faz viver a Obra de Deus, não renunciar a Ela.
Religião é adoração. Espiritualidade é meditação.
Religião sonha com glória e com paraíso idealizados.
Espiritualidade nos faz viver a gloria e o paraíso aqui e agora.
Religião vive no passado e no futuro.
Espiritualidade vive o presente.
Religião enclausura nossa mente e coração.
Espiritualidade liberta nossa consciência e sentimento.
Religião fala de vida eterna como recompensa.
Espiritualidade nos faz consciente da Vida, agora e no futuro.
Religião promete para depois da morte...
Espiritualidade é, transcendendo o fenômeno natural da morte, encontrar Deus em nosso interior, desde já.

Prof. Dr. Guido Nunes Lopes

Outro texto sobre o mesmo tema, que transcrevo:


ESPIRITUALIDADE E RELIGIÃO   

Frei Betto

Espiritualidade e religião se  complementam mas não se confundem. A espiritualidade existe desde que o ser  humano irrompeu na natureza, há mais de 200 mil anos. As religiões são  recentes, não ultrapassam 8 mil anos de existência.

A religião  é a institucionalização da espiritualidade, assim como a família é do amor. Há  relações amorosas sem constituir família. Do mesmo modo, há quem cultive sua  espiritualidade sem se identificar com uma religião. Há inclusive  espiritualidade institucionalizada sem ser religião, como é o caso do budismo,  uma filosofia de vida.

As religiões, em princípio, deveriam ser  fontes e expressões de espiritualidades. Nem sempre isso ocorre. Em geral, a  religião se apresenta como um catálogo de regras, crenças e proibições,  enquanto a espiritualidade é livre e criativa. Na religião, predomina a voz  exterior, da autoridade religiosa. Na espiritualidade, a voz interior, o  “toque” divino.

A religião é uma instituição; a espiritualidade,  uma vivência. Na religião há disputa de poder, hierarquia, excomunhões e  acusações de heresia. Na espiritualidade predominam a disposição de serviço, a  tolerância para com a crença (ou a descrença) alheia, a sabedoria de não  transformar o diferente em divergente.

A religião culpabiliza; a  espiritualidade induz a aprender com o erro. A religião ameaça; a  espiritualidade encoraja. A religião reforça o medo; a espiritualidade, a  confiança. A religião traz respostas; a espiritualidade suscita perguntas. As  religiões são causas de divisões e guerras; as espiritualidades, de  aproximação e respeito.

Na religião se crê; na espiritualidade se  vivencia. A religião nutre o ego, pois uma se considera melhor que a outra. A  espiritualidade transcende o ego e valoriza todas as religiões que promovem a  vida e o bem.

A religião provoca devoção; a espiritualidade,  meditação. A religião promete a vida eterna; a espiritualidade a antecipa. Na  religião, Deus, por vezes, é apenas um conceito; na espiritualidade, uma  experiência inefável.

Há fiéis que fazem de sua religião um fim e se  dedicam de corpo e alma a ela. Ora, toda religião, como sugere a etimologia da  palavra (religar), é um meio para amar o próximo, a natureza e a Deus. Uma  religião que não suscita amorosidade, compaixão, cuidado do meio ambiente e  alegria, serve para ser lançada ao fogo. É como flor de plástico, linda, mas  sem vida.

Há que tomar cuidado para não jogar fora a criança com a água  da bacia. O desafio é reduzir a distância entre religião e espiritualidade, e  precaver-se para não abraçar uma religião vazia de espiritualidade nem uma  espiritualidade solipsista, indiferente às religiões.

Há que fazer das  religiões fontes de espiritualidade, de prática do amor e da justiça, de  compaixão e serviço. Jesus é o exemplo de quem rompe com a religião  esclerosada de seu tempo, e vivencia e anuncia uma nova espiritualidade,  alimentada na vida comunitária, centrada na atitude amorosa, na intimidade com  Deus, na justiça aos pobres, no perdão. Dessa espiritualidade resultou o  cristianismo.

Há teólogos que defendem que o cristianismo deveria ser  um movimento de seguidores de Jesus, e não uma religião tão hierarquizada e  cuja estrutura de poder suga parte considerável de sua energia  espiritual.

O fiel que pratica todos os ritos de sua religião, acata os  mandamentos e paga o dízimo e, no entanto, é intolerante com quem não pensa ou  crê como ele, pode ser um ótimo religioso, mas carece de espiritualidade. É  como uma família desprovida de amor.

O apóstolo Paulo descreve  magistralmente o que é espiritualidade no capítulo 13 da Primeira Carta aos  Coríntios. E Jesus a exemplifica na parábola do Bom Samaritano  (Lucas 10, 25-37) e faz uma crítica mordaz à religião em Mateus  23.

A espiritualidade deveria ser a porta de entrada das religiões.  Antes de pertencer a uma Igreja ou a uma determinada confissão religiosa,  melhor propiciar ao interessado a experiência de Deus, que consiste em se  abrir ao Mistério, aprender a orar e meditar, penetrar o sentido dos textos  sagrados.

Frei Betto é escritor, autor de Um homem chamado  Jesus (Rocco), entre outros livros.  


sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

ESPIRITUALIDADE PARA UMA VIDA VIRTUOSA – 31

No último item acima explicitado falamos do iter, o caminho. Vamos encerrar esta série de reflexão sobre a Espiritualidade com três elementos essenciais deste caminho. Precisamos vibrar mais com a nossa força espiritual e com a espiritualidade. Todas as espiritualidades são maravilhosas porque falam de verdades maravilhosas. Vamos, então, lembrar três elementos do caminho espiritual:

1. O INICIADO - Muitas religiões falam da Iniciação, o cristianismo católico fala dos sacramentos da iniciação; porém muitos entendem (e talvez esta seja a prática) a iniciação como preparar para o dia do batismo, para o dia da primeira comunhão, para o dia do crisma... e depois que passar este dia? Será que este tempo termina com a festa entre pais, padrinhos, amigos, parentes regada com cerveja e refrigerante, macarronada, frango e maionese? Não é esta a proposta de uma Pedagogia Iniciática. A Iniciação é tarefa para toda a vida, é a tarefa essencial de tornar-se plenamente humano, tornar-se cada vez mais espiritual no decorrer do dia a dia. É uma via interior. É um trabalho constante que tem um início, mas que está na contínua tarefa de aprender a aprender. É ser eternamente discípulo. O aprendizado é evolução; e está em todo momento religando a razão ao coração e vice versa. Liga a ciência à consciência, a efetividade à afetividade, a existência à essência. O Iniciado está no caminho do aprendizado e este caminho o leva a: ser, conhecer, fazer, conviver. Aprender é evoluir. Abre o olhar para si mesmo, para o Sagrado, para o Universo, para o outro e para o Grande Outro, o Mestre. Não só abre o olhar como leva à uma fantástica mudança. Muda o olhar para mudar o mundo. A iniciação educa para ser. Educa para que nunca esqueçamos que devemos ser seres de ligação entre Deus e o Ser Humano, entre Céu e Terra, entre Matéria e Espírito.

O Iniciado faz um real caminho da busca pela verdade. No “Eu sou” do Mestre vai burilando o seu “Eu sou”, a subjetividade profunda, a filosofia de identidade que o prepara para grandes tarefas comuns, que o prepara para o mundo e para o social. O Iniciado fortalece o espiritual. Vai a fundo nas opções e não se contenta com o discurso pseudo religioso da satisfação imediata. Ele é paciente e cuidadoso em chegar a verdade de si mesmo, de Deus e de todos os seres. Ao fazer bem o discurso do profundamente humano, a humanidade vê nele o divino. Existe sempre algo misterioso a ser descoberto. Espiritualidade é um passo a mais. Dar um passo a mais a partir de onde estamos. O Iniciado é o ser do caminho. Identifica tendências, segue indicações profundas. Procurar ser tudo o que puder ser de melhor. Não descansa nunca. O Iniciado sabe que a verdadeira transformação é quando torna-se fervorosamente o que se é.

2. O DESPERTO - É aquele que acorda o sagrado que dorme dentro de si. Traz para o visível carnal o invisível espiritual. Aproxima-se do mistério e escuta a fala audível do mistério. Não deixa de estar atento ao fio que liga céu e terra. Olha a vida a partir do espaço da sua profundidade, é o olho do anjo no olho humano. Vive num estado de alma e acorda a sua inteligência contemplativa. Desperta uma consciência pura. Faz de sua alma um espelho límpido que reflete a dimensão espiritual, que reflete algo que está para além da existência. Vive num estado de vigília para não perder esta sua essência. Como diz Teilhard de Chardin, é a antropologia da vastidão; um fenômeno humano espiritual. Não é suficiente ser eu, dentro de mim há algo maior que eu mesmo. É acordar este desejo mais íntimo que é o desejo da vida eterna, da vontade de Deus. É acordar o santo que está dentro de si. É dizer todos os dias: eu desejo a santidade! Comemorar o dia de todos os santos como o seu dia também. Quem vive a plenitude de um modo permanente é santo. O santo está em nós, é preciso despertá-lo. Não se forma um santo, mas se acorda a imagem e semelhança divina que está em nós.

Alguém viu a Alma? Existe algo em nós que não é corpo, que não é matéria. O ser humano é uma essência, uma alma existencializada. É uma maneira única de encarnar o amor de Deus no mundo. Cuidar da alma, cuidar do espírito é quando a gente se ultrapassa em direção ao outro. Isto é ser nobre e sagrado. É cada dia acordar perguntas em nós: quem sou eu? Qual a imagem do absoluto que me habita? Quem acorda para esta verdade sabe bem o que é a vida.

3. O CONTEMPLATIVO - Faz do tempo um templo. O caminho iniciático é passar do espaço tempo para o espaço templo. Recolhe. Silencia. Medita. Vê. Escuta profundamente. O falar e o pensar correto têm muito a ver com o contemplar. Deus é um grande intervalo (Fernando Pessoa) . É aquela pausa para refazer-se. Respirar. Expirar. Transpirar. Quando esvaziamos a mente, o cálice transborda. O contemplativo consolida uma plena atenção. É atento e presente. Nutre-se pelo aqui e pelo agora. É sempre um ser de encontros. Faz ressurgir a função de templo em cada momento. Ao conquistar Deus reúne todo o universo. O contemplativo faz uma prece com todos os elementos do mundo. Percebe o algo mais e o maravilhoso. Percebe Deus nas nuances da vida. Conhece o Ser que o faz ser.

O contemplativo tem o silêncio antes das palavras; o silêncio antes da comunicação; o silêncio antes da ação. Traz a fala da palavra interior. Tem a calma e silêncio de comunhão. Mais do que uma fala é o templo da presença. O contemplativo é filho do tempo e da eternidade; sempre está acordado para o que não morre.

CONTINUA

quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

ESPIRITUALIDADE PARA UMA VIDA VIRTUOSA- 30

Já ao término do nosso percurso, vamos elencar mais algumas virtudes vividas sob o filtro da espiritualidade franciscana. Durante os nossos encontros repetimos como um refrão: cada virtude puxa um encadeamento de outras virtudes, cada uma está implícita em muitas. Muitos destes conteúdos já contemplamos nas virtudes anteriormente citadas. Este é apenas um resumo de tudo o que refletimos. Vejamos:


CORDIALIDADE: Para a linguagem da espiritualidade e da mística, o órgão do conhecimento não é o intelecto, mas sim o coração. Nós só retemos em nossa mente aquilo que é filtrado pelo coração. O que toma o nosso coração toma conta de nosso corpo inteiro, da nossa vida, da nossa história e de nossas práticas. Nós somos o que colocamos em nosso coração. Quem não tem nada no coração não é ninguém. A cordialidade é acolher a vida, como diz Guimarães Rosa, “coraçãomente”. É receber alguém com boa energia do sentimento, do afeto, da delicadeza que está no coração. A pessoa cordial sente a vida pulsar em todos os detalhes. E recebe o outro como na visita que Maria fez a Isabel: faz vibrar o coração quando alguém chega. Encontrar-se é fazer vibrar a interioridade. “ Quem dá coração, tem corações!”

GRATUIDADE ( GRATIDÃO): É a capacidade de maravilhar-se diante de tudo o que se recebe da vida. Agradecer é reconhecer. É a afirmação de ser criatura, tão frágil, mas tão privilegiada. É estar encantado por tantos dons e bens recebidos.

FRATERNIDADE: A pessoa se firma e se define pelas suas relações qualificadas. Na fraternidade podemos viver a qualidade de nossas relações. Nas qualidades de nossas relações há sempre uma revelação. A fraternidade ajuda a abrir mão de interesses puramente egoístas. Uma coisa é viver junto, ser um agrupamento de pessoas; outra coisa é estar num grupo que tem uma consangüinidade espiritual, possui uma tradição que vem de longa data, tem espírito comum e objetivo comum. Mesmo vivendo dentro de uma estrutura ou de um instituição, assume com liberdade a corresponsabilidade de assumir uma causa pessoal filtrada pela causa de todos. A fraternidade é o lugar do relacionamento com o projeto comum, universal, vital, na vitalidade de um carisma que nos desafia a viver com uma identidade comum sem interferir na identidade pessoal. Temos um sangue biológico e um sangue espiritual. Este sangue espiritual é a força, a essência e o fundamento da vida que escolhemos para viver juntos.

PRUDÊNCIA: é agir com muita moderação, com muita sensatez, sem precipitação. Agir de um modo cauteloso, comedido, com plena atenção que evita ocasiões de erro.

RESPEITO: Sensibilidade para captar a verdade presente no diferente de mim mesmo. Olhar para alguém e ver a sua qualidade, o seu ritmo, a sua diferença a sua identidade única, sua tradição, cultura, bagagem e costumes. Acolher a capacidade do outro(a) que é única e capaz de acrescentar algo em minha existência. É dizer: “A minha alma engrandece por ter encontrado você!” É ser sal da terra segundo o jeito do Evangelho: sentir o gosto especial daquilo que tempera a minha vida.

HUMILDADE: Vem de húmus, isto é, a fecundidade que está no subsolo da vitalidade. A força escondida que faz tudo desabrochar. A capacidade de assumir a grandeza do próprio tamanho sem aparentar ser maior ou menor, mas sim ser a arte de ser o que se é. É a silencioso e oculta consistência interna que dá tempo para que tudo ganhe vida, floresça, desabroche. O humilde se submete à condição de ser um inútil que deixa transparecer a utilidade sem barulho. Tem a coragem de não aparecer, mas revelar mansamente o mistério e o valor da pessoa e de todas as coisas.

SIMPLICIDADE: É a transparência do humilde. O simples revela a força do humilde. Visibiliza aquilo que o humilde esconde, mas de um modo discreto. É gritante, mas não gritado. É a emergência do húmus. A simplicidade se apóia numa experiência profunda de vida e não precisa de publicidade. O simples é natural e faz fluir a vida. Como gosta de lembrar o Mestre Frei José Carlos Pedroso, OFMCap : simplicidade vem do latim simpliciter, pliciter, plicas = dobras, pregas. Uma saia pliçada é esteticamente linda mas difícil de lavar e de passar. Quando se cria uma dobra temos um aplique, duas dobras duplicam, três dobras triplicam...é preciso tirar as dobras, tornar fácil o caminho, afastar os obstáculos. Simplicidade é facilitar o caminho da vida; é descomplicar.

JUSTIÇA: Está ligado ao que refletimos sobre a solidariedade. É a virtude que induz a cumprir o que é reto, o que é devido como exigência de ordem e harmonia mandato. É fazer conscientemente o dever, é cumprimento, mandato. É a disposição permanente e dinâmica do bem valor. É a retidão de vida em consonância com a verdade que se abraçou.

UNIÃO: é arte de unir pedaços e moldar um mosaico que revela uma força comum. Um ícone de unidade; uma mandala de verdades unidas pelo mesmo laço. A virtuosidade vivida na união é a reunião do munus ( cum+munus ), isto é, o papel de cada um numa tarefa forte com a força de todos. É unir diferenças para criar laços, para criar um todo. A diferença é condição para criar a união. Se não houver o diferente, como criar? Não somos linha de montagem que produz tudo igual. Somos a riqueza diversificada de cada identidade que cria a unicidade.

ITINERÂNCIA: A palavra tem raiz latina iter que significa caminho, via, percurso, senda, meta, dar um passo, fazer estrada. É mobilidade, busca, dinamismo. Para a mística e a espiritualidade, tudo começa por um passo. O caminho se faz ao andar. É a mística de Santiago. É seguimento, imitação, entrar no ritmo dos passos do Valor Maior. São Francisco dizia: "A regra e a vida é esta: seguir e ensinamento e as pegadas de Nosso Senhor Jesus Cristo” ( cfr. Rnb 1) . Sempre é bom lembrar o mítico poema de Antonio Machado, poeta de Sevilha ( 1875-1939), que escreveu estes versos que estão em seu grande poema “Provérbios y Cantares”:

Caminhante, o caminho são tuas pegadas


E nada mais que pegadas;


Caminhante, não há caminho:


Faz-se caminho ao caminhar.


Caminhando, se faz caminho


E quando olhas para trás,


Verás a trilha que nunca mais


Voltarás a trilhar.


Caminhante, não há caminho,


Sobram apenas sulcos no mar”

Continua

segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

ESPIRITUALIDADE PARA UMA VIDA VIRTUOSA – 29

A Espiritualidade tem que falar divinamente do humano; falar em nome do Divino que habita o humano e que não pode ser violado, injustiçado, subornado, por nada, por nenhuma ideologia, por nenhum arranjo político, por ninguém. Ao fazer isso, a Espiritualidade presta um serviço incontestável à toda humanidade, aos humilhados e ofendidos, para que a sua dignidade e sacralidade seja respeitada. A Espiritualidade tem que acordar a denúncia profética, para que os opressores sejam julgados já na história, pela voz da própria consciência que é a voz de Deus falando e julgando de dentro dos corações ofendidos. A Espiritualidade deve ajudar a pessoa a conquistar e reconquistar a sua humanidade.


A Espiritualidade não pode falar de um Deus qualquer; mas de um Deus de nossos pais, dos profetas, de Jesus Cristo, de um Deus que não compactua com a iniqüidade. Um Deus onipotente e forte, Senhor do Cântico das Criaturas e de muita ternura para com o seu povo; um Deus que não permite que a vida seja destruída.

A Espiritualidade ajuda a voltar o olhar para o céu e encontrar ali este Deus que ensina a ver a terra, e perceber a pessoa ao lado, sofrida e necessitada. Uma Espiritualidade tem que trazer Deus das nuvens ao chão; tem que ajudar a transformar a história, reconstruir a casa, viver o Evangelho não para uma pregação piedosa, mas para uma maior humanização. O que adianta uma Espiritualidade que não se comprometa com o processo histórico de um povo? Tem que estar por detrás um processo de mudanças e não apenas livros e cheiros de adocicados incensos. Tem que ter um compromisso pela justiça. É momento de iluminação e animação de práticas e não fuga de realidades conflitivas. Do que adianta ficarmos recitando salmos, orar em línguas e cantar mantras enquanto há exploração das grandes maiorias e acumulação escandalosa nas mãos de minorias? Uma Espiritualidade não pede só a transformação da pessoa, pede também a transformação das estruturas. Ou será que a realidade não ocupou um lugar privilegiado na pregação de Jesus e dos grandes Mestres?

A Espiritualidade muda não só a consciência, mas convida à uma ação: transformação interior e a mudança do mundo. Conhecer a realidade do mundo. Conhecer para transformar. O divino, o religioso, o espiritual, o social, são dimensões que atravessam tudo. Viver é fazer esta travessia. Diz o teólogo Congar: “Nós só podemos ter a teologia da nossa própria prática”. Ser espiritual é humanizar a vida. Abraçar uma Espiritualidade é ser levado à práticas de Amor; é nascer novamente de atos concretos de Amor.

A Espiritualidade é necessária para a luta na vida e pela vida, para o fundamento das convicções. É estar entre o povo com muito amor pelo povo. Não ter só um protagonismo individual, mas um protagonismo de homens e mulheres novos. É amar o povo como se ama a pessoa amada. Construir uma sociedade melhor é refazer o sonho de Jesus: instaurar o Reino de Deus.

A Espiritualidade tem que sonhar e realizar a prosperidade. Não perder a vontade de crescer, de evoluir, de ser criativo. Ser mais, amar mais, ter mais, saber mais, multiplicar mais; sem superioridade, mas de forma compartilhada. O necessário não pode faltar para ninguém, contudo não precisamos mais do que o necessário, se não vamos comprometer o futuro do planeta e das pessoas.

A Espiritualidade faz nascer em nós uma certa rebeldia: dizer um não à domesticação, à escravidão, à manipulação, à rotulação. Precisamos ter lucidez crítica, cobrar coerência e apontar injustiças sem medo.

Enfim, existe uma Espiritualidade que brota da Solidariedade. Não temos muito que dizer. É melhor ler um trecho de uma carta de um pai revolucionário aos seus filhos: “Se sentires a dor dos outros como a tua dor, se a injustiça no corpo do oprimido for a injustiça que fere a tua própria pele, se a lágrima que cair do rosto desesperado for a lágrima que você derrama, se o sonho dos deserdados desta sociedade cruel e sem piedade for o teu sonho de uma Terra Prometida, então, serás um revolucionário, terás vivido a solidariedade essencial”.