terça-feira, 25 de outubro de 2011

ESPIRITUALIDADE PARA UMA VIDA VIRTUOSA - 23

É preciso cuidar de escutar sempre a voz interior! Há uma convocação para existir! Ser atravessado por esta grande convocação, ser atravessado por uma presença. Ser atravessado por esta presença que me diz que eu tenho que fazer na vida algo de muito grande, que ninguém pode fazer por mim. O modo de amar de cada um não é igual ao do outro. A água molha todas as flores, mas cada uma nasce com a cor e o viço próprio. Esta convocação para amar já é um caminho espiritual. “Francisco, vai! Reconstrói a minha casa!” É a escuta da voz interior. É a revelação de um fazer a partir da mais profunda identidade. Quem vê o rio tem que perceber a presença da fonte... e quem me vê, quem vê o meu ser...vê o quê?


É preciso cuidar das qualidades das relações. Na qualidade da relação existe uma revelação. Cuidar da atenção, ser muito presente, ser muito perceptível, muito atento. Nutrir-se do aqui e do agora, ser sempre um ser de encontro. Cuidar da utopia humana, cuidar do humano pleno. Refazer a experiência de Jesus, Francisco, Clara. Eles são seres que dão testemunho de uma plenitude e nos ensinam que nós podemos aprender e evoluir. Nos ajudam a identificar-se com o melhor e ser tudo o que pudermos ser para atingir o melhor... e não descansar. A verdadeira transformação só é possível quando você se torna quem você é! Isto é relevante para a vida humana. Cuidar nos ensina a ver para além de nós mesmos, nos ensina a ver a vida em suas relações espirituais, afetivas, sociais, políticas e profissionais. É uma ação de envolvimento de pessoas, uma reciprocidade ativa. É comunhão, inspiração para relações fraternas... enfim, cuidar é elevar a qualidade de vida. Cuidar é transformar! É fazer surgir um novo ser humano. (cfr. Boff, Leonardo, Saber Cuidar, Vozes, Petrópolis, 1999. Leloup, Jean-Yves, Uma arte de cuidar, Vozes, Petrópolis, 2007).

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sábado, 22 de outubro de 2011

ESPIRITUALIDADE PARA UMA VIDA VIRTUOSA – 22

O que precisamos cuidar? Em primeiro lugar precisamos parar de trabalhar exageradamente com a nossa negatividade. Parar com este discurso de jornal televisivo de que tudo está ruim: a vida, a conjuntura, as relações, o mundo, as coisas, as pessoas, a rua, a cidade, a qualidade de vida, a política, a família e a comida. Precisamos vibrar mais com a positividade, cuidar da positividade, este lado sadio da existência. Investir mais na integridade, na inteireza do ser, respirar e transpirar mais o belo e o bom (confira a reflexão anterior), deixar a boa energia passar. Evitar esta carga pesada de excesso de preocupações, doenças, anfetaminas, ritalina, receitas e queixas. Evitar as preocupações econômico-financeiras que nos levam, cada dia, às peregrinações aos caixas eletrônicos, lugar de consulta, aplicações, reservas e poupanças. É bom e necessário que isto exista, mas vamos aprender com São Francisco, ele nos ensinou que dinheiro não é para acumular, mas sim para cuidar da vida.


Precisamos cuidar do afeto. Não reprimir o afeto, o amor, a ternura. Muito cuidado com discursos religiosos que reprimem o afeto! Religião que diz muito não é sadia. Condenar o afeto é reprimir o Amor. Precisamos ter o cuidado de não impedir o desejo de ser melhor, o desejo de plenitude, o desejo das bem-aventuranças. Estar sempre ao lado da vida para vencer o medo da morte. Vencer os medos é escutar mais os desejos do coração. É preciso cuidar do sentimento. Cuidar de fazer fluir o amor que se direciona para algo, para alguém, para um grande projeto de vida. O que passa pelo coração, naturalmente e necessariamente, se transforma em amor. Isto nos leva prioritariamente a cuidar de alguém. Cuidar do que é humano, são e santo. Não separe o humano aquilo que Deus uniu. E o que Deus uniu? Humano e divino, espírito e matéria, efetividade e afetividade.

É preciso cuidar do emotivo e do afetivo; mergulhar na sensibilidade. Não pode faltar o Bem Amado, a Bem Amada como razão da existência. “Só o Bem Amado dá sentido à vida. É melhor viver no inferno com Ele, do que no céu sem Ele. Ele é o Bem, todo o Bem, o Bem Universal, a plenitude do Bem. Ele é a força propulsora, a atração enamorante, o êxtase transfigurante e mortal. Ele é a vida e a morte, a dor que vale a pena ser abraçada, o caminho que tem que ser seguido. Ele é a palavra que sustenta a fé, o móvel que nos descentra, a voz que nos chama. Por causa d’Ele, a lepra é doçura e o deserto um desafio que esconde uma terra prometida. Ele é tudo!, como diz Ângelus Silesius: “Ele é verdade e palavra, luz e vida, alimento e bebida, caminho e peregrino, porta e repouso, bastão, luz, brinquedo, pai, irmão e filho, mãe e namorada, esposa e filha. Ele é genuflexório, onde nos ajoelhamos para adorá-lo. Ele é a familiaridade que buscamos e a identidade mais profunda que temos e somos. Ele só é atingido quando não somos mais nós que vivemos, mas quando Ele vive em nós. O nosso eu é Ele e Ele toma o lugar do nosso Eu, marcando-nos com as chagas de seu intenso Amor”.
 
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sexta-feira, 21 de outubro de 2011

ESPIRITUALIDADE PARA UMA VIDA VIRTUOSA – 21

CUIDADO (o Saber Cuidar): É uma virtude que está sendo resgatada. Nunca se falou tanto de cuidado. A luta hoje é resgatar o cuidado. O cuidado é fundamental para que possamos elevar o nosso patamar civilizatório. A essência do humano não está na razão, na técnica, na inteligência ou na capacidade de criar condições materiais para a subsistência. A essência do humano está no cuidado. Se o ser humano não cuida da vida, a vida não subsiste; a falta de cuidado leva sempre a grandes crises. Se começamos a cuidar, tudo começa a dar certo. O cuidado traz as virtudes essenciais da caridade, da solidariedade, da hospitalidade, da cortesia, da generosidade, fraternidade, gentileza, reverência, respeito, sensibilidade e a vassalidade (o ser serviçal). A estrutura básica do humano não é a razão, mas o afeto, antes da razão vem o afeto e o afeto é fundamental para o cuidado.


A nossa contemporaneidade beatificou e santificou duas heroínas do cuidado: Madre Tereza de Calcutá e Irmã Dulce da Bahia, que cuidaram da vida moribunda da rua. Governos cuidam de bancos, empresas, grupos de interesses, mas não cuidam de pessoas. Querem a obra social, mas não querem o doente, o mutilado, o fétido, o sem-nada. Escolas cuidam de preparar para o mercado, mas não cuidam da solidariedade. Igrejas cuidam do status hierárquico, da precisão litúrgicas, das pompas cerimonialísticas... e a pessoa, a pessoa é prioridade para estas grandes instituições que existem com a única finalidade de cuidar do humano? Quem quer o detalhado espírito de fineza e sensibilidade? Temos que voltar a pensar, procurar e imitar as figuras exemplares da sociedade que nos testemunharam um total cuidado pela vida em todas as suas dimensões. Hoje, buscamos muitas terapias para curar, erradicar, sanar, mas temos que estar ciente que a única forma de cura é cuidar; esta é a grande clínica do humano, a clínica do coração e do afeto.

Francisco de Assis viveu há 800 anos e é sempre novo. Por quê? Porque foi o homem do enternecimento, da aproximação com o excluído, da ternura e vigor, da paz, da valorização de cada detalhe da natureza, de não perder nunca a sua humanidade e transformar em prece a sua alma: Meus Deus é meu Tudo! Fez de cada ação um projeto infinito, no simples, no modesto; no humilde fez aparecer o grande. Nós, modernos temos muito que aprender com ele. Nós, herdeiros de uma cultura que tudo materializa e tudo vende, entregamos o espiritual para as religiões. Ele entregou o espiritual para a louvação de todas as criaturas, colocou o espiritual presente em tudo, mostrou que o universo está empapado do Espírito do Senhor e, por isso, não pode ser maltratado. Mostrou para nós que religião, mais do que professar é sentir, como diz uma paradigmática canção franciscana: “Doce é sentir, em meu coração, humildemente vai nascendo o Amor... doce é saber, não estou sozinho, sou uma parte de uma imensa vida...”. Em tudo, Francisco de Assis redescobriu a grande fraternidade universal e o universalismo fraterno e recriou o mundo com o Criador. Ele nos inspira a cuidar da vida em seu todo, a cuidar da natureza. Isto não é apenas um gerenciamento racional e sustentável de recursos da natureza, mas é o modo de relacionar-se com a natureza, o modo de relacionar-se com a realidade total da existência: o físico, o mineral, o vegetal, o biológico, o animal, o consciente, o espiritual..., onde tudo nos irmana, tudo se integra, nada se separa. A vida é uma rede de relações; nada existe fora disto. Se não cuido desta integração posso esfacelar a vida. O cuidado pela vida carrega uma promessa, um futuro. Deus mesmo nos ensinou o universo das relações cuidadosas, e o amoroso cuidado por todos os seres. Ele mesmo é uma fonte originária (Pai e Mãe), que está acima de nós com a sua fontal presença. Ele está dentro de nós (numa comunhão de amor, o Espírito Santo que preenche toda a terra com seu sopro criador e renova todas as coisas); Ele está ao nosso lado na irmandade, consanguinidade e fraternidade filial (o Filho). Cuidar é não separar fé, natureza e universo, cosmo, planeta, terra e espécie humana.

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quinta-feira, 20 de outubro de 2011

ESPIRITUALIDADE PARA UMA VIDA VIRTUOSA – 20

É perceber que a transparência é carisma maior. Ser uma pessoa verdadeiramente espiritual é a maior evangelização, a maior missão, a maior pastoral que existe. Ele é o que é! Onde passa, toca, fala e acolhe, ali nasce alguma coisa. Ele é o santo do Amor, da paz, da convivência. Ama intensamente e deixa que o Amor viva intensamente nele. O Amor se fez forma nele e o estigmatizou. Ele incorporou todos os dons que um humano pode receber do Divino.


As imagens, quadros e esculturas sobre Francisco querem dizer o quê? Elas são uma constante recordação de que precisamos, cada dia, encher a nossa vida do Belo e do Bom. Ele é uma coisa boa de se ver! Olhar o santo e encher-se de graça. Não é a adoração de um ídolo, mas é abraçar um modelo referencial de grandeza. São Francisco desejou ardentemente fazer o bem. Quem faz ardentemente o bem em vida continua fazendo o bem após a morte. Quem ama intensamente sempre se eterniza em todas as representações. Quem não vive para si mesmo ultrapassa a barreira do tempo e se atualiza numa obra perene.

Ele teve a firme e forte vontade de realizar tudo o que queria, por isso permanece. Ao vê-lo, nós refazemos a nossa vontade, às vezes tão fragmentada. Olhamos para ele para cuidar do Espírito. Hoje, o mundo das agências de top models olha para a representação humana para cuidar de quê?

Francisco transmite uma energia divina vivendo no humano. Ele é a expressão simples e reveladora da pureza de coração, da mansidão, da fortaleza, do amor fecundo. Ele é uma sensibilidade suspensa no ar, numa vitalidade que transparece. Num coração aberto para o Absoluto, o Pai sempre deposita sua beleza. Os artistas captam isso com mais facilidade e mostram que o espírito sempre trabalha na imagem. Não seria este o segredo de tantas representações? Quem vê um belo panorama se enamora, se encanta...Se nos colocarmos diante do vazio, como apaixonarmos?

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quarta-feira, 19 de outubro de 2011

ESPIRITUALIDADE PARA UMA VIDA VIRTUOSA – 19

O invisível e o visível, a essência, a medula, a profundidade tomam forma, quantidade, cor e qualidade. Sai de si e atinge o humano. Como um ato amoroso da vida toma forma num corpo. Torna-se figura, imagem. Como? Com o vigor da simplicidade, da transparência. Para isso é preciso saber sentir, escutar e ver. Sensibilidade à flor da pele, a Palavra nos ouvidos e a Imagem nos olhos. Perceber e amar. Escutar e crer. Ver e professar. Disto surge uma bela e boa espiritualidade. Para o franciscanismo ver, falar e escrever e igual a pintar. As virtudes do belo e do bom nos fazem artistas que esculpem e pintam o mais belo quadro da Paisagem do Humano e da Paisagem do Divino. Somente assim a palavra ressoa e refulge, encarna-se, plastifica-se. Somente assim podemos compreender Francisco, o canto das criaturas. Francisco não quer possuir as criaturas, mas cantar o valor e a beleza que elas possuem. É a arte de conhecer e reconhecer os dons e as virtudes da existência. Reconhecer é fazer então uma nova criação. Recriar com o Criador. É perceber que o Belo é alegria e o Bom uma sabedoria criadora; enfim, é ver todo o criado impregnado de Beleza. Para o franciscanismo, o humano é a sinfonia de Deus e por isso deve conquistar a harmonia espelhando-se na harmonia do natural.


Quando alguém é unificado por uma intensa experiência afetiva e espiritual torna-se uma fonte. O movimento franciscano, que brota da estética do belo e do bom, tem sua base em alguém: a experiência concreta e vital de Francisco de Assis, um homem de coração enamorado pela vida e pelo Deus da vida! O seu forte amor progressivo e cheio de energia faz com que ele e seus seguidores e seguidoras tornassem criadores e criativos. Daí surge uma arte de viver. A fonte da Arte Franciscana é a paixão. O apaixonado é sensível, antenado, real e contemplativo. Escolhe o natural e transforma o natural numa linguagem. O natural sempre nos atinge e nos refaz. Existe a Beleza do Simples? O que é a Beleza do Simples? É descobrir e fazer aparecer o modesto em sua força. Uma fragilidade que é potência. A grandiosidade da vida, do mundo e das pessoas só é dada para quem tem os olhos voltados para esta Beleza.

Queria abrir, neste ponto da reflexão, um fato que a meu ver é um fenômeno que vem do Belo e do Bom. São Francisco é o santo mais representado na iconografia. Podemos ir muitas feiras de artesanato, em lojas de artigos para presentes, em loja de antiguidades e outros objetos de decoração, em lojas de artigos religiosos, em bancas de artistas autônomos e anônimos, em galeria de artes e em muitas exposições de pintura e escultura, sempre estará ali uma imagem, um quadro, um banner, um pôster, um arranjo com São Francisco. Muitos artistas, religiosos ou não, o moldam e pintam. Por quê? Será por que há estudiosos do fenômeno religioso que o apontam como o maior herói religioso depois de Jesus Cristo? Ou porque ele é um arquétipo humano, o melhor de nós, uma expressão cristalina das virtudes que sonhamos, o humano divino que gostaríamos de ser. Ele, no seu modo de ser natural, foi pródigo, nobre, jovial, cordial, magnânimo, penitente, generoso, amigo, cavaleiro, terno e fraterno. Criou uma revolução de amor e, por isso mesmo, tornou-se um reformulador social e eclesial. Permanece para sempre nas representações da humanidade porque tinha consciência historial, vive intensamente a sua época e mostra algo de novo para o seu tempo. Um homem cheio de encontro, de amor, de brilho, sem cair no pieguismo. Para o povo e para os artistas, ele é a visualização das virtudes que gostaríamos de ter e que podemos ter. Ele é a teologia da imagem. O que é a teologia da imagem?

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terça-feira, 18 de outubro de 2011

ESPIRITUALIDADE PARA UMA VIDA VIRTUOSA – 18

BELO, BOM, BONDADE: O grande mestre de Paris, o franciscano Alexandre de Halles, sintetiza esta força virtuosa criando a reflexão sobre o Belo e o Bom, a estética franciscana. O que é o belo e o bom? Ele mesmo, entra no hábito franciscano, vai para dentro da academia com os pés descalços e o máximo despojamento, na fluência da transparência do simples e natural. Ele diz que o belo e o bom revelam grande expressividade da mística da Encarnação: o Deus Humilde aparece na beleza da Criança, na tecitura da bondade. É a redescoberta do que a vida tem de melhor: convocação divina e convocação do amor! O Belo é o transparente e o transcendente, o Uno e o Vero. O Belo é sempre percepção, chamado, apelo, um grito para perceber o real, o palpável, o sensível. Não podemos estar no grito de abandono de todas as coisas, é preciso vê-las, percebê-las, senti-las. A forma do Belo (ver a Beleza de tudo o que é ), torna-se amada e imitada, cria o discipulado e arrasta. Não basta só um entusiasmo inicial, é preciso um dinamismo constante, um impulso de vida exercitado na convivência com o valor de todas as coisas. Quanto mais você entra neste dinamismo, mais se torna vivaz (percebe a vida que está dentro) e mais a vida floresce; então se descobre a arte da vida. O que é a Arte, ou melhor, a virtuosidade da Arte? É ser um artista da vida. O artista é aquele que vive imerso nas estruturas da vida e nelas coloca a sua profundidade, a sua interioridade, a sua sensibilidade. Neste sentido, é preciso, ser, ter, fazer e conhecer a arte para se ter um projeto de vida.


O franciscanismo é um modo místico, espiritual, existencial, cultural e sensível de estar na vida. Não é só aplicação técnica de uma filosofia de vida ou postura de vida, mas é saber que a vida é Arte Divina e Arte Humana, é Lógica de Amor, isto é, um grande encontro entre a inspiração, o sopro, o hálito que dá vida a tudo com o Humano, com o Divino e a Fraternidade. A partir daí, o belo não basta, é preciso ser bom.

O que faz a pessoa bonita é a Bondade. A bondade é uma virtude; e a virtuosidade, como um conjunto de virtudes, é a beleza maior e a mola propulsora de todos os gestos de amor e cuidado. O que faz o mundo bonito é a bondade esparramada de todas as coisas: “Louvado sejas, meu Senhor, pela Irmã Água que é mui útil, humilde, preciosa e casta”.

A fecundidade da vida vem deste movimento. A terra boa é o coração belo e bom. Esta é a síntese da perfeição. O belo é a expressão natural e perfeita do bem. O bom é a plenitude da caridade. Francisco viveu esta experiência. O mestre da Paris escreve e impulsiona esta reflexão. Alexandre de Halles descobre a filosofia franciscana da Beleza como difusão do Bem: esta é a verdadeira estética do Simples.

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segunda-feira, 17 de outubro de 2011

ESPIRITUALIDADE PARA UMA VIDA VIRTUOSA – 17

Por que virtudes tipicamente franciscanas? Por ser o modo, o ponto de vista, ou melhor, o ponto de partida, da aventura do Espírito para elucidar o sentido da vida. É o dever ser, a força ética, o jeito próprio de morar e reconstruir a moradia. O “ethos” franciscano tem um jeito típico de educar, disciplinar, cultivar uma identidade sonhada. É o “eu devo”, “eu posso”, “eu quero” percorrer um caminho virtuoso. “De boa vontade o farei, Senhor! ( LTC, 13). É formar-se, de olho nas Fontes Franciscanas e Clarianas, perceber a força que deu qualidade a um grupo humano nobre, fraterno, humano e divino ao mesmo tempo. Elas brotaram da verdade de quem olhou as manifestações do Espírito, abraçou como comprometimento a Boa Nova, as virtudes do Evangelho, Jesus Cristo, Francisco de Assis, Clara de Assis e a essência do humano que daí se revela. Melhorar o humano é entrar numa escola de virtudes e dar um acabamento melhor ao humano, experimentando o que a experiência franciscana traçou e viveu como projeto de vida. Nem sempre sozinho conquisto uma identidade; mas é a tarefa de refazer a boa caminhada de muitos.


Vamos elencar Algumas Virtudes Tipicamente Franciscanas:

MINORIDADE: É a renúncia do status de quem tem, pode e sabe. É não apropriar-se do próprio poder, mas conviver com a força de tudo e de todos. É a renúncia da superioridade. Se o mar, vindo da potência de sua interioridade, não tivesse a coragem de morrer mansamente na praia, não haveria o espetáculo das ondas, não haveria a magia da praia. Muitos ligam a minoridade à pobreza, ao desapego, a desinstalação. Isto á apenas uma natural consequência, uma irradiação do ser menor. A minoridade é um modo de ser, uma forma de vida. É a conformidade com a grandeza e onipotência de um Deus que se revelou na simplicidade de um Menino.

Um Deus, que no seu amor tão grande Encarnou-se em Jesus Cristo e experimentou estábulo, manjedoura, fuga para o Egito, ceia, lavapés, colocou o coração divino nas mãos, nos pés, nas palavras e se misturou na paisagem do humano. A minoridade remete à vassalidade, ao serviço, ao ser servo. Na Carta aos Fiéis, 47, diz São Francisco: “Nunca devemos desejar estar acima dos outros, mas antes devemos ser servos e submissos a toda humana criatura por causa de Deus”. É não usar o cargo como cargo de mando, mas de serviço prestado por amor. Ser menor é amar com um amor que não faz acepção de pessoas. Ama a todos incondicionalmente, ricos e pobres, bons e maus, fracos e fortes, amigos e inimigos, simpáticos e antipáticos. Ser menor é não querer estar acima dos outros ou acima de tudo, mas testemunhar uma presença silenciosa e amorosa.

A minoridade é a humanidade da Divindade . É ver a gritante simplicidade como Deus ama e, sob o filtro do Evangelho, amar assim do jeito do Deus de Nosso Senhor Jesus Cristo. A minoridade é a consciência e a afirmação do ser criatura. Ser pequeno diante da grandeza de todo ser criado, ser irmão e irmã de toda família criatural, estar num perene estado de gratidão e graça. É como o primeiro e remelento olhar de criança se abrindo ao mundo num encontro de brilhos. A minoridade é fé; não no sentido de conjunto de doutrinas para se crer, mas como admiração, enamoramento, abandono ao colo da vida. Ver todas as coisas com olhar de poeta e sentir-se um nada diante da grandeza de tudo.

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segunda-feira, 10 de outubro de 2011

ESPIRITUALIDADE PARA UMA VIDA VIRTUOSA – 16

Na passagem entre a era industrial e a época pós moderna, pessoa virtuosa era considerada aquela que tinha ares e práticas consideradas piedosas e beatas. Hoje, destina-se e molda pessoas de beatitude, isto é, pessoas realizadas, felizes, vigorosas, éticas, modelos vivos, engajados em causas nobres da contemporaneidade. Hoje, pessoa virtuosa é aquela que está no empenho e desempenho de superar-se. Diz Mestre Eckhardt (1260-1327): “O humano não deve achar sua obra boa, por melhor que ele a tenha executado, a tal ponto de se sentir nela à vontade e assegurado de si. Pois, se tal acontecer, a sua capacidade de captar, a sua razão se tornará preguiçosa e adormecerá. Antes, deve continuamente se levantar, erguer-se, com ambas as forças de seu ser, isto é, com razão e vontade, e neste alçar-se, agarrar o melhor de si, a sua identidade, no mais alto grau. E, com cuidado e ponderação, precaver-se, por dentro e por fora, contra toda e qualquer falha nessa ação. Se assim o fizer, ele jamais perderá o ser em nenhuma coisa; antes, crescerá sem cessar em alto grau” (Meister Eckhardt, “O Livro da Divina Consolação e Outros Textos Seletos”, Vozes, Petrópolis, 1991,110).


Voltemos ao tema das Virtudes tipicamente Franciscanas. O mundo de seguidores da vida franciscana tem como modelo São Francisco de Assis, um homem virtuoso. Ele mesmo personalizava as virtudes, por isso as chamamos tipicamente franciscanas. Diz o grande historiador Jacques Le Goff: “(Francisco) revela a profunda marca de um amor cortês que confere admirável expressão aos sentimentos do santo por sua dama, a Senhora Pobreza, e ao seu 'amor intenso e genuíno pelo próximo', sem falar da 'cortesia fraterna' em relação a toda criação, inclusive 'nossa irmã Morte corporal', dádiva graciosa de um senhor em quem se encarna um ideal feudal interiorizado em termos de família, pai, mãe, irmão, irmã...” (in Frugoni Chiara, “Vida de um Homem: Francisco de Assis”, Companhia das Letras, São Paulo,2011, 12.)

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sexta-feira, 7 de outubro de 2011

ESPIRITUALIDADE PARA UMA VIDA VIRTUOSA – 15

Chegamos num ponto de nosso percurso onde vamos tratar das Virtudes tipicamente Franciscanas. Já refletimos, preparando esta parte, sobre a Virtus in medio. Esta expressão vem de um ditado latino, muito em evidência no período medieval, que significa: a virtude está no meio.

Meio, aqui entendido como ponto de equilíbrio, a força que vem da harmonia. Um processo que inspirava os penitentes de então: a contínua eliminação de excessos para chegar à medida exata do coração, e com serenidade, superar as vicissitudes e perturbações. É como diz Hermógenes Harada: “Há a versão “soft” e a versão “hard” dessa harmonia preestabelecida. A “soft” diz que a pessoa virtuosa é sem tribulações e contrariedades. Sem cortes abruptos e sem pôr limites bruscos na sua personalidade. É como as águas mansas de um lago sem ondas. Está no gozo da harmonia perfeita, natural. Nela, dificuldades e desgastes, suores e sofrimentos do árduo mourejar estão superados e não podem existir. É a serenidade das águas mansas. A versão “hard” diz: o virtuoso é um lutador. Deve ser firme, impávido, estóico, imutável e disciplinado. Domina soberano todas as suas paixões. É senhor de si e das situações. É a fortaleza das rochas no meio das águas impetuosas”.

O caminho das Virtudes tipicamente franciscanas passa pela busca incansável dos dons e frutos do Espírito, pelos Conselhos Evangélicos, que são tantos, mas intensamente convergentes nos três conselhos que se tornam Votos: Obediência, Pobreza (sine proprium) e Pureza de Coração; e tem muita inspiração nos votos cavaleirescos. Se a força do Movimento que nasce naquele momento e move Assis, transforma-se em Ordem e abala o mundo, foi um caminho de virtuosidade, e que bebeu em seu tempo os anseios por uma qualidade humana; hoje também estamos numa época, em que na moral, na ética, na teologia, na espiritualidade, na filosofia de identidade, volta-se a falar de virtudes. Antigos tratados são retomados à luz dos desafios de novos tempos.
 
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