terça-feira, 29 de novembro de 2011

ESPIRITUALIDADE PARA UMA VIDA VIRTUOSA – 28

Com Francisco de Assis aprendemos que ser solidário é a identificação com a Pobreza e com o Pobre; que ser solidário é ser irmão e irmã de todos; é ver o mundo no coração da experiência de alguém que está experimentando uma grande carência. Isto é o que transforma as práticas e o modo de estar no mundo, tornando “o amargo em doçura de corpo e alma” (Test 3).


Francisco não está preso aos projetos do mundo. Ele se recusa a ter um pensamento utilitarista, isto é, ter o melhor uso dos recursos para o melhor funcionamento dos sistemas; um processo que continua industrializando e mercantilizando mentes e corações ( cfr. o filme: “Quanto vale ou é por quilo?”, de Sérgio Bianchi). Ele é um pobre, um livre, um diferente, um irmão que mostra que a verdadeira solidariedade é apontar para a desumanidade; é notar a negatividade e as injustiças presentes nos processos sociais e lutar contra isso; é questionar as promessas que o sistema faz e não cumpre; é deixar as pessoas falarem; é educar para a originalidade; cuidar da singularidade da pessoa para que ela seja cada vez mais ela mesma e não apenas vítima; pregar e viver a sensibilidade, a fineza, a cordialidade; ser um instrumento de paz, e paz é garantir a quem precisa o melhor! Temos que perguntar: que Espiritualidade brota desta prática solidária?

Com São Francisco de Assis temos a inspiração de reconstruir e transformar, viver e praticar a solidariedade como serviço! Tudo isto gera uma Espiritualidade comprometida; reacende um modo de crer. A fé instaura a esperança de que algo precisa mudar e a esperança instaura um dever ser melhor. É sempre um projeto a ser realizado e não uma tarefa já cumprida. Dizia Francisco, pouco antes da sua morte:  “Irmãos até agora nada fizemos, vamos recomeçar!” Nós precisamos ter fé no Deus da Vida e na vida que precisa de cuidado para poder mudar, ultrapassar, transcender e transformar. Crer não é dominar a vida, mas servi-la! Mostrar que as misérias não podem ficar paradas no absurdo. É preciso instaurar a dinâmica da Utopia (não entender utopia como fuga da realidade), a linguagem e a prática do princípio-esperança do dever-ser. É a capacidade humana de poder contestar, transgredir, estar além de qualquer situação que é dada. É a proclamação e a realização de uma promessa orientada para um cumprimento: atravessar desertos e chegar à Terra Prometida. A Espiritualidade não quer a vida, quer a Vida Eterna; não quer o amor, mas o Amor sem fim; não quer isto ou aquilo, quer Tudo, quer o melhor!

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terça-feira, 22 de novembro de 2011

ESPIRITUALIDADE PARA UMA VIDA VIRTUOSA – 27

Na sua origem, o Projeto Franciscano, teologicamente é centrado na Encarnação, na Paixão e na Eucaristia. A Encarnação é um Deus que vem morar junto, é humano, é carne da nossa carne, é raça, é Filho do Homem, é um atencioso, pleno de cuidado e solidário. A Paixão mostra que a Cruz não é fim; é fonte! Fonte de capacidade do Amor se entregar até as últimas conseqüências. Morrer prometendo ao contrário o paraíso e arrumando uma Mãe para o discípulo e para o mundo. A Cruz fala em meio a enigmas, entregas e incompreensões, mas sempre fala e manda reconstruir! A Eucaristia lembra, cada dia e em todos os lugares, a partilha, o fortalecer a caminhada, o dar um pedaço de si, revelando nele a própria natureza, alimentando de um Deus que se faz humildade e comida para tocar o humano nas suas entranhas. É fazer-se inteiro em cada pedaço! A Eucaristia faz ir para a mesa quem mais precisa.


Francisco de Assis ensinou a solidariedade através do Cântico das Criaturas, isto é, a destinação universal de todos os bens, a fraternidade universal e o universalismo fraterno. O Altíssimo Onipotente é sempre um Bom Senhor, o Sumo Bem, é o Deus de nosso coração que nos convoca a um Amor Universal, inaugura a fraternidade e a solidariedade de todos os seres, de todas as criaturas, de todas as pessoas. Todo ser criado nos remete à fecundidade social do amor. A verdadeira fraternidade humana se ampara na comunhão de valores e de bens fundamentais para a vida: a terra, a água, o ar, o fogo, a luz, o verde das plantas, a habitação, o mundo limpo e bonito, partilhado e cuidado para oferecer a todos as melhores condições de viver. Ao dividir tudo isso, conquistamos a verdade, a justiça, o amor, a solidariedade, a liberdade, a mais plena comunhão de bens e de dons.

Com o Projeto Franciscano, aprendemos que solidariedade é energia de amor e generosidade, que é busca incansável do bem, do dom de si à fraternidade humana; uma atitude permanente de renúncia e serviço; de gerar recursos para viver e trabalhar em benefício de todos. Aprendemos que pobreza não é contrária ao sonho de ter, nem a angústia de não ter, mas é gerar recursos, trabalhar e dividir com todos. Aprendemos que obediência é atitude constante de escutar o Amor e dizer: “De boa vontade o farei, Senhor!” e, a partir daí, ter paixão na vontade e nos projetos. Aprendemos que a pureza de coração é epifania de um amor solidário e universal.

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sexta-feira, 18 de novembro de 2011

ESPIRITUALIDADE PARA UMA VIDA VIRTUOSA – 26

SOLIDARIEDADE: Francisco de Assis agrupou pessoas para viver com elas valores enraizados no Evangelho e no sonho da Fraternidade. O grupo primitivo de Francisco não passou despercebido porque teve um modo original de se expressar socialmente: viver simples, vestir-se simples, estar entre os simples, cuidar dos chagados e ajudar camponeses. Seus primeiros companheiros e pouco tempo depois, Clara de Assis e suas companheiras que se ajuntaram a eles, vieram de várias categorias sociais; mas o seu propósito tão claro, criou uma única classe humana: a dos que fazem o Amor ser realmente amado! Escolhem a itinerância e a contemplação como um modo de vida e isso os ajuda a viver o desprendimento, a mobilidade, o privilégio de não ter privilégios, a liberdade, a igualdade, e uma prática da caridade que garante a realização do Evangelho e uma visão de mundo muito sensível. Este grupo, sem usar este termo, viveu a solidariedade como a fecundidade social do amor.

Fazem a experiência de dar e receber; a experiência de esmolar; e a esmola não era só o que se recebia como doação ou que se oferecia prodigamente, mas era, sobretudo, estar no lugar onde estavam as necessidades dos doentes e leprosos, dos pobres e fracos, dos mendigos, dos lascados, dos excluídos, dos irmãos e irmãs, da gente marginalizada e desprezada. Aqui começa, para esta fraternidade, a primeira prática solidária: o que eu tenho eu dou, porque é preciso viver não para si mesmo, mas em favor dos que necessitam; e viver era suprir, oferecer, estar junto dividir, providenciar o necessário (cfr Rnb 9). Assim cresceram eles e todos os que participavam deste modo de ser, pois quem vai ao encontro da necessidade alheia devolve à pessoa a sua beleza e dignidade.

Porque decidiram viver nas ruas e pelos caminhos Assis, pelas estradas da Úmbria e do mundo, da portaria do mosteiro de São Damião para todas as portas abertas das necessidades sociais, perceberam os malvistos, os malcuidados, os mal educados, os banidos e os que são vítimas de preconceitos de castas e credos. É assim mesmo! Quem decidiu seguir as sendas de Jesus Cristo, consegue ver melhor o faminto, o preso, o nu, o sedento, o pequeno, o sofrido e o paralítico. Não tem como não filtrar tudo pelos olhos do Evangelho e suas práticas.

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quarta-feira, 9 de novembro de 2011

ESPIRITUALIDADE PARA UMA VIDA VIRTUOSA – 25

GENEROSIDADE: É a ação baseada em valores já trabalhados a partir do nascível, isto é, da boa educação recebida desde o berço e que continua gerando muita disponibilidade. É estar sempre disposto, bem preparado para fazer o que deve ser feito com qualidade. Este preparo vem da terra da própria formação pessoal, familiar e fraterna. Com naturalidade e iniciativa faz com espontaneidade e segurança.


DIÁLOGO: Através da palavra, da comunicação, através da fala e de uma grande capacidade de escuta, entra no mundo das idéias num intercâmbio de compreensão. O diálogo recupera uma fala e uma escuta terapêutica: faz bem e permite atravessar os medos e incertezas. Dialogar é também saber silenciar. O falar e o pensar têm muito a ver com o silenciar.

PERSEVERANÇA: É a tenacidade dos que não desistem nunca. É manter o ritmo da persistência na busca apaixonada em atingir uma meta. É não se entregar jamais! Esta virtude tem a ver com o heroísmo, que é feito da busca incessante, da pertinácia incansável daqueles que não param à beira do caminho. É permanecer no sonho. Como diz Walter Hugo de Almeida: “ Somente os que acreditam na verdade dos sonhos é que chegam à vitória”

SENSIBILIDADE: É o esprit de finesse, isto é, o espírito de plena atenção, fineza e cuidado. Colocar todos os sentidos para perceber a vida e os detalhes da vida. Não deixar nada passar despercebido. Afinar o espírito pra ver, sentir exercitar a atenção constante. O franciscanismo (cfr. "O Belo e o Bom") nos ajuda a criar uma estética de muita sensibilidade, isto é, de ter gestos de leveza, delicadeza, sutileza nas atitudes e relações. Uma grande sensibilidade para com as pessoas, para com a vida e para com todos os seres.

sexta-feira, 4 de novembro de 2011

ESPIRITUALIDADE PARA UMA VIDA VIRTUOSA – 24

DISCIPULADO: A tarefa do discípulo é estar aos pés do Mestre. O discípulo é aquele que está sempre num contínuo aprendizado; é tarefa para toda vida, é o eterno aprendiz. Aprender vem da raiz latina discere e daí derivam as palavras discípulo, discipulado, disciplina. Estar aos pés do Mestre e escutar seu ensinamento, escutar a sua palavra e ampliar. Afeiçoado ao Mestre experimenta o seguimento e a imitação. O discipulado traz as virtudes do respeito e da reverência. Diante do Mestre reconhece a sua originalidade, a sua autenticidade, a sua coerência e se sente cativado por ela. Dá um sim de absoluta confiança. Não arrisca a vida por qualquer coisa, mas pelo direcionamento positivo do Mestre. O discipulado é a virtude que traz constância, firmeza, perseverança na busca, tenacidade. O discipulado reencanta a obediência como precisão da vontade. Obedecer é descobrir um grande valor, é compreender a própria vida à luz de uma grande convocação, é interpretar a lógica de amor nos detalhes da vida, é discernimento, é agir criativo.


O discípulo não mede esforços para estar junto ao Mestre e aprender. Diz Hermógenes Harada: “O discípulo busca ter grande desejo e se engaja na obra discipular. O discípulo, quando quer, uma vez decidido, imediatamente, simplesmente faz. Querer é fazer. Ele não diz querer é poder; diz antes, humildemente: querer é fazer. Mas pode fazer tudo o que quer? Sim, mas da seguinte maneira: realiza a obra, muitas vezes pequenina, o que pode, o que sabe e em grande desejo o que não pode. (...) O grande desejo significa aquela abertura na reverência e positividade absoluta à tarefa proposta. É uma postura na qual jamais está em jogo ou em dúvida a decisão de gostar, admirar, querer, de se empenhar para conseguir. Esse grande desejo garante de antemão a continuidade do trabalho, a ausência do desânimo, a eliminação, a imunização contra a toxina do ressentimento e frustração por não progredir ou não poder gozar de imediato o fruto desejado. A dinâmica do grande desejo, o discípulo cultiva sempre de novo, olhando com grande desejo o fim, se afeiçoando cada vez mais a ele, e então, a partir desse esquentamento, faz a obra do que pode fazer. Concentra toda a energia acumulada no grande desejo para descarregar a energia infinita na pequena obra bem finita e determinada da hora presente, como se estivesse realizando a maior obra. Busca, pois, o infinito no finito e encontra o finito como infinito.”

Diante da convocação do Crucifixo de São Damião, Francisco de Assis responde: “De boa vontade o farei, Senhor!” ( LTC 5,13). No discipulado é essencial apresentar-se com boa vontade. Aqui, a vontade é enraizada na vontade do Mestre, é a vontade obediente, aberta, disposta, vigorosa, animada. É deixar fluir na própria vontade a vontade de Deus. A boa vontade traz o cultivo das virtudes da humildade, docilidade, fortaleza, paciência, tenacidade, resistência. Esta boa vontade gera uma forte espiritualidade como aquela espiritualidade que nos deram Domingos, Inácio, Teresa, Francisco, os mestres do seguimento.

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